segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Einstein acertou: cientistas provam que ondas gravitacionais existem


Detecção acontece pouco mais de cem anos após publicação da Teoria da Relatividade Geral pelo físico


Por CESAR BAIMA

Ondas gravitacionais geradas por colisões de buracos negros foram observadas pela primeira vez pelo LIGO – Divulgação de vídeo do LIGO

RIO — Última das principais previsões da Relatividade Geral de Albert Einstein que ainda não tinham sido observadas diretamente, as ondas gravitacionais foram finalmente detectadas, provando mais uma vez a correção da teoria publicada pelo físico de origem alemã há pouco mais de cem anos. Após meses de rumores na comunidade científica, que ganharam ainda mais força nas últimas semanas, pesquisadores do experimento Ligo (Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria a Laser, na sigla em inglês), nos EUA, anunciaram ontem em uma conferência em Washington que seus equipamentos registraram a passagem dessas distorções no espaço-tempo pela Terra em 14 de setembro último, o que deverá representar uma nova era na astronomia e cosmologia.

— Senhoras e senhores, nós detectamos ondas gravitacionais. Conseguimos! — comemorou David Reitze, pesquisador do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e diretor-executivo do Ligo. — Esta é a primeira vez que o Universo fala conosco por meio de ondas gravitacionais. Ao abrirmos essa nova janela para a astronomia, poderemos ver coisas que nunca vimos antes.

Processo que mostra a colisão de dois buracos negros, o que acontece em pouquíssimos segundos - Divulgação/LIGO

         Elaborada para explicar como funciona a gravidade, a Relatividade Geral diz que toda massa distorce a estrutura do espaço-tempo à sua volta, deformações geralmente ilustradas, de maneira simplificada, como uma bola de boliche pousada em uma cama elástica, e que sentimos como uma força atrativa. Mas como nada no Universo é estático, a movimentação de qualquer objeto provoca oscilações no tecido do espaço-tempo que se espalham a partir dele como uma pedra atirada em um lago, que são as chamadas ondas gravitacionais.

50 vezes a energia de todas as estrelas
Estas oscilações, no entanto, são muito pequenas. Assim, para as ondas gravitacionais serem detectadas, pelo menos com a tecnologia disponível atualmente — e inexistente na época de Einstein —, é preciso, primeiro, que elas sejam geradas por objetos extremamente maciços se movendo muito rápido. E foi exatamente isso que o Ligo observou.
Segundo os cientistas, o sinal captado — com uma frequência que começou em 35 ciclos por segundo (hertz) e rapidamente subiu para 250 hertz, e por isso foi equiparado ao “pio” de um passarinho — foi provocado pela fusão de dois buracos negros, um com cerca de 36 vezes a massa do Sol e outro com 29 massas solares, que colidiram a uma velocidade equivalente à metade da luz em uma galáxia distante, há estimados 1,3 bilhão de anos. Dessa união resultou um novo buraco negro com 62 vezes a massa do Sol, com as três massas solares faltantes convertidas em uma fração de segundo na energia que alimentou a emissão das ondas gravitacionais, num total que, neste breve período de tempo, ultrapassou em 50 vezes a energia liberada por todas as estrelas do Universo juntas.
Apesar de todo este poder na sua origem, os efeitos da passagem das ondas gravitacionais pela Terra foram ínfimos. Isso porque, assim como as ondas geradas pela pedra no lago vão diminuindo de tamanho à medida que se afastam do ponto de impacto, essas oscilações no espaço-tempo perderam “força” ao percorrerem os 1,3 bilhão de anos-luz que nos separam do agora único buraco negro. Assim, durante uma fração de segundo, elas esticaram e espremeram o espaço-tempo no nosso planeta em apenas uma parte em um sextilhão, no equivalente à largura de um simples núcleo atômico.
E essa variação tão pequena só pôde ser detectada graças à incrível sensibilidade do Ligo. Idealizado pelos físicos americanos Rainer Weiss, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Kip Thorne, do Caltech, e o escocês Ronald Drever, hoje aposentado, mas anteriormente associado ao instituto californiano — e todos eles desde já considerados fortes candidatos a receberem um futuro Prêmio Nobel de Física, se não ainda este ano muito em breve —, o experimento é, na verdade, composto por dois observatórios instalados nos estados americanos de Washington e Louisiana, cerca de três mil quilômetros distantes um do outro.
Construídos a um custo de mais de US$ 1,1 bilhão (cerca de R$ 4,4 bilhões) a partir dos anos 1990 pela Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF), nestes dois observatórios potentes lasers com comprimento de onda extremamente curto batem e voltam constantemente em espelhos colocados nas extremidades de dois corredores de aproximadamente quatro quilômetros de comprimento cada, erguidos em forma de “L” e cuidadosamente protegidos de vibrações externas. Em situações normais, esses dois raios de luz se anulam ao se encontrarem no “canto” do “L”, num processo conhecido como interferometria. Mas, quando uma onda gravitacional passa por eles, um dos “braços” do “L” fica ligeiramente mais curto ou longo que o outro, e parte da luz “vaza” para atingir um detector. Com isso, os dois observatórios podem medir variações no comprimento dos corredores por essas oscilações no espaço-tempo com uma precisão de um décimo de milésimo do diâmetro de um próton.

