terça-feira, 19 de março de 2013

Pesticidas, comida-lixo, diabetes e Alzheimer



Por: Jean Remy Davée Guimarães, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, UFRJ.

 
Estudo sugere ligação entre exposição a agrotóxicos e desenvolvimento de diabetes tipo 2. Em sua coluna de março, o biólogo Jean Remy Guimarães comenta a pesquisa e evidências crescentes das relações estreitas entre essas substâncias e doenças crônicas.

  
            Estudo realizado com 386 pacientes adultos aponta relação direta entre os níveis de resíduo de pesticidas no tecido adiposo e desenvolvimento de diabetes, independentemente de idade, sexo e peso corporal.

            A relação epidemiológica entre o uso de pesticidas e a crescente incidência de males como câncer, problemas hormonais e reprodutivos, entre outros, é cada vez mais clara. Mas novos estudos têm apontado uma nova e incômoda conexão, desta vez entre pesticidas e diabetes tipo 2, o que poderia explicar, ao menos parcialmente, as proporções epidêmicas que essa doença vem assumindo em escala global.

            A edição de janeiro da Environmental Research traz um estudo de Arrebola e colaboradores, da Universidade de Granada, Espanha, que é, ironicamente, uma bomba. A equipe dosou resíduos de diversos pesticidas no tecido adiposo de 386 pacientes adultos em dois hospitais do sul do país e concluiu que os pacientes com maiores níveis de DDE (um produto da degradação do DDT) tinham quatro vezes mais probabilidade de ter diabetes tipo 2.

            Os autores observaram ainda que um dos componentes do popular pesticida Lindano também favorece o surgimento do diabetes tipo 2. A relação direta observada entre os níveis de poluentes orgânicos persistentes e o desenvolvimento de diabetes era independente da idade, sexo ou peso corporal do paciente.

            Segundo os pesquisadores, o acúmulo desses poluentes lipofílicos na gordura corporal poderia explicar por que os obesos têm maior tendência a desenvolver diabetes. Não se sabe ao certo o mecanismo envolvido, mas os autores sugerem que os pesticidas provocam uma reação imunológica em receptores de estrogênio envolvidos no metabolismo dos açúcares.

 Monitor de açúcar no sangue e caneta injetora de insulina usados por diabéticos. Pesquisa sugere que o acúmulo de poluentes lipofílicos (como componentes de pesticidas) na gordura corporal poderia explicar a maior tendência de obesos a desenvolver diabetes. (foto: Karen Barefoot/ Sxc.hu)

 
            As autoridades de saúde estimam que, em 2030, cerca de 4,5% da população mundial será diabética. Atualmente, cerca de 346 milhões de pessoas sofrem da doença, enquanto 35 milhões são acometidos pelo Alzheimer. As duas condições geram muito sofrimento e elevado custo social.

 
Correlações perturbadoras

            Se você já estava se perguntando o que diabetes têm a ver com meio ambiente, a menção ao Alzheimer talvez aumente a confusão.

            Mas, justamente, diabetes, Alzheimer e obesidade estão aumentando exponencialmente e com correlações perturbadoras entre elas. Da mesma forma, a disseminação da junk-food (comida-lixo) e da agricultura industrial regada a pesticidas que a sustenta andam juntas.

            Ok, pesticidas/junk-food e obesidade/diabetes já são binômios quase familiares para aqueles que leem as magras seções de ciência da grande imprensa, mas a insistência do Alzheimer em se meter em estatísticas onde não foi chamado já intrigava os cientistas há algum tempo, a ponto de esses começarem a buscar uma relação causal entre essa doença, o diabetes e a obesidade.

            Mas... e se o Alzheimer fosse, como o diabetes, uma doença metabólica, associada ao (des)desequilíbrio hormonal e, portanto, induzível por pesticidas?

Já se sabia que há uma forte associação entre diabetes, obesidade, dieta, demência e Alzheimer. Pessoas que sofrem de diabetes têm probabilidade 2 a 3 vezes maior de desenvolver Alzheimer do que a média da população. A conexão obesidade-Alzheimer é menos estudada, mas sabe-se que a obesidade em idade madura predispõe ao Alzheimer e que uma vida ativa e dieta saudável reduzem a ocorrência de demência.

            Mas... e se o Alzheimer fosse, como o diabetes, uma doença metabólica, associada ao (des)desequilíbrio hormonal e, portanto, induzível por pesticidas, entre outros disruptores endócrinos? Isto poderia explicar as correlações observadas. As evidências nesse sentido são tantas que muitos especialistas já defendem que o Alzheimer seja considerado como um diabetes tipo 3, pois vários estudos sugerem que o Alzheimer seria uma consequência de perturbações na resposta do cérebro à insulina.

            Esta, além de regular o metabolismo do açúcar, tem papel bem definido na química cerebral, modulando a troca de sinais entre neurônios e atuando no aprendizado e na memória, bem como na manutenção dos vasos sanguíneos que irrigam o cérebro.

Tomografia de um cérebro humano com Alzheimer. Pessoas que sofrem de diabetes têm maior probabilidade de desenvolver a condição. Especialistas defendem, inclusive, que o Alzheimer seja considerado um diabetes tipo 3, pois há evidências de que seria uma consequência de perturbações na resposta do cérebro à insulina. (imagem: NHI/ Wikimedia Commons)

 
            Eu achava que o sistema hormonal funcionava, por analogia, como uma orquestra em que o som produzido por um instrumento influencia o som de todos os outros, e vice-versa. Já era complicado o bastante, mas escrever esta coluna me ensinou que a imagem mais correta seria a da mesma orquestra, mas com cada músico tocando vários instrumentos ao mesmo tempo, e todos os sons se influenciando mutuamente. Agora imagine se colocarmos pó-de-mico na gola dos músicos... É o que ocorre quando um disruptor endócrino é absorvido por inalação, ingestão ou via cutânea.

            Portanto, se você achava que por ser um urbanoide não-obeso, que gasta boas quantias em alimentos orgânicos, você estaria a salvo, pode tirar o cavalinho da chuva: os pesticidas são apenas uma das várias categorias de disruptores endócrinos, e a dieta é apenas uma das vias de exposição aos pesticidas.

