sábado, 17 de novembro de 2012

Ciência Hoje On-line: Genômica no consultório


Avanços tecnológicos e redução de custos podem tornar novas técnicas de diagnóstico aliadas poderosas e acessíveis na prevenção e no tratamento de doenças genéticas.

Radiografia, eletrocardiograma, tomografia, ressonância magnética. Apesar das variações nos custos e das limitações dos sistemas de saúde, todos esses exames são, hoje, relativamente comuns e acessíveis e também fundamentais no tratamento de doenças. Passada mais de uma década do sequenciamento do genoma humano, a genômica poderá, em breve, fazer parte desse rol. O diagnóstico é do geneticista Sergio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cujo laboratório já realiza exames clínicos com uma técnica pioneira - prática que, segundo ele, poderá modificar muito o tratamento de doenças genéticas.

O potencial de iminente aplicação clínica da genômica deve-se, em grande parte, à evolução das técnicas de sequenciamento genético. O primeiro rascunho do genoma humano levou 11 anos e custou mais de dois bilhões de dólares para ser realizado. Hoje, o trabalho pode ser feito em uma semana, por alguns milhares de dólares. "A perspectiva é que cheguemos a um custo de mil dólares em pouco tempo, mesma faixa de preço de exames como a ressonância magnética, o que abre as portas para uma aplicação clínica ampla de técnicas genéticas de diagnóstico", defende o geneticista.

Leia a matéria completa na Ciência Hoje On-line, que tem conteúdo exclusivo atualizado diariamente:http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2012/11/genomica-no-consultorio.

(ICH)

Esperança na luta contra o câncer, artigo de Ana Amélia


Ana Amélia é senadora (PP-RS). Artigo publicado no Correio Braziliense de hoje (14).

Portadores de câncer ganharam um direito e uma esperança. Em 30 de outubro, o Senado Federal aprovou, em caráter terminativo, substitutivo da Câmara dos Deputados (SCD nº 32/1997) garantindo prioridade no tratamento aos pacientes diagnosticados com câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em prazo máximo de até dois meses. Esse direito é fundamental, porque aumenta a esperança na cura. Hoje, o tratamento pode demorar seis meses para ser iniciado. Isso prolonga e agrava o sofrimento do paciente e da família após a confirmação da doença.

Quando o projeto for sancionado pela presidente Dilma Rousseff, o SUS terá de agilizar o acesso à terapia. A proposta do ex-senador Osmar Dias, que tive a honra de relatar, no Senado, tem enorme alcance social, pois, quanto mais cedo for iniciado o tratamento com cirurgia, radioterapia ou quimioterapia, dependendo da recomendação do oncologista, maiores são as chances de cura. Para o diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer (Inca), oncologista Luiz Antônio Santini, "a iniciativa beneficia os pacientes do SUS e melhora a eficácia e a prestação de serviços no tratamento da doença".

O diretor-geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira (Icesp), oncologista Paulo Hoff, usa números alarmantes para chamar a atenção para o problema. São registrados, por ano, 500 mil novos casos de todos os tipos da doença no Brasil. Somente em relação ao câncer de mama, 1 milhão de pessoas desenvolve a doença, anualmente no mundo, conforme dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).

No Brasil, as estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca) indicam que, até o fim de 2012, pelo menos 52,6 mil novos casos de tumores na mama devem ser registrados. São 35 mulheres brasileiras morrendo, todos os dias, no país, por causa dessa doença, como alerta a líder da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), mastologista Maira Caleffi. Dados da entidade indicam que o diagnóstico antecipado aumenta em 95% as chances de cura. São números preocupantes, que comprovam a importância das ações voltadas ao diagnóstico precoce e à prevenção.

Outro projeto que pode aumentar a esperança dos pacientes, de minha autoria, o Projeto de Lei nº 3.998/2012 inclui, nas coberturas obrigatórias dos planos de saúde, a quimioterapia oral no tratamento da doença, em domicílio. O PL está na Câmara dos Deputados. É iniciativa legislativa inspirada na sugestão do Instituto Oncoguia e objetiva facilitar o tratamento, com rapidez. O projeto recebeu apoio das entidades médicas e tem o aval do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Essa parceria fortalece a confiança de que outra boa notícia para os pacientes de câncer está a caminho. Há solidariedade ao projeto também na Câmara.

O câncer é, com certeza, uma das preocupações no Congresso. Atualmente, 530 ações relativas à doença, incluindo projetos, requerimentos e pedidos de audiências públicas tramitam nas duas casas legislativas. São propostas que concedem benefícios fiscais, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na compra de automóvel adaptado para quem sofreu limitações físicas e sequelas após o câncer de mama (linfedema).

O PL nº 241/2011, também de minha autoria, foi proposta pela Femama. O PL nº 645/2011, iniciativa coletiva da Comissão de Assuntos Sociais (CAS), presidida pelo senador Jayme Campos (DEM-MT), criando incentivos fiscais a pessoas físicas e jurídicas interessadas em apoiar instituições filantrópicas ou privadas dedicadas ao tratamento de câncer, foi resultado de audiência pública com entidades de combate ao câncer. O governo desestimulou o projeto, mas, felizmente, voltou atrás e apresentou idêntico benefício na Medida Provisória nº 563.

