sexta-feira, 8 de março de 2013

Transistores à base de nanotubos de carbono detectam biomarcadores de câncer


Por Murilo Julião



Anticorpos (verde/vermelho) são covalentemente ligados a transistores de nanotubos de carbono, que servem como detectores de osteopontina (laranja/azul). A osteopontina é uma proteína biomarcadora indicativa de câncer de próstata, bem como de outros tipos de câncer. (Cortesia: Universidade da Pensilvânia)

           Transistores baseados em nanotubos de carbono poderão ser usados para detectar pequenas quantidades de biomarcadores de doenças, como: proteínas associadas ao câncer de próstata, segundo pesquisas realizadas nos EUA. No futuro, essa técnica poderá rivalizar com os métodos convencionais, quanto ao custo, sensibilidade e velocidade.
          As técnicas convencionais para detecção de proteínas baseiam-se normalmente em alguma forma de "imunoensaio", como o mais famoso deles: o ensaio imunoabsorvente de enzimas ligadas (ELISA). Esta técnica envolve a introdução de uma proteína de anticorpo modificado enzimáticamente numa quantidade desconhecida da molécula alvo ou proteína, conhecida como antígeno, permitindo a ligação entre eles. Os anticorpos que não reagem são removidos por lavagem, sobrando apenas os pares de anticorpo-antígeno.
          A reação geralmente pode ser detectada por uma alteração de cor da solução ou através de um sinal fluorescente. O grau de mudança de cor ou fluorescência depende do número de anticorpos modificados enzimáticamente presente, que por sua vez depende da concentração inicial de antígeno na amostra.
          Embora tais testes sejam rotineiramente utilizados em hospitais e clínicas, eles podem levar vários dias ou mesmo semanas para serem concluídos. São também caros, complicados de executar e podem detectar apenas uma proteína de cada vez.

Nanossensores e marcadores
          "Nossos sensores de nanotubos são relativamente simples quando comparados aos testes de ELISA", afirma Mitchell Lerner, membro da equipe da Universidade da Pensilvânia. "A detecção ocorre em poucos minutos, uma caixa com 2000 desses sensores custa cerca de R$ 100,00 ou R$ 0,50 centavos por sensor."
           Mais importante ainda, os sensores são muito mais sensíveis às proteínas-alvo em questão. De fato, os pesquisadores da Universidade da Pensilvânia mostraram que poderiam detectar um biomarcador de câncer de próstata chamado osteopontina (OPN) em 1 picograma/mL, o que é cerca de 1000 vezes menor do que os testes clínicos realizados por ELISA.
 

Detectando a doença de Lyme: anticorpos comercialmente disponíveis (centro) são ligados aos transistores de nanotubos de carbono. Os antígenos de Lyme (espirais amarelas/roxas) são capturados e detectados. (Cortesia: Universidade da Pensilvânia)

          A equipe, liderada por A.T. Charlie Johnson do Departamento de Física e Astronomia de Penn, sintetizou os sensores de nanotubos, anexando anticorpos ligantes de OPN aos transistores de nanotubos de carbono num chip de silício. Muitas proteínas no corpo se ligam muito fortemente à moléculas alvo específicas ou à proteínas e a OPN não é exceção. Quando o chip é imerso numa amostra teste, a OPN liga-se aos anticorpos, o que altera as características eletrônicas do transistor. Medidas de voltagem e corrente obtidas a partir de cada dispositivo permitiram que os pesquisadores pudessem medir com precisão a quantidade de OPN que havia na amostra.

Ligações fortes
          A técnica também pode ser usada para detectar uma série de outras doenças através da substituição superficial do anticorpo ligante de OPN por grupos funcionais sensíveis a diferentes biomarcadores, disse Lerner. Um biomarcador que os pesquisadores afirmaram ter detectado está relacionado à doença de Lyme. Também conseguiram detectar a bactéria salmonela, usando esse sensor.
          "Os sensores podem ser utilizados como ferramentas de diagnóstico que permitem aos médicos obter resultados de testes clínicos em tempo real para uma variedade de doenças", acrescenta Lerner. "Se pudéssemos integrar várias proteínas num único chip, poderíamos detectar centenas de proteínas biomarcadoras de doenças, simultaneamente, num único pequeno volume da amostra".

quinta-feira, 7 de março de 2013

Cometa Misterioso Cruza os Céus do País


Um novo astro, ainda mais brilhante, surgirá em novembro

Imagem da internet. Meramente ilustrativa
O primeiro de dois cometas a serem avistados no céu do país este ano já pode ser observado a olho nu. No horário do pôr-do-sol, por volta das 18h, basta olhar à direita da estrela, buscando por um ponto luminoso, algo como uma estrela um pouco mais brilhante. Trata-se do cometa PanSTARRS, em sua visita única ao planeta Terra, direto dos confins do Sistema Solar. Uma espécie de aperitivo antes da chegada do ISON, em novembro, que será visível como uma lua cheia.

Cometas são grandes aglomerados de rocha e gelo recobertos por uma crosta de sujeira espacial originários da Nuvem de Oort, uma gigantesca região de objetos gelados que cerca nosso Sistema Solar e cujo limite alcança mais de um ano-luz (cerca de 9,5 trilhões de quilômetros) de distância da Terra. Às vezes, porém, um destes objetos tem sua órbita estável perturbada pela ação gravitacional da movimentação de uma estrela próxima ou da combinação dos efeitos gravitacionais do conjunto das estrelas da Via Láctea, sendo então lançado em uma longa viagem em direção ao Sol. E, à medida que ele se aproxima de nossa estrela, o calor começa a quebrar sua crosta e a fazer evaporar o gelo, gerando as características coma (cabeça) e cauda dos cometas, que brilham ao reflexo da luz solar.

