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domingo, 24 de junho de 2018

100 anos da IUPAC




O centenário será comemorado de 5 a 12 de julho de 2019 com a realização da 50ª Assembleia Geral da instituição e do 47º Congresso Mundial de Química em Paris

         O ano de 2019 será muito especial para a International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC), com a realização da 50ª Assembleia Geral da instituição e a realização do 47º Congresso Mundial de Química, eventos que integrarão as comemorações do 100º Aniversário da IUPAC que ocorrerá entre os dias 5 e 12 de julho, tendo como palco o Palácio dos Congressos localizado na capital francesa – Paris.
         O tema do congresso será Frontiers in Chemistry – Let’s Create our Future: 100 Years with IUPAC. Além de reconhecer os sucessos dos primeiros cem anos da IUPAC, seu objetivo não é limitar-se ao passado, mas sim olhar para o futuro dessa comunidade internacional de químicos que podem continuar a contribuir agora e no futuro para atender às necessidades do mundo, através da pesquisa química.
         Entre os participantes está o professor e pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP Adriano Andricopulo, como membro do International Advisory Board do evento, único representante da América Latina e que vai dividir responsabilidades com grandes nomes da ciência mundial, entre eles cinco laureados com o Prêmio Nobel da Química: Yuan T. Lee (1986), Ryoji Noyori (2001), Kurt Wütrich (2002), Gerhard Ertl (2007) e Dan Shechtman (2011).
         As inscrições para este evento abrirão no mês de setembro do corrente ano (2018), sendo que a submissão de trabalhos se iniciará em outubro deste ano e cujas datas serão anunciadas brevemente.
         Para conferir o programa científico deste evento, clique AQUI.
         Para obter mais informações, clique AQUI e AQUI.
Jornal da Ciência, com informações da USP e CIBFar


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Arte e Ciência: ligações necessárias



THELMA LOPES*

         Arte e Ciência, hoje, podem parecer duas áreas distantes e antagônicas, mas a relação entre as duas, que se subdividem em outras, nem sempre foi de distância. Pintores renascentistas aplicavam princípios matemáticos para conferir ilusão de volume e proporção às imagens, visando retratar a natureza realisticamente. Os médicos, por sua vez, recorriam aos artistas, que, ao registrarem dissecações, como Rembrandt, em “Lição de anatomia”, documentavam o corpo humano gerando fontes de estudo inéditas. Já Escher utilizou a geometria para criar realidade à parte: infinita e fantasiosa. Quando o paradigma dominante passou a ser o científico, Arte e Ciência foram afastadas, especializando métodos, processos e linguagens. Um vocabulário relacionado à Ciência foi incorporado ao cotidiano, por diferentes setores da sociedade, de forma indiscriminada, por vezes deturpada, e outras com fins mercadológicos. O caráter utilitário da Ciência e a concretude do progresso tecnológico contribuíram para que a última passasse a ser encarada como algo inconteste. Como duvidar do “cientificamente comprovado”? Não se trata de dispensar ou banalizar a Ciência, o que por si só seria uma ingenuidade nos dias atuais, face ao consenso generalizado de sua autoridade no âmbito social, a despeito das críticas a tal status dentro da própria Ciência e dos recentes retrocessos.
         Não, a Terra não é plana! Trata-se de legitimar outros saberes. Enquanto Einstein revolucionava a Física e apresentava nova forma de interpretar tempo e espaço, Michel Proust desfigurava o tempo e fazia dele o grande protagonista de sua densa obra “Em busca do tempo perdido”. Se Einstein desvelava que o tempo não era absoluto, como postulou Newton, revelando assim um amplo universo de possibilidades temporais, paralelamente, o autor francês demonstrava como o tempo é relativo e quantos universos podem caber em um adocicado pedaço de madeleine. Proust relacionou tempo, memória e afetos. Estudos posteriores comprovaram que olfato e paladar são os únicos sentidos que se ligam diretamente ao hipocampo, o centro da memória. O escritor pressentiu tais ligações e explorou cheiro e gosto do típico bolo francês para reviver sua infância. Proust se antecipou à Ciência. E foi além. Ao falar de uma memória na qual selecionamos aquilo que gostaríamos de recordar para embelezar nossas lembranças, o autor sublinha a importância do esquecimento. Daí a ideia proustiana de que só se vive plenamente na memória. Não fosse a capacidade de esquecer, como poderíamos seguir adiante depois que um grande amor se vai? Como ser feliz sem saber esquecer as dores do corpo e da alma? Manter a memória viva é tão importante quanto saber esquecer: isso também nos diz Proust.
         Embora haja longo caminho a percorrer são crescentes as iniciativas de reconciliação entre Arte e Ciência. No Brasil e exterior, como na prestigiada Universidade de Harvard. Destaca-se a criação do termo “ArtScience”, que ao aglutinar os dois campos nos convida a novas interpretações. No entanto, ainda é preciso fortalecer o entrelaçamento de saberes, principalmente em contextos como o nosso.  O Brasil é um país onde o abismo social é profundo. E desse fosso, que também é cultural, emergem desigualdades que repercutem uma sociedade violenta, injusta, árida de delicadezas e que fazem o belo e a estética parecerem artigos de luxo. Mas a Arte é necessidade primária do ser humano na produção e registro do conhecimento, como as pinturas rupestres, por exemplo. Fruto e expressão dos tempos originais, deixaram legado inestimável sobre uma das questões mais inquietantes: de onde viemos? Tal qual a Ciência, a Arte é forma de ver, antever e inscrever. É meio indispensável para enxergar soluções em um ambiente cada vez mais complexo, hostil e conflitante. Alimentar a falsa incomunicabilidade entre elas, mais que um equívoco, é contribuir para uma sociedade desigual, na qual não se reconhece na pluralidade do conhecimento, poderoso aliado para leitura plena de um mundo tão diverso, rico de significados e cambiante.
*Artista profissional, mestre em Teatro e doutora em Ciência.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A Capela da Ciência é Notícia nas Mídias Digitais



         O JC Notícias, boletim de Divulgação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e o Nossa Ciência publicaram em suas páginas eletrônicas a lista dos principais equipamentos de divulgação científica existentes na América Latina, dentre estes está a Capela da Ciência.