A MP, transformada na Lei nº 12.715/2012, cria o Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (Pronom), permitindo que empresas e pessoas físicas apliquem parte do Imposto de Renda devido na prestação de assistência na oncologia ou em doações para pesquisas. Em parceria com a advogada Antonieta Barbosa, meu gabinete produziu a cartilha sobre os direitos dos portadores de câncer, inspirada em trechos do livro Câncer - Direito e cidadania, de autoria dessa advogada pernambucana que percorreu os labirintos da legislação para desenhar o mapa da cidadania dos pacientes de câncer.

São ações políticas importantes sobre tema de grande interesse da sociedade. O protagonismo do Congresso nessa matéria tem forte respaldo de entidades médicas filantrópicas públicas e privadas, apoiadoras da causa. Estimular a prevenção, promover pesquisas e facilitar o tratamento do câncer são, sem dúvida, um desafio coletivo.

* A equipe do Jornal da Ciência esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do jornal.

Manaus sediará Encontro Preparatório para o Fórum Mundial de Ciência 2013


Estão abertas as inscrições online para o 3º Encontro Preparatório para o Fórum Mundial de Ciência 2013.

Manaus será a terceira capital a reunir cientistas, pesquisadores, especialistas de diversas áreas e representantes do poder público para discutir importantes temas ligados à "Diversidade tropical e ciência para o desenvolvimento", entre os dias 28 e 30 de novembro no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

O Encontro na capital do Amazonas faz parte da programação das reuniões temáticas em sete capitais e tem como objetivo promover uma ampla discussão nacional para ser levada para o âmbito internacional. As propostas relatadas serão encaminhadas para o Fórum Mundial de Ciência, que será realizado no Rio de Janeiro em novembro de 2013.

Será a primeira vez que o evento ocorrerá fora da Hungria. Com o tema "Ciência para o Desenvolvimento Global", o Fórum é organizado pela Academia de Ciências da Hungria em parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), International Council for Science (ICSU), American Association for the Advancement of Science (AAAS), a Academy of Sciences for the Developing World (TWAS), o European Academies Science Advisory Council (EASAC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Organizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), ABC e o Inpa, o Encontro Preparatório de Manaus abordará os seguintes assuntos:

- Trópico úmido: singularidades, potencialidades, demandas para seu desenvolvimento e o papel da ciência;
- Ciência para o uso de recursos naturais e tropicais;
- Florestas tropicais, mitigação e adaptação a mudanças climáticas;
- Educação e cultura para formação de cientistas e inovadores nos trópicos;
- Ética e ciência na fronteira do conhecimento;
- Ciência para inclusão social e redução da pobreza nos trópicos

O Encontro, programado para acontecer no Auditório da Ciência, contará com a participação especial do pesquisador e professor Edward Osborne Wilson (Harvard University, EUA), com o tema principal "Diversidade tropical e ciência para o desenvolvimento", após a abertura solene composta por autoridades locais e nacionais às 15h do dia 28.

Para atender ao público que não puder comparecer ao evento, o CGEE transmitirá ao vivo as palestras e atividades pela web. A ideia é garantir que pesquisadores, cientistas e profissionais do setor tenham acessos às principais discussões sobre os temas apresentados no Encontro de Manaus.

A Comissão Executiva Nacional do Fórum já realizou dois Encontros Preparatórios. O primeiro aconteceu em São Paulo, entre os dias 29 e 31 de agosto deste ano, com o tema 'Ciência para o desenvolvimento global - da educação para a inovação: construindo as bases para a cidadania e o desenvolvimento sustentável'.

O segundo foi realizado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), entre os dias 29 e 30 de outubro, com o tema 'Desafios para o desenvolvimento científico e tecnológico nos trópicos'.

As inscrições para o Encontro Preparatório de Manaus podem ser feitas no link: http://fmc.cgee.org.br/index.php?option=com_wrapper&view=wrapper&Itemid=188. A entrada é franca e a transmissão online do evento será por meio do link:http://fmc.cgee.org.br.

(Ascom da SBPC)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Alçapão molecular captura CO2



Filtragem de CO2
            Pesquisadores australianos desenvolveram uma nova técnica para capturar e armazenar dióxido de carbono (CO2) de forma simples e seletiva.

            Os cientistas acreditam que capturar e guardar o CO2 emitido pelas atividades humanas é a única forma de evitar que o aquecimento global atinja níveis perigosos.

            E não apenas guardar, já que o gás é um recurso útil para a fabricação de produtos químicos, combustíveis e até medicamentos.

 

Energia solar transforma CO2 em combustível para carros
           
           No entanto, os processos atuais são ineficientes e exigem várias fases de extração para produzir dióxido de carbono puro o suficiente para sua reutilização ou armazenagem.