Primeira e única chance de observação

O PanSTARRS, segundo Jorge Márcio Carvano, do Observatório Nacional, é um cometa de tipo raro, com uma órbita chamada de hiperbólica, ou seja, ele só passará uma vez pela Terra. Trata-se, por isso, da primeira e única chance de observá-lo. De acordo com o astrônomo, especialistas em todo o mundo estão ansiosos para estudar o objeto, detectado em 2011.

- Os cometas, acreditamos, são objetos formados na mesma época em que os planetas gigantes e expulsos da parte interna do Sistema Solar - explicou Carvano. - Com suas temperaturas muito baixas, eles preservam material, processos e condições daquela época; verdadeiras relíquias da formação do Sistema Solar.

Carvano explicou que, com a observação do cometa por especialistas, será possível estudar a composição do gás e da poeira. Segundo Carvano, moléculas orgânicas nunca antes observadas podem ser detectadas.

- Observamos a interação da luz do Sol com o gás e a poeira. Dependendo de como o gás modifica a luz, podemos inferir a composição molecular.

Mas enquanto o PanSTARRS passará a cerca de 50 milhões de quilômetros do Sol - sua maior aproximação ocorre hoje -, o ISON se aproximará muito mais da estrela, menos de 2 milhões de quilômetros. Quanto mais perto do Sol um cometa chega, mais brilhante ele aparece no céu. Por isso, astrônomos apostam que o ISON pode ser "o cometa do século", atingindo um brilho equivalente ao da Lua cheia, ficando visível a olho nu e talvez até durante o dia na época de sua maior aproximação, entre o fim de novembro e o início de dezembro.

(Roberta Jansen - O Globo)

domingo, 3 de março de 2013

Anvisa publica lista de alimentos com alto teor de sódio.




          A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o consumo máximo de 2 gramas (g) de sódio por dia. Um pacote de biscoito de polvilho de 100 g possui, em média, mais da metade de toda a quantidade de sódio que uma pessoa deve consumir durante todo o dia. É o que aponta um estudo divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

          O hambúrguer bovino também apresentou um alto teor de sódio: na média 701 mg de sódio para cada 100g de produto. Isso significa que um pedaço de carne de hambúrguer (cerca de 80g) é responsável por mais de ¼ do total de sódio que uma pessoa deve consumir durante todo o dia.

          O estudo da Anvisa também analisou os teores de sódio nos queijos. Uma amostra do queijo parmesão apresentou o maior valor absoluto de sódio, entre todas as 500 amostras da pesquisa, e atingiu a marca de 3052 mg do nutriente para cada 100 g do produto. Em segundo lugar, ficou a versão ralada do queijo parmesão. Neste caso, em uma das amostras, o teor de sódio encontrado foi de 2976 mg para cada 100 g de produto. A média de sódio no parmesão foi de 1402 mg a cada 100 g de produto. No caso do parmesão ralado, esse valor sobe para 1981 mg, valores muito superiores à média de sódio nos demais tipos de queijo analisados.

          Outro ponto avaliado pela pesquisa foi a variação do teor de sódio entre as diversas marcas de um mesmo alimento. Neste quesito, os queijos minas frescal, parmesão e a ricota fresca lideraram a lista. Essa variação na quantidade de sódio entre as diversas marcas reafirma a necessidade dos consumidores de observarem os rótulos dos alimentos industrializados2.

          A média do teor de sódio no macarrão instantâneo ficou em 1798 mg para cada 100 g do alimento. Esse valor está dentro do pactuado, em abril de 2011, entre o Ministério da Saúde e as associações das indústrias de alimentos para reduzir a quantidade de sódio nesses alimentos. O acordo prevê o valor máximo de 1920,7 mg de sódio para cada 100 g de macarrão instantâneo. Entretanto, o estudo da Agência também detectou problemas. Em termos de valor absoluto, o valor máximo de sódio encontrado em uma amostra de macarrão instantâneo foi de 2.160 mg para cada 100g de alimento, valor maior do que o acordado entre as indústrias e o Ministério da Saúde. Vale lembrar que, neste caso, já está contabilizada a quantidade de sódio presente do tempero pronto que acompanha esses alimentos.

          O consumo excessivo de sódio é considerado um fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas, tais como cardiopatias, obesidade, neoplasias, diabetes mellitus, entre outras. “Se atingíssemos a meta da OMS seria possível reduzir em 15% os óbitos por acidente vascular cerebral (AVC) e em 10% os óbitos por infarto”, afirma o diretor de Controle e Monitoramento Sanitário da Anvisa, Agenor Álvares.

Algumas orientações para reduzir o sal na dieta:

·       Além de observar o rótulo dos alimentos industrializados, a Anvisa orienta que o consumidor experimente os alimentos antes de adicionar mais sal.

·       Diminuir gradativamente o sal nos alimentos. O paladar se adapta à redução gradual da quantidade de sal nos alimentos, por isso, isso não vai afetar a percepção do sabor dos alimentos.

·       Lembrar que alimentos frescos sempre têm menos sal. Por isso, é necessário equilibrar as refeições com saladas e frutas.

·       A população deve utilizar outros temperos naturais como ervas aromáticas, alho, cebola, pimenta, limão, vinagre e azeite para temperar e valorizar o sabor natural dos alimentos, evitando o uso excessivo de sal. “A redução do consumo de sal pode ser iniciada com atos simples, como a retirada do saleiro da mesa”, complementa Álvares.

          De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2001, 60% do total das 56,5 milhões de mortes notificadas no mundo foi resultado de doenças crônicas não transmissíveis. Além disso, o aumento da pressão arterial no mundo é o principal fator de risco de morte e o segundo de incapacidades por doenças cardíacas, acidente cérebro vascular e insuficiência renal.

