quinta-feira, 9 de março de 2017

Cientista brasileira recebe prêmio da União Internacional de Química Pura e Aplicada


Yvonne Mascarenhas é a única brasileira entre as 12 homenageadas do prêmio para mulheres que se destacaram na química e na engenharia química no mundo

         A física e química brasileira Yvonne Mascarenhas é uma das doze vencedoras do prêmio da União Internacional de Química Pura e Aplicada (International Union of Pure and Applied Chemistry – IUPAC, na sigla em inglês) para mulheres que se destacaram na química e na engenharia química no mundo inteiro. A associação anunciou ontem, dia internacional das mulheres, as 12 homenageadas da quarta edição de seu prêmio bianual, o “IUPAC 2017 Distinguished Women in Chemistry or Chemical Engineering Awards”. Mascarenhas foi a única cientista da América do Sul na lista.
         As premiadas são apontadas por instituições de seus países e as indicações são avaliadas considerando a excelência das pesquisas – básicas ou aplicadas, as conquistas como professoras e educadoras, e a liderança na condução de estudos nas ciências químicas. Yvonne Mascarenhas foi indicada pela Sociedade Brasileira de Química (SBQ), pelo seu trabalho pioneiro que implantou e difundiu no Brasil as pesquisas com cristalografia – o estudo da determinação das estruturas cristalinas e moleculares por difração de raios-X.
         Formada em física e química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mascarenhas conta que iniciou suas pesquisas com cristalografia nos Estados Unidos em 1959. Ela passou um ano e meio pesquisando na Universidade de Princeton. Em 1961, retornou ao Brasil decidida a criar um grupo de estudos nessa área.
         “Comecei a fazer contato tanto com físicos como com químicos. Isso me deu chance de ter muitos alunos, de iniciação científica, mestrado e doutorado, que se formaram na mesma área e que foram se distribuindo pelo Brasil: São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Amazonas, Alagoas, Goiás, etc. Esses meus ex-alunos também tiveram seus alunos e, assim, foi crescendo a área no Brasil. Eu acho que foi isso que fiz de mais importante: essa multiplicação quase espontânea, que teve grandes resultados”, comenta a cientista.
         Atuando hoje no Instituto de Física da USP, São Carlos, Mascarenhas conta com um grupo interdisciplinar que trabalha a cristalografia aplicada a vários setores, desde cristalografia aplicada a proteínas, a novos fármacos, doenças negligenciadas, principalmente doenças tropicais.
         Em entrevista ao Jornal da Ciência, Mascarenhas diz ainda que o prêmio da IUPAC é uma grande honra que compartilha com toda essa rede de pesquisadores. “A gente não trabalha sozinha, principalmente na universidade. Me sinto recebendo em nome de todo esse conjunto de fatores que propiciaram que eu pudesse realizar uma contribuição favorável”, ressalta.

Mulheres na ciência
         Homenageada em um prêmio que tem como objetivo destacar a liderança das mulheres na química, Mascarenhas observa que, apesar de existirem muitas mulheres bem sucedidas nas ciências, ainda existe uma cultura muito forte de fazer as meninas acreditarem que elas terão desempenho melhor nas áreas de humanas.
         “A dificuldade para muitas mulheres é que existe um tabu que as faz acreditar que elas têm dificuldade de entrar nas áreas de exatas. Temos procurado desmistificar isso. Porque são tantas mulheres bem sucedidas nessas áreas, mas até hoje vejo a maioria das meninas muito voltadas para as áreas de humanas”, afirma.
         Ela ressalta os esforços da Sociedade Brasileira de Física (SBF) e da SBQ em estimular a participação feminina e, hoje, segundo ela, existem muitas mulheres atuantes nessas organizações.
         “Existe um esforço coletivo dessas nossas Sociedades de procurar desmistificar, diante das meninas, esse fato de que elas não têm muita vocação para exatas. É uma questão de estimular desde o curso fundamental, pois precisa muito esforço para demonstrar para as meninas que elas terão muitas oportunidades de trabalho e de alta realização entrando nas áreas que são consideradas mais masculinas, por que isso é um tabu, não é nada verdadeiro”, diz.
         A cientista conta que ela mesma, ainda jovem, pensava em fazer letras.  Mas, quando começou o curso clássico, teve um excelente professor de física e também começou a perceber que a química era extremamente valiosa para a sociedade. “Desisti de fazer letras e resolvi fazer química. Nunca me arrependi dessa escolha”, lembra, acrescentando que não teve grandes problemas de ser aceita. “Sinto que houve um reconhecimento quase que natural de que o interesse era legítimo, que queria fazer o melhor possível”, conta.
         Além de seu destacado trabalho com pesquisa em cristalografia, desde 2010, também coordena um projeto do Instituto de Estudos Avançados da USP, polo de São Carlos, de difusão científica. O programa é voltado a estudantes do ensino fundamental e médio. Segundo ela, a difusão científica é uma grande ferramenta para estimular o interesse de meninas pela ciência, porém, esta é uma atividade pouco valorizada no País.
         Ela destaca que existem poucos museus de ciência no Brasil, e acrescenta que a maioria deles não são atraentes para crianças e adolescentes. “É uma tarefa enorme, que requer muito investimento, mas que não é à toa: isso chama muito a atenção de toda a população. Com isso, a ciência se torna uma conversa familiar. Como a nossa população tem uma cultura científica muito fraca, as famílias ainda não estão preparadas para isso. Temos que estimular essa cultura, que vem desde a família. E desenvolvimento científico e tecnológico é o que o País precisa mais”, reforça.