 
Nanopeneira

            Uma das técnicas mais usadas para a captura do dióxido de carbono é através de uma peneira molecular, um sistema de filtragem ultrafina que captura uma variedade de moléculas, que precisam depois ser separadas por meio de mais filtragens, até se obter apenas o CO2.

            Agora, Jin Shang e seus colegas da Universidade de Melbourne desenvolveram uma nanopeneira com uma dupla vantagem.

            A primeira é que ela possui um mecanismo de abre e fecha, parecido com um alçapão, que não deixa a molécula de CO2 retornar, aumentando a eficiência e diminuindo a necessidade de energia para a filtragem.

            O segundo é que nanopeneira é seletiva, capturando apenas as moléculas de dióxido de carbono, eliminando assim a necessidade de refiltragens e gerando um gás puro.

 

Purificação de gás natural

            "Os resultados sugerem que este novo material terá importantes aplicações para purificação de gás natural. Muitos campos de gás natural contêm dióxido de carbono em excesso, que deve ser removido antes que o gás possa ser liquefeito e enviado para uso," explicou o professor Paul Webley.

            Tão logo a molécula de CO2 passa pela nanopeneira, o alçapão molecular se fecha, aprisionando-a.

            "Temos um novo material que é capaz de separar o dióxido de carbono de qualquer vapor, como a exaustão das usinas termoelétricas ou das fontes de gás natural. Embora não possamos mudar a indústria de uma vez só, estamos oferecendo uma ponte para uma solução viável," disse Webley.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Pesquisadores de Harvard armazenam 704 TB em um grama de DNA


Descoberta pode ser capaz de guardar todas as informações sobre a humanidade durante períodos de tempo que passam dos 400 mil anos.




Um time de cientistas de Harvard liderados por George Church conseguiu usar filamentos de DNA como um meio para armazenar dados. Para isso, eles atribuíram um valor binário a cada uma das bases (A, C, G, T), criando uma sequência genética que em seguida foi sintetizada em um chip microfluídico que faz correspondências entre elas e um banco de dados com informações relevantes.
A técnica é capaz de armazenar cerca de 96-bits em um único filamento de DNA, algo que não parece muito impressionante em um primeiro momento. Porém, quando se leva em consideração que a técnica permite guardar nada menos que 704 TB em um volume de um milímetro cúbico (com peso aproximado de um grama), a descoberta surge como um forte concorrente aos discos rígidos e memórias SSD.

Armazenando todas as experiências humanas


Uma das principais vantagens da novidade é o fato de que o DNA não precisa de condições especiais para armazenar informações. “Você pode deixá-lo em qualquer lugar que desejar, seja no meio do deserto ou em seu quintal, e ele vai estar lá 400 mil anos depois”, afirma Church.
Pesquisadores de Harvard armazenam 704 TB em um grama de DNA 


Como escrever e ler os dados armazenados nos filamentos se mostra um processo mais lento do que aquele que ocorre em outras mídias, a invenção é voltada a armazenar grandes quantidades de dados que não precisam ser consultados rapidamente — quase como uma biblioteca ou uma sala imensa repleta de pastas com documentos.
O problema do método fica pelo fato de que não é possível utilizar células vivas no processo, já que os filamentos de DNA presentes nelas se destroem de maneira rápida demais. Isso forçou os pesquisadores a investir em microchips contendo os filamentos necessários para o processo, o pode significar a possibilidade de guardar em um espaço mínimo toda a soma das experiências registradas em toda a história humana.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Cientistas afirmam dióxido de carbono ‘corrói o gelo

Zhao Qin com um pedaço de gelo em frente ao modelo atômico usado para simular o efeito do dióxido de carbono sobre a quebra do gelo. (Cortesia: MIT)

 

          A concentração de dióxido de carbono na atmosfera aumentou de aproximadamente 280 ppm na época da revolução industrial para cerca de 390 ppm nos dias de hoje. Atualmente, pesquisadores dos EUA têm realizado simulações ao nível atômico que sugerem que o aumento das concentrações de CO2 faz com que o gelo se torne mais frágil, ou seja, mais propenso a quebras ou rachaduras. Embora o trabalho esteja voltado para pequenos "nanocristais" de gelo, o grupo de pesquisadores acredita que isto possa aumentar a nossa compreensão sobre rachaduras em estruturas maiores, como geleiras e calotas polares.

          "Estes resultados sugerem que a composição química da atmosfera pode ser crucial para mediar o movimento e/ou de fusão de grandes volumes de gelo, além do efeito da temperatura global", explica Markus Buehler do Massachusetts Institute of Technology (MIT). "Num certo sentido, a fratura do gelo devido ao dióxido de carbono é semelhante à distribuição de materiais devido à corrosão, como por exemplo: quando as estruturas de um carro, de um prédio ou de um central energética são ‘corroídas’ por agentes químicos, levando-as a se deteriorarem lentamente. Na caso do gelo, o dióxido de carbono pode desempenhar o papel de um agente corrosivo e levar à desestabilização da estrutura."