Uma nova era na astronomia
Mais que provar, novamente, que Einstein estava certo, porém, a detecção das ondas gravitacionais promete abrir novos caminhos para as pesquisas em astronomia e cosmologia. Até hoje, por exemplo, alguns teóricos, embora poucos, duvidavam da possibilidade da existência de buracos negros — ideia que inclusive não agradava e chegou a ser rechaçada pelo famoso autor da Relatividade Geral —, o que agora foi definitivamente comprovado, já que nenhum outro par de objetos poderia concentrar tanta massa em tão pouco espaço e se comportar da maneira como os dois cuja fusão foi observada pelo Ligo.
— A importância desta detecção vai além do que podemos prever, pois acaba de nascer um novo campo da ciência — destaca a astrônoma brasileira Duilia de Mello, professora da Universidade Católica da América, nos EUA, e pesquisadora do Centro de Voo Espacial Goddard, da Nasa. — Já estudamos a teoria de ondas gravitacionais há muito tempo, mas só hoje (ontem) é que esta teoria virou realidade. Só hoje (ontem), quando os cientistas do Ligo mostraram os sinais observados, que a comunidade científica respirou aliviada. Agora estamos prontos para inventar, inovar e transformar a ciência e a tecnologia mais uma vez. Já pensou quanta coisa importante está por ser descoberta que antes não conhecíamos? Agora que podemos ouvir buracos negros se chocando, podemos sonhar em ouvir muito mais e entender melhor fenômenos que nos deixam sempre perplexos e que fazem parte da história do Universo.




sábado, 23 de janeiro de 2016

A Nova Química Revive uma Questão Elementar


A Tabela Periódica é um símbolo público da Química. Porém, à medida que vai ela aumentando de tamanho, devemos mais ainda salientar que não é função da Ciência produzir listas, disse Philip Ball.

             
              Raramente a Química desfruta do fato de ser o centro das atenções, como o foi nas últimas semanas. O anúncio feito pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) que de que a sétima linha da tabela periódica foi preenchida por meio da descoberta de quatro elementos químicos criados artificialmente (113, 115, 117 e 118) tem gerado um amplo debate público. Como serão chamados? Que propriedades químicas que têm esses elementos? A tabela periódica pode ser ainda mais alargada?
            Esta recepção entusiástica é certamente muito benéfica para a Química. Mas raramente, também, uma descoberta científica tão festejada possui tão poucas implicações no campo da pesquisa científica. O anúncio da IUPAC não é sobre a descoberta como tal, mas sobre a avaliação desse organismo que reivindica o agrupamento dos elementos e que julga as perguntas feitas anteriormente. No mundo todo, a rede de laboratórios bem equipada e que tem a árdua tarefa de “fabricar” novos elementos só exigia o selo de aprovação da IUPAC quando tinha certeza das propriedades do novo elemento.
            Cada novo elemento superpesado descoberto suscita questões interessantes, por exemplo: se existe uma região, na qual a estabilidade nuclear é aumentada ao invés de diminuir com o aumento da massa e se os efeitos relativísticos do movimento ultra-rápido dos elétrons distorce os padrões repetidos das propriedades na tabela. Há muito, o que se comemorar e estudar.
            Ernest Rutherford considerou uma grande piada ter ganho o prêmio Nobel de 1908, por explorar o decaimento radioativo, na área de Química - uma tentativa, dizem alguns, de trazer a ciência nuclear de volta para a Química após os trabalhos de Marie e Pierre Curie sobre radioatividade ter sido premiado com o Nobel de Física de 1903.
            A questão mais profunda é: por que as pessoas estão interessadas nas implicações que os novos elementos químicos podem provocar no estado da própria tabela periódica. A sistematização dos elementos tornou-se um ícone para a Química como um todo. No entanto, os químicos raramente precisam se referir à ela, e a maioria deles trabalha com alguns dos elementos químicos mais comuns.
            Vale dizer que a tabela periódica tem mais interesse e glamour para o público do que para o profissional da Química. Isso é estranho: parece abrir uma brecha entre o que muitas pessoas pensam sobre a Química (estudo dos elementos) e o que a maioria dos químicos fazem (moléculas e materiais e investigam suas propriedades e interações).
            No entanto, nada sobre isto é original. A tabulação ou enumeração de fundamentos também são feitas na física (partículas do modelo padrão) e na biologia (código genético, listas de genes e taxonomia). Estes esquemas de classificação despertam a consciência popular, de modo que à física atribui-se a descoberta de novas partículas (bóson de Higgs, partículas de matéria escura e assim por diante) e à biologia a identificação de 'genes' para certas características biológicas.
            O desafio para os químicos, então, é encontrar uma maneira de capitalizar sobre o fascínio e a coerência da tabela periódica, evitando a impressão de que de alguma forma possa contar a história de suas pesquisas.
            Este enfoque acrescenta peso à questão de como os novos elementos serão nomeados. Parece uma pena que o provincianismo e nacionalismo, muitas vezes próximos do chauvinismo, do passado (ver germânio, frâncio, escândio, amerício e várias permutações na cidade sueca de Ytterby) provavelmente irão persistir. (já foi amplamente divulgado que 'Japônio' será o nome do elemento 113, porque a prioridade de sua descoberta foi atribuída a uma equipe do instituto de pesquisas japonês RIKEN). Por que então não aproveitar a oportunidade para despertar a imaginação, em vez de plantar uma bandeira?
            Seria interessante ter um elemento chamado levium, após o escritor e químico Primo Levi. Seu livro Tabela Periódica (Einaudi, 1975) continua a ser o melhor livro já escrito sobre a Química, e agradaria ao meu senso de ironia ver um elemento superpesado com um nome que poderia ser interpretado como uma referência à leveza.
            No entanto, isto não trata-se apenas sobre leviandade. As estórias contadas por Levi sobre o seu tempo no campo de concentração de Auschwitz. Se este é um homem, de 1947, é uma das obras mais profundas e humanas do século XX, testemunhando o fato de que a Ciência pode ser uma força libertadora, universal para a salvação, embora deve-se reconhecer que o seu potencial pode ser para ser abusado de maneiras terríveis. O Levium significaria que a tabela periódica é para toda a humanidade.
Richard Haughton
Nature, Vol. 529, p. 129 (14 January 2016) doi:10.1038/529129a


domingo, 10 de janeiro de 2016

A LUZ ATRAVÉS DA HISTÓRIA


Se fosse para contar uma história
Diria que tudo começou com uma chama simplória
Onde tudo era vazio e silencioso
E o fogo se espalhou glorioso
A chama da descoberta, a da sabedoria, e a da criatividade
Que no homem despertou muito além da curiosidade