O prêmio
         O objetivo do prêmio “IUPAC 2017 Distinguished Women in Chemistry or Chemical Engineering Awards”, criado em 2011, é reconhecer e promover o trabalho de mulheres na química e na engenharia química em todo o mundo. A cerimônia de entrega é realizada durante a conferência internacional da IUPAC, que acontece a cada dois anos. A primeira edição do prêmio foi em Porto Rico e homenageou 23 cientistas. Desde então, a cada edição, 12 mulheres cientistas recebem o prêmio: 2013, na Turquia; 2015, na Coreia do Sul. Neste ano, o Brasil, pela primeira vez, será sede do 46º Congresso Mundial da IUPAC, em São Paulo, em julho, onde será realizada a cerimônia de homenagem às premiadas de 2017.
         A vice-presidente da SBPC, Vanderlan Bolzani, foi uma das premiadas na primeira edição do prêmio da IUPAC. Ela lembra que 2011 foi especial, pois foi o Ano Internacional da Química e, na ocasião, ela foi a única representante da América Latina toda a receber a homenagem. “É importante ter entidades e associações internacionais que reconhecem o papel da mulher na ciência. As mulheres ainda são muito descriminadas quando começam a galgar espaços mais competitivos na carreira científica. Mas o fato é que o mundo precisa de homens e mulheres trabalhando juntos para superar os grandes desafios que temos. Premiações como essa são importantes porque estimulam a participação das mulheres”, diz Bolzani que, na edição deste ano, será co-chair do evento no Brasil.
Daniela Klebis – Jornal da Ciência.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Plantas da Caatinga são as novas armas da ciência contra Aedes e micro-organismos resistentes


Segundo o pesquisador Alexandre Gomes, do Insa, os experimentos mostraram que a solução do óleo da umburana cambão tem uma eficiência de 50% a partir de 90 partes por milhão, o que significa que apenas uma gota é suficiente para proteger uma caixa d’água do Aedes

         O Instituto Nacional do Semiárido participa de rede de pesquisa que estuda os potenciais das espécies nativas da Caatinga. Enquanto a umburana de cambão possui propriedades inseticidas e pode ser usada no combate ao Aedes aegypti, a maçaranduba e a vick apresentaram grande eficácia contra a triconomose. Já o pequi é rico em proteínas, fibras, vitaminas A e C, minerais e compostos fenólicos e carotenoides totais, que estão associados à prevenção de processos oxidativos.
         O potencial das plantas na prevenção e na cura de doenças motivou a formação de uma rede de pesquisa sobre as propriedades medicinais, terapêuticas e aromáticas das espécies da Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro. Com um rico patrimônio biológico, a Caatinga abriga animais e plantas adaptados à escassez de água. Jatobá (Hymenaea courbaril), pau-ferro ou jucá (Libidibia ferrea), pequi (Caryocar coriaceum), macaúba, ameixa do mato (Ximenia americana), umburana de cambão (Commiphora leptophloeos) são espécies com potencial antioxidante, inseticida, fungicida e bactericida.
         Desde 2010, pesquisadores do Núcleo de Bioprospecção da Caatinga do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) se uniram no esforço de estudar as plantas da Caatinga. Uma delas, a umburana cambão, se revelou uma importante arma contra o Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, vírus zika e febre chikungunya.
         Segundo o pesquisador Alexandre Gomes, do Insa, os experimentos mostraram que a solução do óleo da umburana cambão tem uma eficiência de 50% a partir de 90 partes por milhão, o que significa que apenas uma gota é suficiente para proteger uma caixa d’água do Aedes. O cheiro característico da folha da árvore foi a pista para investigar as possíveis propriedades inseticidas da planta.
         “Já sabemos que alguns compostos de plantas têm atividade inseticida. Esses compostos são chamados terpenoides e podem ser aromáticos voláteis. Um exemplo deles está na folha da pitanga, que, quando se amassa, tem um cheiro típico”, explica Gomes.
         Apesar do resultado satisfatório da umburana contra o mosquito da dengue, é fundamental não descuidar das recomendações para combater o Aedes aegypti como eliminar criadouros, esvaziando e lavando todos os recipientes que acumulem água; limpar as calhas das casas; e preencher pratos de vasos de plantas com areia. Nem mesmo água sanitária é garantia de que o mosquito não se desenvolverá.

Antioxidantes naturais
         Outras plantas têm o poder de neutralizar os oxidantes no organismo humano, como o cambuí, a macaúba e o pequi. Nativo do Cerrado e também encontrado na Caatinga, o pequi (Caryocar coriaceum) é rico em proteínas, fibras, vitaminas A e C, minerais e compostos fenólicos e carotenoides totais, que estão associados à prevenção de processos oxidativos. Por isso, o óleo de pequi, extraído da sua polpa ou amêndoa, é aplicado em cosméticos, como cremes anti-idade. Além disso, foram verificados os benefícios do pequi para a ação anti-inflamatória, proteção cardiovascular, prevenção de aterosclerose e redução da pressão arterial.
         Os pesquisadores também observaram propriedades antioxidantes no cambuí (Myrciaria tenella) e no fruto da macaúba (Acrocomia aculeata), palmeira nativa encontrada em extensa área do Brasil, usada na produção de biocombustível.

DST
         Os cientistas ainda descobriram nas plantas da Caatinga potencial para o desenvolvimento de novos antibióticos para tratar micro-organismos mais resistentes. Os medicamentos usados contra a triconomose, doença sexualmente transmissível com 276 milhões de novos casos por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde, estão perdendo a eficácia diante da resistência do protozoário Trichomonas vaginalis. Uma solução, investigada por pesquisadores da UFRGS, é o extrato da espécie Polygala decumbens, popularmente conhecida como vick, que foi capaz de controlar a infecção causada pelo protozoário.
         Substâncias encontradas no extrato da folha da maçaranduba (Manilkara rufula) também se mostraram eficazes contra a triconomose. O trabalho investigou a atividade do extrato acetônico da folha da planta (produzido a partir do pó da folha mergulhado na acetona, um solvente orgânico) e de sete frações produzidas a partir deste extrato. O estudo comprovou que concentrações de 10 mg/mL do extrato e as frações foram capazes de matar os protozoários.
Fonte: Ascom – MCTIC