          As geleiras e calotas polares recobrem 7% da Terra, uma área maior do que a Europa e América do Norte. Refletem de 80 a 90% da radiação solar incidente e atuam como um sumidouro de carbono - o que significa que o derretimento significativo poderia criar um ciclo de realimentação e impulsionar ainda mais o aquecimento.

Quebra de ligações

          "Da mesma maneira que para outros materiais, o processo de fratura de grandes volumes de gelo, ex.: geleiras, é geralmente iniciada por um única rachadura propagando-se nos cristais de gelo pela quebra das ligações de hidrogênio entre as moléculas de água", diz Buehler. "Estas fissuras eventualmente crescem e quebram a geleira inteira a partir da propagação e ramificação em grandes distâncias. Fraturas de gelo em macro-escala ocorreram recentemente perto da Geleira de Pine Island (Antártida), gerando um iceberg com uma área do mesmo tamanho da cidade de Berlim. "

          Buehler e o colega Zhao Qin realizaram simulações atômicas para examinar o efeito do dióxido de carbono no crescimento sobre a quebra do gelo e calcularam que o gelo contendo 2% de dióxido de carbono era 38% menos resistente do que o gelo puro.

 

As moléculas se movem em direção à extremidade da rachadura

          O grupo de pesquisa verificou que o dióxido de carbono rompe as ligações de hidrogénio entre as moléculas de água no gelo, uma vez que os átomos de oxigénio nos gases apresentam uma carga parcial negativa e são atraídas para os átomos de hidrogénio carregados positivamente provenientes da água. Nas simulações, foi observado que as moléculas de dióxido de carbono anexadas à superfície rachada moviam-se para a extremidade da rachadura, quebrando as ligações de hidrogênio entre as moléculas de água.

          "Se as calotas polares e geleiras continuarem a rachar e a quebrar-se em pedaços, a área da superfície exposta ao ar iria aumentar significativamente, podendo levar ao derretimento acelerado à redução da área coberta por gelo da Terra", diz Buehler. "As consequências dessas mudanças ainda precisam ser exploradas pelos especialistas, mas elas podem contribuir para as mudanças do clima global."

          Buehler, diz que a técnica utilizada no estudo foi aplicada também no estudo das propriedades mecânicas de materiais proteicos e poliméricos, cujas estruturas são normalmente estabilizadas por pontes de hidrogénio. "Para essas estruturas, descobrimos que as condições químicas, por exemplo: pH, concentração iônica e tipo de íon são muito importantes em afetar as estruturas dos materiais e as funções mecânicas", diz ele. "Estes resultados nos levam a afirmar que o dióxido de carbono diminui a força das ligações de hidrogênio na ponta da rachadura, contribuindo para a compreensão de uma das substâncias mais abundante e crítica para o clima do nosso planeta – á água congelada ou gelo ".

Buehler e Qin reportam que seu trabalho no Journal of Physics D: Applied Physics . Afirmam que são necessárias mais pesquisas para vincular a visão microscópica às propriedades macroscópicas do gelo, das geleiras e de outras estruturas geologicamente relevantes.

A queda do muro entre ciências e humanidades


Neste ano, comemora-se meio século da publicação de 'A estrutura das revoluções científicas', do físico e filósofo norte-americano Thomas Kuhn (1922- 1996).

 

            Qualquer lista relacionando os 100 livros mais relevantes e influentes do século passado não poderia deixar A estrutura das revoluções científicas de fora, sob pena de ter seus critérios de escolha devidamente contestados. As ideias contidas nessa obra transformaram radicalmente a imagem da ciência que predominara até então.

            Como consequência, as áreas de história, sociologia e filosofia da ciência nunca mais foram as mesmas depois de 1962. O livro inspirou até os chamados science studies (estudos sobre ciência), campo responsável pelas mais ricas discussões sobre a ciência nos nossos dias.

            A estrutura - traduzida pela primeira vez no Brasil em 1975 - deixou marca indelével em praticamente todos os campos do saber, a ponto de o filósofo norte-americano Richard Rorty (1931-2007) ter sentenciado que Kuhn contribuiu para remodelar a cultura humana como um todo - notadamente, para borrar a fronteira demarcatória entre ciências naturais, sociais e humanas.

            O sucesso da obra não deve, todavia, ser identificado apenas com a atitude de aprovação. Pelo contrário. Se houve autor alvo de ataques contundentes (e virulentos), esse foi Kuhn. Tanto assim que empregou, em grande medida, sua produção acadêmica pós-1962 para responder às críticas, alegando sempre ter sido mal compreendido.

 
Críticas - O que teria levado Kuhn, então, a sofrer tamanha 'perseguição'? Em grande parte, isso se explica pelo modo como ele descreveu o desenvolvimento da ciência, uma vez que este se distinguia substancialmente da forma como, até então, o progresso científico fora interpretado. A nova imagem de ciência proposta por Kuhn pode ser assim esquematizada: ciência normal - crise - revolução científica - nova ciência normal, e assim sucessivamente.