E quando civilizações foram erguidas, tomando conta de tudo
Quando virou moda um tal de estudo
A luz passou a ser sinônimo de ideias, conhecimento
A filosofia era a arte do momento
E aos gregos, romanos, árabes, obrigada meus caros
Vocês acenderam nossas mentes, sem isso, não passaríamos de um monte de bárbaros

Lá pela Idade Média, em uma chamada época da escuridão
Tudo o que imploravam era por um simples clarão
Uma luz no coração, na alma, na mente
Uma descoberta que viesse de repende
Mas, infelizmente, nem mil candelabros conseguiram iluminar
O que na mente dos homens já estava a se apagar

Então o mundo renasceu, homens ergueram suas cabeças e seguiram em frente
Procuravam por algo que os dessem criatividade, por uma chama ardente
A física ressurgiu, a química e biologia vieram também
De repente, motores funcionavam, máquinas trabalhavam, foi nossa verdadeira evolução, vocês sabem bem

Era tudo muito rápido, os olhos mal conseguiam acompanhar
E o sol queimava acima de nossas cabeças, nos motivando cada vez mais a trabalhar
Finalmente, a tecnologia nos abraçava, o homem já não mais reinava
Máquinas faziam tudo, mil e uma funções ligadas em uma tomada
Porém, ainda não existe nada que não seja movido por aquela chama interior principal
O que nos fez produzir, criar, imaginar, o que nos motiva, afinal
Esse é o nosso agora, como nosso mundo está girando

E como a nossa luz, de todas as formas, está irradiando.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Tabela periódica ganha mais quatro elementos e completa a sétima linha


          A tabela periódica, que agrupa os elementos químicos em função de sua composição química e propriedades, terá mais quatro novos elementos e, assim, completará a sua sétima linha.
          Os novos elementos – 113, 115, 117 e 118 – foram descobertos por cientistas do Japão, da Rússia e dos Estados Unidos e confirmados pela Iupac (União Internacional de Química Pura e Aplicada, na sigla em inglês). Esses são os primeiros elementos a serem adicionados à tabela desde 2011, quando foram incluídos os 114 e 116. A tabela foi criada pela primeira vez em 1869 pelo cientista russo Dmitri Mendeleyev.
          De acordo com o jornal britânico "The Guardian", a Iupac anunciou que uma equipe de cientistas – composta por russos e americanos do Instituto de Pesquisa Nuclear em Dubna, na Rússia, e o Laboratório Nacional Lawrence Livermore, na Califórnia, produziram provas suficientes para afirmar a descoberta dos elementos 115, 117 e 118. A descoberta do elemento 113, que também havia sido reivindicado pelos cientistas russo-americanos, foi concedida a uma equipe de cientistas do Japão, do Instituto Riken.
          Kosuke Morita, que liderava a pesquisa em Riken, disse ao jornal britânico que sua equipe agora pretende "olhar para o território inexplorado do elemento 119 e além." Ryoji Noyori, ex-presidente do Instituo Riken e Prêmio Nobel de química, disse que "para os cientistas, esta é de maior valor do que uma medalha de ouro olímpica ".
          "A comunidade química está ansiosa para ver sua tabela mais querida finalmente ser concluída até a sétima linha", disse o professor Jan Reedijk, presidente da Divisão de Química Inorgânica da Iupac.
          Os novos elementos, que atualmente têm nomes de espaço reservado, serão oficialmente nomeados pelas equipes que os descobriram nos próximos meses – o 113 será o primeiro a ser nomeado na Ásia. Morita ainda não decidiu o nome do elemento, mas "Japonium" é um candidato.
          Eles podem ser nomeados após um conceito mitológico, um mineral, um lugar ou país, uma propriedade ou um cientista. Por enquanto, os elementos foram nomeados como unúntrio (Uut ou elemento 113), ununpentium (Uup, 115), ununseptium (Uus, 117) e ununoctium (Uuo, 118).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Por que o uso de antibióticos na criação de animais ameaça a saúde humana


James GallagherEditor de Saúde da BBC News

Fazendeiros e criadores precisam cortar drasticamente o uso de antibióticos em seus cultivos e criações de animais, porque essa atividade está se tornando uma ameaça à saúde humana, segundo um relatório publicado no periódico Review on Antimicrobial Resistance.
            O uso abusivo destas substâncias tem feito com que algumas doenças sejam atualmente quase impossíveis de serem combatidas.
            Mais da metade dos antibióticos no mundo são usados em animais, muitas vezes para fazer com que cresçam mais rápido.
O relatório científico ainda indica novos parâmetros para o uso de antibióticos em animais.
            A administração excessiva destes medicamentos na criação de animais ganharam novo destaque no mês passado, quando, na China, pesquisadores advertiram que estamos à beira de uma "era pós-antibióticos".
            Os cientistas descobriram uma bactéria resistente à colistina, antibiótico usado quando outros meios usualmente empregados para combatê-la haviam falhado. Aparentemente, ela surgiu em animais criados por agricultores e também foi detectada em pacientes em hospitais.

