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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Artigos adormecidos

Para estudar o processo científico e aperfeiçoar sistemas de avaliação, pesquisadores analisam papers inovadores que têm reconhecimento tardio.

BRUNO DE PIERRO Pesquisa FAPESP, n. 256, junho 2017.

        

           Pesquisadores que acompanham a produção científica de sua área sabem que bons papers nem sempre têm repercussão instantânea. Não chega a ser incomum que ideias inovadoras demorem um pouco para ter sua importância assimilada – vencedores do prêmio Nobel, com frequência, são premiados por contribuições feitas há muitos anos, às vezes décadas –, assim como acontece de surgirem aplicações baseadas em conceitos já conhecidos, que ganham relevância extemporânea. Especialistas da área de cientometria, ramo que estuda aspectos quantitativos da produção do conhecimento, apelidaram de “belas adormecidas” os artigos que despertam interesse anos ou até décadas depois de terem sido divulgados. E passaram a estudá-los como expressões do fenômeno do reconhecimento tardio da produção científica.

            Um caso famoso e extremo foi o do virologista norte-americano Francis Peyton Rous, que em 1911 publicou um artigo demonstrando que alguns tipos de câncer de pele observado em aves eram causados por vírus de RNA, os retrovírus. A importância do trabalho só se tornou visível em 1951, depois que um vírus da leucemia foi isolado, definindo o início da associação entre infecções causadas por esses organismos e o câncer. Em 1966, Rous foi agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina. Episódios semelhantes foram analisados em estudos que buscam compreender a natureza dos artigos adormecidos e identificar quais fatores contribuem para despertá-los.

            Para o físico Anthony Van Raan, pesquisador da Universidade de Leiden, na Holanda, é preciso ter em mente que os artigos adormecidos com potencial de provocar mudanças de paradigma são bastante raros, o que torna a identificação deles uma tarefa complicada. “Em sua enorme maioria, artigos que passam despercebidos continuarão assim para sempre simplesmente porque não são interessantes”, comenta Raan, que cunhou pela primeira vez o termo “belas adormecidas” (sleeping beauties) para se referir a papers que tardaram a ser reconhecidos e a ter impacto. Seus trabalhos mais recentes buscam identificar os “príncipes” responsáveis por quebrar o encanto e deflagrar o interesse por esses artigos.

            Em artigo publicado em fevereiro na revista Scientometrics, Raan mostrou que, na área de física, 16% dos artigos adormecidos indexados ao Web of Science foram despertados quando mencionados em patentes. Observou também que o intervalo de tempo entre o ano de publicação de um artigo adormecido e sua primeira citação em uma patente diminuiu a partir do início da década de 1990. “Isso pode significar que artigos adormecidos com importância tecnológica, talvez invenções potenciais, estão sendo descobertos cada vez mais cedo”, sugere Raan. Segundo ele, é comum que bons artigos que possam passar despercebidos apresentem conceitos ou tecnologias que estão à frente de seu tempo. Em 1958, por exemplo, foi publicado um artigo que descrevia uma forma eficiente de obter óxido de grafite em larga escala. O estudo só começou a ser citado em 2007, quando se descobriu que o óxido de grafite poderia ser utilizado na obtenção, em escala industrial, do grafeno, material extremamente duro e maleável, caracterizado como uma folha de carbono com espessura atômica e detentor de propriedades elétricas, mecânicas e ópticas.

            O físico Ado Jório de Vasconcelos, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicou em 2002 um paper no qual descrevia a aplicação de uma técnica conhecida como espectroscopia Raman na identificação das propriedades de nanotubos de carbono, considerados bons condutores térmicos. “O artigo passou a ser citado intensamente apenas a partir de 2010, quando a comunidade científica começou a dar importância para o estudo da anomalia de Kohn, uma característica vibracional dos núcleos atômicos que se acoplam nos elétrons. Esse fenômeno era conhecido em materiais metálicos. Meu trabalho já evidenciava que também era uma característica dos nanotubos”, conta Jório, que em 2016 foi incluído na lista dos 3 mil cientistas “mais influentes” do mundo, divulgada pela empresa Thomson Reuters.

 

Avaliação
            Estudos sobre o reconhecimento tardio de papers também buscam aperfeiçoar os sistemas de avaliação da ciência, muitos deles baseados em indicadores que privilegiam o impacto obtido em curto prazo. Um trabalho publicado em abril na revista Nature sugere que artigos científicos que deram contribuições transformadoras, mesmo não se enquadrando propriamente no conceito de belas adormecidas, demoraram em geral mais tempo para repercutir do que aqueles que produziram avanços incrementais. “Observamos que pesquisas realmente inovadoras recebem citações a longo prazo, a partir de sete anos após a publicação”, disse à Pesquisa FAPESPJian Wang, pesquisador da Universidade de Leuven, na Bélgica, um dos autores do estudo. O estudo concluiu que indicadores bibliométricos que utilizam um período de citação de apenas três anos são claramente ineficientes para avaliar pesquisas cujos resultados necessitam de tempo para serem compreendidos.

            Wang e sua equipe analisaram citações de mais de 660 mil artigos publicados em 2001, em todas as áreas do conhecimento, indexados na base de dados Web of Science. Verificaram que 89% dos manuscritos apresentavam um baixo grau de inovação. Para caracterizar quais artigos seriam considerados inovadores foram selecionados trabalhos que apresentavam referências bibliográficas inusitadas, combinando autores e áreas do conhecimento de forma distinta do padrão de cada área. “Um método para verificar se um artigo contém novas ideias e conceitos é olhar sua capacidade de combinar diferentes referências bibliográficas de maneira inédita. Essa característica pode apontar a natureza mais arriscada da pesquisa”, explica Wang.
            Observou-se que, no período de três anos após a publicação, a probabilidade de que um artigo muito inovador estivesse no conjunto dos 1% altamente citados era menor que a dos demais. Segundo o estudo, os trabalhos que receberam muitas citações logo nos três primeiros anos tenderam a ficar obsoletos. “Já aqueles considerados disruptivos, com alto grau de novidade, representavam 60% dos trabalhos mais citados 15 anos após a publicação”, explica Wang. Ele conclui que, embora agências de fomento sustentem a importância de investir em pesquisas de caráter transformador, seus sistemas de avaliação acabam privilegiando estudos incrementais ao utilizar os indicadores de impacto mais populares. “O uso generalizado de parâmetros como o número de citações por agências de apoio e revisores pode desencorajar pesquisas com potencial de quebrar paradigmas”, sugere Wang.
            Como exemplo de órgãos que utilizam de alguma forma indicadores bibliométricos em seus processos de avaliação, o estudo cita o Conselho Europeu de Pesquisa (ERC), a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China, a Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NSF) e a brasileira Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que criou o sistema Qualis de classificação de periódicos científicos. Rita Barradas Barata, diretora de Avaliação da Capes, explica que, para supervisionar os cerca de 4.200 programas de pós-graduação no país, a instituição monitora a produção científica de professores e alunos. “Como é impossível medir a qualidade de cada um dos mais de 800 mil artigos publicados pelos programas, fazemos uma classificação dos veículos nos quais os trabalhos são publicados”, informa. Para isso, são levados em consideração em várias disciplinas indicadores como o Journal Impact Factor (JIF), apontado no estudo de Wang como uma das ferramentas que desfavorecem artigos que demoram para serem reconhecidos.
            Rita reconhece que as instituições se acostumaram a concentrar sua atenção em artigos muito citados no curto prazo. “Há a tendência de orientar o olhar para aquilo que os indicadores bibliométricos dizem que é bom no momento.” Uma ideia em discussão, segundo a diretora, é que as agências e instituições de pesquisa adotem algum tipo de política de prospecção, na tentativa de garimpar temas que podem estar sendo subestimados. Na avaliação de Wang, as agências não precisam buscar formas de favorecer pesquisadores pouco citados. “Basta julgarem cada proposta por seu próprio mérito, o que é difícil de fazer. Sistemas de avaliação por pares são um bom contraponto para o uso excessivo de métricas”, afirma.

Fator de impacto
            Em estudo publicado em 2015 na revista PNAS, pesquisadores da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, analisaram 22 milhões de papers publicados ao longo de 100 anos, indexados aos arquivos da American Physical Society e da Web of Science, e verificaram que a maior parte dos artigos que permaneceram adormecidos por longos períodos de tempo, e depois tornaram-se célebres em suas áreas, é de química, física e estatística. O estudo dos pesquisadores de Indiana chama a atenção para o fato de que o próprio conceito de “fator de impacto” permaneceu escondido em um artigo publicado em 1955 por Eugene Garfield. No artigo, Garfield, que morreu em fevereiro, apresenta ideias e conceitos que mais tarde seriam usados para consolidar a base de dados Web of Science, da Thomson Reuters. “O paper esteve adormecido por quase 50 anos, até se tornar popular no início dos anos 2000 e ser citado em trabalhos sobre bibliometria, alguns do próprio Garfield”, informa o estudo.
            Van Raan explica que, embora se concentrem mais nas ciências exatas, os artigos adormecidos podem ser encontrados em praticamente todas as áreas do conhecimento. “Estou começando a investigar as áreas médicas e também as ciências sociais e espero descobrir coisas interessantes”, conta Raan, que aposta no desenvolvimento de programas de computador capazes de identificar belas adormecidas da ciência.
            Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP, vê com naturalidade o fato de bons artigos não receberem, à primeira vista, o devido reconhecimento. “Pesquisas com ideias muito diferentes do mainstream demoram para ser digeridas pela comunidade científica, que muitas vezes reage com estranhamento e até com preconceito a novas ideias”, explica. Segundo ele, os estudos que tentam analisar os artigos adormecidos podem cumprir um papel importante. “Podem nos fornecer pistas para entender por que grandes ideias passam despercebidas.
            Trata-se de uma oportunidade de alertar as editoras a pensarem estratégias de tornar os artigos mais visíveis e legíveis, porque hoje o grau de especialização nas pesquisas é excessivo, o que dificulta o entendimento até para quem é da própria área de pesquisa”, observa. Para Ado Jório, cabe ao autor da pesquisa esforçar-se para divulgar seus trabalhos, especialmente quando sabe que está propondo algo que bate de frente com o paradigma vigente. “Não basta publicar o artigo e torcer para que ele seja lido, compreendido e citado. É preciso participar de congressos, conferências e debates, procurando sempre falar sobre sua pesquisa com as pessoas que possam se interessar por ela”, recomenda.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Cadê os mortos da fosfoetanolamina?



Artigo de Roxana Tabakman para o Observatório da Imprensa

A história já é conhecida por todos. A pílula “milagrosa” contra o câncer era distribuída inexplicavelmente pela nossa melhor universidade, a loucura um dia parou, as pessoas choraram em frente às câmeras e logo seus promotores conseguiram apoio de juízes e políticos ineptos. Diante da repercussão, os ministérios de Ciência, Tecnologia e Inovação e Saúde acharam dinheiro que ninguém sabia que tinham e estão promovendo pesquisas. A parte da sociedade que está bem informada já compartilha os primeiros resultados.
A fosfoetanolamina não cura: as primeiras evidências mostram não apenas que não funciona, como provavelmente aumentaria os processos tumorais. E nem sequer é fosfoetanolamina, acrescentam os relatórios. As cápsulas que se distribuem contêm apenas 32% de essa substância e o resto são outros ingredientes. Como se à República faltassem problemas e a Anvisa não existisse, o último capítulo desta nefasta história é um projeto de lei que prevê a livre produção e comercialização da substância. Ou seja, a decisão de o que fazer com os pacientes com câncer aguarda agora o posicionamento da presidente Dilma.
Nesta questão dolorosa, a população está unida pela sensação de vergonha. Mas ao repassar os comentários dos leitores, as matérias, os vídeos e os posts, fica claro que essa sensação não acomete a todos pelas mesmas causas. Uma parte dos brasileiros está chocada pela postura de líderes e governantes que, apesar das evidências em contrário, ainda defendem a pílula como fonte de esperança. Outros, pelo contrário, ainda acreditam nos seus impulsores e veem no assunto toda uma conspiração da indústria farmacêutica internacional.
Depois de seguir durante meses o assunto na mídia, abrigo a sensação de que, de maneira geral, a imprensa entende bem a situação científica e informa corretamente, porem está fazendo algo errado. Se o objetivo é tirar dos enganados a bolha de esperança que lhes turva a visão, não tenho certeza de que o esteja conseguindo.

As estratégias dos programas de entretenimento
Quando começou a confusão, os blogueiros e vlogueiros científicos saíram na frente. Pirula, um dos mais conhecidos divulgadores científicos do YouTube, fez um vídeo muito claro  que dava resposta a muitas das perguntas que as pessoas faziam. Mas logo teve que fazer uma nova filmagem para responder questões do público que para outros já eram óbvias. Durante longos meses, ele e outros cientistas e comunicadores de ciência continuaram dando show de bola não apenas nas análises técnicas, como nas leituras sociais. Tomo como exemplo Maurício Tuffani, que em seu blog na Folha descreveu a situação como “um lamentável exemplo da corrupção da democracia por meio da demagogia”, ou Carlos Orsi, que lamentou que o relatório venha a ser “ignorado pelas vítimas do verdadeiro culto que se formou em torno da substância e pelos abutres, de diferentes plumagens, que esperam transformar o desespero dos doentes em votos ou dinheiro”. Destaco aqui também o trabalho minucioso de uma mulher, Natalia Pasternak Taschner, que no blog “Café na bancada” faz 18 perguntas claras que ainda não têm resposta.
“Enquanto essas questões permanecerem sem reposta, não há como saber se a motivação do grupo do IQSC (Instituto de Química de São Carlos) foi messiânica, ingênua ou de má-fé. Entretanto, é no mínimo curioso que até agora ninguém tenha se interessado em respondê-las e dar uma satisfação para a sociedade”, conclui Natalia.
A mídia escrita, de forma geral, ficou também do lado da ciência. Com menos avaliação própria e muita menos profundidade do que os blogueiros, a imprensa limitou-se a apresentar as diferentes opiniões médicas e científicas, cumprindo o seu rito de divulgar todos os fatos e deixando quase sempre bem claro que frágil era o peso das evidências que lhes eram oferecidas. Essa visão crítica foi aumentando com o tempo. Então, se todo mundo fala que a fosfoetanolamina contra o câncer é uma grande mentira, por que o assunto ainda não morreu? Há muitas explicações possíveis. A única certeza é que a culpa não é do público que gosta de ser enganado.
Uma possibilidade é que talvez os que colocam os dedos no teclado fiquem longe demais das estratégias dos programas de entretenimento (Ratinho e outros) que apoiam a fosfo. Informam sem tocar as emoções, não se preocupam em procurar histórias verdadeiras que apoiem as ideias que estão difundindo. Em palavras mais afiadas, as matérias que mostram que as cápsulas da USP não servem para nada são blocos de gelo. Cadê os mortos da fosfoetanolamina?

O jornalismo científico deveria mudar
Contrapor às crenças irracionais as mesmas ferramentas que são usadas para divulgá-las (concretamente, mostrar depoimentos pessoais) é um caminho pouco explorado. Mas funcionou, pelo menos parcialmente, no caso de Julian Rodriguez, que foi mencionado neste site na matéria “Justiça para Mario Rodriguez”. No mês passado, o pai de Mario, cujo caso é apresentado como de uma vítima das pseudociências, teve uma pequena alegria: o processo ao “médico alternativo” parcialmente responsável da sua morte foi reaberto.
O jornal El País titulou a matéria “A mi hijo lo ha matado la incultura cientifica” mas, quase uma advertência à imprensa para melhorar o conhecimento científico da população. É verdade: hoje, mais do que nunca, a mídia precisa explicar em palavras claras e simples os antecedentes históricos de como seria a nossa vida se não existissem regras definidas na experimentação e uso de substâncias medicamentosas. Mas a educação científica pode não ser suficiente para acabar com o problema.
Talvez tenha chegado a hora de uma autocrítica: perguntar-nos se a imprensa crítica à fosfoetanolamina não está contando a história incompleta. Não há dúvida que divulgar assuntos médicos sem ouvir a voz dos pacientes é contar apenas uma parte; porém, às vezes, não parecemos conscientes das consequências da deficiência. Não é preciso ter tido uma educação menos privilegiada para cair na armadilha de acreditar na mulher que fala em frente à câmera que sem a fosfoetanolamina não estaria viva para contar a história. Isso é simplesmente possível com uma mente menos focada em dados laboratoriais e mais em histórias, com a empatia mais desenvolvida do que o ceticismo. O hábito da imprensa de desatender essas sensibilidades pessoais poderia estar afastando o nosso público da compreensão total da realidade que tentamos divulgar.
Há muita polêmica no jornalismo científico, mas pertenço ao grupo que considera que deveriam se fazer mudanças profundas porque estamos fracassando. Na luta contra os “milagres”, são muitas as vezes que não conseguimos mostrar o nosso lado. Neste contexto, é interessante a iniciativa de um engenheiro do nome Tim Farley que utiliza histórias humanas para promover o pensamento crítico.

Uma realidade que é triste, mas não é visível
No site whatstheharm.net (Qualeodano.net, em tradução livre), Farley divulga com nome, foto e cidade casos reais de pessoas que morreram por “acreditar” errado. Provavelmente por se tratar de um esforço individual de jornalismo-cidadão sem objetivo de lucro, é bastante incompleto, mas vale pela ideia. Inclui desde vítimas de ervas chinesas supostamente inofensivas até pessoas que, no momento inadequado, ouviram conselhos inadequados (de homeopatas que na hora certa não souberam dizer “vá logo para um hospital”). Para mostrar até onde podem chegar as consequências de acreditar em inverdades, Tim Farley inclui entre as vítimas 365 mil sul-africanos: o número se baseia numa pesquisa da Universidade de Harvard referente a um fato histórico. No ano 2000, o presidente Thabo Mbeki ainda não “acreditava” que o vírus HIV era a causa da Aids e por cinco anos o país inteiro manteve doentes sem tratamento em consequência do engano em que caiu Mbeki.
As pessoas que caíram na promessa enganosa da fosfoetanolamina não devem ser desprezadas. Muito pelo contrário, devem ser procuradas para a cobertura jornalística completa, para mostrar as vidas por detrás do fracasso que mostra a ciência. Entrevistar os familiares de alguns dos milhares que morreram “apesar da fosfoetanolamina” exige tempo, sensibilidade e paciência. Nem sempre é fácil convencer indecisos, temerosos e fóbicos a divulgarem à imprensa sua intimidade, especialmente se foram enganados. Mas eles têm que entender que é um serviço importante para a comunidade porque mesmo sem terem um final feliz de esperança para contar, podem ajudar a outros a evitar situações de dor ainda mais profundas por causa do engano.
Dificilmente conseguimos informar bem sobre assuntos de saúde e doença se antes não tomamos consciência da fragilidade humana. Todas as pessoas querem saber, mas há muitos para quem as verdades ficam inacessíveis porque, como os daltônicos que não conhecem as cores, têm dificuldade para processar a informação de forma puramente analítica. Para essas pessoas pode ser difícil entender que os efeitos podem não ser reais, mas uma simples miragem provocada por situações aleatórias.
Para fazer um bom jornalismo de assuntos médicos complexos, como o da fosfoetanolamina, não basta ir pelo caminho fácil de amplificar o que mostram os especialistas. Seria bom a imprensa se esforçar mais, não apenas para dar a informação correta, mas para mostrar uma realidade que é triste, mas que, infelizmente, não é visível para todo mundo.

*Roxana Tabakman é bióloga e jornalista. É autora de A saúde na mídia – Medicina para jornalistas, jornalismo para médicos, Ed. Summus

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Entre promover e fiscalizar

Em artigo para a Revista Piauí, publicado no dia 16 de junho, o jornalista Bernardo Esteves fala sobre a tensão entre jornalismo científico e divulgação


O jornalismo científico precisa de menos ciência e mais jornalismo? Essa foi a provocação que motivou talvez a mais interessante sessão de uma conferência que reuniu centenas de repórteres e editores especializados de todo o mundo na semana passada em Seul. A proposta era retomar um debate que reverbera há tempos entre praticantes e estudiosos do gênero: a tese de que os jornalistas devem agir menos como porta-vozes que relatam as novidades da ciência sem maiores questionamentos, e mais como fiscais que noticiam as atividades científicas sob luz crítica e espírito investigativo.
A plateia foi orientada a se posicionar em função de suas convicções – aqueles que concordavam e discordavam dessa tese sentaram-se frente à frente, à imagem da disposição dos assentos no parlamento britânico, o que deu dinamismo ao debate. Quem mudasse de opinião durante a discussão podia se levantar e bandear para o campo oposto; outras questões foram colocadas em pauta durante a sessão para o julgamento da audiência.
Antes que a palavra fosse aberta ao público, representantes dos dois pontos de vista fizeram uma breve exposição de seus argumentos. A defesa de que é preciso mais jornalismo e menos ciência coube ao britânico Andrew Jack, jornalista do Financial Times. Jack criticou os veículos que pautam sua cobertura predominantemente pela publicação de artigos científicos nos periódicos com revisão por pares.
“Precisamos tirar mais os cientistas da sua zona de conforto e aproveitar sua expertise fora do ciclo de publicação acadêmica”, afirmou. Para o britânico, os jornalistas têm a obrigação de questionar os fundamentos dos estudos científicos, apontar casos de fraude e manipulação de dados e discutir a forma como os recursos estão sendo empregados. “O jornalismo de ciência deveria sempre questionar aspectos como a responsabilidade dos cientistas, dinheiro, poder, as forças maiores que movem a sociedade”, concluiu.
Para defender a visão oposta, a escalada foi a repórter francesa Émilie Martin, da revista Ciel et Espace. Martin defendeu que o jornalismo de ciência difere dos demais gêneros noticiosos pela dificuldade técnica intrínseca aos temas tratados. Em sua avaliação, para os profissionais que não dominam a linguagem matemática é praticamente impossível compreender a produção científica.
“Creio que desempenhamos um duplo papel”, defendeu a francesa. “Por um lado, temos que relatar os fatos de forma honesta, mas temos ainda que agir como intermediários entre o público e os cientistas. Em outras palavras, somos também educadores”, afirmou. Mas isso não deprecia o papel dos jornalistas, frisou Martin – “apenas torna nosso trabalho mais difícil”.
Jornalismo vs. Divulgação
O debate promovido em Seul retomou uma velha discussão entre jornalistas e estudiosos da área, já tratado numa série de ensaios acadêmicos, reportagens e posts de blog. Para ficar com um só exemplo, vale citar um editorial muito comentado da revista Nature que tratava da polarização entre os jornalistas que promovem a ciência de forma acrítica – os cheerleaders – e aqueles que fiscalizam a prática científica em nome do interesse público – os watchdogs.
Outra forma de colocar essa polarização é entendê-la como uma tensão entre jornalismo científico e divulgação cientifica. Há certa superposição entre os dois domínios, mas cada um tem suas especificidades. O jornalismo, em sua função de informar o leitor das novidades surgidas no mundo da ciência, muitas vezes ajuda a popularizar o conhecimento científico, missão da divulgação. Mas é importante não perder de vista que os profissionais dos dois campos atendem a interesses distintos – se os divulgadores têm como função aproximar a ciência da sociedade, aos jornalistas cabe defender os leitores e cidadãos.
No animado debate em Seul, o blog sentou-se do lado daqueles que defendiam mais jornalismo e menos ciência – campo majoritário naquele dia –, por entender que a função do jornalista não pode se resumir à de tradutor de um conhecimento técnico para o público leigo, e nem é seu papel suprir deficiências na formação científica dos cidadãos. Cabe-lhe, sim, oferecer aos leitores as armas para que possam se posicionar em relação a um número cada vez maior de questões de interesse público atravessadas pelo conhecimento científico.
O debate teve argumentos inflamados de parte a parte, embora ninguém tenha mudado de campo em relação a essa questão. A mencionar apenas uma intervenção, destaco a fala do sociólogo da ciência Nicolas Baya-Lafitte, pós-doutorando na Universidade de Paris-Est (que falou noutra mesa-redonda da conferência). Lafitte defendeu que os jornalistas precisam mostrar mais a inserção da ciência na sociedade, dando visibilidade à prática cotidiana dos cientistas. “Não precisamos do hype sobre descobertas recentes, novas tecnologias ou as promessas da nanotecnologia. Falta mostrar como os pesquisadores trabalham no dia a dia”, argumentou.
O sociólogo citou o caso paradoxal do aquecimento global, em que um forte grau de consenso entre os estudiosos do tema não se alastrou pela sociedade, onde há setores resistentes à ideia da influência humana sobre o clima. Para ele, os jornalistas não vão mudar esse quadro se derem ao leitor mais fatos científicos. “É preciso um entendimento mais concreto de como os cientistas constroem seus fatos e alegações e como os oponentes têm suas redes de poder”, disse Baya-Lafitte. “Só avançaremos no entendimento público da mudança do clima se tornarmos explícitos os recursos por trás de cada argumento.”
O blog viajou à Coreia do Sul com bolsa da Federação Mundial dos Jornalistas de Ciência.  (Revista Piauí)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Revistas como a Nature, Cell e Science são prejudiciais à Ciência


Artigo de Randy Schekman, ganhador do prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 2013, publicado pelo Jornal The Guardian, afirma que os incentivos oferecidos pelas principais revistas distorcem a ciência, assim como os grandes bônus distorcem o sistema bancário.

Traduzido por Murilo Sérgio da Silva Julião
           Sou um cientista e o meu objetivo profissional é obter grandes coisas para a humanidade. Porém, isto pode ser desfigurado por meio de incentivos inadequados. As estruturas predominantes de reputação pessoal e progressão profissional nos levam às maiores recompensas, muitas vezes acompanhadas de trabalhos rápidos, mas não os melhores. Os que seguem estes incentivos estão sendo inteiramente racionais – tenho seguido a mim mesmo – mas nem sempre estão servindo aos melhores interesses de nossa profissão, muito menos aos da humanidade e da sociedade.
          Sabemos como os incentivos distorceram os sistemas financeiro e bancário Os incentivos ofertados aos cientistas não são bônus enormes, porém recompensas profissionais são sempre destinadas aqueles cientistas que publicam em revistas de prestígio – principalmente a Nature, Cell e a Science.
          Essas revistas de luxo supostamente são a epítome da qualidade, pois publicam apenas as melhores pesquisas. Por conta disto, as agências de financiamento de pesquisas frequentemente levam em consideração as revistas onde foram publicadas as pesquisas como um parâmetro para avaliar a qualidade da ciência, logo se o cientista publicar sua pesquisa numa destas revistas, certamente obterá mais subsídios e alçará mais degraus na carreira. Porém a reputação das grandes revistas é só uma justificativa parcial. Enquanto essas revistas publicam muitos artigos excelentes, não publicam somente artigos excelentes. Nem são as únicas publicações para pesquisas de excelência.
          A curadoria dessas revistas atua de modo agressivo, pois propicia à maior vendagem de assinaturas do que o estímulo às pesquisas mais importantes. Como os estilistas que criam bolsas ou roupas de edição limitada, pois sabem que a escassez alimenta a demanda, de modo que artificialmente restringem o número de artigos aceitos. As marcas exclusivas são então comercializadas com um truque chamado "fator de impacto" – uma pontuação para cada revista, que mede o número de vezes que seus trabalhos são citados por pesquisas posteriores. Melhores artigos, diz a teoria, são citados com mais frequência, por isso as melhores revistas possuem as maiores pontuações. Ainda assim, é uma medida profundamente falha, perseguindo o que tornou-se um fim em si mesmo – e é tão prejudicial para a ciência como a cultura do bônus para o setor bancário.
          Isto é comum e incentivado por muitas revistas, para a pesquisa ser julgada pelo fator de impacto do periódico do que publicá-lo. Mas, como a pontuação de uma revista é uma média, este parâmetro não diz muito sobre a qualidade de qualquer pedaço individual da pesquisa. Além disso, a citação é, por vezes, mas nem sempre, ligada à qualidade. Um artigo pode se tornar altamente citado porque divulgou bons resultados sob o ponto de vista da ciência – ou porque é atraente, provocante ou errado. Os editores de revistas de luxo sabem disso, por isso aceitam artigos que possam explorar temas sensuais ou fazer reivindicações desafiadoras. Isso influencia a ciência que os cientistas fazem. Esses editores constroem verdadeiras bolhas nos campos da moda, pois do mesmo modo que incentivam os pesquisadores a fazer afirmações ousadas nessas revistas querem ao mesmo tempo desencorajar outros trabalhos importantes, como os estudos de replicação.
          Em casos extremos, a atração por uma revista de luxo pode incentivar correções mais rígidas e contribuir para o número crescente de artigos retraídos por serem falhos ou fraudulentos. A Science só recentemente retraiu artigos de alto nível que reportaram clonagem de embriões humanos, ligações entre lixo e violência e os perfis genéticos de pessoas centenárias. Talvez pior do que não ter retraído sobre as alegações de que um micróbio é capaz de usar arsênio em seu DNA em vez de fósforo, apesar das críticas da esmagadora maioria da comunidade científica.
          Há uma maneira melhor de corrigir isto, através da nova geração de revistas de acesso aberto que são livres para qualquer um ler, e não têm assinaturas caras para promover. Nascidas na web, essas revistas podem aceitar todos os artigos que cumprirem as normas de qualidade, sem limites artificiais. Muitas delas são editadas por cientistas em atividade, que podem avaliar o valor dos artigos sem levar em conta as citações. Como a eLife, uma revista de acesso aberto, que faço a editoria, financiada pelo Wellcome Trust, na qual os Institutos de Medicina Howard Hughes e a Sociedade Max Planck estão publicando ciência de nível mundial a cada semana.
          As agências financiadoras e universidades também têm um papel a desempenhar, pois devem esclarecer às comissões, que decidem sobre auxílios financeiros e cargos de chefia, para não julgar artigos com base somente nas revistas onde foram publicados. O importante é a qualidade da pesquisa, e não a marca da revista. O mais importante de tudo é que nós, cientistas, precisamos ter mais atitude. Tal como muitos pesquisadores de sucesso, já publiquei em revistas de marca, inclusive o artigo que me fez ser agraciado com o prêmio Nobel de medicina. Mas não publico mais. Já comprometi o meu laboratório para evitar revistas de luxo e incentivo os outros a fazerem o mesmo.
          Assim como Wall Street precisa quebrar a influência da cultura dos bônus, o que leva a assumir riscos que podem ser racionais para os indivíduos, mas prejudiciais para o sistema financeiro, de modo que a Ciência deve quebrar a tirania das revistas de luxo. Os resultados serão melhores pesquisas que servem melhor à ciência e à sociedade.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Ciência em tom jornalístico

Texto do jornalista Mauro Malin publicado no portal Observatório da Imprensa, no dia 4 de dezembro.

          O jornalismo dito científico é um ramo tardio da frondosa árvore de que se ocupa este Observatório da Imprensa. O "dito científico" não vai aí para provocar os profissionais que a ele se dedicam, muitos dos quais altamente competentes. É que, a rigor, a especialidade deveria se chamar jornalismo "de ciência", ou "sobre ciência". Caráter científico é a última coisa que se pode pretender de qualquer modalidade de jornalismo.

          Tempos atrás, o desafio era obter alguma informação sobre assunto científico em linguagem leiga. Desde os anos 1980, pouco mais ou menos, tornaram-se correntes em todas as mídias jornalísticas as reportagens sobre ciência e tecnologia. A bem da verdade, é preciso reconhecer que eram, e são até hoje, reportagens predominantemente ancoradas em aspectos sensacionais. Jogam para uma arquibancada aparentemente mais sensível à emoção do que à razão.

          Hoje, como disse em entrevista a professora Sonia Vasconcelos, o público está mais atento (ver "Comunicação científica para um público mais atento"). Reage quando há exagero, incoerência, fundamentação débil. Mas uma nova fronteira do pensamento crítico, nessa modalidade de jornalismo, está à vista: o escrutínio das fontes acadêmicas, até não muito tempo atrás consideradas praticamente sacrossantas.
 

Invenção e bazófia - A professora Sonia gentilmente indicou ao Observatório um artigo publicado no JAMA (The Journal of the American Medical Association), "Spin and Boasting in Research Articles" (invenção e bazófia em artigos de pesquisa, numa tradução livre), assinado por Peter Cummings e Frederick P. Rivara, que abre os olhos dos leitores para truques praticados correntemente por uma minoria (na estatística dos autores) de pesquisadores.

          O texto diz que "alguns autores exageram a importância de suas pesquisas e depreciam de modo desleal outros estudos". Cummings e Rivara confessam cometer eles mesmos alguns desses pecados redacionais. E sentenciam, muito apropriadamente, que "melhorar a redação é trabalho para a vida inteira".

          O primeiro tópico do texto diz respeito a exagerar na introdução sua importância. Eles exemplificam: "(X) atingiu uma proporção alarmante", "um número que apavora" e "drástico aumento". E comentam:

          "Essas palavras tonitruantes não têm significado científico. Na verdade, supervalorizam um tempo e um lugar particulares: contagem de eventos, taxas de incidência ou estimativas de prevalência. Que tal descrever como essas quantidades variaram ao longo do tempo? Deixe o leitor decidir se algo é alarmante, apavorante ou drástico. Escrever 'prioridade decisiva', mesmo se em alguma medida for verdade, é apenas uma opinião que provavelmente não será convincente. Referir-se a uma 'epidemia de obesidade' é um clichê. Frases banais não fazem o autor parecer sério. São chatas e ocupam espaço. Imagine se o leitor precisa saber mais uma vez que a obesidade é uma doença generalizada, o diabetes tem incidência crescente e o custo do tratamento é um problema."
 

Menos adjetivos - Cummings e Rivara sugerem que pesquisadores usem o mínimo de adjetivos. Criticam também os que, para promover seus próprios trabalhos, afirmam haver uma "crise de credibilidade" e uma "grande carência de pesquisas". Apontam especificamente expressões como "resultados inconsistentes" ou "confusos". Essas palavras vagas não explicam nada, afirmam. "Fazemos estudos com amostras finitas, portanto algumas diferenças são quase inevitáveis."

          Um dos trechos do artigo é dedicado ao "uso de palavras para convencer, não para esclarecer". Novamente, os autores nos ajudam com exemplos: "Nossos resultados mostram claramente", "estas análises fornecem respostas claras", "(X) foi claramente afetado", "acreditamos que nosso estudo deixa claro". Outras expressões sugerem força: "Nossa análise... oferece forte evidência", "este estudo mostra que (X) é muito efetivo", a "firme associação".

          Em outro trecho, o ponto é a fanfarronada. São comuns os artigos que se vangloriam de ser pioneiros.

          "Alguns são involuntariamente cômicos devido à abundância de qualificativos, algo equivalente a ufanar-se de ter sido o primeiro canhoto a andar de costas no Washington Monument. Se o estudo é pioneiro, a ausência de comparação com trabalhos anteriores, na seção de comentários, deixará isso evidente. Se a pretensão de originalidade estiver errada, o que não é raro em nossa experiência, os que tiverem sido de fato pioneiros não serão amistosos e você revelará desconhecimento de trabalhos anteriores."

          Outras bazófias incluem, segundo Cummings e Rivara, frases como: "os achados... abrem uma nova fronteira", "este estudo configura a primeira demonstração inequívoca", "a maior amostra", "novas fortes evidências", "um dos mais detalhados estudos sobre...", "este estudo apresenta nova compreensão", "nossa avaliação abrangente".

          Vejamos como esses fenômenos se manifestaram recentemente nas duas revistas mais influentes do país, Veja e Época. É fácil, como diria Adoniran Barbosa.
 

Atributos musculares - A Época número 757 (de 19/11) traz duas reportagens singulares. A primeira ("A política à base de músculos") refere-se a um (1, hum) estudo segundo o qual "quanto mais músculos tem um cidadão, menos atenção ele dá aos menos favorecidos" (passe a repetição da palavra). Dá a impressão de que a matéria entrou na revista antes de uma comemoração intempestiva do fim do ano. Todo mundo querendo sair, vamos fechar logo.

          Os indivíduos comparados são Paul Ryan, um dos corifeus da ultradireita republicana, companheiro de chapa de Mitt Romney, e o Mahatma Gandhi. Legendas das fotos, para não perdermos tempo comentando o texto:

          "Paul Ryan. Altura: 1,88m. Peso: 74 kg. Candidato à vice-presidência dos EUA etc. Ryan disse que queria 'gerar riqueza, não redistribuição'."

          "Mahatma Gandhi. Altura: 1,64m. Peso: 46 kg. Liderou a Índia na luta pela independência do Império Britânico sem violência. Fez greves de fome para atrair atenção para sua causa."

          Não é uma gracinha? E o pior é que na matéria se afirma que os musculosos são mais firmes na defesa de suas causas, sejam eles as dos ricos ou as dos pobres... Pensando bem, a matéria parece ter sido fechada imediatamente depois de uma confraternização regada a álcool.

 
E tome adjetivo, advérbio... - Outra da mesma safra faz pensar no artigo dos médicos americanos mencionado acima. Chama-se "Os avanços da ciência da alma. Uma pesquisa inédita usa equipamentos de última geração para investigar o cérebro dos médiuns durante o transe. As conclusões surpreendem: ele funciona de modo diferente."

          Impliquemos com uma palavra do subtítulo: "última geração". Essa expressão é puro marketing. Por definição, não existe uma "última" geração de equipamentos, como não houve o "fim da História" de Francis Fukuyama. Existe uma geração mais recente de equipamentos, que em alguma próxima esquina do desenvolvimento tecnológico se tornará superada.

          A matéria tem como referência acadêmica a publicação Neuroimaging during Trance State: A Contribution to the Study of Dissociation, de Julio Fernando Peres, Alexander Moreira-Almeida, Leonardo Caixeta, Frederico Leão e Andrew Newberg. A Época traduz como "Neuroimagem durante o estado de transe: uma contribuição ao estudo da dissociação".

          Lê-se logo no início do resumo que (em tradução livre) "poucos pesquisadores enfocaram experiências espirituais envolvendo estados dissociativos relacionados com mediunidade" etc. No segundo parágrafo da introdução, "Este estudo aborda importantes teorias..." Estão lá os adjetivos e advérbios.
 

Médiuns e best-sellers - No resumo da biografia de Chico Xavier, convocado para atestar a relevância do assunto, informam os autores que ele "produziu mais de 400 livros de escrita automática abarcando amplo leque de estilos e assuntos, que venderam milhões de cópias".

          Se vender milhões de exemplares é argumento, cabe propor que mentes semelhantes às de Barbara Cartland, Enid Blyton, Dr. Seuss, Gilbert Patten, Jackie Collins, Horatio Alger Jr., R.L. Stine, Corin Tellado, Louis L'Amour e Dean Koontz sejam objeto de atenção científica. Quem são essas figuras? Todos venderam centenas de milhões de exemplares de livros.

          A reportagem trata de um assunto relevante, mas a única conclusão a que se pode chegar é que quanto mais sabemos, mais sabemos que pouco sabemos. Passemos ao próximo exemplar.
 

"Cura" da depressão - A edição nº 2.297 de Veja, datada de 28/11, traz na capa a seguinte maluquice: "Depressão. A promessa da cura. A cetamina é a primeira esperança de tratamento totalmente eficaz da doença que afeta 40 milhões de brasileiros". Agora que você está versado nas malandragens da divulgação de pesquisas, salta aos olhos a antinomia entre "promessa" e "primeira esperança", de um lado, e "totalmente eficaz", de outro. Acrescente-se que é no mínimo arriscado falar em alguma coisa "totalmente eficaz" nesse terreno.

          No subtítulo da reportagem, está lá o adjetivo que dá ideia de força: "um potente antidepressivo"... No correr do texto, outros truques para "anabolizar" a cetamina. Um psiquiatra diz, a respeito do efeito da droga: "Foi uma transformação impressionante, num curtíssimo espaço de tempo". Tirado da revista Science, tida como séria nos meios científicos: "indiscutivelmente a descoberta mais decisiva para o tratamento da depressão em meio século".

          Mais à frente, ficamos sabendo que a cetamina "tem uma forma de ação inédita". E faz o que faz "de forma muito rápida e eficiente". Um psiquiatra brasileiro, Rodrigo Machado Vieira, afirma que as substâncias com ação em glutamato, como a cetamina, "são, sem dúvida nenhuma, a aposta da medicina para uma nova geração de antidepressivos".
 

Um longo caminho - A horas tantas, a revista adverte: "Há ainda um longo caminho a ser percorrido até que a cetamina saia dos laboratórios e possa ser comercializada como instrumento de combate à depressão". Sabe o que isso significa, desprevenido leitor? Que os testes clínicos podem apontar a probabilidade de tantos efeitos colaterais que a substância vá fazer companhia às milhares que nunca chegaram ao mercado.

          Mas não há que perder o ânimo: "A expectativa é que em dez anos esses conhecimentos possam ser usados na prática clínica".