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Ciência para Educação


ROBERTO LENT, Tendências/debates/Folha de São Paulo, 17/11/2016

          Todo mundo sabe o que é ciência, todo mundo sabe o que é educação. Mas talvez nem todos conheçam a expressão "ciência para educação".
          Trata-se de uma modalidade de pesquisa translacional, isto é, pesquisa científica inspirada pelo uso social, como já se faz tradicionalmente para a saúde e as engenharias. O uso social, neste caso, é a educação.
          Em saúde, por exemplo, ninguém duvida de que a pesquisa científica é crucial para descobrir a causa das doenças, desenvolver novos tratamentos e medidas de prevenção, avaliar se as intervenções propostas funcionam.
          Resultou dessa compreensão um grande avanço na expectativa de vida em vários países, inclusive o nosso, apesar de ainda estarmos muito longe do ideal.
          No caso da educação, tudo isso é novo. Ultimamente, a cultura da avaliação científica usada por epidemiologistas, economistas e cientistas sociais tem crescido em aceitação e importância.
          A recente medida provisória sobre o ensino médio, por exemplo, foi orientada pelo mau resultado dos estudantes brasileiros nesse segmento, avaliado com metodologia relativamente rigorosa.
          Essa forma de pesquisa pode ser denominada "reativa", isto é, realizada depois que uma intervenção é implementada, sendo esta concebida por critério políticos, ideológicos ou eleitorais.
          Já é alguma coisa. No entanto, melhor seria se as políticas educacionais fossem propostas com base em evidências obtidas antes da implementação nas escolas. Seria uma forma mais controlada e eficaz de política pública, que podemos chamar de "proativa".
          Um bom exemplo seria incluir, e não excluir, naquela mesma medida provisória as aulas de educação física na grade curricular obrigatória.
          Isso teria levado em conta as extensas evidências científicas, em animais e humanos, de que o exercício físico aumenta a produção de neurônios e melhora o desempenho da memória (ou seja, da aprendizagem também).
          O ícone dessa forma de pesquisa inspirada pelo uso é Louis Pasteur, que derrotou a concepção da origem espontânea da vida. Foi uma revolução na ciência natural.
          Todavia, poucos sabem que as pesquisas de Pasteur foram inspiradas (leia-se, financiadas) pelos vinicultores e cervejeiros, preocupados em entender e controlar a contaminação natural dos seus produtos. Pasteur revolucionou a ciência básica e criou tecnologias que até hoje são empregadas, como a pasteurização dos alimentos.
          Ciência para educação, portanto, é um novo enfoque agregador para as políticas sociais, que exige a captação do interesse de neurocientistas, psicólogos, pedagogos, linguistas, cientistas da computação, matemáticos e muitos outros.
          Todos eles deveriam se envolver em projetos voltados para otimizar a aprendizagem das crianças, o tratamento de transtornos que prejudicam o rendimento escolar, a adequada orientação dos professores e o desenvolvimento de tecnologias educacionais eficazes.
          Poucos países começam a adotar essa nova vertente: Estados Unidos, Austrália, China, Coreia. Ninguém mais, ainda. A chance é agora, quando a corrida está começando.

ROBERTO LENT é professor titular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Ciências.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Ciência – o inédito, o interessante, o aplicável, o rentável… Ciência – o exercício de cidadania de um país

Artigo de Regina P. Markus, professora titular do IBUSP, membro da ABC e ACIESP, e dos conselhos deliberativos da SBPC e do CNPq.

         Estamos sob uma nova velha ordem no Brasil que vem construindo uma ponte entre momentos históricos. Como sempre, pouco conhecemos do passado recente, visto que apenas conseguimos ver o que os nossos olhos, ou mesmo óculos conseguem focar. Assim, em cada grupo ideológico, classe social ou origem parental temos opiniões diferentes. Há, no entanto, “coisas” que consideramos essenciais e entre estas está a educação e a saúde e outras que parecem ser muito importantes, mas que podem ser relativizadas e entre estas está a ciência.
         Ciência, uma atividade que tem permitido a humanidade distinguir-se de outras espécies levando o homem a domínio e uso de tecnologias cada vez mais avançados. Atividade pouco compreendida que às vezes é romantizada, às vezes temida e outras precisa ser controlada.
         Um fato é certo, a capacidade de gerar conhecimento é que tem distinguido nações e povos ao longo da história. O domínio da agricultura e da tecnologia da construção. A capacidade de singrar os mares e o espaço. A melhoria da condição de vida através do progresso da medicina. Todos estes fatos, que foram importantes na antiguidade, no início da Era Comum, na Idade Média e Moderna continuam sendo na atualidade.
         Vindo para o mundo real lembro do dia 24 de outubro de 1924, a famosa quebra das bolsas de Nova York. Falta de regulação e de comprometimento fez com que uma país inteiro e o mundo sofresse grandes perdas, a partir de papel. E as empresas estavam com dinheiro, e com estoques, mas não tinham para quem vender. No que aplicar? No que investir? Conta a história que uma delas resolve investir em perguntas básicos e saber se é possível formar longas cadeias de carbono (polímeros). Muita química? Muito técnico? Sim, para a maioria, mas não para o jovem William Carothers e a diretoria da Dupont. Era algo revolucionário na época, mas era uma forma de investimento e a Dupont de 1924 investiu em ciência básica e colheu os frutos dez anos depois, com o início da era do nylon e de muitos outros polímeros.
         Será que é muito distante? Então voemos no tempo até 2016, e vamos avaliar o plano quinquenal da China (2016 – 2020). O objetivo do 13o Plano Quinquenal é que os trabalhos científicos da China passem a ser os segundos mais citados no mundo e que os cientistas da China estejam entre os 10% mais citados do mundo. O Fundo criado para este fim é gerenciado pela “National Natural Science Foundation of China (NSCF)”. Esta vontade é traduzida em investimento de 88.8 bilhões de yuans (13,6 bilhões de dólares).
         E o Brasil??? Nos últimos 40 anos, com investimento nacional e no caso de São Paulo com um forte investimento estadual, o Brasil logrou alcançar o 13o lugar em publicação e 18o em citações no mundo (Thomas Reuters, SCImago, 1996-2014). Disto deveríamos nos orgulhar e continuar. Mas, ao invés vemos o governo atual desmontar o sistema, e mais do que isto, começamos a ver que existe estudos teóricos baseando estas atitudes (Fernanda de Negri, O Estado de São Paulo, 7 de novembro de 2016). Estes estudos ignoram o obtido e consideram que a ciência brasileira pouco contribuiu para o desenvolvimento do País. Dizem que é preciso focar na busca do conhecimento. Sabemos que esta é a forma ideal para chegarmos a muito pouco.
         Nas áreas em que o Brasil tem competência em absorver o conhecimento gerado, a contribuição foi altamente significativa, como é o caso da agricultura – e isto não só se reflete na competência econômica, como também retorna para a competência científica – o Brasil responde por 10% dos trabalhos internacionais nas áreas Ciências Agrícolas (Thomas Reuters, inCities – 2011). Em ciências ambientais o Brasil responde por 7,4% – o que demonstra que também temos visibilidade no caso de meio ambiente e biodiversidade – a nossa ciência vem contribuindo de forma mensurável para o equilíbrio entre o desenvolvimento humano e a saúde planetária.
         Seguindo nesta lista que mostra o quanto a ciência brasileira vem produzindo encontramos a área de Farmacologia e Toxicologia – a indústria farmacêutica brasileira engatinha e as internacionais têm suas bases científicas alhures… Então?? Neste caso temos que considerar que os avanços obtidos em território nacional e nas Universidades Brasileiras, com foco especial ao Campus de Ribeirão Preto da USP, são marcos importantes na Farmacologia Internacional e que o Brasil está inserido como capítulos básicos de livros textos e na história do desenvolvimento de fármacos para hipertensão, inflamação e dor. Nominar apenas um Centro em todo o território nacional é uma injustiça e é preciso deixar registrado que centros de excelência científica são encontrados no Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Sul – e que alguns estão sendo formados na região Norte.
         Respostas rápidas a problemas emergentes só podem ser dadas quando a competência instalada está ativa e articulada. Anos de financiamento, com avaliação permanente e foco em excelência fizeram com que rapidamente os cientistas brasileiros tivessem competência de focar na Zika e mostrarem que esta causava microcefalia. Passo muito importante na busca da solução, quer individual, quer de grupo.
         Por que a Ciência Brasileira não é reconhecida e encontra importantes críticos dentro e fora das Universidades? A falta de capacidade de captação do conhecimento e transferência do mesmo para o setor produtivo é uma questão que tem que ser avaliada. Investimento dirigido por aqueles que podem consumir e transformar, leis que permitam que esta transferência seja objetivada. Enfim, temos que nos debruçar neste processo e encontrar formas adequadas de gerar pessoal e competência na área de transferência. Mas, NUNCA, JAMAIS – tolher e extinguir com todo o progresso já conseguido na GERAÇÃO de conhecimento. Não existe conhecimento inútil.
         A desconstrução da ciência brasileira ora em curso precisa parar.