Excesso

            Em alguns casos, antibióticos são usados para tratar infecções em animais doentes, mas a maioria é usada de forma profilática em animais saudáveis para prevenir infecções ou aumentar seu ganho de peso - uma prática controversa e mais comum em criações intensivas.
            A expectativa é de que o consumo de antibióticos no mundo aumente 67% até 2030. Só nos Estados Unidos, são usadas anualmente 3,4 mil toneladas destas substâncias em pacientes e 8,9 mil toneladas em animais.

            O economista Jim O'Neill, que liderou o estudo, disse que estes índices são "estarrecedores" e que 10 milhões de pessoas morrerão por causa de infecções resistentes a antibióticos em 2050 se esta tendência não for revertida.
                      
            O'Neill destaca em seu trabalho que a maioria das evidências científicas apontam para uma necessidade de redução do uso de antibióticos.   
         Ele indica que uma meta razoável para o uso de antibióticos pela agricultura seria de 50 mg para cada 1000 g (kg) de animais - um nível já colocado em prática por um dos principais países exportadores de carne de porco do mundo, a Dinamarca.
            A título de comparação, os Estados Unidos usam quase 200 mg/kg e Chipre emprega mais de 400 mg/kg.

Custo

            "Tenho certeza que muitos criadores pensarão 'Bem, se temos que fazer isso, significa que o preço cobrado pelo que produzimos aumentará e não conseguiremos mais concorrer no mercado", disse O'Neill à BBC.
            "O exemplo dinamarquês mostra que, após um custo de transição inicial, ao longo prazo, os preços não foram afetados, e a Dinamarca manteve sua participação de mercado."
            Antibióticos são mais úteis em criações com instalações com muitos animais e sujas, onde as infecções se espalham mais facilmente, então, locais mais espaçosos e higiênicos são uma forma de reduzir a necessidade de aplicar estas substâncias.
            O relatório também recomenda um maior investimento na pesquisa de vacinas e testes para diagnosticar infecções específicas e afirma que países deveriam adotar uma lista de antibióticos que nunca deveriam ser usados em animais por causa de sua importância no tratamento de humanos.
            Jianzhong Shen, da Universidade Agrícola da China e um dos descobridores da resistência à colistina, diz que "todos os países do mundo deveriam usar antibióticos na criação de animais de forma mais prudente e racional".
            "Agora é a hora de haver uma reação global para restringir ou proibir o uso de antibióticos para acelerar o crescimento ou prevenir doenças."

sábado, 14 de novembro de 2015

Pesquisador e Anvisa apresentam suas versões sobre a fosfoetanolamina em audiência pública



Por Viviane Monteiro, Jornal da Ciência.

Gilberto Orivaldo Chierice, professor da USP que liderou os estudos sobre a eficácia da substância em pacientes com câncer, relatou encontro com presidente da Anvisa ainda na década de 1980. A representante da Agência Nacional de Vigilância Sanitária disse, porém, que informações necessárias para as avaliações dos protocolos dos ensaios clínicos foram solicitadas, mas não chegaram à instituição.

          Sob críticas e pressão de parlamentares, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) admitiu que a instituição foi procurada pelos pesquisadores em 2010 a fim de dar início aos protocolos de pesquisas com humanos para comprovar a eficácia da fosfoetanolamina, substância que se mostra promissora no combate ao câncer. A superintendente de Medicamentos e Produtos Biológicos do órgão regulador, Meiruze Souza Freitas, disse, porém, que informações necessárias para poder fazer as avaliações dos protocolos dos ensaios clínicos foram solicitadas, mas não chegaram à instituição.
          O esclarecimento de Freitas foi concedido após o relato do cientista Gilberto Orivaldo Chierice, professor e pesquisador aposentado da Universidade de São Paulo (USP), de que os pesquisadores procuraram o órgão regulador e laboratórios farmacêuticos em busca de apoio para os ensaios clínicos e a produção profissional da substância.
          Esses depoimentos foram um dos pontos mais aguardados da audiência pública, realizada nesta quinta-feira, 12, na Comissão de Seguridade Social e Família, na Câmara dos Deputados, em Brasília, que reuniu dezenas de parlamentares, pacientes com câncer em defesa da liberação da substância, pesquisadores e outros interessados no tema. Um dos argumentos difundidos é de que os pesquisadores foram desacreditados por não seguirem os procedimentos normais para realização dos testes clínicos de apoio de laboratórios.
          Na audiência, realizada em duas etapas (manhã e tarde), a dirigente da Anvisa tentou rebater as críticas de parlamentares sobre burocracia, morosidade da instituição no âmbito da análise dos protocolos de pesquisas clínicas, além e submissão ao lobby da indústria farmacêutica internacional em detrimento do avanço científico nacional.
          A representante da Agência disse que a reunião em 2010 no órgão, registrada em ata, foi realizada, sobretudo, com a área técnica da pesquisa clínica e da área de eficácia e de segurança da Anvisa. Segundo seu depoimento, o encontro foi fruto de uma solicitação de audiência com a presidência, mas participaram da reunião técnicos e especialistas da Anvisa, que deram orientação sobre os passos relacionados aos registros das pesquisas e solicitaram informações sobre os dados necessários para que uma prévia-avaliação pudesse ser feita. Ela ressaltou, porém, que esses dados não chegaram à instituição.