 
Equacionando prós e contras

            E a junk-food, onde entra nisso tudo? O X-tudo com fritas e o rodízio de salgadinhos já era apontado como fator de desenvolvimento de Alzheimer devido à redução de irrigação sanguínea causada pelo colesterol e aumento da pressão sanguínea, mas os estudos mais recentes sugerem que alimentos com muito açúcar e gordura podem danificar o cérebro por interromper seu suprimento de insulina.

A ingestão excessiva de alimentos com muito açúcar e gordura já era apontada como fator para o desenvolvimento de Alzheimer – devido à redução de irrigação sanguínea causada pelo colesterol e aumento da pressão sanguínea. Estudos mais recentes sugerem que estes podem também danificar o cérebro por interromper seu suprimento de insulina. (foto: David Boylan/ Sxc.hu)
 

            Naturalmente, como sempre, mais estudos são necessários etc. etc., mas se as relações causais aqui descritas forem confirmadas, será uma ótima notícia. É uma esperança de melhores tratamentos para os que já sofrem com esses males e de melhores prognósticos para os ilesos até aqui.

            É também um exemplo que gera reflexão sobre o custo/benefício do modo de vida que adotamos. Sim, a tecnologia nos permite viver com mais conforto e por mais tempo, mas também nos rouba qualidade de vida.

            De que adianta termos Viagras e cia. se não lembrarmos mais para que serve uma ereção, nem quem é aquela pessoa idosa dormindo ao nosso lado? Quantos hectares de soja, arroz ou milho são necessários para bancar um ano de tratamento de um diabético ou uma vítima de Alzheimer?

            Somando esses e outros custos, ambientais e de saúde, podemos talvez acabar concluindo que o modelo de agricultura industrial vigente gera prejuízos que engolem seus ganhos de produtividade e ainda deixam uma conta pendurada.

            O modelo de agricultura industrial vigente gera prejuízos que engolem seus ganhos de produtividade e ainda deixam uma conta pendurada

Estudos como os aqui relatados nos dão pistas importantes de como equacionar tudo isso e tornam mais premente a discussão do tema.

            Por último, mas não menos importante, cada novo estudo apontando efeitos negativos de pesticidas – ou qualquer outra substância sujeita à regulamentação – desmoraliza um pouco mais os órgãos que autorizaram sua produção e uso e não monitoraram seus efeitos.

            Acredite se quiser, mas a liberação é baseada em testes de até 60 dias com animais de laboratório. Quem realiza esses testes? O próprio fabricante, ou alguém que ele contratou para isso.

            Mas relaxe, está tudo dominado.
 

Ciência Hoje On-lne

Publicado em 15/03/2013 | Atualizado em 15/03/2013.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Google abre inscrições para feira de ciências


Science Fair premiará os melhores projetos de alunos entre 13 e 18 anos com US$ 50 mil e viagens com a National Geographic

            Se você é um daqueles que adora participar das feiras de ciência na escola, mas, ao contrário do que gostaria, os projetos sempre se resumem a algumas cartolinas na parede e textos decorados para explicar aos familiares, talvez esse seja o momento de colocar aquela grande ideia em prática. A 3ª edição da Google Science Fair quer encontrar os jovens mais brilhantes e revolucionários do mundo, com idades entre 13 e 18 anos, que tenham um método científico capaz de solucionar algum problema global. Brasileiros são muito bem-vindos.

            Para participar, o estudante terá que criar uma conta do Google e enviar o seu projeto que poderá ser escrito em 13 idiomas, inclusive português pelo site até o dia 30 de abril, data limite das inscrições. Em junho, serão selecionados os 90 finalistas, sendo 30 das Américas, 30 da Ásia e do Pacífico e 30 da Europa, Oriente Médio e África. No dia 23 de setembro, os 15 melhores projetos serão levados para a sede do Google, em Mountain View, Califórnia, onde passarão por um painel de juízes internacionais que escolherão o vencedor.

            O estudante que, segundo o júri, tiver desenvolvido o melhor entre todos os projetos, receberá como prêmio uma bolsa de US$ 50.000 do Google; uma viagem para as Ilhas Galápagos com expedições da National Geographic; experiências de trabalho no CERN, no Google ou no Grupo LEGO, além de conquistar, para sua escola, US$ 10.000 e acesso aos arquivos digitais da Scientific American por um ano. Assista ao vídeo feito pelo Google que convoca futuros cientistas que querem mudar o mundo.

            No site da competição, o aluno tem acesso a informações que podem ajudar no desenvolvimento de seu projeto, como material sobre método científico e análise de resultados, exemplos de organizações e instituições que podem ser úteis durante a pesquisa, além de dicas. Também é possível participar de um fórum de discussões no Google+, ambiente virtual em que inscritos de todo o mundo podem compartilhar experiências. Para inspirar os novos cientistas, a plataforma disponibiliza ainda os vídeos e pesquisas dos vencedores dos anos interiores.

            Nas duas primeiras edições da Google Science Fair, milhares de estudantes de mais de 90 países apresentaram projetos de pesquisa que abordam algum dos problemas mais difíceis que enfrentamos hoje. Entre eles está Brittany, uma garota de 17 anos, que ganhou o grande prêmio por seu projeto que buscava construir um aplicativo para prevenção do câncer de mama. E Jonah Kohn, de apenas 14 anos, foi premiado por inventar um dispositivo que melhora a experiência de ouvir música para pessoas com deficiência auditiva, transmitindo os sons diretamente para o corpo humano, através do contato por vibrações.