domingo, 16 de outubro de 2016

Prêmio Nobel de Química de 2016

           
         O Prêmio Nobel de Química de 2016 foi atribuído conjuntamente aos cientistas Jean-Pierre Sauvage, da Universidade de Estrasburgo – França, Sir J. Fraser Stoddart, da Universidade Northwestern, Evanston, Illinois – EUA e Bernard L. Feringa, da Universidade de Groningen – Holanda, "pelas contribuições à concepção e síntese de máquinas moleculares".
         Os agraciados conseguiram desenvolver as menores máquinas do mundo, a partir de sistemas moleculares fora do equilíbrio para estados cheios de energia em que os seus movimentos podem ser controlados. Essas máquinas moleculares provavelmente serão utilizadas no desenvolvimento de novos materiais, sensores, e sistemas de armazenamento de energia.
         Em 1983, Jean-Pierre Sauvage conseguiu ligar duas moléculas em forma de anel num conjunto para formar uma cadeia, um chamada catenano. Os dois anéis entrelaçados podem se mover um em relação ao outro. Em 1991, Fraser Stoddart desenvolveu a rotaxana, demonstrou que um anel molecular sobre um fino eixo molecular foi capaz de se mover ao longo do eixo. Com base nas rotaxanos, conseguiu desenvolver um elevador molecular, um músculo molecular e um chip de computador baseado nessa molécula. Em 1999, Bernard Feringa foi o primeiro a desenvolver um motor molecular para movimentar um nanocarro.

Perfil biográfico dos agraciados:
         Jean-Pierre Sauvage, nascido em 1944, em Paris – França, obteve seu PhD. na Universidade Louis Pasteur, Estrasburgo, França, sob a supervisão de Jean-Marie Lehn, em 1971. Após um estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford, Reino Unido, voltou a Estrasburgo, onde foi Diretor de Pesquisa no CNRS de 1979 a 2009 e é Professor emérito desde 2009. Entre muitas outras honrarias, Sauvage recebeu em 1971, o Prêmio da Sociedade Francesa de Química; em 1988, a Medalha de Prata da CNRS; em 1994, a Medalha Prelog Ouro da ETH de Zurique, Suíça e em 2012, a Medalha de Química Blaise Pascal da Academia Europeia de Ciências. Atualmente é membro das Academias Francesa e Europeia de Ciências.
         Sir J. Fraser Stoddart, nascido em 1942, em Edimburgo, Reino Unido, obteve seu PhD. na Universidade de Edimburgo, Reino Unido, em 1966. Após o pós-doutorado na Universidade Queen, no Canadá, tornou-se professor de Química na Universidade de Sheffield, Reino Unido. Em 1990, mudou-se para a Cátedra de Química Orgânica da Universidade de Birmingham, Reino Unido, e foi chefe da Escola de Química de 1993 a 1997, e partir deste ano se tornou professor de Química da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), sucedendo ao Prêmio Nobel Donald Cram. Em 2002, se tornou Diretor do Instituto da Califórnia NanoSystems (CNSI), Los Angeles – EUA. Desde 2008, é professor de Química da Universidade de Northwestern, em Evanston, Illinois, EUA. Entre outras honrarias, Stoddart recebeu em 2007 o Prêmio Albert Einstein de Ciências e em 2006, foi nomeado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II.
         Bernard L. Feringa, nascido a 1951, em Barger-Compascuum, Holanda, estudou Química na Universidade de Groningen, Holanda, onde em 1978 obteve seu PhD. Depois de trabalhar como pesquisador nos laboratórios da Shell, na Holanda e no Reino Unido, voltou para a Universidade de Groningen como conferencista. Em 1988, Feringa foi promovido a Professor Catedrático de Química Orgânica e em 2004 foi nomeado Professor de Ciências Moleculares da cátedra de Jacobus H. van't Hoff. Entre muitas outras honrarias, Feringa recebeu o Prêmio Spinoza (a mais alta distinção científica da Holanda), a Medalha de Ouro Prelog, a Medalha Paracelso, a Medalha de Ouro de Nagoya e em 2016, a Medalha August Wilhelm von Hofmann. É membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências e membro da Academia Real Holandesa de Ciências. Em 2008, foi nomeado por esta Academia para ser condecorado pela Rainha da Holanda.

