Para estudar o processo científico e aperfeiçoar sistemas de
avaliação, pesquisadores analisam papers inovadores
que têm reconhecimento tardio.
BRUNO DE PIERRO Pesquisa FAPESP, n. 256, junho 2017.
Pesquisadores
que acompanham a produção científica de sua área sabem que bons papers nem sempre têm repercussão instantânea. Não
chega a ser incomum que ideias inovadoras demorem um pouco para ter sua
importância assimilada – vencedores do prêmio Nobel, com frequência, são
premiados por contribuições feitas há muitos anos, às vezes décadas –, assim
como acontece de surgirem aplicações baseadas em conceitos já conhecidos, que
ganham relevância extemporânea. Especialistas da área de cientometria, ramo que
estuda aspectos quantitativos da produção do conhecimento, apelidaram de “belas
adormecidas” os artigos que despertam interesse anos ou até décadas depois de
terem sido divulgados. E passaram a estudá-los como expressões do fenômeno do
reconhecimento tardio da produção científica.
Um
caso famoso e extremo foi o do virologista norte-americano Francis Peyton Rous,
que em 1911 publicou um artigo demonstrando que alguns tipos de câncer de pele
observado em aves eram causados por vírus de RNA, os retrovírus. A importância
do trabalho só se tornou visível em 1951, depois que um vírus da leucemia foi
isolado, definindo o início da associação entre infecções causadas por esses
organismos e o câncer. Em 1966, Rous foi agraciado com o Prêmio Nobel de
Medicina. Episódios semelhantes foram analisados em estudos que buscam
compreender a natureza dos artigos adormecidos e identificar quais fatores
contribuem para despertá-los.
Para
o físico Anthony Van Raan, pesquisador da Universidade de Leiden, na Holanda, é
preciso ter em mente que os artigos adormecidos com potencial de provocar mudanças de paradigma são bastante raros, o que
torna a identificação deles uma tarefa complicada. “Em sua enorme maioria,
artigos que passam despercebidos continuarão assim para sempre simplesmente
porque não são interessantes”, comenta Raan, que cunhou pela primeira vez o
termo “belas adormecidas” (sleeping beauties)
para se referir a papers que tardaram a ser
reconhecidos e a ter impacto. Seus trabalhos mais recentes buscam identificar
os “príncipes” responsáveis por quebrar o encanto e deflagrar o interesse por
esses artigos.
Em artigo publicado em fevereiro na
revista Scientometrics, Raan mostrou que, na área de física,
16% dos artigos adormecidos indexados ao Web of Science foram despertados
quando mencionados em patentes. Observou também que o intervalo de tempo entre
o ano de publicação de um artigo adormecido e sua primeira citação em uma patente
diminuiu a partir do início da década de 1990. “Isso pode significar que
artigos adormecidos com importância tecnológica, talvez invenções potenciais,
estão sendo descobertos cada vez mais cedo”, sugere Raan. Segundo ele, é comum
que bons artigos que possam passar despercebidos apresentem conceitos ou
tecnologias que estão à frente de seu tempo. Em 1958, por exemplo, foi
publicado um artigo que descrevia uma forma eficiente de obter óxido de grafite
em larga escala. O estudo só começou a ser citado em 2007, quando se descobriu
que o óxido de grafite poderia ser utilizado na obtenção, em escala industrial,
do grafeno, material extremamente duro e maleável, caracterizado como uma folha
de carbono com espessura atômica e detentor de propriedades elétricas, mecânicas
e ópticas.
O físico Ado Jório de Vasconcelos,
professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicou em 2002 um paper no qual descrevia a aplicação de uma técnica
conhecida como espectroscopia Raman na identificação das propriedades de
nanotubos de carbono, considerados bons condutores térmicos. “O artigo passou a
ser citado intensamente apenas a partir de 2010, quando a comunidade científica
começou a dar importância para o estudo da anomalia de Kohn, uma característica
vibracional dos núcleos atômicos que se acoplam nos elétrons. Esse fenômeno era
conhecido em materiais metálicos. Meu trabalho já evidenciava que também era
uma característica dos nanotubos”, conta Jório, que em 2016 foi incluído na
lista dos 3 mil cientistas “mais influentes” do mundo, divulgada pela empresa
Thomson Reuters.
Avaliação
Estudos sobre o reconhecimento tardio de papers também
buscam aperfeiçoar os sistemas de avaliação da ciência, muitos deles baseados
em indicadores que privilegiam o impacto obtido em curto prazo. Um trabalho
publicado em abril na revista Nature sugere
que artigos científicos que deram contribuições transformadoras, mesmo não se
enquadrando propriamente no conceito de belas adormecidas, demoraram em geral
mais tempo para repercutir do que aqueles que produziram avanços incrementais.
“Observamos que pesquisas realmente inovadoras recebem citações a longo prazo,
a partir de sete anos após a publicação”, disse à Pesquisa FAPESPJian Wang, pesquisador da Universidade
de Leuven, na Bélgica, um dos autores do estudo. O estudo concluiu que
indicadores bibliométricos que utilizam um período de citação de apenas três
anos são claramente ineficientes para avaliar pesquisas cujos resultados
necessitam de tempo para serem compreendidos.
Wang e sua equipe
analisaram citações de mais de 660 mil artigos publicados em 2001, em todas as
áreas do conhecimento, indexados na base de dados Web of Science. Verificaram
que 89% dos manuscritos apresentavam um baixo grau de inovação. Para
caracterizar quais artigos seriam considerados inovadores foram selecionados
trabalhos que apresentavam referências bibliográficas inusitadas, combinando
autores e áreas do conhecimento de forma distinta do padrão de cada área. “Um
método para verificar se um artigo contém novas ideias e conceitos é olhar sua
capacidade de combinar diferentes referências bibliográficas de maneira
inédita. Essa característica pode apontar a natureza mais arriscada da
pesquisa”, explica Wang.