          Dados do IBGE indicam que, em 2009, uma em cada três crianças brasileiras na faixa de 5 a 9 anos estava com sobrepeso, sendo que a obesidade atingiu 16,6% dos meninos e 11,8% das meninas. Durante o período de 1974 a 2009, a prevalência de sobrepeso em crianças e adolescentes, entre 10 e 19 anos, passou de 3,7% para 21,7% no sexo masculino e de 7,6% para 19,4% no sexo feminino. Nesse mesmo período, o sobrepeso na população adulta masculina passou de 18,5% para 50,1%, enquanto que na feminina foi de 28,7% para 48%.

Veja a íntegra do estudo da Anvisa em: TEOR DE SÓDIO DOS ALIMENTOS PROCESSADOS

Fonte: Anvisa

NEWS.MED.BR, 2012. Anvisa publica lista de alimentos com alto teor de sódio. Biscoito de polvilho e queijo branco estão entre eles. Disponível em: <http://www.news.med.br/p/saude/322800/anvisa-publica-lista-de-alimentos-com-alto-teor-de-sodio-biscoito-de-polvilho-e-queijo-branco-estao-entre-eles.htm>. Acesso em: 3 mar. 2013.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Brasil será sede de um dos encontros mais importantes do mundo na área de física


Pela primeira vez, a Conferência Internacional de Raios Cósmicos (ICRC) será realizada na América do Sul 

A 33ª edição da ICRC (International Cosmic Ray Conference) - um dos maiores, mais importantes e mais tradicionais encontros de física do mundo - será realizado entre 2 e 9 de julho no Centro de Convenções SulAmérica, no Rio de Janeiro. Com a presença de aproximadamente mil cientistas de todo o mundo, o encontro discutirá os mais recentes resultados ligados à física dos raios cósmicos, do Sol, das explosões de raios gama e da matéria escura. As inscrições e submissão de trabalhos se encerram no dia 1º de março.

A primeira edição do ICRC ocorreu logo após o fim da Segunda Guerra Mundial,e, desde então, tem acontecido a cada dois anos. Os dois últimos encontros foram em Pequim (China), em 2011; e Lodz (Polônia), em 2009.

Mistérios da natureza - O ICRC se dedica a tópicos tradicionalmente ligados à física dos raios cósmicos e à astrofísica de altas energias e de partículas. Mas ela também atrai cientistas que trabalham com temas ligados a raios gama e neutrinos. Este ano, no Brasil, pela primeira vez, haverá a participação da comunidade que estuda a misteriosa matéria escura. Por essa razão, o ICRC adotou o subtítulo 'A Conferência da Física de Astropartículas'. Estão planejadas mais de 300 palestras científicas - em sessões plenárias e paralelas -, bem como diversas palestras para o grande público.

Inscrições e submissão de trabalhos - Inscrições e submissão de trabalhos são aceitas até 1º de março próximo pelo sítio do encontro: http://www.cbpf.br/~icrc2013/

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pesquisa agora quer analisar coração de D. Pedro


Por decisão testamentária, o coração foi doado à Igreja da Lapa, onde é mantido como relíquia na capela principal

O próximo passo do estudo da historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, revelado com exclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo na semana passada, é analisar o coração de Dom Pedro I, que está na cidade do Porto, em Portugal. Por decisão testamentária, o coração foi doado à Igreja da Lapa, onde é mantido como relíquia na capela principal.

Na primeira fase da pesquisa, Valdirene exumou restos mortais do imperador e de suas duas mulheres, Leopoldina e Amélia, guardados na cripta do Monumento à Independência, no Ipiranga, zona sul da cidade de São Paulo. O material passou por exames na Faculdade de Medicina da USP, que revelaram, entre outras coisas que Dona Amélia está mumificada.

Médicos envolvidos no estudo veem com entusiasmo a análise do coração. "A partir de uma amostra pequena, de 5 mm, já seria possível aprofundar as hipóteses da causa mortis de Dom Pedro", diz o médico Paulo Hilário Saldiva, chefe do Departamento de Patologia da USP.

Com esse tecido, especialistas poderiam tentar saber, por exemplo, se o imperador teve ou não sífilis, como historiadores afirmam. "Pelo vídeo que vimos, é possível perceber que o coração é maior do que o normal. Isso pode ser decorrência de alguma doença, como de Chagas. Ou de um problema reumático. É preciso analisar."

Em breve, um pedido formal deve ser feito à prefeitura do Porto e à Venerável Ordem de Nossa Senhora da Lapa, que administra a igreja. Segundo Valdirene, será apresentado um projeto detalhado e, dependendo da receptividade, pesquisadores poderão solicitar a vinda do órgão ao Brasil para tomografia na Faculdade de Medicina da USP.

Hoje, duas entidades são responsáveis pelo coração de Dom Pedro: a prefeitura do Porto e a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, a quem a filha do imperador brasileiro, a rainha portuguesa D. Maria II, atribuiu por decreto régio a função de manter o coração do pai.

O jornal O Estado de S. Paulo apurou em Portugal que os responsáveis pelo coração estão abertos a que se retire uma amostra para estudo. Mas impõem como condição a garantia de sua integridade. Sobre a possibilidade de trazê-lo ao Brasil, ainda não se manifestaram. "Não há obstáculo nenhum ao estudo. Mas nesse momento não é aconselhável abrir o frasco com o coração, porque está muito frágil", afirmou o provedor da Irmandade, Joaquim França do Amaral.

"Atualmente, ele é aberto apenas uma vez a cada dez anos, para troca do líquido de conservação, uma solução de Kaiserling." Um dos receios é que essa solução de Kaiserling possa ter efeito diferente do formol, substância atualmente usada para conservar órgãos.

Na prefeitura do Porto, a condição é de que seja feito um pedido oficial: "É uma questão que terá de ser analisada profundamente pelas autoridades", informou o chefe da Divisão de Relações Internacionais e Protocolo da prefeitura, João Paulo Cunha. 

(O Estado de São Paulo)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Fisicos Criam um Cristal Quase Vivo

Após três bilhões de anos, a química inanimada tornou-se parte de algo biológico, formando a vida.
Um composto recém-sintetizado está se comportando de modo assustadoramente realista, como se estivessem vivos.