Prêmio Nobel de Química de 2016



           
         O Prêmio Nobel de Química de 2016 foi atribuído conjuntamente aos cientistas Jean-Pierre Sauvage, da Universidade de Estrasburgo – França, Sir J. Fraser Stoddart, da Universidade Northwestern, Evanston, Illinois – EUA e Bernard L. Feringa, da Universidade de Groningen – Holanda, "pelas contribuições à concepção e síntese de máquinas moleculares".
         Os agraciados conseguiram desenvolver as menores máquinas do mundo, a partir de sistemas moleculares fora do equilíbrio para estados cheios de energia em que os seus movimentos podem ser controlados. Essas máquinas moleculares provavelmente serão utilizadas no desenvolvimento de novos materiais, sensores, e sistemas de armazenamento de energia.
         Em 1983, Jean-Pierre Sauvage conseguiu ligar duas moléculas em forma de anel num conjunto para formar uma cadeia, um chamada catenano. Os dois anéis entrelaçados podem se mover um em relação ao outro. Em 1991, Fraser Stoddart desenvolveu a rotaxana, demonstrou que um anel molecular sobre um fino eixo molecular foi capaz de se mover ao longo do eixo. Com base nas rotaxanos, conseguiu desenvolver um elevador molecular, um músculo molecular e um chip de computador baseado nessa molécula. Em 1999, Bernard Feringa foi o primeiro a desenvolver um motor molecular para movimentar um nanocarro.

Perfil biográfico dos agraciados:
         Jean-Pierre Sauvage, nascido em 1944, em Paris – França, obteve seu PhD. na Universidade Louis Pasteur, Estrasburgo, França, sob a supervisão de Jean-Marie Lehn, em 1971. Após um estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford, Reino Unido, voltou a Estrasburgo, onde foi Diretor de Pesquisa no CNRS de 1979 a 2009 e é Professor emérito desde 2009. Entre muitas outras honrarias, Sauvage recebeu em 1971, o Prêmio da Sociedade Francesa de Química; em 1988, a Medalha de Prata da CNRS; em 1994, a Medalha Prelog Ouro da ETH de Zurique, Suíça e em 2012, a Medalha de Química Blaise Pascal da Academia Europeia de Ciências. Atualmente é membro das Academias Francesa e Europeia de Ciências.
         Sir J. Fraser Stoddart, nascido em 1942, em Edimburgo, Reino Unido, obteve seu PhD. na Universidade de Edimburgo, Reino Unido, em 1966. Após o pós-doutorado na Universidade Queen, no Canadá, tornou-se professor de Química na Universidade de Sheffield, Reino Unido. Em 1990, mudou-se para a Cátedra de Química Orgânica da Universidade de Birmingham, Reino Unido, e foi chefe da Escola de Química de 1993 a 1997, e partir deste ano se tornou professor de Química da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), sucedendo ao Prêmio Nobel Donald Cram. Em 2002, se tornou Diretor do Instituto da Califórnia NanoSystems (CNSI), Los Angeles – EUA. Desde 2008, é professor de Química da Universidade de Northwestern, em Evanston, Illinois, EUA. Entre outras honrarias, Stoddart recebeu em 2007 o Prêmio Albert Einstein de Ciências e em 2006, foi nomeado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II.
         Bernard L. Feringa, nascido a 1951, em Barger-Compascuum, Holanda, estudou Química na Universidade de Groningen, Holanda, onde em 1978 obteve seu PhD. Depois de trabalhar como pesquisador nos laboratórios da Shell, na Holanda e no Reino Unido, voltou para a Universidade de Groningen como conferencista. Em 1988, Feringa foi promovido a Professor Catedrático de Química Orgânica e em 2004 foi nomeado Professor de Ciências Moleculares da cátedra de Jacobus H. van't Hoff. Entre muitas outras honrarias, Feringa recebeu o Prêmio Spinoza (a mais alta distinção científica da Holanda), a Medalha de Ouro Prelog, a Medalha Paracelso, a Medalha de Ouro de Nagoya e em 2016, a Medalha August Wilhelm von Hofmann. É membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências e membro da Academia Real Holandesa de Ciências. Em 2008, foi nomeado por esta Academia para ser condecorado pela Rainha da Holanda.

domingo, 18 de setembro de 2016

Ciência tem que ter critérios mais rígidos, diz presidente da Fapesp


          Além de trabalharem em um ambiente científico sólido, onde não falta dinheiro, José Goldemberg, 88, presidente da Fapesp, defende a tese de que os pesquisadores paulistas devem ter a barra de qualidade de seus trabalhos colocada mais no alto.
          O exemplo que usa é inspirado no atleta brasileiro Thiago Braz, 22, ouro na prova de salto com vara na Rio-2016. "Ciência é como competição olímpica mesmo. Tem que ser mais criterioso, apertar mais os parafusos", afirma Goldemberg, que completa um ano à frente da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) neste mês de setembro.
          Físico de formação, o cientista e administrador público tem em seu currículo uma extensa lista de cargos, desde o Ministério da Educação no governo Collor, até a reitoria da USP (Universidade de São Paulo) entre 1986 e 1990.
          O próprio prazo dos doutorados é um dos problemas que impede a melhoria do trabalho dos pesquisadores em início de carreira, diz ele.
          "Você tem até quatro anos para se doutorar [tempo que, em média, dura uma bolsa de doutorado]. Por quê? No exterior não tem isso – você ganha o grau de doutor quando acaba. A USP tem muitos doutorados por ano, 5 mil. Precisa ser mais exigente".
          Segundo Goldemberg, até mesmo a tese, geralmente requerida para a obtenção do título acadêmico, é algo discutível. "Existem universidades no exterior que você não apresenta tese, mas uma coletânea de artigos publicados em revistas científicas".
          Em grande medida, é por meio da avaliação da produção científica –medida pelo número e qualidade de artigos científicos– que os cientistas são avaliados, tanto para obtenção de verba para a pesquisa quanto na avaliação em concursos públicos.