            Em linhas gerais, a ciência normal é uma modalidade de pesquisa conduzida sob os auspícios de um paradigma, sendo este responsável por instaurar um consenso em vários níveis (metodológico, epistemológico, ontológico e axiológico) no interior de uma comunidade.

            Nessa fase, os cientistas lidam com 'operações de limpeza' em seu trabalho cotidiano, no sentido de precisar resolver, de maneira personalizada e criativa, quebra-cabeças; ou seja, aprofundar o conhecimento sobre os 'fatos'; aprimorar o próprio paradigma; e aumentar a correspondência dos 'fatos' com esse último.

            No período de ciência normal, a pesquisa progride de modo linear e cumulativo, graças ao consenso generalizado engendrado pelo paradigma. A confiança no paradigma pode ser quebrada, entretanto, quando os quebra-cabeças da prática normal se tornam anomalias, isto é, problemas que, a princípio, não são mais passíveis de solução.

            A crise instaurada em função da estagnação do paradigma vigente pode ter como desfecho possível uma revolução científica, episódio de desenvolvimento não cumulativo em que um paradigma é substituído por outro, incompatível com o anterior.

            Foi, efetivamente, com relação ao tópico das revoluções científicas que Kuhn despertou a ira de seus contemporâneos. Afinal, a leitura mais comum compreende que Kuhn estaria comparando - ao afirmar que, na disputa entre paradigmas concorrentes, não se pode recorrer a critérios estritamente lógicos e empíricos para decidir a querela - a ciência com outras formas de conhecimento normalmente consideradas 'irracionais' ou 'subjetivas'.

            Inclusive, no livro, Kuhn estabelece analogias surpreendentes entre essas formas de conhecimento e a revolução científica: mudança de perspectiva (gestalt), diálogo de surdos, revolução política, conversão religiosa etc. Tudo isso para ilustrar a tese - denominada por ele incomensurabilidade - segundo a qual não haveria possibilidade de se estatuir um juiz neutro para bater o martelo, de modo inequívoco, em prol de um dos dois lados.

            Paradigmas, portanto, argumentariam sempre de forma autorreferente, não havendo possibilidade de se lançar mão da coerência lógica e racional, nem da correspondência com a verdade sobre a natureza.
 

Provocação - Nada poderia soar mais provocador para os defensores da ciência como modelo de racionalidade e objetividade. Em obras posteriores, Kuhn tentou desfazer os mal-entendidos sobre seu 'irracionalismo', 'subjetivismo', 'relativismo'... Sua alegação básica foi afirmar que a incomensurabilidade, ao contrário do que pensaram seus adversários, seria justamente a condição necessária para que a ciência continuasse progredindo, no sentido de investigar parcelas da realidade até então desconsideradas.

            A incomensurabilidade propiciaria o advento de novas especialidades científicas - daí sua proposta estar afinada com as concepções que defendiam uma racionalidade especial da ciência.

            Sem querer entrar nessa disputa por ora, o fato é que, curiosamente, suas ideias foram incorporadas principalmente pelas áreas ligadas às ciências sociais e humanas, tendo havido até, a partir da década de 1970, verdadeira corrida em busca de paradigmas perdidos nas diversas disciplinas. Em contrapartida, nas ciências naturais - originalmente o objeto de análise de A estrutura - a recepção das ideias kuhnianas passaram ao largo do entusiasmo.

            Seja como for, só o fato de Kuhn não ter explicado a ciência em termos apenas de metodologia - tendo cunhado a noção mais abrangente de paradigma (visão de mundo e valores compartilhados) - representa grande avanço em comparação à concepção de inspiração positivista predominante à época - e, talvez, ainda hoje. Isso sem contar outras contribuições igualmente importantes.
 

O autor - A compreensão da relevância da publicação de A estrutura seria incompleta ou injusta se não falássemos algo sobre seu autor. Não só o conteúdo do livro é inovador, mas também o que tornou possível sua existência. Kuhn só foi capaz de nos legar obra tão significativa porque viveu a experiência da interdisciplinaridade de modo intenso.

            Mais do que isso, Kuhn transitou entre as ciências naturais e as ciências sociais e humanas de modo exemplar, valendo lembrar que, por exemplo, no período final (1958-1959) de gestação de A estrutura, trabalhou no Centro de Estudos Avançados em Ciências do Comportamento, na Califórnia (EUA), que foi fundamental para que concebesse a ideia de paradigma como consenso, ao ter convivido com o dissenso reinante entre os cientistas sociais.

            Tendo doutorado em física teórica, Kuhn deu uma guinada para a história e a filosofia da ciência, mas sem ter perdido seu interesse original naquela área. Na verdade, é como se Kuhn tivesse feito esse movimento de 'sair' de sua área de formação para buscar ferramentas que lhe permitissem conhecê-la melhor, olhando-a de fora. E, ao entrar nas humanidades, levou toda sua bagagem de cientista, que lhe permitiu causar, 'naturalmente', verdadeira revolução dentro daquelas.