As partículas não estão realmente vivas, obviamente, mas elas não estão longe disso também. Expostas à luz e “alimentadas” por produtos químicos, elas formam cristais que se movem, se rompem e formam-se de novo.

“Há uma fronteira que não conhecemos entre o vivo e o não vivo. Isso é exatamente o tipo de questão que tais descobertas levantam”, declarou o biofísico Jérémie Palacci da Universidade de Nova York em entrevista a revistaWired.

Palacci e seu colega Paul Chaikin, lideraram um grupo de pesquisadores que desenvolveram as partículas, relatadas no dia 31 de janeiro na Science, classificadas como cristais “vivos” em determinadas condições químicas.
Cada partícula é feita a partir de um cubo microscópico de hematita, um composto constituído de ferro e oxigênio revestido por uma camada de polímero esférico, mas com um pequeno canto exposto.

Sob certos comprimentos de onda de luz azul, a hematita conduz eletricidade. Quando as partículas são colocadas em solução de peróxido de hidrogênio (mais conhecido como água oxigenada) sob essa luz, começam reações químicas em torno das pontas expostas.

Como o peróxido de hidrogênio se decompõe, um gradiente de concentração é formado. As partículas então viajam até esse ponto exposto, agregando cristais que também seguem esse gradiente.

Forças aleatórias puxam os cristais que estão separados, mas eventualmente eles se fundem de novo. O processo se repete, paralisando apenas quando as luzes se apagam.

O trabalho em questão visa entender como esses complicadíssimos comportamentos coletivos surgem de simples propriedades individuais.
“Aqui nós mostramos que com um sistema simples, sintético e ativo, podemos reproduzir algumas características dos sistemas vivos. Eu não acho que isso se comporte exatamente como nossos sistemas vivos, mas enfatiza o fato de que o limite entre o vivo e o não vivo é um tanto arbitrário”, declarou Palacci.
Chaikin ainda comentou que a vida é algo muito difícil de definir, mas podemos dizer que é algo que possui metabolismo, mobilidade e capacidade de se auto-replicar. Esses cristais possuem essas duas primeiras características, não a última.

Alguns cientistas acreditam que os blocos de construção da vida existiram de modo semelhante, indo e voltando durante milhões de anos, até conseguirem a característica de se reproduzirem.
Fonte: Osmairo Valverde, Jornal Ciência de 04.02.2013

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Alimentos crus não suprem as necessidades de grandes cérebros



Por Murilo Sérgio da Silva Julião

 

          Fazer uma dieta baseada em alimentos crus pode se tornar uma receita para o desastre, se você estiver pensando em aumentar a força do cérebro de sua espécie. Isto porque os seres humanos teriam que gastar mais de 9 horas por dia se alimentando somente de alimentos não processados (in natura) a fim de obter energia em quantidade suficiente para sustentar nossos grandes cérebros, de acordo com um novo estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciencesa (PNAS) que calculou o custo energético gasto no crescimento de um cérebro enorme ou do corpo dos primatas. Entretanto, nossos antepassados conseguiram obter energia suficiente para fazer com que os cérebros deles apresentassem três vezes mais neurônios do que primatas como: gorilas, chimpanzés e orangotangos. Como eles fizeram isso? Eles cozinhavam, de acordo com o estudo publicado na PNAS hoje on-line nos Anais da Academia Nacional de Ciências.

          "Se você comer apenas alimentos crus, um dia de 24 horas não será suficiente para se obter a quantidade de calorias necessária a fim de desenvolver um cérebro tão grande", afirma Suzana Herculano Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, coautora do trabalho. "Podemos obter mais neurônios, graças ao ato de cozer."

          Os seres humanos têm mais neurônios no cérebro do que qualquer outro primata – aproximadamente 86 bilhões, em média, em comparação com os cerca de 33 bilhões de neurônios em gorilas e 28 bilhões em chimpanzés. Para termos essa quantidade extra de neurônios que nos dota de muitos benefícios, necessitamos pagar um preço, uma vez que nosso cérebro consome 20% de toda a energia do corpo, quando em repouso, em comparação com os 9% em outros primatas. Então, uma pergunta que tem sido feita ao longo do tempo é: de onde os nossos ancestrais obtinham energia extra para expandir as mentes e como estas evoluíram a partir de animais com cérebros e corpos do tamanho dos chimpanzés?

          Uma resposta veio no final da década de 1990, quando o primatologista Richard Wrangham da Universidade de Harvard, propôs que o cérebro começou a expandir-se rapidamente a cerca de 1,8 milhões de anos atrás no nosso antepassado, o Homo erectus, pois este ser humano aprendeu muito cedo a assar carne e vegetais de raízes tuberosas sobre fogueiras. Cozinhando, pré-digerimos efetivamente os alimentos, tornando mais fácil e eficiente para os nossos intestinos absorverem calorias mais rapidamente, Wrangham afirmou em seu trabalho. Desde então, o seu grupo de colaboradores tem mostrado em estudos com cobaias de laboratório, como roedores e jiboias que estes animais crescem mais rápido e se tornam maiores quando comem carne cozida em vez de carne crua e que é necessário menos energia para digerir carne cozida do que carne crua.

          Em um novo teste desta hipótese do cozimento de alimentos, Herculano Houzel e sua estudante de graduação, Karina Fonseca Azevedo, neurocientista do Instituto Nacional de Neurociência Translacional, em São Paulo, decidiram observar se uma dieta de alimentos crus inerentemente poriam limites no crescimento do cérebro ou corpo de um primata. Primeiro, elas contaram o número de neurônios nos cérebros de 13 espécies de primatas (e mais de 30 espécies de mamíferos). As pesquisadoras descobriram duas coisas: (i) que o tamanho do cérebro está diretamente ligado ao número de neurônios num cérebro e (ii) que o número de neurônios está diretamente correlacionado com a quantidade de energia (ou calorias) necessária para alimentar um cérebro.