AMIGOS, AMIGOS...
          Um dos possíveis contaminantes dessa maneira de avaliação (como em bancas de defesa de tese ou para a concessão de financiamentos) é a amizade entre avaliador e avaliado. Nesses casos, vigora a avaliação entre pares, ou seja, cientistas avaliam outros cientistas.
          "Aqui no Brasil não podemos ter critérios de amizades. Eles precisam ser objetivos. Outra má ideia é essa história de acabar com a nota das teses. O sistema quando tinha nota passava uma mensagem. Se você fosse aprovado com 9 ou 9,5, ficava bem. Não me lembro de ter dado nunca um dez em uma banca", afirma Goldemberg.
          Atualmente em universidades como USP e Unifesp só há dois conceitos: aprovado ou reprovado. Em uma banca, uma nota 7 deixaria claro para o postulante ao título que o trabalho apresentado não é tão bom assim.
          Para Goldemberg, falta o Brasil melhorar na publicação em revistas de alto prestígio, critério em que o país amarga colocações de medianas a ruins em rankings internacionais, como o Nature Index –apesar do crescente número total de publicações nas últimas décadas.
          Mesmo assim, sobre a situação de São Paulo, onde atua a fundação, Goldemberg faz questão de frisar que o sistema científico do Estado é bastante sólido, principalmente porque houve financiamento contínuo, ao longo de décadas.
          "A maioria dos pesquisadores do Estado de São Paulo –5 mil na USP, 2 mil na Unicamp e outros 2 mil na Unesp–, tem o básico. Eles têm o que precisam. No Estado, há trabalho sério sendo feito e é algo permanente".
          Todas as áreas de conhecimento em que o Brasil tem destaque no exterior, seja em astronomia ou nas pesquisas contra o vírus da zika ou em mudanças climáticas, por exemplo, lembra Goldemberg, têm recursos da Fapesp.
          Nos apoios às pesquisas, a fundação não paga salários, somente bolsas. Em algumas modalidades há um aporte de recursos maior para bancar a aquisição de equipamentos. Já a infraestrutura tem de ser fornecida pela instituição à qual o pesquisador é filiado.

PESQUISA INÚTIL
          O fato de a concessão de bolsas e auxílios de pesquisa na Fapesp serem baseados na meritocracia, para o presidente José Goldemberg, é que faz a fundação sempre apoiar ideias criativas, inovadoras.
          A afirmação sobre a utilidade da pesquisa bancada pela Fapesp vai de encontro ao discurso do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Em abril deste ano, o tucano disse, em reunião de secretários, que a Fapesp vem priorizando estudos sem utilidade pública.
          Relativamente baratas de serem realizadas, as pesquisas em ciências humanas, criticadas pelo governador, recebem cerca de 10% dos recursos da instituição anualmente.
          "Sobre a afirmação do governador, é importante contar a história toda", afirma Goldemberg. A Fapesp foi implementada em 1947, "com um forte componente cultural e científico", diz. Mas, na Constituinte estadual de 1989, "de forma muito acertada", avalia Goldemberg, a missão da instituição também passou a ser o fomento tecnológico. Para isso, a receita tributária repassada foi de 0,5% para 1%.
          "A transição para incluir pesquisa tecnológica demorou um pouco. De 1989 para cá o pessoal está aprendendo. Temos uma quantidade muito grande de programas que não são acadêmicos como no passado". Cerca de metade do orçamento investido pela Fapesp em 2015 foi aplicado em pesquisa com vistas em aplicações diretas.
          A fundação lança hoje o Relatório de Atividades de 2015. A porcentagem do ICMS recebido do Estado em 2015 ficou em cerca de R$ 1,0 bilhão. No mesmo período foram gastos R$ 1,2 bilhão.
          "Em 2015, aprovamos um Pipe (Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas) por dia. São programas ótimos, a fundo perdido. Na Olimpíada, os balões que faziam monitoramentos climáticos saíram de uma dessas start-ups. Nós não geramos nenhum Bill Gates ainda, mas a França também não. A Inglaterra também não. Quando há um sistema sólido, essas pessoas vão aparecendo", diz Goldemberg.

Por EDUARDO GERAQUE e GABRIEL ALVES, Folha de São Paulo, 14/09/2016.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

RESULTADO DA SELEÇÃO PARA 02 BOLSISTAS DE ICT/FUNCAP (2016-2017) PARA O LAQA

Classificação dos Candidatos às 02 bolsas da FUNCAP para o Laboratório de Química Analítica Aplicada (LAQA)

1o. Lugar: Vanessa Moreira Frota
2o. Lugar: Janielle Gomes Dias
3o. Lugar: Hallison Mateus Rosa Farias
4o. Lugar: Josiane Gomes Rocha

Observações:
1) As duas primeiras candidatas deverão comparecer amanhã (16/09/2016)  a partir das 08:30 horas para assinar a Ficha de Solicitação de Bolsa da FUNCAP e o Termo de Compromisso, sendo que este deverá ter o firmo reconhecido em cartório.
2) As duas primeiras candidatas deverão enviar e-mail para: murilo-sergio@uol.com.br - enviando os dados de RG, data de expedição do RG, No. do CPF, local e data de nascimento, endereço residencial, e-mail, telefone.

Atenciosamente,
Prof. Dr. Murilo Sérgio da Silva Julião

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Uma dose de AAS a cada três dias é suficiente para prevenção de infarto e AVC


Em artigo no The Journal of Clinical Pharmacology, pesquisadores brasileiros mostram que benefício do novo esquema terapêutico é equivalente ao da dose diária e tem menor risco gastrointestinal