            A trajetória de Kuhn nos inspira a não pensar mais em termos de dentro e fora, uma vez que seu grande legado foi ter derrubado as fronteiras entre ciências e humanidades. A questão persistente é: como podemos levar para o nível institucional, sem perda da espontaneidade, o que Kuhn fez 'naturalmente' durante toda a sua vida?

(Portal Ciência Hoje)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Norte-americanos Robert Lefkowitz e Brian Kobilka são agraciados com o Nobel de Química de 2012


Os americanos Robert Lefkowitz e Brian Kobilka foram anunciados nesta quarta-feira (10/10/2012) como os vencedores do Prêmio Nobel de Química 2012 por seus estudos inovadores sobre os receptores acoplados às proteínas G.

         Segundo comunicado da Real Academia Sueca de Ciências, os dois pesquisadores fizeram descobertas revolucionárias sobre os funcionamentos internos de uma importante família de receptores, os acoplados às proteínas G, que permitem às células "adaptar-se a situações novas".

         Em nota, a entidade que concede a premiação disse que "cerca da metade de todos os remédios fazem efeito através dos receptores acoplados a proteínas G", por isso a descrição de seu "funcionamento interno" levará a grandes avanços neste âmbito.

         O trabalho dos dois revelou os chamados receptores G, uma vasta gama de proteínas podem atravessar as membranas das células e permitir que elas recebam mensagens químicas sobre o ambiente. É graças a elas que as bilhões de células de nosso corpo conseguem interagir e se adaptar.

         A descoberta tem várias aplicações em medicina e química. Os receptores G são alvo de cerca da metade de todos os medicamentos conhecidos. Estão ligados também às sensações, sejam luminosas, gustativas ou olfativas. São eles que também permitem que saibamos quando um alimento é doce ou salgado.

         Lefkowitz trabalha no Instituto Médico Howard Hughes e no Centro Médico Universitário Duke, em Durham (EUA), e Kobilka é pesquisador da Escola Universitária de Medicina de Stanford (EUA).

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A aventura e a beleza da Química

Leiam o editorial publicado no Journal of the Brazilian Chemical Society do mês de outubro de 2012. O texto é de autoria de Angelo da Cunha Pinto, do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
 
            Os cientistas precisam resgatar com a máxima urgência a beleza da ciência e preservar sua qualidade. A maior parte deles está mais preocupada com indicadores e índices numéricos do que propriamente com a qualidade da ciência que vêm fazendo. Passou-se a medir a importância de um artigo científico muito mais pelo fator de impacto da revista em que foi publicado do que pela sua contribuição ao conhecimento. Não que as revistas não devam ser hierarquizadas e que umas não sejam muito melhores do que outras. Mas, mesmo nas revistas consideradas como as melhores, às vezes o artigo que foi publicado é algo "requentado".

            A criatividade cedeu lugar à técnica em que a única novidade é o equipamento, mesmo que as medidas feitas pudessem ser obtidas em máquinas mais simples e acessíveis. Isso acontece em todas as áreas do conhecimento consideradas duras, como é o caso da Química e da Física. Fazer medidas e simplesmente tabulá-las não pode ser considerado ciência. Mas, infelizmente esta prática é dominante entre muitos cientistas aos quais mais interessa o número de papers do que a qualidade da ciência que fazem.

            É raríssimo assistir, nos dias de hoje, um conferencista exaltar o seu trabalho, mas é comum vê-lo distinguir, cheio de orgulho, a revista onde foi publicado. Ao lerem este texto, muitos dirão que o editorialista esqueceu-se de mencionar que a qualidade de um artigo pode ser mensurada pelo número de citações que recebeu. É verdade que o número de citações é um excelente indicador de qualidade. Mas, mesmo ele passou em muitos casos a ser um indicador "falso" por causa da criação dos "clubes de citação". Chegou-se ao cúmulo de alguns editores sugerirem a citação de artigos publicados em suas revistas nos últimos dois anos para que estas melhorem seu fator de impacto, isto sem falar nas autocitações desnecessárias feitas por muitos autores.

            Revista científica importante é aquela que é muito lida e apreciada por seus leitores. Se os indicadores forem bons, melhor. O que não pode acontecer é os editores correrem atrás dos indicadores e esquecerem a qualidade do que está sendo publicado. A prevalecer certos dogmas, os jovens se afastarão cada vez mais da ciência, e esta atividade será dominada pelos "velhos" até que eles deixem de existir, porque o número de revistas científicas cresce a cada ano em ritmo maior do que o número de jovens que optam pela carreira científica.

            Beleza, Ciência e Artes são como irmãs siamesas. Quanto maior a beleza de um artigo científico, não há dúvida, melhor e mais qualificado é seu autor ou autores, porque a ciência moderna é na maior parte das vezes obra de uma equipe. Resgatar a beleza da ciência e não deixar que esta seja terceirizada é dever de todo cientista, e, principalmente, dos editores de periódicos científicos. A estes últimos cabe zelar pela prática de uma boa ciência.