          Após o ajuste para a massa corporal, elas calcularam quantas horas por dia vários primatas levariam para ingerir calorias de alimentos crus suficientes para abastecer seus cérebros. Elas descobriram que levariam 8,8 horas para os gorilas; 7,8 horas os orangotangos; 7,3 horas para os chimpanzés e 9,3 horas para a nossa espécie, H. sapiens.

          Esses números mostram que há um limite superior para a quantidade de energia que os primatas precisam obter a partir de uma dieta de alimentos crus, disse Herculano-Houzel. A dieta dos macacos na natureza difere de uma dieta moderna "baseada em alimentos crus", na qual os seres humanos obtêm calorias suficientes a partir do processamento de alimentos crus em liquidificador, acrescidos de proteínas e outros nutrientes. Na natureza, outros macacos não puderam evoluir o tamanho dos cérebros, a menos que reduzissem o tamanho de seu corpo pois não poderiam passar o limite de quantas calorias poderiam consumir em 7 horas para 8 horas de alimentação por dia. Mas os seres humanos, diz ela, ficaram em torno daquele limite, pelo cozimento. "A razão pela qual temos mais neurônios do que qualquer outro animal vivo é que o cozimento dos alimentos permitiu esta mudança qualitativa – esta etapa proporcionou o aumento do tamanho do cérebro", disse ela. "Ao cozinhar, conseguimos contornar a limitação do quanto se pode comer em um dia".

          Mas para Herculano Houzel, nossos cérebros ainda seriam do tamanho de um macaco caso o Homo erectus não tivesse brincado com fogo: "Quanto mais eu penso sobre isso, mais eu me curvo a minha cozinha. O fogo é a razão de estarmos aqui."

O CNPq não acha meu trabalho digno de financiamento!

 
 
Artigo de Suzana Herculano Houzel*, publicado em seu blog
       Ah, as inconsistências do sistema de financiamento da ciência no Brasil. Meu laboratório nunca esteve mais produtivo; nosso trabalho na PNAS, um de OITO publicados em revistas internacionais este ano (e, aliás, o segundo na PNAS deste ano) acabou de sair, com um baita reconhecimento mundo afora; e então... descubro que nosso projeto de pesquisa não teve seus recursos renovados pelo CNPq para o ano que vem. Veja bem: não foi pedido de auxílio novo, e sim de renovação de um projeto super bem sucedido. O comunicado oficial diz que "sua proposta (...) teve o seu mérito reconhecido. No entanto, na análise comparativa com as demais propostas, o seu pedido não alcançou classificação que permitisse o atendimento."
       Pensei em escrever para o CNPq para pedir reconsideração, mas depois que olhei a lista de agraciados, estou quase mudando de ideia: no meu comitê de avaliação (morfologia), foram agraciados TODOS nossos professores titulares no Instituto, e mais dois ou três professores sêniors. Até aqui é "só" coincidência entre titulação e aprovação. Mas aí começam as estórias de horror nada científico no Facebook, como relatos de pesquisadores que têm seu projeto repetidamente recusados sob seu próprio nome, MAS quando submetem o mesmo projeto com o nome do chefe sênior, professor titular, diretor disto e daquilo... o projeto miraculosamente é aprovado.
       Aiai. Se eu entrar com recurso e ganhar, daqui a três anos estarei novamente competindo em pé de desigualdade com meus colegas titulares. Mas se eu não entrar com recurso agora, concorro de novo ano que vem, quando eles não estarão concorrendo, e quem sabe assim minhas chances de uma disputa mais justa, por produtividade, serão maiores... É, fazer ciência no Brasil também tem dessas. Que se dane a produtividade, se você não é a bola da vez.
       O irônico é que, enquanto o CNPq acha que o nosso projeto não é digno de ter seus recursos renovados, a revista Science teve uma repercussão tão grande em seu site da matéria que eles publicaram sobre nosso artigo na PNAS que me convidou para participar do chat semanal deles esta semana, na quinta-feira dia 8 de novembro, de 17:45 - 19:45 horário de Brasília, em http://news.sciencemag.org/sciencelive/
       Aliás, tem sido realmente instrutivo ver a repercussão na mídia desse nosso trabalho. Mundo afora, vários jornais comentaram, e o posdoc polonês no meu laboratório diz que foi o assunto da semana passada por lá (ele deve estar exagerando um pouco, mas de qualquer forma fico honradíssima). No Brasil, até a revista Claudia vai fazer uma matéria a respeito. A Fundação James McDonnell, nos EUA, nosso maior financiador, ficou felicíssima com a notícia. Mas os sites da Faperj e do CNPq? Nem mencionaram o assunto. Não recebi qualquer contato de jornalistas deles - que eu sei que existem, e recebem os mesmo press releases que os jornalistas estrangeiros que me ligaram até no meio da noite deles para conseguir uma entrevista, como foi o caso de uma estação de rádio na Nova Zelândia.
       Esta tem sido minha "vingança", ou no mínimo meu consolo: eu tenho reconhecimento... fora do meu país. No momento, por exemplo, estou em Cancun com todas as despesas pagas pelo IBRO para dar um curso e uma de seis ou oito palestras plenárias na reunião internacional da Federação de Sociedades de Neurociência da América Latina. Ano que vem dou palestra em uma reunião em Cambridge, e serei uma de seis palestrantes convidados, também com tudo pago, na Reunião Europeia sobre Glia, em Berlin.
Ou seja: os estrangeiros me chamam para representar nossa ciência lá fora - mas o CNPq não acha que meu projeto é prioritário o suficiente para merecer continuar sendo financiado. Então tá. Meu marido, que é americano, está começando a me perguntar "por que mesmo você ainda trabalha no Brasil???" Vamos ver quanto tempo eu duro...
 