(Site Porvir)

Do céu para os hospitais


Por: Sofia Moutinho (Ciência Hoje On-line)

Método para identificar galáxias, estrelas e planetas distantes é adaptado para a detecção de tipos graves de câncer de mama. A 'troca de figurinhas' entre astrônomos e médicos ajuda no encaminhamento para o tratamento adequado.
Na esquerda, foto de células de câncer tratadas com reagente pronta para ser submetida ao programa. Na direita, o objeto comum dos astrônomos: espaço sideral repleto de estrelas, planetas e galáxias. (fotos: Simon Shears | M. Kornmesser/ ESO)

            Uma técnica usada para identificar gigantescos objetos astronômicos fotografados por telescópios agora pode ser aplicada na detecção de minúsculas células cancerosas vistas através de microscópios. A ideia da interessante troca é de pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
            Os cientistas do Centro de Pesquisa de Câncer e do Instituto de Astronomia da instituição formaram uma parceria para adaptar um programa de análise de imagens que identifica galáxias, estrelas e planetas no céu para ele passar a apontar células de tumores de câncer de mama agressivos.
           
          Existem tumores de diferentes níveis de severidade e a identificação do estágio exato em que se encontram ajuda a direcionar o tipo de tratamento mais adequado em cada caso. Os cientistas conseguem saber se um câncer é de categoria agressiva pela presença de determinadas proteínas que a célula tumoral produz. Hoje, a detecção dessas proteínas é feita pela visualização de amostras em microscópios, um processo que pode tomar muito tempo.
            Com o programa, a identificação dos tumores é automatizada e mais de 5 mil imagens podem ser analisadas por dia
            O programa de astronomia adaptado faz esse trabalho de modo automático e mais rápido. Os cientistas só precisam jogar sobre as amostras de tumor uma substância que reage com as células e deixa uma mancha marrom onde há a proteína que procuram. Feito isso, basta deixar que o software processe fotografias das amostras e identifique, sozinho, as células marcadas.
            “A medicina moderna está dando os primeiros passos no sentido de prever o sucesso ou a falha de tratamentos específicos para determinados perfis de câncer”, comenta um dos pesquisadores envolvidos na iniciativa, o oncologista Carlos Caldas. “Mas, para isso, precisamos verificar milhares de amostras de tumores no microscópio. Com esse processo automatizado, podemos analisar mais de cinco mil imagens por dia.”
            O programa já foi testado com tumores de duas mil pacientes e se mostrou tão eficaz quanto os métodos tradicionais. Os cientistas agora planejam repetir os testes com mais amostras e refinar o programa para detectar outros elementos.
 
Troca de experiências
           A ideia de usar as ferramentas da astronomia na medicina surgiu depois que cientistas do grupo participaram de um congresso que reuniu físicos, astrônomos e cientistas de biomédicas justamente para compartilharem conhecimentos.
            Pode ser difícil de ver semelhanças entre as áreas, mas o líder da pesquisa, o oncologista Raza Ali, conta que logo de cara soube como aproveitar a expertise dos colegas astrônomos.
            “É incrível que nosso software usado para procurar planetas que podem abrigar vida fora do sistema solar possa agora ser usado para ajudar vidas de pacientes de câncer aqui na Terra”
            “Os astrônomos desenvolveram uma grande caixa de ferramentas de análises de imagens para diferentes problemas que encontram”, diz. “Eles tipicamente identificam e descrevem estrelas e planetas, mas se você parar para pensar, esses objetos são, em certo sentido, parecidos com as células de câncer que estamos interessados. Eles usam programas para procurar características comuns a esses objetos em meio a trilhões de astros. Nós fazemos a mesma coisa com as células de câncer.”
            O astrônomo Nicholas Walton, que ajudou Ali a adaptar o programa de identificação de astros, se diz satisfeito com a colaboração interdisciplinar. “É incrível que nosso software usado para procurar planetas que podem abrigar vida fora do sistema solar possa agora ser usado para ajudar vidas de pacientes de câncer aqui na Terra.”

sexta-feira, 8 de março de 2013

Transistores à base de nanotubos de carbono detectam biomarcadores de câncer


Por Murilo Julião



Anticorpos (verde/vermelho) são covalentemente ligados a transistores de nanotubos de carbono, que servem como detectores de osteopontina (laranja/azul). A osteopontina é uma proteína biomarcadora indicativa de câncer de próstata, bem como de outros tipos de câncer. (Cortesia: Universidade da Pensilvânia)

           Transistores baseados em nanotubos de carbono poderão ser usados para detectar pequenas quantidades de biomarcadores de doenças, como: proteínas associadas ao câncer de próstata, segundo pesquisas realizadas nos EUA. No futuro, essa técnica poderá rivalizar com os métodos convencionais, quanto ao custo, sensibilidade e velocidade.
          As técnicas convencionais para detecção de proteínas baseiam-se normalmente em alguma forma de "imunoensaio", como o mais famoso deles: o ensaio imunoabsorvente de enzimas ligadas (ELISA). Esta técnica envolve a introdução de uma proteína de anticorpo modificado enzimáticamente numa quantidade desconhecida da molécula alvo ou proteína, conhecida como antígeno, permitindo a ligação entre eles. Os anticorpos que não reagem são removidos por lavagem, sobrando apenas os pares de anticorpo-antígeno.
          A reação geralmente pode ser detectada por uma alteração de cor da solução ou através de um sinal fluorescente. O grau de mudança de cor ou fluorescência depende do número de anticorpos modificados enzimáticamente presente, que por sua vez depende da concentração inicial de antígeno na amostra.
          Embora tais testes sejam rotineiramente utilizados em hospitais e clínicas, eles podem levar vários dias ou mesmo semanas para serem concluídos. São também caros, complicados de executar e podem detectar apenas uma proteína de cada vez.

Nanossensores e marcadores
          "Nossos sensores de nanotubos são relativamente simples quando comparados aos testes de ELISA", afirma Mitchell Lerner, membro da equipe da Universidade da Pensilvânia. "A detecção ocorre em poucos minutos, uma caixa com 2000 desses sensores custa cerca de R$ 100,00 ou R$ 0,50 centavos por sensor."
           Mais importante ainda, os sensores são muito mais sensíveis às proteínas-alvo em questão. De fato, os pesquisadores da Universidade da Pensilvânia mostraram que poderiam detectar um biomarcador de câncer de próstata chamado osteopontina (OPN) em 1 picograma/mL, o que é cerca de 1000 vezes menor do que os testes clínicos realizados por ELISA.
 