            A ciência é uma grande aventura que deve ser vivenciada em sua plenitude. E como toda e qualquer aventura, é bela para os que a ela se entregam de corpo e alma. Os químicos, como herdeiros dos feiticeiros e dos alquimistas, têm vocação pela aventura. Por isso, é dever de todo orientador inculcar nos seus orientandos o espírito de aventura e mostrar que a Química tem tanta beleza quanto qualquer obra de arte, desde que feita com criatividade, qualidade e, sobretudo, com entrega total.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nobel da pesquisa maluca ajuda a criticar ciência 'séria'

Vencedor do Ig Nobel de neurociência questiona resultados duvidosos de investigação do cérebro.

            O Prêmio Ig Nobel - a paródia do Nobel que elege as pesquisas científicas mais esdrúxulas - destaca neste ano descobertas como a de que chimpanzés reconhecem outros macacos olhando fotos de seus traseiros e um experimento que identificou ideias complexas no cérebro de um salmão morto.

            Apesar do tom de ridículo, o segundo trabalho foi, na verdade, a denúncia de uma crise na neurociência, área em que revistas técnicas têm publicado estudos com conclusões duvidosas sobre mapeamentos cerebrais.

            A lista de ganhadores tinha outros trabalhos inacreditáveis - um deles era sobre o (baixo) risco de pacientes explodirem durante colonoscopias -, e o estudo sobre a mente do peixe acabou meio ofuscado entre os vencedores anunciados ontem (20).

            O experimento de Craig Bennet, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, representa bem o lema do Ig Nobel: premiar pesquisas que "primeiro fazem rir, depois fazem pensar".

            Usando uma máquina de ressonância magnética para mapear o cérebro do animal morto, o cientista mostrou que, usando um pouco de estatística sem rigor para interpretar os resultados, é possível tirar qualquer conclusão. No estudo, Bennet mostrou que o cadáver de peixe tinha empatia e apontou quais áreas de seu cérebro eram responsáveis por isso. "Mostramos ao salmão uma série de fotografias com humanos em situações sociais de valor emocional específico", diz o estudo. "Pedíamos ao salmão para determinar quais emoções o indivíduo estaria sentindo."

            A parte do estudo de Bennet que não tinha graça nenhuma era um levantamento sobre o panorama atual da pesquisa com ressonância magnética funcional (que vê a atividade do cérebro em tempo real). Em um ano, 26% dos artigos científicos estavam se valendo do mesmo método estatístico que ele mostrou ser frágil. Numa conferência, 79% dos trabalhos tinham esse problema. Isso explica, em parte, a proliferação de estudos atribuindo funções ultraespecíficas a partes do cérebro.

            A cerimônia de entrega do prêmio ocorreu ontem (20), no teatro da prestigiada Universidade Harvard (EUA). Conheça os ganhadores da edição 2012 do prêmio Ig Nobel:
 

FÍSICA

Joseph Keller (EUA), Raymond Goldstein (Reino Unido) e colegas

Por calcular o equilíbrio de forças que movem o cabelo e lhe dão forma num penteado com rabo-de-cavalo

 
ACÚSTICA

Kazutaka Kurihara e Koji Tsukada (Japão)

Pela criação do SpeechJammer, um dispositivo que faz as pessoas se embaralharem para falar

 
LITERATURA

Controladoria Geral do Governo dos EUA

Por publicar um relatório acerca de relatórios sobre relatórios que recomenda a preparação de um relatório sobre o relatório acerca de relatórios sobre relatórios

 
QUÍMICA

Johan Pettersson (Suécia)

Por descobrir a razão pela qual alguns habitantes da cidade sueca de Anderslöv estavam ficando com o cabelo verde: o cobre dos canos
 

ANATOMIA

Frans de Waal e Jennifer Pokorny (EUA)

Por descobrir que chimpanzés são capazes reconhecer uns aos outros por meio de fotografias dos seus traseiros
 

NEUROCIÊNCIA

Craig Bennett e colegas (EUA)

Por mostrar que algumas técnicas de neuroimagem podem detectar atividade relevante no cérebro de um salmão morto
 

PSICOLOGIA

Anita Eerland e colegas (Holanda)

Pelo estudo "Inclinar-se para a esquerda faz a Torre Eiffel parecer menor"
 

MEDICINA

Emmanuel Ben-Soussan e Michel Antonietti (França)

Por aconselhar médicos que realizam colonoscopias sobre como minimizar o risco de seus pacientes explodirem

 
PAZ

SKN Company (Rússia)

Por converter munição antiga em diamantes novos

 
DINÂMICA DE FLUIDOS

Rouslan Krechetnikov e Hans Mayer (EUA)

Por compreender padrões do movimento de líquidos dentro de uma xícara de café nas mãos de uma pessoa em movimento

(Folha de São Paulo)

sábado, 6 de outubro de 2012

Artigo: A Atividade de Penhor e a Química


O penhor é uma modalidade de empréstimo que existe há muitos séculos e, desde o seu surgimento,
consiste em se aceitar bens em troca de dinheiro. Artigos como joias, moedas, relógios e peças decorativas
confeccionadas com metais preciosos são penhorados não somente pelo seu valor econômico, mas também
pelo seu valor artístico e histórico. O ouro, a prata e a platina são metais bastante utilizados na confecção de
peças valiosas. Neste artigo, buscou-se descrever a história do dinheiro, do penhor e os materiais e os métodos utilizados na identificação de metais preciosos presentes em joias e objetos de valor.