*Suzana Herculano Houzel é neurocientista e pesquisadora no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ
 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

NASA envia Mona Lisa para Lua para testar comunicação a laser

NASA envia Mona Lisa para Lua para testar comunicação a laser
Comunicação a laser
A NASA fez a primeira demonstração prática de comunicação a laser com a Lua.
Para isso, um laser localizado no Centro Espacial Goddard transmitiu uma imagem do quadro Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, para a sonda espacial LRO, que está orbitando a Lua desde 2009.
A sonda LRO (Lunar Reconnaissance Orbiter) ficou conhecida por fazer asprimeiras fotos dos locais de pouso dos astronautas da Lua, mas foi ela também que traçou o mapa mais preciso já feito do nosso satélite.


Cumpridas as etapas científicas principais da missão, os controladores puderam começar a testar outros equipamentos de demonstração tecnológica que a sonda levava a bordo.
O principal deles é um sistema móvel de laser que permite a troca de dados com a Terra.
Mona Laser
A imagem digitalizada da Mona Lisa teve seus bits transmitidos em pulsos de laser, em uma espécie de código Morse espacial.
A imagem foi convertida em uma matriz de 152 por 200 pixels. Cada pixel foi convertido em tons de cinza, representados por um número entre zero e 4.095.
Cada pixel foi transmitido por um pulso de laser, cada pulso sendo disparado em um de 4.096 intervalos de tempo possíveis, durante uma janela de tempo determinada.
Os erros de transmissão, gerados por flutuações no sinal induzidos pela atmosfera terrestre, foram corrigidos com os mesmos algoritmos usados pelos aparelhos de CD e DVD.
"Esta é a primeira vez que se consegue realizar uma comunicação a laser unidirecional a distâncias planetárias," disse David Smith, do MIT, responsável pelo equipamento a bordo da sonda, chamado LOLA (Lunar Orbiter Laser Altimeter).
NASA envia Mona Lisa para Lua para testar comunicação a laser
Os erros de transmissão, gerados por flutuações no sinal induzidos pela atmosfera terrestre, foram corrigidos com os mesmos algoritmos usados pelos aparelhos de CD e DVD. [Imagem: Xiaoli Sun/NASA Goddard]
Comunicação espacial de alta velocidade
O projeto LCRD (Laser Communications Relay Demonstration) também pretende lançar as bases para o estabelecimento de uma "presença virtual" no espaço, em outro planeta ou em um outro corpo do Sistema Solar, inicialmente para o controle de robôs espaciais.
"No futuro próximo esse tipo simples de comunicação a laser poderá servir como backup para a comunicação por rádio que os satélites usam. No futuro mais distante, ele poderá permitir a comunicação a velocidades mais altas do que os links de rádio atuais podem oferecer," explicou Smith.
Para comparação, a sonda MRO (Mars Reconnaissance Orbiter) leva 90 minutos para transmitir uma única foto de Marte em alta resolução. Com um sistema a laser, com capacidade de 500 Mbps, essa mesma foto chegaria à Terra em cerca de 1 minuto.
A imagem completa da Mona Lisa, usando o sistema experimental, foi transmitida a uma taxa de dados de cerca de 300 bits por segundo.
O próximo teste de comunicação a laser no espaço será feito com a sonda espacial LADEE (Lunar Atmosphere and Dust Environment Explorer), que deverá ser lançada até o final deste ano, levando a bordo um sistema capaz de trocar dados em alta velocidade, a até 622 Mbps.
Fonte:http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=nasa-envia-mona-lisa-lua-testar-comunicacao-laser&id=010130130120

Entrevista: físico demonstra ser possível aliar o sucesso acadêmico à divulgação científica

A mais recente entrevista do blog Dissertação Sobre Divulgação Científica apresenta um físico, ou melhor, um físico-comunicador, um profissional articulado, receptivo aos divulgadores e proativo na divulgação científica. Astrônomo do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), Martin Makler, 38 anos, cresceu apaixonado pela ciência e aprendeu desde menino a exteriorizar o que aprendia, habilidade que até hoje está presente em sua carreira.

Filho de pai físico e mãe matemática, Martin é natural de Buenos Aires, Argentina, cresceu em Niterói-RJ e também morou um tempo na Bélgica, onde aprendeu a "brincar" com a astronomia. O retorno ao Brasil veio acompanhado de uma vontade de divulgar aquele prazer, que quase foi comprometido pela má qualidade de um professor durante o ensino médio (aí está um exemplo da prioridade de mais do que valorizar e educação, inclusive os professores).

Ele graduou-se na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1996, e concluiu o doutorado cinco anos depois no CBPF, cuja tese lhe rendeu uma menção honrosa pela Sociedade Brasileira de Física (SBF). O pós-doutorado, também pela UFRJ, foi obtido em 2003.

Uma das principais atividades de pesquisa dele é o projeto o Dark Energy Survey, consórcio internacional que visa estudar e compreender algumas das principais questões históricas da humanidade em relação ao Universo, tais como: de onde viemos? Onde estamos? Para onde vamos? E (principalmente) do que é composto o Universo?

Confira a entrevista:

Como surgiu o seu interesse pela ciência e pela divulgação científica?
O que me despertou foi a série de televisão Cosmos, do astrônomo e divulgador Carl Sagan, durante a minha infância. Eu gostava de ciências em geral, mas principalmente de astronomia, mesmo sem saber que o campo tinha esse nome e era tão bem organizado, definido. Essa afinidade cresceu após eu passar algum tempo em Liège, na Bélgica, onde os meus pais foram fazer pós-doutorado. Lá, com cerca de 13 anos, tive a oportunidade de participar de palestras, acampamentos, comprar um telescópio, tirar fotos de astros e ingressar em um clube da área. Quando eu voltei ao Brasil, tinha a ideia de criar um clube de astronomia em Niterói, mas a minha visão era a de uma associação mais restrita. Marcelo Souza, então professor do ensino médio e aluno da Universidade Federal Fluminense (UFF), ficou sabendo da proposta e me procurou, só que com a intenção de atingir uma audiência mais ampla. Tudo isso foi determinante para amadurecer os meus gostos e objetivos de vida e carreira, apesar de no ensino médio eu ter sido aluno de um professor de física muito ruim, que chegou a tirar a minha motivação pelo campo. Lembro que na época do vestibular, fiz testes vocacionais que me apontaram para todos os lados: medicina, direito, engenharia, química... mas acabei optando por física, exatamente pela possibilidade de ser astrônomo. Mesmo durante a graduação busquei ser ativo nas atividades de divulgação.