Versão do cientista
          Na versão de Chierice, que iniciou as pesquisas no fim da década de 1980, a reunião dos pesquisadores foi com a presidência. “Quando estivemos no órgão, o presidente da Anvisa da época (Dirceu Raposo de Mello) nos convidou para começar os trabalhos juntamente com a Fiocruz. Não fomos registrar o produto. Fomos buscar uma orientação para que a Anvisa conduzisse os papéis. Tanto é que para fazer os dados clínicos nos foi sugerido hospitais militares, porque eram os hospitais de confiança do governo”, recordou o cientista, assegurando ter tudo documentado.
          “É uma papagaiada o que está na imprensa. Vira e mexe surge a pergunta se fomos ou não fomos a Anvisa. Eu não minto. O deputado que estava presente conosco tirou uma foto há quatro anos. Não fui eu que tirei, foi ele”, complementou o cientista, referindo-se a uma foto do encontro apresentada pelo deputado Reginaldo de Oliveira Lopes (PT/MG) na audiência pública e que mediou o encontro da época.
          O cientista acrescentou que a Fundação Oswaldo Cruz foi procurada em seguida. “Temos também documentos de que procuramos a Fiocruz, que disse que poderíamos iniciar os trabalhos. Isso foi conversado com a instituição, onde estavam todas as autoridades competentes da área de saúde. Foi-nos dito, porém, que só poderíamos iniciar os trabalhos se a patente fosse transferida”.
          Chierice afirmou que a conversa não avançou porque a patente da fosfoetanolamina sintética não tem finalidade comercial. Segundo disse, está em nome de cinco cientistas envolvidos na pesquisa e o registro da patente é para proteção da substância. “Essa patente existe única e exclusivamente para proteger a substância. Dentro da universidade fizemos muitos trabalhos que foram para gaveta e para evitar que a fosfoetanolamina ficasse na gaveta, a patente teria de pertencer a alguém. E esse alguém era eu e meus alunos”, destacou, sob aplausos da plateia.
          O cientista foi questionado sobre o fato de não ter fechado acordo com a Fiocruz e respondeu que não aceitou o acordo “porque não garantiria que a substância chegaria ao povo e que poderia ficar engavetada.”

Bola para frente
          A representante da Anvisa entende, porém, que o momento atual é outro e que não é o caso de olhar pelo retrovisor. “O que precisamos fazer agora é avaliar os dados atuais”, pontuou. Freitas disse que a intenção é avaliar o quão promissores são dados apresentados pelos pesquisadores e se também é possível encurtar alguma etapa para os estudos clínicos -, mas de forma responsável, para não atropelar a velocidade necessária da realização dos testes com seres humanos para comprovar a eficácia da substância e sobre a toxicidade da droga.
          “Não podemos fazer isso sem pular as etapas. Há muitos relatos interessantes que mostram que há perspectiva de resposta positiva, mas os estudos clínicos devem ser controlados e padronizados para chegarmos a uma conclusão sobre o medicamento”. Ela destacou que em outros países a fosfoetanolamina é utilizada como suplemento de cálcio, mas não sem indicação terapêutica. “São utilizados como suplementos e não como medicamentos”, esclarece.
          Freitas frisou que a Anvisa segue os padrões internacionais e defendeu o procedimento técnico do quadro de funcionários da Agência para avaliar o risco da exposição dos pacientes a uma nova droga. Segundo disse, a avaliação de uma molécula nova demora em torno de 360 dias no mundo e a de novas drogas, em torno de 270 dias, procedimentos semelhantes aos adotados no Brasil.
          Ainda em resposta aos parlamentares, a especialista da Anvisa acrescentou que a submissão “de um dossiê” na agência reguladora precisa ter a participação de uma empresa ou indústria para desenvolver o produto em estudo e assumir a responsabilidade do medicamento no mercado. Acrescentou, ainda, que o órgão controlador “não tem a menor intenção” de proibir ou de limitar o acesso a uma droga que tenha eficácia terapêutica comprovada.