Observou-se que, no
período de três anos após a publicação, a probabilidade de que um artigo muito
inovador estivesse no conjunto dos 1% altamente citados era menor que a dos
demais. Segundo o estudo, os trabalhos que receberam muitas citações logo nos
três primeiros anos tenderam a ficar obsoletos. “Já aqueles considerados
disruptivos, com alto grau de novidade, representavam 60% dos trabalhos mais
citados 15 anos após a publicação”, explica Wang. Ele conclui que, embora
agências de fomento sustentem a importância de investir em pesquisas de caráter
transformador, seus sistemas de avaliação acabam privilegiando estudos
incrementais ao utilizar os indicadores de impacto mais populares. “O uso
generalizado de parâmetros como o número de citações por agências de apoio e revisores
pode desencorajar pesquisas com potencial de quebrar paradigmas”, sugere Wang.
Como exemplo de órgãos
que utilizam de alguma forma indicadores bibliométricos em seus processos de
avaliação, o estudo cita o Conselho Europeu de Pesquisa (ERC), a Fundação
Nacional de Ciências Naturais da China, a Fundação Nacional de Ciências dos
Estados Unidos (NSF) e a brasileira Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior (Capes), que criou o sistema Qualis de classificação de
periódicos científicos. Rita Barradas Barata, diretora de Avaliação da Capes,
explica que, para supervisionar os cerca de 4.200 programas de pós-graduação no
país, a instituição monitora a produção científica de professores e alunos.
“Como é impossível medir a qualidade de cada um dos mais de 800 mil artigos
publicados pelos programas, fazemos uma classificação dos veículos nos quais os
trabalhos são publicados”, informa. Para isso, são levados em consideração em
várias disciplinas indicadores como o Journal Impact Factor (JIF), apontado no estudo de Wang como uma das
ferramentas que desfavorecem artigos que demoram para serem reconhecidos.
Rita reconhece que as
instituições se acostumaram a concentrar sua atenção em artigos muito citados
no curto prazo. “Há a tendência de orientar o olhar para aquilo que os
indicadores bibliométricos dizem que é bom no momento.” Uma ideia em discussão,
segundo a diretora, é que as agências e instituições de pesquisa adotem algum
tipo de política de prospecção, na tentativa de garimpar temas que podem estar
sendo subestimados. Na avaliação de Wang, as agências não precisam buscar
formas de favorecer pesquisadores pouco citados. “Basta julgarem cada proposta
por seu próprio mérito, o que é difícil de fazer. Sistemas de avaliação por
pares são um bom contraponto para o uso excessivo de métricas”, afirma.
Fator
de impacto
Em estudo publicado em 2015 na revista PNAS, pesquisadores
da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, analisaram 22 milhões de papers publicados ao longo de 100 anos, indexados aos
arquivos da American Physical Society e da Web of Science, e verificaram que a
maior parte dos artigos que permaneceram adormecidos por longos períodos de
tempo, e depois tornaram-se célebres em suas áreas, é de química, física e
estatística. O estudo dos pesquisadores de Indiana chama a atenção para o fato
de que o próprio conceito de “fator de impacto” permaneceu escondido em um
artigo publicado em 1955 por Eugene Garfield. No artigo, Garfield, que morreu em
fevereiro, apresenta ideias e conceitos que mais tarde seriam usados para
consolidar a base de dados Web of Science, da Thomson Reuters. “O paper esteve adormecido por quase 50 anos, até se
tornar popular no início dos anos 2000 e ser citado em trabalhos sobre
bibliometria, alguns do próprio Garfield”, informa o estudo.
Van Raan explica que,
embora se concentrem mais nas ciências exatas, os artigos adormecidos podem ser
encontrados em praticamente todas as áreas do conhecimento. “Estou começando a
investigar as áreas médicas e também as ciências sociais e espero descobrir
coisas interessantes”, conta Raan, que aposta no desenvolvimento de programas
de computador capazes de identificar belas adormecidas da ciência.
Paulo Artaxo, professor
do Instituto de Física da USP, vê com naturalidade o fato de bons artigos não
receberem, à primeira vista, o devido reconhecimento. “Pesquisas com ideias
muito diferentes do mainstream demoram
para ser digeridas pela comunidade científica, que muitas vezes reage com
estranhamento e até com preconceito a novas ideias”, explica. Segundo ele, os
estudos que tentam analisar os artigos adormecidos podem cumprir um papel
importante. “Podem nos fornecer pistas para entender por que grandes ideias
passam despercebidas.
Trata-se de uma
oportunidade de alertar as editoras a pensarem estratégias de tornar os artigos
mais visíveis e legíveis, porque hoje o grau de especialização nas pesquisas é
excessivo, o que dificulta o entendimento até para quem é da própria área de
pesquisa”, observa. Para Ado Jório, cabe ao autor da pesquisa esforçar-se para
divulgar seus trabalhos, especialmente quando sabe que está propondo algo que
bate de frente com o paradigma vigente. “Não basta publicar o artigo e torcer
para que ele seja lido, compreendido e citado. É preciso participar de
congressos, conferências e debates, procurando sempre falar sobre sua pesquisa
com as pessoas que possam se interessar por ela”, recomenda.
Nenhum comentário:
Postar um comentário