            Para pacientes de risco, a ingestão de uma dose de ácido acetilsalicílico (AAS) a cada três dias pode ser tão eficiente na prevenção de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e doença vascular periférica quanto consumir o medicamento diariamente. E com uma vantagem: a probabilidade de complicação gastrointestinal diminui.
            A conclusão é de um estudo brasileiro apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Biolab Farmacêutica. Os resultados foram publicados no The Journal of Clinical Pharmacology e o artigo foi destacado como “escolha do editor”.
            “Há 50 anos o AAS tem sido adotado na prevenção de eventos cardiovasculares, mas seu uso constante pode causar irritação e sangramento gástrico – muitas vezes sem sintomas prévios. Por isso, nos últimos anos, vem se tentando reduzir a dose. Neste estudo, propomos um esquema terapêutico diferente”, disse Gilberto De Nucci, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, coordenador do Projeto Temático ao qual está vinculado o estudo.
            Conforme explicou De Nucci, o ácido acetilsalicílico inibe a ação da enzima cicloxigenase (COX). Nas plaquetas, isso diminui a produção de tromboxano, um tipo de lipídeo que favorece a agregação plaquetária. Por essa razão, na linguagem popular, costuma-se dizer que o AAS “afina” o sangue, ou seja, diminui a probabilidade de formação de coágulos que podem obstruir o fluxo sanguíneo.
            Por outro lado, na mucosa gástrica, a inibição da enzima COX diminui a produção de prostaglandinas – substâncias lipídicas que protegem o estômago e o intestino.
            “Originalmente, o AAS americano tinha 325 miligramas (mg) do princípio ativo. Na tentativa de diminuir os efeitos adversos, a dose foi reduzida para 162 mg e, depois, para 81 mg. Também há comprimidos de 75 mg. Mas a verdade é que, até hoje, ainda não se sabe ao certo qual é a dose necessária para obter o benefício cardiovascular”, comentou De Nucci.
            No ensaio clínico realizado durante o doutorado de Plinio Minghin Freitas Ferreira, na USP, sob orientação de De Nucci, foi adotada a dose de 81 mg. Vinte e quatro voluntários sadios foram divididos em dois grupos. Metade recebeu AAS todos os dias durante um mês. Os demais receberam o fármaco a cada três dias e, no intervalo, apenas placebo.
            Antes e ao final do tratamento, todos os voluntários passaram por diversos exames, entre eles endoscopia, biópsia gástrica e teste de agregação plaquetária. Também foi medido no sangue o nível de tromboxano e, no estômago, o de prostaglandina do tipo 2 (PGE2).
            “No grupo que tomou AAS todos os dias, houve uma redução de 50% na síntese de PGE2, enquanto nos voluntários que tomaram a cada três dias não foi observada diferença em relação aos níveis basais. Por outro lado, em ambos os grupos, a inibição de tromboxano foi superior a 95% e o resultado no teste de agregação plaquetária foi equivalente”, contou De Nucci.
            Na avaliação de Ferreira, os dados permitem concluir que o uso de AAS a cada 72 horas é tão eficaz – e mais seguro – quanto seu uso diário. Essa descoberta, segundo o pesquisador, abre a possibilidade de adotar o fármaco também na prevenção primária de eventos cardiovasculares.
            Atualmente, o Food and Drug Administration (FDA) – órgão que regulamenta o consumo de alimentos e de medicamentos nos Estados Unidos – recomenda que o AAS seja usado apenas na prevenção secundária de doenças cardiovasculares, ou seja, em pacientes diagnosticados com doença vascular periférica e os que já tiveram algum episódio de infarto ou AVC e correm risco de um segundo evento. Somente nessa situação, segundo o FDA, os benefícios da terapia suplantariam os riscos de efeitos adversos.
            “Com esse novo esquema terapêutico, o AAS também poderia ser usado no tratamento de pacientes que nunca tiveram um evento cardiovascular, mas apresentam alto risco, como os diabéticos”, disse Ferreira.

Patente
            Os dois grupos de voluntários que participaram do ensaio clínico receberam, além de AAS, o anti-hipertensivo losartan. Conforme explicou De Nucci, o objetivo foi mostrar que uma droga não influencia a ação da outra.
            Em um estudo anterior, publicado no Journal of Bioequivalence & Bioavailability, o grupo já havia mostrado que o AAS não diminui a biodisponibilidade do losartan. As duas drogas são frequentemente associadas no tratamento de pessoas com insuficiência cardíaca, hipertensão e doenças isquêmicas.
            “Em parceria com a Biolab, nós solicitamos nos Estados Unidos a patente do esquema terapêutico adotado no estudo. Umas das possibilidades em estudo é lançar um produto que associe, na mesma cartela, o AAS e o losartan ou algum outro medicamento. No primeiro dia, o paciente tomaria os dois fármacos, no segundo e no terceiro, apenas o anti-hipertensivo e placebo e assim por diante. Isso ajudaria as pessoas a tomar os medicamentos corretamente”, afirmou De Nucci.
            O artigo Acetylsalicylic Acid Daily vs Acetylsalicylic Acid Every 3 Days in Healthy Volunteers: Effect on Platelet Aggregation, Gastric Mucosa, and Prostaglandin E2 Synthesis (doi: 10.1002/jcph.685) pode ser acessado no seguinte link.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