Ceará da ciência
SCIARÁ

Nossa Ciência, quarta-feira, 24 janeiro 2018.

O lema da Seara da Ciência é "proibido não mexer", um incentivo à curiosidade e à interação dos visitantes com o espaço. (Foto: Giselle Soares)
Estado do Ceará concentra o maior número de museus e centros de ciências acessíveis do Nordeste
Em dezembro de 2017, a Fundação Cecierj, a RedPOP e a Fiocruz lançaram o primeiro Guia de Museus e Centros de Ciências Acessíveis da América Latina e do Caribe. A publicação contabilizou 110 espaços científico-culturais que se dedicam à popularização da ciência e tecnologia de dez países da América Latina e do Caribe. Desses, 69 localizam-se no Brasil, sendo 14 no Nordeste. O Ceará tem quatro espaços citados na lista: Planetário de Sobral, Museu do Eclipse, Capela da Ciência e Seara da Ciência.
Para a pesquisa foi feito um levantamento com mais de 400 espaços, que responderam a um questionário on-line com perguntas abertas e fechadas sobre acessibilidade física, do local e do entorno, visual, auditiva e intelectual.
Museus acessíveis

A Seara da Ciência é o espaço de divulgação científica e tecnológica da Universidade Federal do Ceará. Fundada em 1999, por um grupo de professores da UFC, a Seara visa estimular a curiosidade por ciência, cultura e tecnologia através de conexões com a vida cotidiana e da interdisciplinaridade. Entre as ações desenvolvidas, destacam-se as visitas ao salão de exposições, os cursos básicos, cursos de férias, peças teatrais e vídeos de divulgação científica.
Museu do Eclipse e Planetário de Sobral. (Foto: Divulgação)
Localizada em Sobral, a Capela da Ciência é um equipamento de difusão e popularização de ciência e tecnologia ligado à Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). A instituição organiza oficinas para professores de Ciências Naturais das escolas públicas de Sobral e região norte do Ceará e desenvolve kits de experimentos direcionados ao aprendizado de assuntos teóricos ensinados nas disciplinas de Biologia, Física e Química.
O Museu do Eclipse também está localizado em Sobral, cidade onde foram feitas observações da expedição britânica durante o eclipse solar de 1919, fundamentais para a comprovação da Teoria Geral da Relatividade, de Albert Einstein. O museu foi fundado em 1999, pela Prefeitura Municipal de Sobral, para celebrar os 80 anos da expedição. A exposição permanente inclui painéis contendo mapas e fotos de Sobral na época do eclipse, dos integrantes das expedições brasileira e estrangeira que estiveram na cidade e instrumentos utilizados pelos cientistas.
O Planetário de Sobral permite uma observação simulada do céu de qualquer região da Terra. Localiza-se na Praça Osvaldo Rangel, no Centro de Sobral.

Para conhecer a lista completa de museus e centros de ciência acessíveis, clique aqui 
A coluna SCIARÁ de Giselle Soares é atualizada semanalmente. Leia, opine, compartilhe, curta. Use a hashtag #Sciará. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia).

         Se você não viu a coluna anterior, leia agora. 
Giselle Soares


domingo, 18 de junho de 2017

Comemoração pelos 21 anos do Curso de Química da Universidade Estadual Vale do Acaraú e Homenagem ao Dia do Químico


  O progresso da humanidade nos últimos cem anos esteve diretamente ligado ao desenvolvimento da Química aliada às outras ciências. A descoberta de vacinas e medicamentos; os combustíveis integrando as diversas regiões do planeta; a conservação de alimentos; a síntese de novos tecidos; a descoberta de gases refrigerantes; o desenvolvimento de novos materiais; a síntese de diversos tipos de plásticos. Tudo isto faz parte de nosso cotidiano, nos dá uma melhor qualidade de vida e está diretamente ligado ao desenvolvimento da Química. Entretanto, paralelo ao progresso, surgiram problemas relacionados ao uso indevido da Química, tais como: poluição dos mares e rios; poluição do ar; poluição do solo; chuva ácida; buraco na camada de ozônio; efeito estufa etc.
    Estando a Química, presente em todos os aspectos de nossa vida é de primordial importância que todo cidadão tenha um pouco de conhecimento nesta área. Portanto, é função do Químico mostrar à sociedade a influência desta Ciência no nosso cotidiano, os benefícios proporcionados à humanidade e também as consequências negativas à natureza, bem como formas de contornar estes problemas, pelo uso racional e sem desperdícios dos recursos naturais ao nosso dispor.
    É neste contexto que a coordenação do Curso de Química da UVA tem o prazer de convidar a comunidade da região Norte do Ceará para participar do aniversário de maioridade do 1o.curso de Química do interior do Ceará.
    Estas atividades estão sendo promovidas e coordenadas pela Capela da Ciência da UVA, Coordenações do Subprojeto de Química do PIBID/UVA e do Curso de Química a fim de homenagear os 21 anos do Curso de Química da Universidade Estadual Vale do Acaraú e o Dia do Químico.
     O Curso de Licenciatura em Química da UVA foi criado em 16 de junho de 1995, por meio da Resolução nº 39-A/95 do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE/UVA), de acordo com o disposto na Lei N. 9131, de 25 de novembro de 1995. Em 2011 teve início a primeira turma do Curso de Bacharelado em Química.