Você já comentou que realiza muito menos divulgação científica do que gostaria. O que o inibe?
A grande questão é que há uma certa competição entre as atividades de pesquisa e da divulgação. Neste momento da carreira, o meu tempo está bastante cosumido pelos projetos científicos e atenção aos meus orientandos. O nascimento do meu filho também fez com que eu reduzisse o tempo destinado à DCT.


Qual é a sua motivação pela DCT?
Há o prazer pessoal de estimular o gosto pelo conhecimento e comunicar o que eu faço, de incentivar outras pessoas, assim como eu fui pela série Cosmos. Porém, o interesse maior é o social, que herdei daquele professor com quem eu promovia o clube de astronomia em Niterói. Eu gosto muito de levar a ciência para os espaços mais diferentes e inusitados, fora dos centros tradicionais, onde as ações serão motivo de surpresa.

Você identifica essa mesma motivação entre os seus colegas acadêmicos?
Bom, o cenário melhorou bastante ao longo do tempo. Lembro que na minha graduação os poucos grupos dedicados à divulgação eram até mesmo desprezados, havia uma resistência bem maior do que hoje em dia. Nos últimos anos, o governo tem ampliado as medidas em benefício do campo, como a criação do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia, a implementação de um espaço específico para a divulgação no currículo Lattes, a multiplicação de eventos organizados por instituições públicas, entre outras. Porém, de forma geral os meus pares se interessam pouco por essa atividade. Além da falta de consciência ou de interesse e do medo de comunicar para uma audiência mais ampla, acho que falta um canal confiável, um estímulo determinante capaz de fazer com que o cientista enxergue a possibilidade de divulgar o seu trabalho de forma profissional e séria. Talvez haja a vontade latente, mas o pesquisador não quer perder tempo para preparar uma palestra, por exemplo, mas sim já realizá-la. Um gancho bem interessante seria a valorização institucional, no sentido da missão do cargo ser, inclusive, a divulgação. Hoje, no entanto, somos avaliados no fundo pela pesquisa em si. Outra situação curiosa é que o pesquisador, quando convidado para proferir uma palestra na escola do filho, tende a aceitar. Então, se as próprias escolas se dirigissem com mais frequência ao CBPF, a disponibilidade acadêmica poderia ser maior.

Qual é o seu público da divulgação?
Como eu faço divulgação em lugares bastante diversos, percebo que a audiência é ampla e com características bem variadas, mas sempre procuro uma identificação e a adequação da linguagem. Para se ter uma ideia, no fim da década de 1990, eu participei de uma dinâmica de popularização no presídio Edgar Costa, em Niterói, onde o nível cultural das pessoas era bem abaixo de outros ambientes. Já o público das ações da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência ou da Casa da Ciência, das quais eu participo, por exemplo, possui um grau educacional mais elevado, está mais a par dos assuntos e a qualidade das perguntas costumam ser melhores. Isso mostra que a minha divulgação é destinada a segmentos diversos e heterogêneos. É difícil definir rigidamente.

Qual é o seu procedimento quando pretende realizar uma divulgação, faz por si ou procura alguma assessoria de comunicação?
Depende bastante. Em geral, são iniciativas pessoais, muitas motivadas por convites de escolas, comitês, clubes e associações. Cotidianamente, o contato é muito mais comigo do que com o próprio CBPF. Por outro lado, em ações coordenadas e institucionais, como na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, a divulgação é via CBPF, que é solicitado pelo Ministério da C&T para integrar o movimento.


E como é o seu relacionamento com os jornalistas? Você tem receio deles?
Receio eu não tenho e gosto de recebê-los para dar as informações solicitadas. Acho importante essa interação. Porém, eu já acompanhei situações grotescas ocorrerem por falta de precisão e entendimento. Lembro que uma equipe de reportagem de um importante jornal de Niterói foi comigo em um parque da cidade cobrir a passagem do cometa Hale-Bopp. Eu havia explicado que além do astro luminoso, havia, por coincidência, uma aproximação visível entre os planetas Mercúrio e Vênus, fato curioso, sem relação direta com o cometa. No dia seguinte, o veículo noticiou que a causa do sobrevoo do Hale-Bopp visível em Niterói foi a junção entre os dois planetas, informação transmitida com a legitimidade da minha fala entre aspas. Por isso, eu sempre peço o envio do material antes da publicação, procedimento que deveria ser padrão. A mídia mais genérica não costuma atender ao pedido, até mesmo pela velocidade da produção e publicação do jornalismo, que exige do repórter habilidade para levantar dados em curto espaço de tempo. Já a imprensa mais especializada, como a revista Ciência Hoje, sempre retorna o texto.

Quais são as habilidades que o cientista precisa adquirir para facilitar a interação com o divulgador?
Antes de qualquer coisa, é importante ser didático, saber apresentar o conteúdo de forma mais suave, com menos fórmulas, utilizando ilustrações e analogias, por exemplo. Mais do que uma habilidade inerente, um dom natural, é importante desenvolver essa capacidade de externar o trabalho realizado. A didática se consegue praticando. A questão é que no Brasil a formação do pesquisador carece desse tipo de treinamento. Por muitos anos, o pesquisador-divulgador foi visto com desconfiança pelos pares. Aqui, a ideia de testes e provas está muito enraizada no sistema educativo e de C&T, já em outros países a cobrança é para apresentações e exposições, como palestras e seminários. Isso inibe muitos de nós a querer popularizar e dialogar com a sociedade. As poucas pessoas ativas nesse campo acabam sobrecarregadas, pois são as mais procuradas para atender à imprensa e outras solicitações de divulgação.