“Pílula do câncer” é testada em seres humanos


          Os primeiros testes com a fosfoetanolamina mostraram que ela não é tóxica para os seres humanos, mas mostraram também que ela não tem eficácia maior que outros medicamentos que já existem e são usados no tratamento do câncer, aponta o ex-ministro da Saúde, Humberto Costa. Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e parceria entre Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC e pelo Instituto Nacional de Câncer do Rio de Janeiro conduzem os estudos clínicos
          Simples placebo ou droga realmente eficaz no combate ao câncer? Vinte anos depois de ser sintetizada e começar a ser distribuída pelo químico Gilberto Chierice no interior de São Paulo, a fosfoetanolamina, composto de nome complicado que se tornou sinônimo de polêmica, finalmente é posta à prova em humanos de acordo com padrões reconhecidos pelo governo e instituições de pesquisa.
          Dois estudos clínicos conduzidos por entidades respeitadas no setor de oncologia estão dando os primeiros passos. Um deles, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), é financiado pelo governo daquele estado. O outro, com financiamento dos Ministérios da Saúde e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, é feito em parceria pelo Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da Universidade Federal do Ceará (NPDM-UFC) e pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), com sede no Rio de Janeiro.
          — A questão mais crítica em relação à fosfoetanolamina é que ela não foi produzida, encapsulada e distribuída aos pacientes seguindo as práticas laboratoriais, farmacêuticas e clínicas — avalia a coordenadora de Pesquisa e Educação do Inca, Marisa Dreyer.
          Segundo ela, se desde o começo da produção do composto esses procedimentos tivessem sido seguidos, “já teríamos encontrado com segurança respostas a todas as perguntas”.
          Os dois estudos obedecem a um protocolo aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável por liberar a utilização e comercialização de medicamentos no País.
          A primeira fase, chamada pré-clínica, tem testes in vitro (com células humanas ou de animais em laboratório) e experimentos in vivo (com animais como camundongos). Um dos principais objetivos nessa etapa é verificar a segurança (não toxicidade) da droga.
          Esse estágio foi dispensado na pesquisa do ICESP pelo fato de a fosfoetanolamina vir sendo ministrada há anos a pacientes com câncer. Mesmo assim, o estudo iniciado no final de julho começou pela fase clínica 1, que visa testar a segurança da droga na ingestão das pílulas por seres humanos. Os primeiros resultados da fase atual devem sair em dois meses, mas todas as etapas da pesquisa previstas para antes da comercialização podem levar cerca de dois anos.
          No caso do estudo financiado pelos ministérios, a fase pré-clínica, na Universidade Federal do Ceará, ocorreu no fim do ano passado e a avaliação com humanos pode começar este mês.
          No dia 16, o Ministério da Ciência e Tecnologia divulgou os resultados de pesquisa sobre os efeitos da fosfoetanolamina em camundongos com melanoma. O estudo indicou que a substância foi capaz de reduzir o tumor, mas com efeito menor que a ciclofosfamida, já usada na quimioterapia contra o câncer.
Origem
          A fosfoetanolamina foi sintetizada no Instituto de Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP), há cerca de 20 anos, pelo professor Gilberto Chierice. A substância tem sido usada sem autorização da Anvisa e vinha sendo distribuída de forma gratuita no campus da universidade em São Carlos.
          Em 2014, a entrega foi suspensa depois que uma portaria do governo determinou que substâncias experimentais deveriam obter todos os registros antes de serem liberadas à população.
          O assunto ganhou repercussão. Em setembro de 2015, o Senado entrou nas discussões, com pronunciamentos de senadores e audiências públicas.
          Nos debates, que contaram com Chierice e diversos especialistas, as posições divergiram. Alguns pesquisadores relataram casos de regressão do câncer pela substância. Outros apontaram a necessidade dos estudos controlados em humanos.
          No Congresso, Ivo Cassol (PP-RO) é um dos maiores defensores da fosfoetanolamina. Em pronunciamento em 14 de abril, o senador saudou a sanção da Lei 13.269/2016, que autorizou o uso da substância por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna antes do registro pela Anvisa.
          No entanto, a aplicação da lei foi suspensa em maio pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ao deferir ação direta de inconstitucionalidade proposta pela Associação Médica Brasileira (AMB). A entidade sustentou que, diante da ausência de testes em seres humanos, a liberação do medicamento é incompatível com direitos constitucionais à saúde, à segurança e à vida.
          Para Humberto Costa (PT-PE), ex-ministro da Saúde, a realização dos testes é justa, já que há depoimentos apontando a redução de sintomas com o uso da substância. O senador ressalta, porém, que não pode haver comercialização sem as pesquisas clínicas.
          — No caso da fosfoetanolamina, os primeiros testes mostraram que ela não é tóxica para os seres humanos, mas mostraram também que ela não tem eficácia maior que outros medicamentos que já existem e são usados no tratamento do câncer.

domingo, 21 de agosto de 2016

Comentário sobre o artigo “Transgênicos e hidrelétricas”, do Jornal O Estado de S. Paulo, divulgado no Jornal da Ciência


        Refiro-me ao artigo do professor José Goldemberg, publicado no Estadão e projetado pelo Jornal da Ciência.
        Discordo do ilustre cientista a começar por ele dizer que transgênicos são feitos para proteger plantas de pragas. Sabe-se que o único transgênico plantado para essa finalidade no Brasil é o milho Bt. Assim, o professor esqueceu ou fez esquecer que, para essa finalidade, é introduzido na planta um gene produtor de toxina que mata insetos e, consequentemente, a planta passa a funcionar como um inseticida!
   A toxina Bt, assim como mata insetos, intoxica o próprio ser humano. Frequentemente é citado na literatura o alto risco, inclusive fatal, para o indivíduo. Um exemplo dessas variedades de milho Bt é a variedade milho MO 810: proibida para uso humano pelo próprio país produtor, pela França, Alemanha, Inglaterra e outros países europeus. Infelizmente, a variedade é autorizada no Brasil e quem autorizou não se preocupou em nos fazer de simples cobaias! Em países pobres da África foi rejeitado até como presente. A Zâmbia preferiu ver seu povo sofrer de fome a morrer envenenado! Além de matar insetos invasores, a toxina Bt mata insetos úteis, como abelha de mel e outros polinizadores necessários para que a planta gere frutas.
  Quando esse tipo de transgênico morre, ao final de estação de crescimento, suas raízes deixam para o solo resíduos tóxicos que matam bactérias fixadoras de nitrogênio e transformam o solo em um ambiente envenenado para o crescimento da bactéria fixadora do Azoto, que forma fertilizante. Assim, fica impedido o crescimento de qualquer cultura leguminosa. O fabricante desse transgênico gasta milhões de reais com todos os tipos de propagandas, em todas as formas e todos os níveis: o resultado é o mais alto nível o custo das sementes transgênicas, que chega a ser 130 vezes mais cara do que o preço normal. Os pequenos agricultores enganados e iludidos pela propaganda, quando não podem pagar dívidas, correm para um destino trágico: o suicídio. Há muitos casos conhecidos da Índia, que chegou a registrar, em apenas um ano, 180 mortos.
    É bom um físico falar sobre hidrelétricas, mas é questionável que se afirme dogmaticamente sobre transgênicos. E por que ele escolheu transgênicos para associá-los às hidrelétricas? Será como uma fachada que esconde o mal dos transgênicos? Isto me lembra do manifesto assinado por cem ganhadores de Nobel em favor de transgênicos escondendo atrás o arroz dourado. Entre esses ganhadores de Nobel, físicos, químicos, até de literatura e, além de tudo, três mortos!
   Lembro-me também de um cientista distante da área que foi há dez anos à Câmara de Deputados com argumentos e pedidos para a liberação da soja transgênica, e não pelos resultados científicos, que nunca foram apresentados e nem existiam, mas para não prejudicar agricultores que contrabandeavam soja.

Nagib Nassar
Professor emérito da Universidade de Brasília
Presidente da fundação FUNAGIB (www.funagib.geneconserve.pro.br)