PROGRAMAÇÃO
19 de junho de 2017 (Segunda-feira)

18h30min – Abertura das Comemorações de 21 anos do Curso de Química da UVA

Composição e Formação da Mesa de Abertura
Prof. Dr. Petrônio Emanuel Timbó Braga (Pró-Reitor de Ensino de Graduação)
Prof. Dr. Francisco Helder Almeida Rodrigues (Diretor do CCET)
Prof. Dr. Geovany Amorim Gomes (Coordenador do Curso de Química)
Prof. Dr. Dráulio Sales da Silva (Coordenador do Subprojeto de Química do PIBID/UVA) 
Prof. Dr. Murilo Sérgio da Silva Julião (Coordenador da Capela da Ciência)
Local: Auditório do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia (CCET)

20h00min – Palestra: "A Pesquisa no Ensino de Química"

Palestrante: Prof. Dr. Francisco Souto de Sousa Junior (UFERSA)
Local: Auditório do CCET

20 de junho de 2017 (Terça-feira)

18h30min – Homenagem ao Dia do Químico

Composição e Formação da Mesa de Abertura
Prof. Dra. Maria Somália Sales Viana (Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação)
Prof. Dr. Geovany Amorim Gomes (Coordenador do Curso de Química)
Prof. Dr. Murilo Sérgio da Silva Julião (Coordenador da Capela da Ciência)
Local: Auditório do CCET

19h30min – Palestra de Abertura: "Avanços da Ciência e Tecnologia no Desenvolvimento do Brasil: Contexto Histórico da Agricultura e Biocombustíveis"

Palestrante: Profa. Dra. Tigressa Helena Soares Rodrigues (UVA)
Local: Auditório do CCET

20h30min - Encerramento: Confraternização entre alunos e professores do curso de Química e sorteio de livros de Química.

Local: Auditório do CCET

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O previsível fiasco do ensaio clínico da fosfoetanolamina, a improvável "pílula do câncer"


Por Francisco J. R. Paumgartten
O desenvolvimento de novos medicamentos é processo complexo, longo, caro e altamente seletivo, com elevadíssima taxa de insucesso. Estima-se que de 5 mil a 10 mil moléculas que são submetidas à triagem inicial para atividade farmacológica, apenas uma se tornará um novo medicamento, aprovado para comercialização pelos órgãos reguladores e útil na prática médica.