          Sabe como é hoje? "Sob a forma de injeção, a cetamina só pode ser aplicada em ambiente hospitalar, de preferência com o acompanhamento de um anestesista. Durante os quarenta minutos de duração do procedimento, o paciente pode ter a sensação de dissociação entre o corpo e a mente, como se formas, cores e movimento se embaralhassem". Numa dessas, a pobre vítima vai e não volta. Que saudade dos velhos sossega-leões. É ou não é um monumento de irresponsabilidade - escarninha, como diria Drummond?
 

Cruzada contra hospitais - Na mesma linha de sensacionalismo (anti)científico, mas com sinal trocado, a Época dedicou a capa da edição 758 (26/11) a um esforço com aparências de meritório: "O que os hospitais não contam para você". Infelizmente, a reportagem é sensacionalista, conduz a conclusões alarmantes e algumas passagens sugerem ao leitor comportamentos que são tiros no pé.

          O dado talvez mais chocante é esquentado: "25% dos pacientes internados sofrem algum tipo de dano, revelou estudo da Universidade Harvard". Como todos os números agregados, nesses 25% estão incluídas coisas díspares, desde o dano horrendo da amputação da perna errada, descrito na reportagem, até casos discutíveis de mortes em cirurgias e, mais importante, falhas menores, muito distantes daquilo que leva alguém a evitar um hospital.

          O próprio texto dá uma pista: "Mesmo nos centros americanos de alta tecnologia, pequenas falhas ou erros gravíssimos ocorrem rotineiramente". Com certeza. Mas a ideia de que existe algo perfeito no comportamento humano é uma presunção desmiolada que só aumenta a aflição dos viventes. Onde não há erros? Quem não os comete? Atire a primeira pedra etc.

          Importante informação é a de que, por incrível que pareça, boa parte das infecções hospitalares se deve a que "muitos médicos não lavam as mãos antes e depois de atender um paciente no quarto ou na UTI". Eis aí uma pauta importante, focada: quanta gente morre ou adquire uma nova doença devido a essa irresponsabilidade cavalar dos médicos? Os especialistas em infecções hospitalares afirmam que só uma minoria lava as mãos. E uma minoria da minoria o faz corretamente.
 

Ou diagnósticos, ou procedimentos - A reportagem orienta: "Escolha com cuidado os médicos do hospital". Dá o primeiro conselho: "Desconfie das superestrelas que se acham capazes de resolver tudo". Em seguida, classifica: "Basicamente [êta palavrinha...], há três tipos de médicos: os que são bons de diagnóstico, os que são bons de procedimento; e os que não são bons em nada".

          Mas que gigantesca besteira. Quer dizer que um médico capaz de diagnosticar com exatidão é incapaz de tratar competentemente o doente? Tenham a santa paciência. A frase "não são bons em nada" é de uma arrogância ímpar. Dá vontade de dizer... Não, deixa para lá.

          Adiante, um redobrar de irresponsabilidade. Após o intertítulo "Como se proteger", vem um conselho que não favorece a avaliação do QI dos envolvidos na produção da reportagem: "Pergunte a opinião dos enfermeiros"!!! Caramba, até onde se pode chegar para enviesar um texto.
 

Plataforma Lattes - Pensou que a coisa tenha ficado por aí? Ledo engano, tolerante leitor. A matéria recomenda também a consulta ao currículo do médico na Plataforma Lattes, do CNPq. A Plataforma Lattes é, sim, como está no texto, "uma base de dados científicos". Por isso mesmo consultá-la não é tarefa para o cidadão comum.

          Façamos uma experiência com o currículo de um dos médicos mais consagrados de uma capital brasileira, médico que não será nomeado. A descrição tem mais de 50 mil palavras. Para que se tenha uma ideia: até aqui, o longo texto que você está lendo tem pouco mais de 1.300 palavras. O que escolher? Onde o homem trabalha? O que publicou? Seus títulos acadêmicos?

          Para complicar um pouquinho mais: é um notável cirurgião, mas recentemente fez uma barbeiragem ao operar uma pessoa conhecida. O paciente escapou por pouco da morte. Isso não está no currículo. E também não anula a competência do médico. Novamente: atire a primeira pedra etc.


Síndrome de Juruna - Tem mais. E é preocupante. A reportagem ouviu uma advogada, Rosana Chiavassa, que propõe o seguinte despautério: "Aconselho os pacientes a gravar as consultas médicas, para evitar dúvidas posteriores". Ora, ora. Isso só leva ao distanciamento entre médico e paciente, fenômeno recente no Brasil e totalizante nos Estados Unidos, onde existe uma mania nacional de levar os problemas aos tribunais.

          Qual é o efeito dessa desconfiança? Os médicos começam a pedir um número exagerado de exames, para se cercar de "provas" em seus diagnósticos e recomendações. A medicina sai encarecida. A moda migra dos consultórios particulares para o serviço público. O sistema todo fica mais caro, portanto menos acessível (principalmente nos ambulatórios e hospitais públicos), e cada vez mais os médicos se veem na contingência de escolher quem vai receber o melhor tratamento e quem não vai. É cruel, é desumano, é um passo firme na direção errada.

          Mas o cúmulo é este "olho": "Peça uma segunda opinião antes de fazer um procedimento desnecessário". Como assim? A lógica foi para o beleléu, de mala e cuia.

          Outra advogada, Renata Vilhena Silva, ensina que antes de escolher um hospital deve-se observar se ele tem a estrutura e a capacidade técnica necessárias para realizar o tratamento: "Se a paciente se submeterá a uma cesárea, deve escolher um hospital com UTI adulta e UTI neonatal. E nunca aceitar se submeter a cirurgias plásticas, ortopédicas ou qualquer outra em clínicas". Tudo indica que essas informações são precisas, mas tratam de alguns casos entre centenas, talvez milhares de modalidades de cirurgias.

          Para não dizer que as oito páginas da reportagem da Época não contêm informações úteis - embora num contexto quase histericamente antimédicos e anti-hospitais -, reconheçamos que existe, sim, e muito, comércio na medicina.

          O jornalismo nunca pode ser "científico". Nenhuma pessoa sensata o negará. O diabo é quando a ciência parece ficar jornalística.