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Molécula protege neurônios em condições de isquemia


 
Em artigo publicado na PLoS One, pesquisadores do Instituto de Química da USP demonstram que a bradicinina interrompe processo de apoptose celular no tecido cerebral de ratos

Agência FAPESP – Em artigo publicado na revista PLoS One, um grupo de pesquisadores do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP) demonstrou que a bradicinina – peptídeo com conhecida ação anti-hipertensiva – é capaz de reverter o processo de morte celular em condições que ocorrem durante uma isquemia cerebral. A pesquisa foi feita em colaboração com cientistas de Porto Rico.

            “Quando há oclusão das artérias e o fluxo de oxigênio é interrompido, as células morrem e liberam uma substância chamada glutamato. Isso estimula os receptores de glutamato, inclusive aqueles do tipo NMDA (N-metil D-Aspartato) em células vizinhas, permitindo a entrada de cálcio na célula de forma descontrolada”, explicou Alexander Henning Ulrich, coordenador do Projeto Temático apoiado pela FAPESP.

            Quando esse excesso de cálcio atinge a mitocôndria, estimula a formação de espécies reativas de oxigênio e induz programas de apoptose, uma espécie de suicídio celular.

            “Em experimento feito com ratos, a bradicinina conseguiu reverter o processo de apoptose. Isolamos cortes de uma região do cérebro desses animais, o hipocampo, e colocamos em uma solução fisiológica. Em seguida, fizemos uma estimulação elétrica com eletrodos e medimos a atividade neuronal”, disse Ulrich.

            Para simular o que ocorre no cérebro após uma isquemia, os pesquisadores trataram o tecido com NMDA, causando uma invasão de cálcio nas células. A medição da atividade neuronal feita em seguida mostrou que 80% dos neurônios piramidais do hipocampo haviam iniciado o processo de apoptose. Mas, quando o tecido cerebral recebeu bradicinina após a exposição ao NMDA, a maioria das células foi resgatada da morte.

            “Ainda estamos investigando qual é exatamente o mecanismo que confere à bradicinina esse efeito neuroprotetor. Nossa hipótese é que ocorre a ativação de uma sinalização que interrompe o processo de apoptose”, disse Ulrich.

            Apesar dos resultados promissores, de acordo com o pesquisador é pouco provável que a bradicinina possa ser usada para tratar isquemia cerebral. Alguns estudos indicam que subprodutos resultantes da degradação da molécula, tais como a des-arg9-bradicinina, poderiam induzir efeitos adversos, agravando os danos causados pela isquemia.

            “Nosso objetivo é descobrir uma substância análoga à bradicinina que tenha o efeito neuroprotetor sem as reações indesejadas”, disse.

Versátil

            A bradicinina foi isolada há mais de 50 anos por pesquisadores brasileiros. Eles observaram que o veneno da cobra jararaca-da-mata (Bothrops jararaca) aumentava a presença desse peptídeo no sangue de mamíferos.

            As substâncias responsáveis pelo aumento da concentração da bradicinina – denominadas peptídeos potencializadores da bradicinina (BPPs) – serviram de base para o desenvolvimento do captopril e de toda uma classe de medicamentos anti-hipertensivos.

            No Temático coordenado por Ulrich, o objetivo é descobrir novos usos para a molécula. A equipe verificou em modelos celulares in vitro que a substância estimula a neurogênese, ou seja, faz com que células-tronco do cérebro se transformem em novos neurônios. A descoberta abre caminho para novos tratamentos para doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson.

            Em outro experimento feito com ratos modelos da doença de Parkinson, Ulrich e a pesquisadora Telma Tiemi Schwindt Diniz Gomes, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, conseguiram reverter quadros semelhantes aos que ocorrem em pacientes com Parkinson em estágio avançado.

            Os resultados foram apresentados durante a 27ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), realizada em Águas de Lindoia no mês de agosto.

            “Induzimos a morte dos neurônios dopaminérgicos em um dos hemisférios dos animais e eles passaram a apresentar falhas motoras, observadas como comportamento rotacional após a indução do sistema dopaminérgico por apomorfina”, contou Ulrich.

            “Cinquenta e seis dias após a administração da bradicinina, o comprometimento da função motora foi revertido na maioria dos animais. A análise histológica sugere que, de fato, a melhora foi causada pela neurogênese induzida pela droga”, afirmou.

O artigo “Kinin-B2 Receptor Mediated Neuroprotection after NMDA Excitotoxicity Is Reversed in the Presence of Kinin-B1 Receptor Agonists” pode ser lido em www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0030755.

 

05/10/2012,  Por Karina Toledo