         Pense um absurdo, a Bahia tem precedente. A célebre frase de Otávio Mangabeira, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e ex-governador da Bahia, é injusta ao se restringir ao estado natal do seu autor. A afirmação se aplica ao país todo, como demonstra o insólito episódio da pílula de fosfoetanolamina sintética ("fosfo"), também conhecida como "pílula do câncer".
         O absurdo, no caso da fosfo, não reside no fato de muitos terem acreditado nas alegações não comprovadas de que ela seria um medicamento eficaz, capaz de curar pacientes com câncer. Afinal, não é incomum, e é até compreensível, que pacientes com doenças graves, considerados pelos médicos como "fora de possibilidades terapêuticas", e seus familiares, agarrarem-se firmemente a crenças infundadas de que a cura, negada pela medicina, poderia ser alcançada por terapias alternativas, não convencionais, e não reconhecidas pela ciência.
         O absurdo, nesse caso, é o Congresso Nacional ter ignorado as recomendações contrárias à liberação do uso da fosfo, feitas pelo órgão técnico regulador, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e por entidades científicas respeitadas como a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e aprovado, por esmagadora maioria de seus membros, a Lei 13.269/2016 – prontamente sancionada sem vetos pela então presidente da república – que autoriza a produção, prescrição e uso da pílula de fosfo. A eficácia da Lei 13.269/2016 foi temporariamente suspensa por decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em ação direta de inconstitucionalidade impetrada pela AMB. Pesou na decisão da suprema corte, alcançada por estreita maioria de votos dos membros do colegiado, o argumento de que a eficácia e a segurança da fosfo não haviam sido demonstradas por estudos clínicos.
         No momento em que este artigo está sendo escrito, o autor recebeu a notícia que o ensaio clínico da fosfo, patrocinado pela Secretaria de Saúde de São Paulo, foi suspenso "por questões éticas". Isto porque uma avaliação clínica programada revelou que 58 de 59 pacientes com câncer de várias localizações que haviam recebido regularmente a fosfo não apresentaram qualquer resposta ao tratamento. Por se tratar de estudo não controlado, em relação ao único paciente (com melanoma) que teria melhorado, não é possível excluir um efeito retardado da quimioterapia anterior, a melhora espontânea, ou a contribuição do efeito placebo.
         A interrupção do estudo é decisão acertada, mas, na realidade, esse insólito estudo, fora dos padrões metodológicos mais rigorosos, com resultados previsíveis e riscos para os pacientes que não foram adequadamente avaliados, "por razões éticas" nunca poderia ter sido aprovado e iniciado. Como antecipado lucidamente por alguns pesquisadores, a avassaladora onda da fosfo – como tantos outros modismos e crenças populares em remédios milagrosos – acabaria se desfazendo espontaneamente com o tempo. Entretanto, embora desaparecendo da mídia, o episódio da fosfo deixará uma indelével mácula na história do sistema brasileiro de revisão ética.
         Um dos requisitos fundamentais para um ensaio clínico ser considerado "ético", é o julgamento criterioso e a conclusão, com base na melhor evidência científica disponível, que os potenciais benefícios para os pacientes, e o conhecimento a ser adquirido pela sociedade, se sobrepõem aos riscos para os participantes da pesquisa. Quando se trata de um novo medicamento ou terapia farmacológica, o potencial benefício é avaliado pelos resultados dos testes pré-clínicos de triagem de possível atividade terapêutica. Os estudos pré-clínicos realizados com a fosfo não apenas falharam em indicar consistentemente uma "possível atividade terapêutica", como mostraram justamente o oposto, a improbabilidade da fosfo ter efeito antineoplásico clinicamente útil.
         Ensaios da toxicidade da fosfo "sintética" para linhagens de células neoplásicas, publicados pelos próprios proponentes da "pílula do câncer", evidenciaram efeitos citotóxicos que podem ser considerados não específicos, ou seja, efeitos que ocorrem apenas em concentrações relativamente elevadas, com CL50s (concentrações letais 50%; i.e., concentrações que matam 50% das células expostas) na faixa de concentrações milimolares (mM ou 10-3 M), enquanto os medicamentos oncológicos são mais específicos, sendo tóxicos para as linhagens de células neoplásicas em concentrações muito menores, com CL50s nas faixas do micromolar (µM ou 10-6 M) ou nanomolar (nM ou10-9 M), ou seja, as CL50 de medicamentos anticâncer usados na clínica são, via de regra, mil ou 100 mil vezes inferiores às CL50 obtidas para a fosfo com as mesmas linhagens de células cancerosas.
         Esses resultados preliminares desalentadores já seriam suficientes para que não fossem investidos mais recursos e tempo na investigação de uma improvável atividade anticâncer. Se tivesse sido submetida à abordagem hierarquizada para triagem de novos medicamentos anticâncer proposta pelo Instituto Nacional de Câncer dos EUA (NCI-60 Human Tumor Cell Line Screen), a fosfo teria sido reprovada logo no primeiro nível de testes. Além disso, os estudos in vivo da fosfo em ratos e camundongos com tumores xeno-enxertados produziram resultados modestos e inconsistentes entre experimentos.
         O desenvolvimento de novos medicamentos é processo complexo, longo, caro e altamente seletivo, com elevadíssima taxa de insucesso. Estima-se que de 5 mil a 10 mil moléculas que são submetidas à triagem inicial para atividade farmacológica, apenas uma se tornará um novo medicamento, aprovado para comercialização pelos órgãos reguladores e útil na prática médica.
         Não obstante esse fato, surpreendentemente, o Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), já em pleno "apagão" do financiamento para a pesquisa científica no país, investiu R$ 10 milhões em estudos pré-clínicos da fosfo como medicamento oncológico. Há, certamente, um grande número de moléculas muito mais promissoras do que a fosfo para tratamento do câncer, ou potencialmente úteis para tratar as várias doenças negligenciadas que afligem a nossa população, que permanecem nas prateleiras dos laboratórios universitários, aguardando o apoio das agências de fomento à pesquisa para serem investigadas em profundidade.
         Além da falta de evidências experimentais (e de relatos de casos clínicos documentados) de que a fosfo tem atividade anticâncer, o conjunto de estudos pré-clínicos de toxicidade da fosfo foi notoriamente insuficiente para apoiar a etapa subsequente de investigação clínica de eficácia e segurança em pacientes com câncer.
         Não se trata apenas de excluir a possibilidade de efeitos tóxicos agudos que aparecem no curto prazo (a história de uso da fosfo por pacientes que se automedicaram já sugere que esse risco é baixo), mas de revelar potenciais efeitos adversos mais sutis, que não são apontados por estudos não controlados. A realização de estudos clínicos envolvendo o tratamento de pacientes por períodos prolongados requer, entre outras investigações prévias, ensaios pré-clínicos de segurança de duração comparável à do estudo clínico proposto (e.g., de 90 e até 180 dias), em pelo menos duas espécies animais (uma delas deve ser o cão, o macaco ou outra espécie que não um roedor). Esses estudos não foram realizados com a fosfo. Vale a pena registrar que, além disso, há pelo menos um estudo in vitro de Kano-Sueoka e colaboradores, publicado nos Anais da Academia de Ciências dos EUA (PNAS 1979; 76:5741-4), sugerindo que a fosfo estimulava a proliferação de células de carcinoma mamário de ratos. Na mesma linha, um dos estudos preliminares patrocinados pelo MCTI indicou que a fosfo poderia aumentar a incidência de metástases de tumores xeno-enxertados em roedores.
         Portanto, a mais alta instância do sistema de revisão ética do país, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), aprovou o ensaio clínico de uma substância (fosfo) cujo potencial benefício terapêutico para os pacientes sujeitos da pesquisa era altamente improvável (nada havia nesse sentido, exceto relatos anedóticos e não documentados de pacientes "tratados" com a fosfo), e cujos eventuais riscos para os participantes não haviam sido devidamente avaliados.
         Outro problema com o ensaio clínico da fosfoetanolamina "sintética" aprovado pela Conep é a identidade e qualidade farmacêutica da substância a ser estudada. A fosfoetanolamina é molécula formada naturalmente no organismo pela fosforilação da etanolamina, e é um composto intermediário na síntese de fosfolipídios que integram a membrana celular. As moléculas da fosfo, quer sejam sintetizadas no organismo, quer sejam produzidas na bancada do laboratório, são moléculas idênticas, e por isso são identificadas por um único número de registro no Chemical Abstracts (Número do CAS 1071-23-4, massa molecular 141,06). O rótulo de fosfo "sintética", dado pelos químicos que a sintetizaram no laboratório na USP campus de São Carlos, aparentemente para diferenciá-la da fosfoetanolamina disponível comercialmente, não faz qualquer sentido.
         Uma análise por ressonância magnética nuclear dessa fosfo "sintética" (contida nas pílulas distribuídas para os pacientes com câncer) realizada por um respeitado laboratório de química da Unicamp, contratado pelo MCTI, mostrou que a molécula de fosfoetanolamina corresponde a apenas 32,2% do conteúdo da cápsula, sendo os demais constituintes uma variedade de impurezas (incluindo fosfatos de Ca, Mg, Fe, Mn, Al, Zn e Ba) remanescentes de uma síntese química de baixo rendimento, que não foi sucedida por um processo de purificação. A fosfo "sintética" da pílula (na verdade, a forma farmacêutica da fosfo sintética distribuída pelos químicos da USP é a cápsula), portanto, não é uma única substância, mas uma mistura de substâncias em que predominam uma diversidade de impurezas.
         Para aprovar ensaios clínicos de novos medicamentos, é exigido que os patrocinadores demonstrem que os medicamentos testados têm qualidade farmacêutica adequada (identificação, pureza e potência) e que esta qualidade seja consistente entre os lotes usados nos ensaios pré-clínicos e clínicos. Obviamente, a qualidade farmacêutica da fosfo "sintética" usada nos ensaios realizados está longe de ser adequada para um ensaio clínico em pacientes.
         Por fim, o delineamento do ensaio clínico da fosfo, que foi aprovado pela Conep, não reúne as características metodológicas que são esperadas de um estudo de eficácia e segurança de um novo medicamento. Embora muitos detalhes não tenham sido publicados, as informações disponíveis na mídia indicam que o ensaio não foi controlado, e que a população estudada abrangeu um conjunto muito heterogêneo de pacientes com tumores de diferentes localizações e, possivelmente, em diferentes estágios da doença, e que sofreram diversos tratamentos anteriores.
         O MCTI e a Secretaria de Saúde de São Paulo investiram pelo menos 10 e 1,5 milhões de reais, respectivamente, nos ensaios pré-clínicos e clínicos da fosfo, o que representa apenas uma pequena fração das centenas de milhões de dólares a que pode chegar o custo total do desenvolvimento de um medicamento oncológico inovador. Onze milhões e meio, entretanto, é um investimento muito elevado, quando os estudos iniciais falharam em fornecer qualquer indício de que o medicamento experimental, como é o caso da fosfo, tem potencial utilidade terapêutica.
         O absurdo é ainda maior quando a aposta no improvável êxito do desenvolvimento é feita quando há uma escassez generalizada de recursos para financiar a pesquisa científica e a assistência médica no país. Representantes do MCTI, da Secretaria de Saúde de São Paulo e alguns pesquisadores envolvidos diretamente com os estudos da fosfo, costumam justificar os investimentos alegando que as instituições de pesquisa têm a obrigação moral de dar uma resposta aos "clamores" da sociedade.
         Não resta dúvida que as instituições devem responder questões como essa que mobilizam a sociedade, mas no caso da "pílula do câncer", a resposta correta que deveria ter sido dada à população é que as alegações terapêuticas de atividade anticâncer da fosfo são cientificamente infundadas e não justificam a realização de estudos não clínicos adicionais e de ensaios com pacientes.
         A rápida aprovação, pela Conep, do ensaio clínico da fosfo, negligenciando o fato do estudo proposto não atender vários requisitos fundamentais que, de acordo com o entendimento de órgãos internacionais como o Council for International Organizations of Medical Sciences (CIOMS), são necessários para tornar eticamente aceitável a investigação clínica de um novo medicamento, é sem dúvida a pior sequela deixada por esse triste e absurdo episódio. A insólita decisão da Conep sobre a fosfo, deixando de lado a razão e a isonomia, e cedendo a uma onda de apoio formada no ambiente político, criou um perigoso precedente, que põe em dúvida o rigor e a seriedade do sistema de revisão ética do país.
Francisco José Roma Paumgartten é formado pela Faculdade de Medicina da UFRJ, doutor em ciências pela Escola Paulista de Medicina (atual Unifesp), professor e pesquisador titular da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, Rio de Janeiro.

Referências
         As referências originais dos estudos que apoiam as afirmações contidas neste artigo podem ser encontradas em: "Sobre a alegada eficácia anticâncer da pílula de fosfoetanolamina, fragilidade da evidência científica e preocupações éticas", de Paumgartten F. J. R., publicada em: Vigil. Sanit debate 2016; 4(3):4-12 (doi: 10.22239/2317-269X.00822pt).

Veja também:

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Plantas da Caatinga são as novas armas da ciência contra Aedes e micro-organismos resistentes


Segundo o pesquisador Alexandre Gomes, do Insa, os experimentos mostraram que a solução do óleo da umburana cambão tem uma eficiência de 50% a partir de 90 partes por milhão, o que significa que apenas uma gota é suficiente para proteger uma caixa d’água do Aedes

         O Instituto Nacional do Semiárido participa de rede de pesquisa que estuda os potenciais das espécies nativas da Caatinga. Enquanto a umburana de cambão possui propriedades inseticidas e pode ser usada no combate ao Aedes aegypti, a maçaranduba e a vick apresentaram grande eficácia contra a triconomose. Já o pequi é rico em proteínas, fibras, vitaminas A e C, minerais e compostos fenólicos e carotenoides totais, que estão associados à prevenção de processos oxidativos.
         O potencial das plantas na prevenção e na cura de doenças motivou a formação de uma rede de pesquisa sobre as propriedades medicinais, terapêuticas e aromáticas das espécies da Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro. Com um rico patrimônio biológico, a Caatinga abriga animais e plantas adaptados à escassez de água. Jatobá (Hymenaea courbaril), pau-ferro ou jucá (Libidibia ferrea), pequi (Caryocar coriaceum), macaúba, ameixa do mato (Ximenia americana), umburana de cambão (Commiphora leptophloeos) são espécies com potencial antioxidante, inseticida, fungicida e bactericida.
         Desde 2010, pesquisadores do Núcleo de Bioprospecção da Caatinga do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) se uniram no esforço de estudar as plantas da Caatinga. Uma delas, a umburana cambão, se revelou uma importante arma contra o Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, vírus zika e febre chikungunya.
         Segundo o pesquisador Alexandre Gomes, do Insa, os experimentos mostraram que a solução do óleo da umburana cambão tem uma eficiência de 50% a partir de 90 partes por milhão, o que significa que apenas uma gota é suficiente para proteger uma caixa d’água do Aedes. O cheiro característico da folha da árvore foi a pista para investigar as possíveis propriedades inseticidas da planta.
         “Já sabemos que alguns compostos de plantas têm atividade inseticida. Esses compostos são chamados terpenoides e podem ser aromáticos voláteis. Um exemplo deles está na folha da pitanga, que, quando se amassa, tem um cheiro típico”, explica Gomes.
         Apesar do resultado satisfatório da umburana contra o mosquito da dengue, é fundamental não descuidar das recomendações para combater o Aedes aegypti como eliminar criadouros, esvaziando e lavando todos os recipientes que acumulem água; limpar as calhas das casas; e preencher pratos de vasos de plantas com areia. Nem mesmo água sanitária é garantia de que o mosquito não se desenvolverá.

Antioxidantes naturais
         Outras plantas têm o poder de neutralizar os oxidantes no organismo humano, como o cambuí, a macaúba e o pequi. Nativo do Cerrado e também encontrado na Caatinga, o pequi (Caryocar coriaceum) é rico em proteínas, fibras, vitaminas A e C, minerais e compostos fenólicos e carotenoides totais, que estão associados à prevenção de processos oxidativos. Por isso, o óleo de pequi, extraído da sua polpa ou amêndoa, é aplicado em cosméticos, como cremes anti-idade. Além disso, foram verificados os benefícios do pequi para a ação anti-inflamatória, proteção cardiovascular, prevenção de aterosclerose e redução da pressão arterial.
         Os pesquisadores também observaram propriedades antioxidantes no cambuí (Myrciaria tenella) e no fruto da macaúba (Acrocomia aculeata), palmeira nativa encontrada em extensa área do Brasil, usada na produção de biocombustível.

DST
         Os cientistas ainda descobriram nas plantas da Caatinga potencial para o desenvolvimento de novos antibióticos para tratar micro-organismos mais resistentes. Os medicamentos usados contra a triconomose, doença sexualmente transmissível com 276 milhões de novos casos por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde, estão perdendo a eficácia diante da resistência do protozoário Trichomonas vaginalis. Uma solução, investigada por pesquisadores da UFRGS, é o extrato da espécie Polygala decumbens, popularmente conhecida como vick, que foi capaz de controlar a infecção causada pelo protozoário.
         Substâncias encontradas no extrato da folha da maçaranduba (Manilkara rufula) também se mostraram eficazes contra a triconomose. O trabalho investigou a atividade do extrato acetônico da folha da planta (produzido a partir do pó da folha mergulhado na acetona, um solvente orgânico) e de sete frações produzidas a partir deste extrato. O estudo comprovou que concentrações de 10 mg/mL do extrato e as frações foram capazes de matar os protozoários.
Fonte: Ascom – MCTIC

domingo, 16 de outubro de 2016

Prêmio Nobel de Química de 2016

           
         O Prêmio Nobel de Química de 2016 foi atribuído conjuntamente aos cientistas Jean-Pierre Sauvage, da Universidade de Estrasburgo – França, Sir J. Fraser Stoddart, da Universidade Northwestern, Evanston, Illinois – EUA e Bernard L. Feringa, da Universidade de Groningen – Holanda, "pelas contribuições à concepção e síntese de máquinas moleculares".
         Os agraciados conseguiram desenvolver as menores máquinas do mundo, a partir de sistemas moleculares fora do equilíbrio para estados cheios de energia em que os seus movimentos podem ser controlados. Essas máquinas moleculares provavelmente serão utilizadas no desenvolvimento de novos materiais, sensores, e sistemas de armazenamento de energia.
         Em 1983, Jean-Pierre Sauvage conseguiu ligar duas moléculas em forma de anel num conjunto para formar uma cadeia, um chamada catenano. Os dois anéis entrelaçados podem se mover um em relação ao outro. Em 1991, Fraser Stoddart desenvolveu a rotaxana, demonstrou que um anel molecular sobre um fino eixo molecular foi capaz de se mover ao longo do eixo. Com base nas rotaxanos, conseguiu desenvolver um elevador molecular, um músculo molecular e um chip de computador baseado nessa molécula. Em 1999, Bernard Feringa foi o primeiro a desenvolver um motor molecular para movimentar um nanocarro.

Perfil biográfico dos agraciados:
         Jean-Pierre Sauvage, nascido em 1944, em Paris – França, obteve seu PhD. na Universidade Louis Pasteur, Estrasburgo, França, sob a supervisão de Jean-Marie Lehn, em 1971. Após um estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford, Reino Unido, voltou a Estrasburgo, onde foi Diretor de Pesquisa no CNRS de 1979 a 2009 e é Professor emérito desde 2009. Entre muitas outras honrarias, Sauvage recebeu em 1971, o Prêmio da Sociedade Francesa de Química; em 1988, a Medalha de Prata da CNRS; em 1994, a Medalha Prelog Ouro da ETH de Zurique, Suíça e em 2012, a Medalha de Química Blaise Pascal da Academia Europeia de Ciências. Atualmente é membro das Academias Francesa e Europeia de Ciências.
         Sir J. Fraser Stoddart, nascido em 1942, em Edimburgo, Reino Unido, obteve seu PhD. na Universidade de Edimburgo, Reino Unido, em 1966. Após o pós-doutorado na Universidade Queen, no Canadá, tornou-se professor de Química na Universidade de Sheffield, Reino Unido. Em 1990, mudou-se para a Cátedra de Química Orgânica da Universidade de Birmingham, Reino Unido, e foi chefe da Escola de Química de 1993 a 1997, e partir deste ano se tornou professor de Química da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), sucedendo ao Prêmio Nobel Donald Cram. Em 2002, se tornou Diretor do Instituto da Califórnia NanoSystems (CNSI), Los Angeles – EUA. Desde 2008, é professor de Química da Universidade de Northwestern, em Evanston, Illinois, EUA. Entre outras honrarias, Stoddart recebeu em 2007 o Prêmio Albert Einstein de Ciências e em 2006, foi nomeado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II.
         Bernard L. Feringa, nascido a 1951, em Barger-Compascuum, Holanda, estudou Química na Universidade de Groningen, Holanda, onde em 1978 obteve seu PhD. Depois de trabalhar como pesquisador nos laboratórios da Shell, na Holanda e no Reino Unido, voltou para a Universidade de Groningen como conferencista. Em 1988, Feringa foi promovido a Professor Catedrático de Química Orgânica e em 2004 foi nomeado Professor de Ciências Moleculares da cátedra de Jacobus H. van't Hoff. Entre muitas outras honrarias, Feringa recebeu o Prêmio Spinoza (a mais alta distinção científica da Holanda), a Medalha de Ouro Prelog, a Medalha Paracelso, a Medalha de Ouro de Nagoya e em 2016, a Medalha August Wilhelm von Hofmann. É membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências e membro da Academia Real Holandesa de Ciências. Em 2008, foi nomeado por esta Academia para ser condecorado pela Rainha da Holanda.