História da fosfoetanolamina
          Chierice fez um relato sobre a trajetória de estudos sobre a fosfoetanolamina sintética, princípio ativo compatível ao pH (potencial hidrogeniônico) do organismo humano e que, segundo ele, combate células cancerígenas. A pesquisa foi iniciada entre o fim de 1989 e início da década de 1990. De acordo com os pesquisadores, a fosfoetanolamina tem mais de 50 anos de história e foi isolada e identificada na década de 1930. Os pesquisadores garantem que não há efeito colateral do uso do produto.
          O pesquisador disse que a substância brasileira é sintetizada de forma inédita no mundo. Enquanto o grama de fosfoetanolamina é comprado por US$ 2,5 mil no mundo, “a nossa” tem rendimento de 98%. “Essa é a patente que temos. O resto, vocês me perdoem, mas é muita falação para uma coisa que é exata”, disse o cientista, econômico nas palavras quando fala com a imprensa.
Quando foi questionado pela imprensa se lamentava a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo de cancelar a distribuição da fosfoetanolamina, ele respondeu que “não”. “Acho que você tem que perguntar ao juiz, por que ele fez isso. Talvez ele não precise das cápsulas, agora. Talvez mais tarde, sim. Aí, vamos ver”, provocou.
          Na audiência pública, Chierice recordou que os testes com humanos começaram em 1995, na comissão de ética (CEP) do Hospital Amaral Carvalho, dois anos antes da criação da Anvisa, em 1997. Conforme relatou, esse foi um acordo fechado com a USP. O procedimento, de acordo com ele, foi “igualzinho” ao que acontece hoje nas CEPs distribuídas em hospitais universitários e em instituições de pesquisas, dentre outros.
          “A comissão de ética se reuniu, escolheu a área, escolheu o produto e pediu a permissão ao famoso Ministério da Saúde, que foi concedida. O hospital, então, começou a trabalhar”, declarou ele, que diz não ter informações sobre o fato de o hospital hoje não ter o histórico desses dados clínicos.
          O cientista acrescentou, porém, que a substância é doada há 20 anos no Brasil “e existe muita gente viva em razão dela”. Calculou, grosseiramente, que mais de 50 mil pessoas usaram a substância. “Têm muito médico, pai de médico, filha de médico, mãe de médico e filho de médicos curados. O médico pede a fosfoetanolamina para sua família. Mas para o paciente não.”
Ele disse não temer que a substância possa ser patenteada no mundo, diante do impasse brasileiro. Nesse caso, sugeriu apenas que a substância chegue ao paciente com câncer. Ele desconhece estudos semelhantes ao do Brasil no mundo e destacou que a ciência internacional está interessada no tema. “Tenho convite da Nature e tenho publicações internacionais de revistas de câncer”.
          O deputado Celso Russomano (PRB/SP) foi um dos parlamentares que defenderam a liberação da substância. Citou o caso de seu pai, com 86 anos, que está com câncer e sem condições de fazer a quimioterapia porque a saúde está debilitada. Disse ter entrado com ação judicial, sem sucesso, para que o pai pudesse receber as cápsulas e ser voluntário no uso da substância.

Eficácia
          Para o chefe do Laboratório de Imunologia do Instituto Butantan, Durvanei Augusto Maria, um dos responsáveis pela fosfoetanolamina, a substância tem efeitos comprovados cientificamente no tratamento de vários tipos de câncer, como o de mama, rins, leucemia e na boca. “A fosfoetanolamina tem potencial para ser uma nova droga para o tratamento de tumor na cavidade oral. É a primeira vez que isso acontece”, assegurou.
          Augusto Maria apresentou resultados de pesquisas via imagens que mostravam bolhas na superfície das células e disse que os estudos comprovam a redução dos tumores e a morte das células cancerígenas.
          Ele garantiu que o Brasil tem tecnologia para produzir o fármaco para atender a população e cobrou um posicionamento efetivo de como ficará a liberação da substância e o atendimento aos pacientes.  “Temos que ter ações que possam ser conclusivas. Não queremos burlar as fases (das pesquisas), mas pelos estudos, pelos anos de pesquisa e pelo material disponível que podem ser compilados em um dossiê, etapas em menor período de tempo podem ser efetivas”, sugeriu.

Posicionamento da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica
          O representante da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o médico Sandro Martins, reconheceu que a fosfoetanolamina é uma substância promissora para o tratamento do câncer, mas não recomendou o uso das cápsulas “azuis e brancas” pelas vítimas de câncer, antes da realização, controlada pela Anvisa, dos ensaios clínicos para determinar os níveis de segurança ao uso humano.
          Embora seja uma substância conhecida, o médico disse que o papel desse tratamento no ser humano ainda não foi observado de maneira sistematizada, o que interfere no conhecimento sobre efeitos colaterais do uso do produto. “Efeitos colaterais não estudados não quer dizer que não existam. Até a água é tóxica, dependendo da dose que se ingerir. E não é possível que a fosfoetanolamina seja mais segura do que a água”, alertou.
          Martins avaliou os ensaios pré-clínicos apresentados pelos pesquisadores na audiência pública e disse que na medida em que se aumenta a dose do medicamento para melhorar o efeito antitumoral, pelos modelos in vitro, é de se esperar que o aumento da dose da substância em seres humanos possa levar ao aparecimento de toxidade: “Em algum momento, essa toxidade pode se tornar proibitiva, porque se torna maior do que a proporção dos benefícios proporcionados”.
          “Esse intervalo de dose entre o mínimo que produz uma eficácia interessante e o máximo de toxidade aceitável torna-se o que se chama de janela terapêutica que todo medicamento tem. Pode ser que a fosfoetanolamina tenha uma janela terapêutica infinita. Ou seja, pode-se ingerir 7 kg da substância e não se verificar toxidade. Mas isso há de ser demonstrado”, complementou.
          Em outra etapa da audiência pública, o cientista Renato Meneguel, médico do grupo responsável pela descoberta da substância, respondeu que foram realizados testes de toxidade com humanos, embora não tenham sido controlados pela Anvisa. Ele apresentou laudos médicos produzidos por toxicologistas da UNESP de Botucatu, interior de São Paulo, e acrescentou que os testes pré-clínicos foram realizados baseados nos protocolos americanos. “Falaram aqui ser necessário fazer testes de letalidade (DL 10). Isso quer dizer 10% de mortalidade dos animais. Mas já avaliamos que a dose letal média é de 50%”, acrescentou.
          “A fosfoetanolamina não é manipulada. Ela é sintetizada”, disse o médico, sobre críticas de que a substância poderia ser comprada industrialmente. “O que é comprada industrializada é a substância para fazer shampoo, que não está dentro dos padrões do pH do corpo humano e nem dentro do organismo humano. A nossa está, comprovadamente”, assegurou.

          Como provocação, apresentou maços de cigarros, que detêm 4 mil substâncias cancerígenas e que são regulamentados pela Anvisa.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Academia Brasileira de Ciências se manifesta sobre a fosfoetanolamina


O texto foi escrito pelos acadêmicos João Batista Calixto e Mauro Martins Teixeira, que são membros da Diretoria da ABC. O documento chama a atenção para alguns fatos preocupantes relacionados à substância
A Academia Brasileira de Ciências (ABC) produziu um documento alertando para os riscos do consumo da fosfoetanolamina, produto que não passou pelas etapas indispensáveis de teste clínico e vem sendo usado como um método para o tratamento do câncer.
O texto foi escrito pelos Acadêmicos João Batista Calixto e Mauro Martins Teixeira, que são membros da Diretoria da ABC. Calixto é diretor-presidente do Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (CIEnP) e Teixeira é professor no Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O documento explica como se dá o processo de aprovação de um medicamento, que teve início com a agência norte-americana Food and Drug Administration (FDA) e que, no Brasil, é controlado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo o texto, todo o processo de desenvolvimento e de registro de um novo medicamento pode demandar até 12 anos, pois deve passar por diversas etapas de teste in vitro e in vivo, e a fosfoetanolamina não passou por todas essas etapas.
O documento chama a atenção para alguns fatos preocupantes relacionados à substância. Afirma que não há garantia da segurança da produção e estabilidade química entre os vários lotes; não há evidências disponíveis que demonstrem a segurança (toxicologia) e a eficácia da molécula em estudos pré-clínicos; não existem estudos clínicos demonstrando a segurança toxicológica do uso da molécula em seres humanos; entre outros.
Além disso, o manifesto explica que não existe um tipo único de câncer e que, para cada caso particular da doença, há a necessidade da demonstração da eficácia clínica do medicamento e de compará-lo com outras terapias já existentes.
Para acessar a íntegra do documento, clique aqui.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Uma breve história da luz: do que ela é feita e de seus mistérios


Por MARCELO GLEISER

Neste que é seu Ano Internacional, a luz, embora presente em inúmeras tecnologias do cotidiano, continua sendo fonte de mistérios e objeto de pesquisas. No século 17, discutia-se se a luz era onda ou partícula; em 1905, Einstein esclareceu que poderia ser os dois, e a usou como base para a Teoria da Relatividade.

Somos criaturas da luz.
Nossa percepção mais imediata da realidade vem dela, do que podemos ver. Claro, os outros sentidos ajudam e, na cegueira, são essenciais. Mas acordamos ao abrirmos os olhos, mesmo que mais figurativa do que fisiologicamente.
A luz representa sabedoria, conhecimento, o lado bom do divino. As trevas são a ignorância, a violência, o mundo do mal. Nossos corpos evoluíram para detectar padrões na natureza, algo de fundamental para nossa sobrevivência num mundo cheio de predadores e inimigos. É útil saber diferenciar entre um arbusto e um tigre, ou entre sombras e um guerreiro da outra tribo.
No romance "Ensaio sobre a Cegueira", José Saramago cria uma sociedade em que todos (ou quase) ficam cegos subitamente. Essa cegueira pode simbolizar muita coisa, ou mesmo ela mesma: como a sociedade colapsaria de forma devastadora se perdêssemos coletivamente nossa visão; ou nossa visão coletiva.
Não é uma coincidência que tantas culturas idolatrassem a luz através de seu provedor-mor, o Sol. Os egípcios, os incas, os celtas, sabiam que o Sol é a essência da vida. Sem ele, sem o influxo de luz e energia vindo dele, não estaríamos aqui. O que vemos da realidade, fração pequena de todas as "luzes" que nos cercam - o espectro luminoso das ondas de rádio aos raios gama- coincide com o pico de emissão luminosa do Sol. O processo de seleção natural privilegiou animais capazes de utilizar ao máximo a luz da estrela que os ilumina. Claro, alguns animais percebem as franjas além do visível, como as abelhas, que veem no ultravioleta, ou certas cobras, que veem no infravermelho. Mas a maioria vê o que vemos, a luz que se espalha pela atmosfera.

O que é?
É, portanto paradoxal que a luz, que nos é tão íntima, seja também um dos grandes mistérios da natureza. O que é, afinal, a luz? Não é palpável como o ar ou a água, e nem sabemos exatamente do que é "feita". Se voltássemos ao século 17, assistiríamos aos debates entre Isaac Newton e Christiaan Huygens, Newton afirmando que a luz é feita de partículas indivisíveis - de átomos - e Huygens, que a luz é uma onda que se propaga num meio que preenche todo o cosmo, o éter.
Ambos os cientistas aplicaram sua teoria da luz para explicar uma série de fenômenos, com sucesso variável. Que partículas seriam essas que compõem a luz?
Newton herdou conceitos atomistas antigos, da época da filosofia pré-socrática de Leucipo e Demócrito, que, em torno de 450 a.C., sugeriram ser tudo feito de corpúsculos minúsculos que se propagam no "vazio". Para ele, a noção de que um tipo de matéria preenche o espaço como o ar preenche nossa atmosfera era absurda. Que matéria é essa, se perguntava, que é transparente e não oferece resistência ao movimento dos planetas e cometas?
Por outro lado, se o éter de Huygens era um tanto estranho, como atribuir realidade a pequenos átomos de luz que não podem ser vistos? Como determinar se algo existe se não pode ser diretamente observado? Por trás do debate sobre a natureza da luz esconde-se a questão da natureza da realidade: como sabemos se algo existe?
A ciência, em particular a física, cria descrições da realidade baseadas no que podemos observar. Como disse Werner Heisenberg, um dos arquitetos da física quântica, "o que vemos não é a natureza, mas a natureza exposta ao nosso método de questionamento". Em outras palavras, nosso conhecimento do mundo depende de quem somos e como pensamos. Uma outra inteligência, com métodos e percepções diferentes, criaria uma outra descrição da realidade.
Esse fato é mais do que claro quando lidamos com a natureza da luz. No final do século 19, a física estava em crise: na época, a descrição da luz como onda era universalmente aceita. Com isso, era também aceito o éter como meio por onde as ondas luminosas se propagavam. Afinal, qualquer onda precisa de um meio material que a suporte: ondas de água na água, ondas de som no ar... O problema surgiu em 1887, quando o experimento dos americanos Albert Michelson e Edward Mosley --desenhado para detectar o éter-- falhou. Se não existia o éter, o que sustentava a propagação da luz?
Essa tensão entre teoria e experimento é crítica para o desenvolvimento da ciência. Ao revelarem falhas nas teorias, experimentos forçam cientistas a revisarem suas hipóteses, muitas vezes levando-os a propor o inusitado. Se aprendemos algo com o estudo da natureza, é que ela é bem mais criativa do que nós. A ciência precisa falhar para avançar.