Detectando a doença de Lyme: anticorpos comercialmente disponíveis (centro) são ligados aos transistores de nanotubos de carbono. Os antígenos de Lyme (espirais amarelas/roxas) são capturados e detectados. (Cortesia: Universidade da Pensilvânia)

          A equipe, liderada por A.T. Charlie Johnson do Departamento de Física e Astronomia de Penn, sintetizou os sensores de nanotubos, anexando anticorpos ligantes de OPN aos transistores de nanotubos de carbono num chip de silício. Muitas proteínas no corpo se ligam muito fortemente à moléculas alvo específicas ou à proteínas e a OPN não é exceção. Quando o chip é imerso numa amostra teste, a OPN liga-se aos anticorpos, o que altera as características eletrônicas do transistor. Medidas de voltagem e corrente obtidas a partir de cada dispositivo permitiram que os pesquisadores pudessem medir com precisão a quantidade de OPN que havia na amostra.

Ligações fortes
          A técnica também pode ser usada para detectar uma série de outras doenças através da substituição superficial do anticorpo ligante de OPN por grupos funcionais sensíveis a diferentes biomarcadores, disse Lerner. Um biomarcador que os pesquisadores afirmaram ter detectado está relacionado à doença de Lyme. Também conseguiram detectar a bactéria salmonela, usando esse sensor.
          "Os sensores podem ser utilizados como ferramentas de diagnóstico que permitem aos médicos obter resultados de testes clínicos em tempo real para uma variedade de doenças", acrescenta Lerner. "Se pudéssemos integrar várias proteínas num único chip, poderíamos detectar centenas de proteínas biomarcadoras de doenças, simultaneamente, num único pequeno volume da amostra".

quinta-feira, 7 de março de 2013

Cometa Misterioso Cruza os Céus do País


Um novo astro, ainda mais brilhante, surgirá em novembro

Imagem da internet. Meramente ilustrativa
O primeiro de dois cometas a serem avistados no céu do país este ano já pode ser observado a olho nu. No horário do pôr-do-sol, por volta das 18h, basta olhar à direita da estrela, buscando por um ponto luminoso, algo como uma estrela um pouco mais brilhante. Trata-se do cometa PanSTARRS, em sua visita única ao planeta Terra, direto dos confins do Sistema Solar. Uma espécie de aperitivo antes da chegada do ISON, em novembro, que será visível como uma lua cheia.

Cometas são grandes aglomerados de rocha e gelo recobertos por uma crosta de sujeira espacial originários da Nuvem de Oort, uma gigantesca região de objetos gelados que cerca nosso Sistema Solar e cujo limite alcança mais de um ano-luz (cerca de 9,5 trilhões de quilômetros) de distância da Terra. Às vezes, porém, um destes objetos tem sua órbita estável perturbada pela ação gravitacional da movimentação de uma estrela próxima ou da combinação dos efeitos gravitacionais do conjunto das estrelas da Via Láctea, sendo então lançado em uma longa viagem em direção ao Sol. E, à medida que ele se aproxima de nossa estrela, o calor começa a quebrar sua crosta e a fazer evaporar o gelo, gerando as características coma (cabeça) e cauda dos cometas, que brilham ao reflexo da luz solar.

Primeira e única chance de observação

O PanSTARRS, segundo Jorge Márcio Carvano, do Observatório Nacional, é um cometa de tipo raro, com uma órbita chamada de hiperbólica, ou seja, ele só passará uma vez pela Terra. Trata-se, por isso, da primeira e única chance de observá-lo. De acordo com o astrônomo, especialistas em todo o mundo estão ansiosos para estudar o objeto, detectado em 2011.

- Os cometas, acreditamos, são objetos formados na mesma época em que os planetas gigantes e expulsos da parte interna do Sistema Solar - explicou Carvano. - Com suas temperaturas muito baixas, eles preservam material, processos e condições daquela época; verdadeiras relíquias da formação do Sistema Solar.

Carvano explicou que, com a observação do cometa por especialistas, será possível estudar a composição do gás e da poeira. Segundo Carvano, moléculas orgânicas nunca antes observadas podem ser detectadas.

- Observamos a interação da luz do Sol com o gás e a poeira. Dependendo de como o gás modifica a luz, podemos inferir a composição molecular.

Mas enquanto o PanSTARRS passará a cerca de 50 milhões de quilômetros do Sol - sua maior aproximação ocorre hoje -, o ISON se aproximará muito mais da estrela, menos de 2 milhões de quilômetros. Quanto mais perto do Sol um cometa chega, mais brilhante ele aparece no céu. Por isso, astrônomos apostam que o ISON pode ser "o cometa do século", atingindo um brilho equivalente ao da Lua cheia, ficando visível a olho nu e talvez até durante o dia na época de sua maior aproximação, entre o fim de novembro e o início de dezembro.

(Roberta Jansen - O Globo)

domingo, 3 de março de 2013

Anvisa publica lista de alimentos com alto teor de sódio.




          A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o consumo máximo de 2 gramas (g) de sódio por dia. Um pacote de biscoito de polvilho de 100 g possui, em média, mais da metade de toda a quantidade de sódio que uma pessoa deve consumir durante todo o dia. É o que aponta um estudo divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

          O hambúrguer bovino também apresentou um alto teor de sódio: na média 701 mg de sódio para cada 100g de produto. Isso significa que um pedaço de carne de hambúrguer (cerca de 80g) é responsável por mais de ¼ do total de sódio que uma pessoa deve consumir durante todo o dia.

          O estudo da Anvisa também analisou os teores de sódio nos queijos. Uma amostra do queijo parmesão apresentou o maior valor absoluto de sódio, entre todas as 500 amostras da pesquisa, e atingiu a marca de 3052 mg do nutriente para cada 100 g do produto. Em segundo lugar, ficou a versão ralada do queijo parmesão. Neste caso, em uma das amostras, o teor de sódio encontrado foi de 2976 mg para cada 100 g de produto. A média de sódio no parmesão foi de 1402 mg a cada 100 g de produto. No caso do parmesão ralado, esse valor sobe para 1981 mg, valores muito superiores à média de sódio nos demais tipos de queijo analisados.

          Outro ponto avaliado pela pesquisa foi a variação do teor de sódio entre as diversas marcas de um mesmo alimento. Neste quesito, os queijos minas frescal, parmesão e a ricota fresca lideraram a lista. Essa variação na quantidade de sódio entre as diversas marcas reafirma a necessidade dos consumidores de observarem os rótulos dos alimentos industrializados2.

          A média do teor de sódio no macarrão instantâneo ficou em 1798 mg para cada 100 g do alimento. Esse valor está dentro do pactuado, em abril de 2011, entre o Ministério da Saúde e as associações das indústrias de alimentos para reduzir a quantidade de sódio nesses alimentos. O acordo prevê o valor máximo de 1920,7 mg de sódio para cada 100 g de macarrão instantâneo. Entretanto, o estudo da Agência também detectou problemas. Em termos de valor absoluto, o valor máximo de sódio encontrado em uma amostra de macarrão instantâneo foi de 2.160 mg para cada 100g de alimento, valor maior do que o acordado entre as indústrias e o Ministério da Saúde. Vale lembrar que, neste caso, já está contabilizada a quantidade de sódio presente do tempero pronto que acompanha esses alimentos.

          O consumo excessivo de sódio é considerado um fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas, tais como cardiopatias, obesidade, neoplasias, diabetes mellitus, entre outras. “Se atingíssemos a meta da OMS seria possível reduzir em 15% os óbitos por acidente vascular cerebral (AVC) e em 10% os óbitos por infarto”, afirma o diretor de Controle e Monitoramento Sanitário da Anvisa, Agenor Álvares.

Algumas orientações para reduzir o sal na dieta:

·       Além de observar o rótulo dos alimentos industrializados, a Anvisa orienta que o consumidor experimente os alimentos antes de adicionar mais sal.

·       Diminuir gradativamente o sal nos alimentos. O paladar se adapta à redução gradual da quantidade de sal nos alimentos, por isso, isso não vai afetar a percepção do sabor dos alimentos.

·       Lembrar que alimentos frescos sempre têm menos sal. Por isso, é necessário equilibrar as refeições com saladas e frutas.

·       A população deve utilizar outros temperos naturais como ervas aromáticas, alho, cebola, pimenta, limão, vinagre e azeite para temperar e valorizar o sabor natural dos alimentos, evitando o uso excessivo de sal. “A redução do consumo de sal pode ser iniciada com atos simples, como a retirada do saleiro da mesa”, complementa Álvares.

          De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2001, 60% do total das 56,5 milhões de mortes notificadas no mundo foi resultado de doenças crônicas não transmissíveis. Além disso, o aumento da pressão arterial no mundo é o principal fator de risco de morte e o segundo de incapacidades por doenças cardíacas, acidente cérebro vascular e insuficiência renal.

          Dados do IBGE indicam que, em 2009, uma em cada três crianças brasileiras na faixa de 5 a 9 anos estava com sobrepeso, sendo que a obesidade atingiu 16,6% dos meninos e 11,8% das meninas. Durante o período de 1974 a 2009, a prevalência de sobrepeso em crianças e adolescentes, entre 10 e 19 anos, passou de 3,7% para 21,7% no sexo masculino e de 7,6% para 19,4% no sexo feminino. Nesse mesmo período, o sobrepeso na população adulta masculina passou de 18,5% para 50,1%, enquanto que na feminina foi de 28,7% para 48%.

Veja a íntegra do estudo da Anvisa em: TEOR DE SÓDIO DOS ALIMENTOS PROCESSADOS

Fonte: Anvisa

NEWS.MED.BR, 2012. Anvisa publica lista de alimentos com alto teor de sódio. Biscoito de polvilho e queijo branco estão entre eles. Disponível em: <http://www.news.med.br/p/saude/322800/anvisa-publica-lista-de-alimentos-com-alto-teor-de-sodio-biscoito-de-polvilho-e-queijo-branco-estao-entre-eles.htm>. Acesso em: 3 mar. 2013.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Brasil será sede de um dos encontros mais importantes do mundo na área de física


Pela primeira vez, a Conferência Internacional de Raios Cósmicos (ICRC) será realizada na América do Sul 

A 33ª edição da ICRC (International Cosmic Ray Conference) - um dos maiores, mais importantes e mais tradicionais encontros de física do mundo - será realizado entre 2 e 9 de julho no Centro de Convenções SulAmérica, no Rio de Janeiro. Com a presença de aproximadamente mil cientistas de todo o mundo, o encontro discutirá os mais recentes resultados ligados à física dos raios cósmicos, do Sol, das explosões de raios gama e da matéria escura. As inscrições e submissão de trabalhos se encerram no dia 1º de março.

A primeira edição do ICRC ocorreu logo após o fim da Segunda Guerra Mundial,e, desde então, tem acontecido a cada dois anos. Os dois últimos encontros foram em Pequim (China), em 2011; e Lodz (Polônia), em 2009.

Mistérios da natureza - O ICRC se dedica a tópicos tradicionalmente ligados à física dos raios cósmicos e à astrofísica de altas energias e de partículas. Mas ela também atrai cientistas que trabalham com temas ligados a raios gama e neutrinos. Este ano, no Brasil, pela primeira vez, haverá a participação da comunidade que estuda a misteriosa matéria escura. Por essa razão, o ICRC adotou o subtítulo 'A Conferência da Física de Astropartículas'. Estão planejadas mais de 300 palestras científicas - em sessões plenárias e paralelas -, bem como diversas palestras para o grande público.

Inscrições e submissão de trabalhos - Inscrições e submissão de trabalhos são aceitas até 1º de março próximo pelo sítio do encontro: http://www.cbpf.br/~icrc2013/

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pesquisa agora quer analisar coração de D. Pedro


Por decisão testamentária, o coração foi doado à Igreja da Lapa, onde é mantido como relíquia na capela principal

O próximo passo do estudo da historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, revelado com exclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo na semana passada, é analisar o coração de Dom Pedro I, que está na cidade do Porto, em Portugal. Por decisão testamentária, o coração foi doado à Igreja da Lapa, onde é mantido como relíquia na capela principal.

Na primeira fase da pesquisa, Valdirene exumou restos mortais do imperador e de suas duas mulheres, Leopoldina e Amélia, guardados na cripta do Monumento à Independência, no Ipiranga, zona sul da cidade de São Paulo. O material passou por exames na Faculdade de Medicina da USP, que revelaram, entre outras coisas que Dona Amélia está mumificada.

Médicos envolvidos no estudo veem com entusiasmo a análise do coração. "A partir de uma amostra pequena, de 5 mm, já seria possível aprofundar as hipóteses da causa mortis de Dom Pedro", diz o médico Paulo Hilário Saldiva, chefe do Departamento de Patologia da USP.

Com esse tecido, especialistas poderiam tentar saber, por exemplo, se o imperador teve ou não sífilis, como historiadores afirmam. "Pelo vídeo que vimos, é possível perceber que o coração é maior do que o normal. Isso pode ser decorrência de alguma doença, como de Chagas. Ou de um problema reumático. É preciso analisar."

Em breve, um pedido formal deve ser feito à prefeitura do Porto e à Venerável Ordem de Nossa Senhora da Lapa, que administra a igreja. Segundo Valdirene, será apresentado um projeto detalhado e, dependendo da receptividade, pesquisadores poderão solicitar a vinda do órgão ao Brasil para tomografia na Faculdade de Medicina da USP.

Hoje, duas entidades são responsáveis pelo coração de Dom Pedro: a prefeitura do Porto e a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, a quem a filha do imperador brasileiro, a rainha portuguesa D. Maria II, atribuiu por decreto régio a função de manter o coração do pai.

O jornal O Estado de S. Paulo apurou em Portugal que os responsáveis pelo coração estão abertos a que se retire uma amostra para estudo. Mas impõem como condição a garantia de sua integridade. Sobre a possibilidade de trazê-lo ao Brasil, ainda não se manifestaram. "Não há obstáculo nenhum ao estudo. Mas nesse momento não é aconselhável abrir o frasco com o coração, porque está muito frágil", afirmou o provedor da Irmandade, Joaquim França do Amaral.

"Atualmente, ele é aberto apenas uma vez a cada dez anos, para troca do líquido de conservação, uma solução de Kaiserling." Um dos receios é que essa solução de Kaiserling possa ter efeito diferente do formol, substância atualmente usada para conservar órgãos.

Na prefeitura do Porto, a condição é de que seja feito um pedido oficial: "É uma questão que terá de ser analisada profundamente pelas autoridades", informou o chefe da Divisão de Relações Internacionais e Protocolo da prefeitura, João Paulo Cunha. 

(O Estado de São Paulo)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Fisicos Criam um Cristal Quase Vivo

Após três bilhões de anos, a química inanimada tornou-se parte de algo biológico, formando a vida.
Um composto recém-sintetizado está se comportando de modo assustadoramente realista, como se estivessem vivos.

As partículas não estão realmente vivas, obviamente, mas elas não estão longe disso também. Expostas à luz e “alimentadas” por produtos químicos, elas formam cristais que se movem, se rompem e formam-se de novo.

“Há uma fronteira que não conhecemos entre o vivo e o não vivo. Isso é exatamente o tipo de questão que tais descobertas levantam”, declarou o biofísico Jérémie Palacci da Universidade de Nova York em entrevista a revistaWired.

Palacci e seu colega Paul Chaikin, lideraram um grupo de pesquisadores que desenvolveram as partículas, relatadas no dia 31 de janeiro na Science, classificadas como cristais “vivos” em determinadas condições químicas.
Cada partícula é feita a partir de um cubo microscópico de hematita, um composto constituído de ferro e oxigênio revestido por uma camada de polímero esférico, mas com um pequeno canto exposto.

Sob certos comprimentos de onda de luz azul, a hematita conduz eletricidade. Quando as partículas são colocadas em solução de peróxido de hidrogênio (mais conhecido como água oxigenada) sob essa luz, começam reações químicas em torno das pontas expostas.

Como o peróxido de hidrogênio se decompõe, um gradiente de concentração é formado. As partículas então viajam até esse ponto exposto, agregando cristais que também seguem esse gradiente.

Forças aleatórias puxam os cristais que estão separados, mas eventualmente eles se fundem de novo. O processo se repete, paralisando apenas quando as luzes se apagam.

O trabalho em questão visa entender como esses complicadíssimos comportamentos coletivos surgem de simples propriedades individuais.
“Aqui nós mostramos que com um sistema simples, sintético e ativo, podemos reproduzir algumas características dos sistemas vivos. Eu não acho que isso se comporte exatamente como nossos sistemas vivos, mas enfatiza o fato de que o limite entre o vivo e o não vivo é um tanto arbitrário”, declarou Palacci.
Chaikin ainda comentou que a vida é algo muito difícil de definir, mas podemos dizer que é algo que possui metabolismo, mobilidade e capacidade de se auto-replicar. Esses cristais possuem essas duas primeiras características, não a última.

Alguns cientistas acreditam que os blocos de construção da vida existiram de modo semelhante, indo e voltando durante milhões de anos, até conseguirem a característica de se reproduzirem.
Fonte: Osmairo Valverde, Jornal Ciência de 04.02.2013

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Alimentos crus não suprem as necessidades de grandes cérebros



Por Murilo Sérgio da Silva Julião

 

          Fazer uma dieta baseada em alimentos crus pode se tornar uma receita para o desastre, se você estiver pensando em aumentar a força do cérebro de sua espécie. Isto porque os seres humanos teriam que gastar mais de 9 horas por dia se alimentando somente de alimentos não processados (in natura) a fim de obter energia em quantidade suficiente para sustentar nossos grandes cérebros, de acordo com um novo estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciencesa (PNAS) que calculou o custo energético gasto no crescimento de um cérebro enorme ou do corpo dos primatas. Entretanto, nossos antepassados conseguiram obter energia suficiente para fazer com que os cérebros deles apresentassem três vezes mais neurônios do que primatas como: gorilas, chimpanzés e orangotangos. Como eles fizeram isso? Eles cozinhavam, de acordo com o estudo publicado na PNAS hoje on-line nos Anais da Academia Nacional de Ciências.

          "Se você comer apenas alimentos crus, um dia de 24 horas não será suficiente para se obter a quantidade de calorias necessária a fim de desenvolver um cérebro tão grande", afirma Suzana Herculano Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, coautora do trabalho. "Podemos obter mais neurônios, graças ao ato de cozer."

          Os seres humanos têm mais neurônios no cérebro do que qualquer outro primata – aproximadamente 86 bilhões, em média, em comparação com os cerca de 33 bilhões de neurônios em gorilas e 28 bilhões em chimpanzés. Para termos essa quantidade extra de neurônios que nos dota de muitos benefícios, necessitamos pagar um preço, uma vez que nosso cérebro consome 20% de toda a energia do corpo, quando em repouso, em comparação com os 9% em outros primatas. Então, uma pergunta que tem sido feita ao longo do tempo é: de onde os nossos ancestrais obtinham energia extra para expandir as mentes e como estas evoluíram a partir de animais com cérebros e corpos do tamanho dos chimpanzés?

          Uma resposta veio no final da década de 1990, quando o primatologista Richard Wrangham da Universidade de Harvard, propôs que o cérebro começou a expandir-se rapidamente a cerca de 1,8 milhões de anos atrás no nosso antepassado, o Homo erectus, pois este ser humano aprendeu muito cedo a assar carne e vegetais de raízes tuberosas sobre fogueiras. Cozinhando, pré-digerimos efetivamente os alimentos, tornando mais fácil e eficiente para os nossos intestinos absorverem calorias mais rapidamente, Wrangham afirmou em seu trabalho. Desde então, o seu grupo de colaboradores tem mostrado em estudos com cobaias de laboratório, como roedores e jiboias que estes animais crescem mais rápido e se tornam maiores quando comem carne cozida em vez de carne crua e que é necessário menos energia para digerir carne cozida do que carne crua.

          Em um novo teste desta hipótese do cozimento de alimentos, Herculano Houzel e sua estudante de graduação, Karina Fonseca Azevedo, neurocientista do Instituto Nacional de Neurociência Translacional, em São Paulo, decidiram observar se uma dieta de alimentos crus inerentemente poriam limites no crescimento do cérebro ou corpo de um primata. Primeiro, elas contaram o número de neurônios nos cérebros de 13 espécies de primatas (e mais de 30 espécies de mamíferos). As pesquisadoras descobriram duas coisas: (i) que o tamanho do cérebro está diretamente ligado ao número de neurônios num cérebro e (ii) que o número de neurônios está diretamente correlacionado com a quantidade de energia (ou calorias) necessária para alimentar um cérebro.

          Após o ajuste para a massa corporal, elas calcularam quantas horas por dia vários primatas levariam para ingerir calorias de alimentos crus suficientes para abastecer seus cérebros. Elas descobriram que levariam 8,8 horas para os gorilas; 7,8 horas os orangotangos; 7,3 horas para os chimpanzés e 9,3 horas para a nossa espécie, H. sapiens.

          Esses números mostram que há um limite superior para a quantidade de energia que os primatas precisam obter a partir de uma dieta de alimentos crus, disse Herculano-Houzel. A dieta dos macacos na natureza difere de uma dieta moderna "baseada em alimentos crus", na qual os seres humanos obtêm calorias suficientes a partir do processamento de alimentos crus em liquidificador, acrescidos de proteínas e outros nutrientes. Na natureza, outros macacos não puderam evoluir o tamanho dos cérebros, a menos que reduzissem o tamanho de seu corpo pois não poderiam passar o limite de quantas calorias poderiam consumir em 7 horas para 8 horas de alimentação por dia. Mas os seres humanos, diz ela, ficaram em torno daquele limite, pelo cozimento. "A razão pela qual temos mais neurônios do que qualquer outro animal vivo é que o cozimento dos alimentos permitiu esta mudança qualitativa – esta etapa proporcionou o aumento do tamanho do cérebro", disse ela. "Ao cozinhar, conseguimos contornar a limitação do quanto se pode comer em um dia".

          Mas para Herculano Houzel, nossos cérebros ainda seriam do tamanho de um macaco caso o Homo erectus não tivesse brincado com fogo: "Quanto mais eu penso sobre isso, mais eu me curvo a minha cozinha. O fogo é a razão de estarmos aqui."

O CNPq não acha meu trabalho digno de financiamento!

 
 
Artigo de Suzana Herculano Houzel*, publicado em seu blog
       Ah, as inconsistências do sistema de financiamento da ciência no Brasil. Meu laboratório nunca esteve mais produtivo; nosso trabalho na PNAS, um de OITO publicados em revistas internacionais este ano (e, aliás, o segundo na PNAS deste ano) acabou de sair, com um baita reconhecimento mundo afora; e então... descubro que nosso projeto de pesquisa não teve seus recursos renovados pelo CNPq para o ano que vem. Veja bem: não foi pedido de auxílio novo, e sim de renovação de um projeto super bem sucedido. O comunicado oficial diz que "sua proposta (...) teve o seu mérito reconhecido. No entanto, na análise comparativa com as demais propostas, o seu pedido não alcançou classificação que permitisse o atendimento."
       Pensei em escrever para o CNPq para pedir reconsideração, mas depois que olhei a lista de agraciados, estou quase mudando de ideia: no meu comitê de avaliação (morfologia), foram agraciados TODOS nossos professores titulares no Instituto, e mais dois ou três professores sêniors. Até aqui é "só" coincidência entre titulação e aprovação. Mas aí começam as estórias de horror nada científico no Facebook, como relatos de pesquisadores que têm seu projeto repetidamente recusados sob seu próprio nome, MAS quando submetem o mesmo projeto com o nome do chefe sênior, professor titular, diretor disto e daquilo... o projeto miraculosamente é aprovado.
       Aiai. Se eu entrar com recurso e ganhar, daqui a três anos estarei novamente competindo em pé de desigualdade com meus colegas titulares. Mas se eu não entrar com recurso agora, concorro de novo ano que vem, quando eles não estarão concorrendo, e quem sabe assim minhas chances de uma disputa mais justa, por produtividade, serão maiores... É, fazer ciência no Brasil também tem dessas. Que se dane a produtividade, se você não é a bola da vez.
       O irônico é que, enquanto o CNPq acha que o nosso projeto não é digno de ter seus recursos renovados, a revista Science teve uma repercussão tão grande em seu site da matéria que eles publicaram sobre nosso artigo na PNAS que me convidou para participar do chat semanal deles esta semana, na quinta-feira dia 8 de novembro, de 17:45 - 19:45 horário de Brasília, em http://news.sciencemag.org/sciencelive/
       Aliás, tem sido realmente instrutivo ver a repercussão na mídia desse nosso trabalho. Mundo afora, vários jornais comentaram, e o posdoc polonês no meu laboratório diz que foi o assunto da semana passada por lá (ele deve estar exagerando um pouco, mas de qualquer forma fico honradíssima). No Brasil, até a revista Claudia vai fazer uma matéria a respeito. A Fundação James McDonnell, nos EUA, nosso maior financiador, ficou felicíssima com a notícia. Mas os sites da Faperj e do CNPq? Nem mencionaram o assunto. Não recebi qualquer contato de jornalistas deles - que eu sei que existem, e recebem os mesmo press releases que os jornalistas estrangeiros que me ligaram até no meio da noite deles para conseguir uma entrevista, como foi o caso de uma estação de rádio na Nova Zelândia.
       Esta tem sido minha "vingança", ou no mínimo meu consolo: eu tenho reconhecimento... fora do meu país. No momento, por exemplo, estou em Cancun com todas as despesas pagas pelo IBRO para dar um curso e uma de seis ou oito palestras plenárias na reunião internacional da Federação de Sociedades de Neurociência da América Latina. Ano que vem dou palestra em uma reunião em Cambridge, e serei uma de seis palestrantes convidados, também com tudo pago, na Reunião Europeia sobre Glia, em Berlin.
Ou seja: os estrangeiros me chamam para representar nossa ciência lá fora - mas o CNPq não acha que meu projeto é prioritário o suficiente para merecer continuar sendo financiado. Então tá. Meu marido, que é americano, está começando a me perguntar "por que mesmo você ainda trabalha no Brasil???" Vamos ver quanto tempo eu duro...
 
*Suzana Herculano Houzel é neurocientista e pesquisadora no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ
 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

NASA envia Mona Lisa para Lua para testar comunicação a laser

NASA envia Mona Lisa para Lua para testar comunicação a laser
Comunicação a laser
A NASA fez a primeira demonstração prática de comunicação a laser com a Lua.
Para isso, um laser localizado no Centro Espacial Goddard transmitiu uma imagem do quadro Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, para a sonda espacial LRO, que está orbitando a Lua desde 2009.
A sonda LRO (Lunar Reconnaissance Orbiter) ficou conhecida por fazer asprimeiras fotos dos locais de pouso dos astronautas da Lua, mas foi ela também que traçou o mapa mais preciso já feito do nosso satélite.


Cumpridas as etapas científicas principais da missão, os controladores puderam começar a testar outros equipamentos de demonstração tecnológica que a sonda levava a bordo.
O principal deles é um sistema móvel de laser que permite a troca de dados com a Terra.
Mona Laser
A imagem digitalizada da Mona Lisa teve seus bits transmitidos em pulsos de laser, em uma espécie de código Morse espacial.
A imagem foi convertida em uma matriz de 152 por 200 pixels. Cada pixel foi convertido em tons de cinza, representados por um número entre zero e 4.095.
Cada pixel foi transmitido por um pulso de laser, cada pulso sendo disparado em um de 4.096 intervalos de tempo possíveis, durante uma janela de tempo determinada.
Os erros de transmissão, gerados por flutuações no sinal induzidos pela atmosfera terrestre, foram corrigidos com os mesmos algoritmos usados pelos aparelhos de CD e DVD.
"Esta é a primeira vez que se consegue realizar uma comunicação a laser unidirecional a distâncias planetárias," disse David Smith, do MIT, responsável pelo equipamento a bordo da sonda, chamado LOLA (Lunar Orbiter Laser Altimeter).
NASA envia Mona Lisa para Lua para testar comunicação a laser
Os erros de transmissão, gerados por flutuações no sinal induzidos pela atmosfera terrestre, foram corrigidos com os mesmos algoritmos usados pelos aparelhos de CD e DVD. [Imagem: Xiaoli Sun/NASA Goddard]
Comunicação espacial de alta velocidade
O projeto LCRD (Laser Communications Relay Demonstration) também pretende lançar as bases para o estabelecimento de uma "presença virtual" no espaço, em outro planeta ou em um outro corpo do Sistema Solar, inicialmente para o controle de robôs espaciais.
"No futuro próximo esse tipo simples de comunicação a laser poderá servir como backup para a comunicação por rádio que os satélites usam. No futuro mais distante, ele poderá permitir a comunicação a velocidades mais altas do que os links de rádio atuais podem oferecer," explicou Smith.
Para comparação, a sonda MRO (Mars Reconnaissance Orbiter) leva 90 minutos para transmitir uma única foto de Marte em alta resolução. Com um sistema a laser, com capacidade de 500 Mbps, essa mesma foto chegaria à Terra em cerca de 1 minuto.
A imagem completa da Mona Lisa, usando o sistema experimental, foi transmitida a uma taxa de dados de cerca de 300 bits por segundo.
O próximo teste de comunicação a laser no espaço será feito com a sonda espacial LADEE (Lunar Atmosphere and Dust Environment Explorer), que deverá ser lançada até o final deste ano, levando a bordo um sistema capaz de trocar dados em alta velocidade, a até 622 Mbps.
Fonte:http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=nasa-envia-mona-lisa-lua-testar-comunicacao-laser&id=010130130120