Prêmio Nobel de Química de 2016



           
         O Prêmio Nobel de Química de 2016 foi atribuído conjuntamente aos cientistas Jean-Pierre Sauvage, da Universidade de Estrasburgo – França, Sir J. Fraser Stoddart, da Universidade Northwestern, Evanston, Illinois – EUA e Bernard L. Feringa, da Universidade de Groningen – Holanda, "pelas contribuições à concepção e síntese de máquinas moleculares".
         Os agraciados conseguiram desenvolver as menores máquinas do mundo, a partir de sistemas moleculares fora do equilíbrio para estados cheios de energia em que os seus movimentos podem ser controlados. Essas máquinas moleculares provavelmente serão utilizadas no desenvolvimento de novos materiais, sensores, e sistemas de armazenamento de energia.
         Em 1983, Jean-Pierre Sauvage conseguiu ligar duas moléculas em forma de anel num conjunto para formar uma cadeia, um chamada catenano. Os dois anéis entrelaçados podem se mover um em relação ao outro. Em 1991, Fraser Stoddart desenvolveu a rotaxana, demonstrou que um anel molecular sobre um fino eixo molecular foi capaz de se mover ao longo do eixo. Com base nas rotaxanos, conseguiu desenvolver um elevador molecular, um músculo molecular e um chip de computador baseado nessa molécula. Em 1999, Bernard Feringa foi o primeiro a desenvolver um motor molecular para movimentar um nanocarro.

Perfil biográfico dos agraciados:
         Jean-Pierre Sauvage, nascido em 1944, em Paris – França, obteve seu PhD. na Universidade Louis Pasteur, Estrasburgo, França, sob a supervisão de Jean-Marie Lehn, em 1971. Após um estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford, Reino Unido, voltou a Estrasburgo, onde foi Diretor de Pesquisa no CNRS de 1979 a 2009 e é Professor emérito desde 2009. Entre muitas outras honrarias, Sauvage recebeu em 1971, o Prêmio da Sociedade Francesa de Química; em 1988, a Medalha de Prata da CNRS; em 1994, a Medalha Prelog Ouro da ETH de Zurique, Suíça e em 2012, a Medalha de Química Blaise Pascal da Academia Europeia de Ciências. Atualmente é membro das Academias Francesa e Europeia de Ciências.
         Sir J. Fraser Stoddart, nascido em 1942, em Edimburgo, Reino Unido, obteve seu PhD. na Universidade de Edimburgo, Reino Unido, em 1966. Após o pós-doutorado na Universidade Queen, no Canadá, tornou-se professor de Química na Universidade de Sheffield, Reino Unido. Em 1990, mudou-se para a Cátedra de Química Orgânica da Universidade de Birmingham, Reino Unido, e foi chefe da Escola de Química de 1993 a 1997, e partir deste ano se tornou professor de Química da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), sucedendo ao Prêmio Nobel Donald Cram. Em 2002, se tornou Diretor do Instituto da Califórnia NanoSystems (CNSI), Los Angeles – EUA. Desde 2008, é professor de Química da Universidade de Northwestern, em Evanston, Illinois, EUA. Entre outras honrarias, Stoddart recebeu em 2007 o Prêmio Albert Einstein de Ciências e em 2006, foi nomeado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II.
         Bernard L. Feringa, nascido a 1951, em Barger-Compascuum, Holanda, estudou Química na Universidade de Groningen, Holanda, onde em 1978 obteve seu PhD. Depois de trabalhar como pesquisador nos laboratórios da Shell, na Holanda e no Reino Unido, voltou para a Universidade de Groningen como conferencista. Em 1988, Feringa foi promovido a Professor Catedrático de Química Orgânica e em 2004 foi nomeado Professor de Ciências Moleculares da cátedra de Jacobus H. van't Hoff. Entre muitas outras honrarias, Feringa recebeu o Prêmio Spinoza (a mais alta distinção científica da Holanda), a Medalha de Ouro Prelog, a Medalha Paracelso, a Medalha de Ouro de Nagoya e em 2016, a Medalha August Wilhelm von Hofmann. É membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências e membro da Academia Real Holandesa de Ciências. Em 2008, foi nomeado por esta Academia para ser condecorado pela Rainha da Holanda.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Einstein acertou: cientistas provam que ondas gravitacionais existem


Detecção acontece pouco mais de cem anos após publicação da Teoria da Relatividade Geral pelo físico


Por CESAR BAIMA

Ondas gravitacionais geradas por colisões de buracos negros foram observadas pela primeira vez pelo LIGO – Divulgação de vídeo do LIGO

RIO — Última das principais previsões da Relatividade Geral de Albert Einstein que ainda não tinham sido observadas diretamente, as ondas gravitacionais foram finalmente detectadas, provando mais uma vez a correção da teoria publicada pelo físico de origem alemã há pouco mais de cem anos. Após meses de rumores na comunidade científica, que ganharam ainda mais força nas últimas semanas, pesquisadores do experimento Ligo (Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria a Laser, na sigla em inglês), nos EUA, anunciaram ontem em uma conferência em Washington que seus equipamentos registraram a passagem dessas distorções no espaço-tempo pela Terra em 14 de setembro último, o que deverá representar uma nova era na astronomia e cosmologia.

— Senhoras e senhores, nós detectamos ondas gravitacionais. Conseguimos! — comemorou David Reitze, pesquisador do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e diretor-executivo do Ligo. — Esta é a primeira vez que o Universo fala conosco por meio de ondas gravitacionais. Ao abrirmos essa nova janela para a astronomia, poderemos ver coisas que nunca vimos antes.

Processo que mostra a colisão de dois buracos negros, o que acontece em pouquíssimos segundos - Divulgação/LIGO

         Elaborada para explicar como funciona a gravidade, a Relatividade Geral diz que toda massa distorce a estrutura do espaço-tempo à sua volta, deformações geralmente ilustradas, de maneira simplificada, como uma bola de boliche pousada em uma cama elástica, e que sentimos como uma força atrativa. Mas como nada no Universo é estático, a movimentação de qualquer objeto provoca oscilações no tecido do espaço-tempo que se espalham a partir dele como uma pedra atirada em um lago, que são as chamadas ondas gravitacionais.

50 vezes a energia de todas as estrelas
Estas oscilações, no entanto, são muito pequenas. Assim, para as ondas gravitacionais serem detectadas, pelo menos com a tecnologia disponível atualmente — e inexistente na época de Einstein —, é preciso, primeiro, que elas sejam geradas por objetos extremamente maciços se movendo muito rápido. E foi exatamente isso que o Ligo observou.
Segundo os cientistas, o sinal captado — com uma frequência que começou em 35 ciclos por segundo (hertz) e rapidamente subiu para 250 hertz, e por isso foi equiparado ao “pio” de um passarinho — foi provocado pela fusão de dois buracos negros, um com cerca de 36 vezes a massa do Sol e outro com 29 massas solares, que colidiram a uma velocidade equivalente à metade da luz em uma galáxia distante, há estimados 1,3 bilhão de anos. Dessa união resultou um novo buraco negro com 62 vezes a massa do Sol, com as três massas solares faltantes convertidas em uma fração de segundo na energia que alimentou a emissão das ondas gravitacionais, num total que, neste breve período de tempo, ultrapassou em 50 vezes a energia liberada por todas as estrelas do Universo juntas.
Apesar de todo este poder na sua origem, os efeitos da passagem das ondas gravitacionais pela Terra foram ínfimos. Isso porque, assim como as ondas geradas pela pedra no lago vão diminuindo de tamanho à medida que se afastam do ponto de impacto, essas oscilações no espaço-tempo perderam “força” ao percorrerem os 1,3 bilhão de anos-luz que nos separam do agora único buraco negro. Assim, durante uma fração de segundo, elas esticaram e espremeram o espaço-tempo no nosso planeta em apenas uma parte em um sextilhão, no equivalente à largura de um simples núcleo atômico.
E essa variação tão pequena só pôde ser detectada graças à incrível sensibilidade do Ligo. Idealizado pelos físicos americanos Rainer Weiss, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Kip Thorne, do Caltech, e o escocês Ronald Drever, hoje aposentado, mas anteriormente associado ao instituto californiano — e todos eles desde já considerados fortes candidatos a receberem um futuro Prêmio Nobel de Física, se não ainda este ano muito em breve —, o experimento é, na verdade, composto por dois observatórios instalados nos estados americanos de Washington e Louisiana, cerca de três mil quilômetros distantes um do outro.
Construídos a um custo de mais de US$ 1,1 bilhão (cerca de R$ 4,4 bilhões) a partir dos anos 1990 pela Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF), nestes dois observatórios potentes lasers com comprimento de onda extremamente curto batem e voltam constantemente em espelhos colocados nas extremidades de dois corredores de aproximadamente quatro quilômetros de comprimento cada, erguidos em forma de “L” e cuidadosamente protegidos de vibrações externas. Em situações normais, esses dois raios de luz se anulam ao se encontrarem no “canto” do “L”, num processo conhecido como interferometria. Mas, quando uma onda gravitacional passa por eles, um dos “braços” do “L” fica ligeiramente mais curto ou longo que o outro, e parte da luz “vaza” para atingir um detector. Com isso, os dois observatórios podem medir variações no comprimento dos corredores por essas oscilações no espaço-tempo com uma precisão de um décimo de milésimo do diâmetro de um próton.

Uma nova era na astronomia
Mais que provar, novamente, que Einstein estava certo, porém, a detecção das ondas gravitacionais promete abrir novos caminhos para as pesquisas em astronomia e cosmologia. Até hoje, por exemplo, alguns teóricos, embora poucos, duvidavam da possibilidade da existência de buracos negros — ideia que inclusive não agradava e chegou a ser rechaçada pelo famoso autor da Relatividade Geral —, o que agora foi definitivamente comprovado, já que nenhum outro par de objetos poderia concentrar tanta massa em tão pouco espaço e se comportar da maneira como os dois cuja fusão foi observada pelo Ligo.
— A importância desta detecção vai além do que podemos prever, pois acaba de nascer um novo campo da ciência — destaca a astrônoma brasileira Duilia de Mello, professora da Universidade Católica da América, nos EUA, e pesquisadora do Centro de Voo Espacial Goddard, da Nasa. — Já estudamos a teoria de ondas gravitacionais há muito tempo, mas só hoje (ontem) é que esta teoria virou realidade. Só hoje (ontem), quando os cientistas do Ligo mostraram os sinais observados, que a comunidade científica respirou aliviada. Agora estamos prontos para inventar, inovar e transformar a ciência e a tecnologia mais uma vez. Já pensou quanta coisa importante está por ser descoberta que antes não conhecíamos? Agora que podemos ouvir buracos negros se chocando, podemos sonhar em ouvir muito mais e entender melhor fenômenos que nos deixam sempre perplexos e que fazem parte da história do Universo.