Entra Einstein.
Em 1905, com apenas 26 anos, publica dois artigos que irão revolucionar nossa visão de mundo. Ambos relacionados à natureza da luz, e ambos profundamente contraintuitivos. As propostas do jovem cientista eram tão chocantes que só seriam aceitas aos poucos, sob o peso da evidência experimental.
No primeiro artigo, Einstein sugere que a luz tem um comportamento dual, podendo não só ser interpretada como uma onda mas também como feita de partículas. Fachos de luz podem ser descritos como sendo compostos por corpúsculos --ou "quanta"-- mais tarde chamados de fótons.
Com isso, Einstein reconcilia as visões antagônicas de Newton (luz é partícula) e Huygens (luz é onda), criando algo surpreendente: uma entidade que se manifesta de forma diversa no mundo natural de acordo com a situação. A luz não tem uma identidade fixa; sua realização - o modo como se manifesta no mundo - depende de como ela interage com objetos.
No segundo artigo de 1905, Einstein propõe sua famosa teoria da relatividade especial. A essência da teoria é o postulado: "A luz se propaga sempre com a mesma velocidade independente do movimento da fonte ou do observador".
Para entender como isso é estranho, imagine que você esteja num carro viajando a 60 km/h e que, do carro, jogue uma bola para frente com velocidade de 20 km/h. Você verá a bola viajar com 20 km/h, enquanto que uma pessoa na calçada verá a bola viajar a 80 km/h (60 + 20 = 80). Se, em vez da bola, você ligasse uma lanterna, tanto você quanto a pessoa na calçada veriam a luz com a mesma velocidade, 300.000 quilômetros por segundo. A velocidade da luz é sempre a mesma.

Temperamental
Ninguém sabe por que a velocidade da luz não muda, ou por que seu valor no espaço vazio é de 300.000 km/s. Mas esse comportamento esdrúxulo explica um número enorme de observações, sendo, portanto aceito como uma descrição válida do que ocorre na natureza.
Como se não bastasse ter captado a natureza dual onda-partícula e sua velocidade constante, Einstein notou também que a luz, ao contrário de tudo o que conhecemos no universo, não tem massa. A luz é uma forma de energia pura que se propaga pelo espaço, interagindo aqui e ali com a matéria, ou seja, com coisas que têm massa.
Completando o ciclo de artigos sobre a luz, ainda em 1905 Einstein escreve outro, mostrando como energia e matéria estão relacionados; em particular, como energia pode gerar matéria e vice-versa.
Essa é a famosa fórmula E=mc², que tem aplicação direta na luz: se fótons de luz têm energia suficiente (no caso, o extremo mais energético do espectro luminoso, os raios gama) podem se transformar em partículas de matéria como, por exemplo, elétrons. Luz e matéria são, de certa forma, dois lados da mesma moeda.
A física de Einstein mostra que somos criaturas da luz não apenas de modo figurativo. Não só porque precisamos dela para viver, mas porque podemos - ao menos em princípio - nos transformar nela.
Antes, porém, que os leitores se imaginem como fótons de luz viajando pelo cosmo a 300.000 km/s, devo deixar claro que essa conversão só ocorreria se houvesse uma colisão entre você e sua cópia feita de antimatéria.
A antimatéria não é tão exótica quanto parece, mas feita de cópias das partículas que existem com cargas elétricas opostas. Por exemplo, a antipartícula do elétron é o pósitron, que tem carga positiva. Essas partículas são rotineiramente geradas em laboratório.
O produto dessa colisão seria uma explosão de fótons de raios gama com energia para destruir boa parte do Brasil. Felizmente, estamos longe de criar cópias de antipessoas no laboratório. No momento, criamos apenas átomos de anti-hidrogênio.
Este é o Ano Internacional da Luz, celebrado no mundo inteiro em uma série de eventos (light2015.org). Apesar de suas estranhezas, ou por causa delas, a luz é hoje integrante essencial de nossas tecnologias, dos lasers no caixa de supermercado a DVDs; de tecnologias usando micro-ondas e ondas de rádio a aplicações industriais de fontes de luz ultraintensas; dos raios X e outras máquinas de visualização em medicina a observações astronômicas de estrelas e galáxias longínquas.
Considerando os mistérios que sobrevivem em torno da luz e o quanto deles exploramos nas aplicações tecnológicas, é difícil prever o que nos espera em cem anos. No mínimo, mais uma revolução em nosso conhecimento do mundo que, tal como a que começou no início do século 20, será iluminada pela curiosa natureza da luz.