Há algum patamar que deva orientar os objetivos da DCT nacional?
Embora eu não disponha de muitos dados e informações mais precisas, observo que os Estados Unidos são desenvolvidos nessa questão. Lá, a visão social da ciência é mais otimista e progressista. Um cidadão comum admira o cientista como alguém inteligente e importante. Já no Brasil, embora também haja admiração, as pessoas associam a pesquisa a dificuldades, à falta de recursos e até mesmo à futilidade, como alguém cujos trabalhos não são tão determinantes para o desenvolvimento humano e da nação. O nosso esforço deveria ser para mudar esse estereótipo, demonstrando que é possível fazer ciência importante e de qualidade.

Há algum projeto de DCT que você pretenda realizar, mas que até o momento tenha faltado tempo?
Nada em mente, por enquanto. Quando eu posso, faço o que tenho feito nos últimos tempos, que é apresentar as minhas pesquisas em andamento.

Nota da redação: O blog disponibiliza a entrevista também em áudio. Clique aqui para ouvir.

(Com informações de Bruno Lara)

17º Prêmio Jovem Talento em Ciência da Vida


SBBqEstão abertas, até o dia 3 de fevereiro, as inscrições para o 17º. Prêmio Jovem Talento
em Ciência da Vida, promovido pela Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular e a GE Healthcare Life Sciences. Podem participar alunos de iniciação científica e pós-graduação (mestrado e doutorado) que realizarem suas teses nos países da América Latina, e doutores com tese concluída após 30 de janeiro de 2012.

Os prêmios são US$ 1.500, passagem aérea para participar de um congresso internacional de escolha do candidato e a apresentação do trabalho durante a 42ª. Reunião Anual da SBBq. O comitê encarregado da seleção será composto por membros destacados da comunidade científica, indicados pela diretoria da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular.

O comitê analisará todos os inscritos e selecionará até cinco candidatos para apresentarem seus trabalhos na 42ª Reunião Anual, que serão avaliados durante o simpósio. Mais informações em:http://www.sbbq.org.br/2012/12/17o-premio-jovem-talento-em-ciencias-da-vida-2013/

(Site da SBBq)

Ciência para o desenvolvimento - artigo de Marco Antonio Raupp na Folha de São Paulo

Marco Antônio Raupp assumirá Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
Para alcançar seus objetivos de desenvolvimento sustentado e competitividade econômica global, o Brasil não pode abrir mão das contribuições do conhecimento científico e tecnológico. Diante dessa realidade inexorável, estamos preparando o sistema de ciência e tecnologia (C&T) do país, para que responda rapidamente ao desafio.

Precisamos nos valer dos exemplos em que mostramos competência ao aliar C&T com produção econômica. Para se tornar líder mundial na identificação e prospecção de petróleo em águas superprofundas, a Petrobras se vale de seu centro de pesquisas e de dezenas de universidades brasileiras.

O êxito da Embraer está ligado às contribuições do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do Centro Técnico de Aeronáutica (CTA). Já os altos índices de produtividade da nossa agropecuária têm origem na Embrapa e nas faculdades de ciências agrárias e veterinárias. As pesquisas que realizamos possibilitaram o surgimento de uma agricultura tipicamente tropical.

Trabalhamos agora para estender esses modelos exitosos aos setores industrial e de serviços de modo amplo, para termos a inovação tecnológica como atividade central da nossa economia. Para isso, contamos com políticas públicas recentes e com a sólida base científica nacional.

Entre as políticas públicas, destacam-se o Plano Brasil Maior (PBM), que expressa a política industrial do governo Dilma Rousseff, e a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI), definida no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Já a nossa base científica apresenta virtudes importantes, como um amplo sistema de formação de doutores, atuação em um número significativo de áreas e uma produção de conhecimento considerável.

Mas, se já alcançamos a 13ª posição no ranking mundial de produção científica, ultrapassando países de maior tradição na área, como Rússia e Holanda, nos rankings de inovação ainda ocupamos posições periféricas. É para melhorar --e muito-- nossa capacidade inovativa que o MCTI vem adotando uma série de providências.

Uma delas é estimular o desenvolvimento de novas tecnologias, especialmente em setores estratégicos como petróleo e gás, energias renováveis, aeroespacial, TI e defesa, e em áreas como nanotecnologia e biotecnologia.

Outra providência é dotar a base científica de estruturas que sirvam para atender as necessidades tanto da academia como da indústria. A construção de novos laboratórios, o alinhamento dos institutos de pesquisa do MCTI às políticas federais e a constituição da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial --Embrapii (a "Embrapa da indústria") estão alinhados com o novo momento.

A formação de recursos humanos está sendo incrementada para satisfazer as necessidades de inovação nas empresas, a exemplo do programa Ciência sem Fronteiras.
Em razão dos elevados riscos financeiros, o governo federal vem partilhando custos das atividades de inovação tecnológica com as empresas por meio de subvenção econômica, fomento a projetos em parceria universidade-empresa e empréstimos com juros subsidiados.

Um dado inquestionavelmente positivo é o consenso existente entre o poder público e a sociedade. Estamos construindo uma política de Estado para ciência, tecnologia e inovação. Ao formar 
um amplo sistema de produção científica, o Brasil mostrou que sabe transformar dinheiro em conhecimento. Agora, precisamos transformar conhecimento em riqueza.


Marco Antonio Raupp é ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação.


Nota da redação: O conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores.