quarta-feira, 22 de abril de 2015

Ex-bolsista da Funcap, jovem cientista cearense desenvolve sensor para aplicação na indústria petrolífera

 

Graduado na UVA, sobralense Esequiel Mesquita está cursando doutorado em Portugal.

         O jovem cientista cearense Esequiel Mesquita desenvolveu um sensor ótico para medição de nível de líquidos em condições hostis. Esequiel foi bolsista da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) durante a graduação em Engenharia Civil pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e hoje é bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no doutorado na Universidade do Porto, em Portugal.
         O sensor tem como objetivo realizar medições de nível de líquidos em reservatórios subterrâneos, e pode ser utilizado para medições do nível do lençol freático, prospecção e para estimar o nível de reservatórios petrolíferos. “Uma das vantagens do sensor que nós desenvolvemos é que ele não utiliza corrente elétrica, o que o torna mais seguro para aplicações na indústria petrolífera”, explicou Esequiel.
         A descrição em detalhes do funcionamento do sensor foi publicada na Revista Measurement, importante publicação internacional, sob o título “Liquid level gauge based in plastic optical fiber”.

Apoio da Funcap
         Bolsista de IC da Funcap entre 2008 e 2011, o pesquisador afirma que a participação no Programa de Iniciação Científica da Fundação foi fundamental na escolha pela carreira acadêmica. “Desde criança eu sempre fui bastante curioso, e quando eu cheguei à Faculdade e tive a oportunidade de juntar-me ao grupo de pesquisadores do Laboratório de Materiais (LabMat) da UVA percebi que era aquilo que eu queria fazer pro resto da minha vida”, destaca Esequiel.
         A bolsa de Iniciação Científica ajudou ainda no custeio das despesas de moradia e alimentação, entre outras, pois o bolsista precisou se deslocar de Irauçuba, sua cidade natal, à Sobral “para que pudesse tirar o máximo proveito da minha época de graduação. E pela concessão da bolsa de IC eu pude dedicar-me exclusivamente a minha formação profissional sem ter que buscar um emprego formal”, informa.
         As produções científicas desenvolvida no LabMat tornaram possível a participação do então graduando em conferências nacionais e internacionais, além de influenciarem a aprovação nos processos seletivos de mestrados da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade de Brasília (UnB), em 1º e 2º lugar, respectivamente.
         No entanto, antes de realizar as inscrições para a seleção nos mestrados, Esequiel Mesquita participou do Congresso Internacional de Patologia e Recuperação de Estruturas, em 2011, em La Plata, na Argentina.
         Durante o evento, a professora Maria Positiere, do Departamento de Engenharia Civil da Universidad Tecnológica Nacional, na Argentina, em virtude da boa qualidade do trabalho apresentado no evento, perguntou ao estudante se ele tinha interesse em ingressar no doutorado naquela instituição. Segunda a docente, ao fazer uma análise previa do curriculum de Esequiel, ela percebeu a presença das aptidões necessárias para ingressar direto no doutorado.
         “Depois disto, conversei com o meu orientador, o professor Francisco Carvalho, e ele aconselhou-me a pelo menos participar da seleção do doutorado, além das seleções de mestrado. Então eu inscrevi-me nas seleções de mestrado da UFC e UnB e de doutorado da Universidad Tecnologica Nacional e da Universidade do Porto. E, para minha completa surpresa, fui aprovado nas seleções de mestrado e também consegui o primeiro lugar nas duas seleções de doutorado”, comemora o pesquisador.
         A primeira colocação na seleção permitiu ao estudante conseguir uma bolsa de Doutorado Pleno no Exterior pela Capes. “E, assim, ingressei no doutorado na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto aos 24 anos”, destaca.

Pesquisa atual
         Na tese de doutorado de Esequiel, além do sensor de nível de líquidos que já está publicado, o cearense está desenvolvendo, em conjunto com pesquisadores europeus, mais três sensores: um sensor de corrosão, um sensor para medir o deslizamento entre o aço-concreto e um sensor de pressão.
         “Estes sensores serão utilizados para compor um sistema de monitorização estrutural, que essencialmente deverá realizar a avaliação do risco que uma estrutura terá de colapsar. Em princípio, o sensor ótico para medição do nível de líquidos, que foi desenvolvido pensando em aplicação na indústria petrolífera, foi amplamente testado e o protótipo final validado, e atualmente encontra-se pronto para ser empregado pela indústria.”, explica o jovem cientista.
         Já os outros três sensores encontram-se, atualmente, em etapa de experimentação, e uma vez que for observado o cumprimento de todos os requisitos de desempenho esperados pela equipe de pesquisadores será então realizado o depósito da patente para que depois os artigos sejam publicados e divulgados na comunidade científica.
         “A nossa meta é que esses trabalhos contribuam para que o Ceará ocupe uma posição de destaque na geração de inovação tecnológica no contexto brasileiro, e assim mais industrias se sintam atraídas para se instalarem em nosso estado” afirma o jovem cientista cearense.

(Assessoria de Comunicação da Funcap)

terça-feira, 24 de março de 2015

Tornando visível as dez principais atividades que integram o exercício da profissão acadêmica de pesquisador/professor



Artigo publicado no Jornal da Ciência pelo sociólogo Carlos José Saldanha, pesquisador em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz e membro do Comitê de Assessoramento de Ciências Ambientais do CNPq

       Em um momento da vida nacional de aceleração da degradação ambiental, desaceleração econômica intensa, retração do investimento público e privado, rápida elevação dos juros para além de patamares já proibitivos, escassez de novos empregos, mudanças nos direitos trabalhistas e previdenciários e corte de verbas das instituições de ensino e pesquisa superior (IES), faz-se necessário apresentar para a sociedade uma síntese das principais atividades de uma categoria de trabalhador insubstituível no processo de construção do desenvolvimento sustentável do país, o pesquisador/professor.
      Independente do tipo de administração (pública ou privada), de missão institucional (universidades federais, estaduais e municipais, centros universitários, institutos, faculdades integradas, faculdades e escolas), de formação educacional e de titulação dos pesquisadores/professores, do regime e das condições materiais de trabalho em suas instituições, bem como dos traços estruturais dos projetos desenvolvidos (em redes colaborativas, com ou sem plataformas multiusuários e/ou multi-institucionais…), é possível sintetizar, sem ser reducionista, o trabalho desenvolvido por homens e mulheres de ciências e de tecnociências, agrupando em dez suas principais atividades, a saber:

Primeira: capacitar recursos humanos (dar aulas na graduação e na pós-graduação, orientar teses, dissertações, monografias e iniciar jovens ao mundo das ciências e das tecnociências), porque o governo, a indústria, o comércio e as IES têm demandado cada vez mais força de trabalho qualificada e especialistas com grau universitário para poder alavancar a economia nacional.

Segunda: construir, manter e atualizar a infraestrutura do local de trabalho, que pode ser um laboratório e/ou uma sala de professor(a)/pesquisador(a) para o desenvolvimento de projetos de pesquisa e formação de recursos humanos, porque as tecnologias da informação e comunicação se desenvolvem com tal rapidez que equipamentos, softwares e redes precisam ser atualizados em intervalos de tempo cada vez mais curto.

Terceira: organizar e gerir bases de dados para as pesquisas e das pesquisas, diante do número de pessoas nelas envolvidas e o número de publicações que produzem em velocidade crescente.

Quarta: acompanhar, pari passo, o que fazem os colegas e/ou laboratórios e/ou instituições concorrentes no desenvolvimento de temas de interesse restrito de partes selecionadas de uma disciplina, porque, na prática das ciências e das tecnociências, há pouco prêmio para a simples duplicação de conhecimentos produzidos e segundo o que outros produziram: as ciências e a tecnociências, para crescerem, avançarem na formulação de questões novas de pesquisa e ampliarem os conhecimentos até então produzidos, fazem-no olhando para a empiria, apoiadas nos ombros dos(as) colegas vivos(as) e mortos(as), nunca ficando sentadas e descansando sobre esses ombros, por mais reconfortantes que sejam.

Quinta: atender às demandas dos setores da administração e da gestão da pesquisa e do ensino e enfrentar a morosidade de processos de compra e/ou liberação alfandegária de insumos básicos das atividades de P&D, o que gera perda de insumos e atrasos nos cronogramas dos projetos e colaborações nacionais e internacionais, obrigando o(a) pesquisador(a) a se envolver diretamente em tarefas burocráticas de compras públicas alheias a sua formação educacional com vistas a encontrar soluções que viabilizem o processo de produção de conhecimentos científicos robustos e sua permanência no competitivo mundo internacional das ciências e das tecnociências.

Sexta: organizar e/ou participar de eventos técnico científicos, divulgando o conhecimento produzido e atualizando suas informações sobre o que outros(as) pesquisadores(as) e grupos de pesquisa estão fazendo sobre o(s) seu(s) tema(s) de pesquisa(s).

Sétima: produzir e publicar artigos científicos, capítulos de livros, trabalhos em anais, relatórios de pesquisa, manuais técnicos, organizar livros e números temáticos em revistas, porque um(a) pesquisador(a) improdutivo(a) não é bem-aceito(a) pelos pares e pelas agências de fomento.

Oitava: fazer divulgação científica, por meio da redação de textos escritos em uma linguagem acessível ao grande público, através de publicações de cunho popular, do tipo que é vendido em bancas de jornais a fim de tornar sua pesquisa conhecida, fora do âmbito acadêmico, contribuindo para o cumprimento de uma das grandes promessas da democracia contemporânea: a educação para a cidadania, apoiada em políticas públicas saudáveis no âmbito local, capazes de promover o bem-estar dos cidadãos e lhes dar o instrumental educacional para transformá-los em agentes ativos do processo político e da gestão ambiental, em prol de uma sociedade sustentável.

Nona: participar de processos de avaliação ad hoc de projetos de pedido de financiamento a agências de fomento e formação pós-graduada, obriga- tório para quem tem bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq, e de artigos científicos de revistas e livros de editoras em que fazem parte do comitê editorial ou são convidados para tal.

Décima: participar de reuniões colegiadas de instâncias de gestão e/ou administração da pesquisa científica para não ficar à margem do processo decisório da política científica local e arcar com as consequências negativas de decisões tomadas por terceiros que incidem sobre o andamento e a realização de suas pesquisas.

      Quase todas essas dez atividades precisam ser desenvolvidas com base na integridade ética da pesquisa e do ensino segundo as diretrizes estabelecidas pelas IES e/ou pelas agências de fomento nacionais e internacionais, com a instituição local de comitês de ética na pesquisa observando a adoção ou não dessa prática na metodologia dos projetos de pesquisa.
      Através das atividades desses profissionais, fauna, flora, clima, solo, subsolo, composição físico-química das águas, população humana e não humana, economia etc., tornaram-se mais visíveis com os pesquisadores fixando o foco de suas narrativas na leitura de resultados alfanuméricos alcançados. É o nosso olhar instrumentalizado – para tornar translúcidos os elementos e suas inter-relações que configuram a dinâmica dos modos de existência de todos os entes que percebemos como sendo a natureza – que tem aguçado a nossa consciência da situação em que se encontra a vida na sociedade brasileira e na Terra. Mulheres e homens de ciências e de tecnociências que veem narrando as transformações da sociedade brasileira e da Terra, com base em uma cultura epistêmica transnacionalizada, agem de forma pró-ativa, e em número crescente, ao participarem do debate público que se dá em um conjunto descentrado, plural e complexo de conversações sobrepostas, ocorrendo em múltiplos e divergentes lugares. As ciências e as tecnociências têm contribuído para a realização da importante missão da democracia diante das formas contemporâneas de degradação ambiental: desenhar instituições que capacitem os cidadãos não apenas a se engajarem ativamente, de forma individual e/ou associativa, em questões que afetam suas vidas mas, também, a fazerem julgamentos verossímeis sobre quando e como se manterem combativos ou passivos.

Referência bibliográfica:

MACHADO, C.J.S. Desenvolvimento sustentável para o Antropoceno: um olhar panorâmico. Rio de Janeiro: E-papers, 2014.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Como a fraude em artigos afeta a atividade científica


Contra esses problemas, universidades e publicações científicas contam com poucas armas – como softwares que identificam trechos de outros artigos e a revisão de conteúdo por outros especialistas da área.
          Dois químicos brasileiros foram acusados nesta semana de usar dados fabricados em artigos científicos. Com o caso, a questão da fraude na ciência voltou a ser alvo de discussão no mundo acadêmico brasileiro.
A fabricação de dados, o plágio e a invenção de informações são alguns dos tipos de fraude mais comuns hoje. Contra esses problemas, universidades e publicações científicas contam com poucas armas – como softwares que identificam trechos de outros artigos e a revisão de conteúdo por outros especialistas da área.
          Quando um erro é encontrado após a publicação de um artigo, há dois caminhos possíveis. Um deles é a correção, adotada pelas revistas de ciência em casos considerados de menor gravidade. Já no caso das fraudes, o procedimento mais comum é a retratação (também conhecida como despublicação).
          Embora continuem a constar na base de dados da publicação, artigos despublicados ganham um aviso que informa que o conteúdo “não é confiável”. Quem explica toda dinâmica descrita acima são a linguista Ana Munhoz e a antropóloga Debora Diniz. Elas são autoras do livro “Plágio: palavras escondidas”.
          “A infração ética gera vergonha e desconfiança do pesquisador como alguém cuja contribuição para o conhecimento acadêmico possa ser levada a sério”, explicaram elas por e-mail para EXAME.com.

E depois?
          “A demonstração de uma fraude com dolo, deveria levar à rejeição dos ofensores pela comunidade como um todo, mas isso raramente acontece”, afirmou em entrevista a EXAME.com o bioquímico Sergio Pena. Ele é um dos autores do guia “Rigor e Integridade na Condução da Pesquisa Científica”, da Academia Brasileira de Ciência (ABC).
          A afirmação faz ainda mais sentido quando se considera o caso denunciado na última segunda. Ele envolve o uso de imagens fraudadas num artigo publicado em julho de 2013. Entre os autores desse artigo, está o químico Claudio Airoldi.
          Em 2011, esse mesmo pesquisador foi suspenso por 15 dias pela Unicamp após investigações comprovarem o uso de imagens fraudadas em 11 artigos em que ele aparecia como autor.
          Responsável pela parte experimental desses trabalhos, o cientista Denis Guerra foi demitido da Universidade Federal do Mato Grosso em função do episódio, tido hoje como o maior caso de infração ética da história acadêmica brasileira.
          Ana e Debora destacam que nem todo caso de fraude é necessariamente fruto de má fé. Segundo elas, fatores como preguiça, engano e desinformação podem gerar o problema. “Precisamos de duas coisas: falar e educar”, defendem elas.

Consequências
          As consequências de uma fraude no mundo da ciência são as mais diversas possíveis. Como exemplo, Pena lembra um estudo publicado pelo periódico The Lancet em 1998.
          Nele, os pesquisadores apontavam uma conexão entre a vacina contra o sarampo e o desenvolvimento de autismo. Posteriormente, essa relação foi desmentida e o artigo foi alvo de retratação por parte da publicação.
          Mesmo com todas essas precauções, a informação errada se difundiu nos Estados Unidos. Como resultado, muitos pais deixaram de vacinar seus filhos contra o sarampo. Por fim, isso fez com que microepidemias da doença (antes raras) voltassem a ocorrer naquele país.
          “A confiança é o pilar da atividade de pesquisa”, afirma o guia de ética científica da ABC. Por isso, as fraudes na ciência são tão problemáticas. Quando elas acontecem, quem vira alvo de dúvidas é a própria atividade científica.
(Agência Fapeam, com informações da Exame)

 Leia também:
Exame.com
Químicos brasileiros são acusados de usar dados fabricados


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Carta à revista Veja


Helena B. Nader, presidente da SBPC, envia comentários e esclarecimentos a respeito da reportagem publicada na semana passada, intitulada “Artigos de segunda”

         A presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena B. Nader, enviou carta à revista Veja com comentários e esclarecimentos a respeito da reportagem publicada na semana passada, intitulada “Artigos de segunda”. Como a Veja publicou a carta (na edição que está nas bancas) com cortes que podem comprometer o conteúdo exposto pela presidente da SBPC, reproduzimos neste blog a carta na íntegra.

Leia abaixo:
         A reportagem “Artigos de segunda” (10 de dezembro) poderia ter servido para introduzir um importante assunto na sociedade brasileira: o acesso a informações científicas. Contudo, a revista se mostra desinformada ao tentar passar ao leitor a impressão de que as publicações tradicionais são infalíveis enquanto as do sistema open Access são desqualificadas. Na verdade, ambas têm virtudes e problemas.
         VEJA não disse, mas o rigor da análise prévia por pares não impede erros. A tradicionalíssima Science, por exemplo, precisou se retratar a respeito de artigo em que seus autores relataram terem encontrado uma bactéria em cujo DNA o fósforo (elemento essencial para a vida) era substituído pelo arsênio (normalmente tóxico).
         Dois artigos sobre técnicas para modificar células tronco, publicados na Nature, foram contestados e a revista também precisou se retratar. Várias publicações tradicionais e de renome da área de saúde (PNAS, Lancet Oncology, JAMA, NEJM, Blood, entre outras) tiveram que se retratar por terem publicado 10 artigos de resultados inconsistentes de autoria de um pesquisador da Universidade Duke.
         De fato, há aspectos a serem melhorados em relação às publicações open access, mas na reportagem foram omitidas virtudes reconhecidas desse sistema. A principal delas é exatamente possibilitar o livre acesso a informações científicas – o que sempre foi desejado e que, com a internet, se tornou universalmente possível. Como se trata de um sistema novo (os estudiosos do tema consideram que foi inaugurado em 1993), o open Access ainda está em construção e tem grandes possibilidades de se aperfeiçoar satisfatoriamente e crescer muito num curto espaço de tempo, uma vez que a comunidade científica mundial está atenta às publicações abertas e interessada no seu êxito. Por exemplo, os Prêmios Nobel deste ano em Química, Stephen Hell, e em Física, Shuji Nakamura, têm publicado seus artigos em open access. O Nobel de Medicina do ano passado, Randy Schekman, foi mais além: declarou que seu laboratório deixará de enviar papers para as revistas Nature, Cell e Science, pois, na sua avaliação, elas distorcem o processo científico. Segundo Schekman, a pressão para publicar em revistas de “luxo” estimulou os pesquisadores a cortar custos e buscar campos da moda na ciência, em vez de trabalharem em áreas mais importantes. O brasileiro Arthur Ávila, ganhador da Medalha Fields em 2014, também publica em open access.
         E mais: a Sociedade Europeia de Astronomia, a Sociedade Europeia de Física e a Associação Europeia para Química e Ciências Moleculares estão discutindo a transição para o sistema open access. Já o CERN (Organização Europeia para Pesquisa Nuclear), o mais importante centro de pesquisa na área, já tomou sua decisão. Em comunicado do dia 16 de outubro último, o diretor geral da instituição solicitou a todos seus pesquisadores que publiquem seus papers em revistas open access.
         Se está interessada em discutir as publicações abertas para divulgação científica, VEJA precisa dar informações completas sobre esse sistema a seus leitores. A reportagem publicada foi parcial e tendenciosa – ou seja, não contribuiu em nada para um tema tão importante.

Helena B. Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

SBPC envia carta a deputados contra o ensino do criacionismo em escolas


A entidade quer que permaneça no ensino o princípio da laicidade e liberdade de crença garantidos pela Constituição federal


A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) enviou aos deputados federais uma carta solicitando que o Projeto de Lei 8099/2014, de deputado Marco Feliciano (PSC/SP), que propõe a inserção de conteúdos sobre criacionismo na grade curricular das Redes Pública e Privada de Ensino, e seu apensado ao PL 309/2011, de autoria do mesmo deputado, que “altera o Art. 33 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, para dispor sobre a obrigatoriedade do ensino religioso nas redes públicas de ensino do país”, sejam rejeitados e arquivados. Segundo a SBPC, isso é necessário para se manter o princípio da laicidade e liberdade de crença garantidos pela Constituição federal, bem como o não comprometimento do ensino das Ciências aos alunos.

Veja a carta na íntegra em:


(Ascom SBPC)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Que nos Leva a Fazer um Pós-doutorado?



Postado por Julie Gould em 3 de outubro de 2014.
Ambições de crescimento na carreira são os motivos mais comuns para realizar um pós-doutorado, seguido de perto pelo amor à ciência.

            A NatureJobs, por meio de sua última enquete: "Por que você decidiu fazer um estágio de pós-doutorado?" procurou descobrir as razões pelas quais os leitores decidiram realizar um estágio de pós-doutorado. A seguir, as três escolhas mais votadas: apenas para receber a bolsa de pesquisa; tornar-se um pesquisador mais experiente e desenvolver mais habilidades para produzir mais artigos científicos.
            Os leitores tiveram a oportunidade de escolher três dos seguintes motivos:
·       Porque é a próxima etapa na carreira acadêmica após o doutorado.
·       Porque ama a ciência e a pesquisa científica.
·       Para alcançar o sonho de se tornar um pesquisador titular.
·       Porque está difícil encontrar outro emprego.
·       Para pesquisar e descobrir algo novo.
·       Para contribuir com o conhecimento científico.
·       Porque não sei mais o que fazer.
·       Porque tenho medo de atuar fora da universidade.
·       Para mudar de laboratório.
·       Porque não consegue encontrar uma posição que desse mais segurança.
·       Para contribuir com a sociedade.
·       Por conveniência.
·       Porque acredita na promessa de que o laboratório está se expandindo e novas oportunidades podem surgir.
·       Outros.

            Após três meses, 482 pessoas de todo o mundo terem feito 817 escolhas, eis os resultados, classificados por ordem de votação:

             Quase 25% dos votos foram para "porque é a próxima etapa na carreira acadêmica após o doutorado", indicando que, para melhor ou para pior, a opção mais escolhida para muitos cientistas é continuar na carreira atual.


            No entanto, nem todas as repostas foram relacionadas à carreira: a opção mais altruísta: "porque amo a ciência e a pesquisa científica" foi a segunda mais popular, com 16% dos votos. Outra resposta focada na carreira, "para alcançar o sonho de se tornar um acadêmico", veio em terceiro, com 15% dos votos. É possível agrupar estas respostas em 3 categorias:
Ambições futuras:
·       Porque é a próxima etapa na carreira acadêmica após o doutorado.
·       Para alcançar o sonho de se tornar um acadêmico titular.
·       Porque não consegui encontrar outro emprego.
·       Para mudar de laboratório (cidade).
·       Porque acreditou na promessa de que o laboratório estaria se expandindo e novas oportunidades surgiriam.
 Falta de outras opções:
·       Por conveniência.
·       Porque é a próxima etapa na carreira acadêmica após o PhD.
·       Porque não consegui encontrar uma posição estável.
·       Não sei mais o que fazer.
·       Porque não encontrei outro emprego.
·       Tenho medo do desconhecido fora da academia.
Amor pela ciência:
·       Porque amo a ciência e a pesquisa científica.
·       Para descobrir algo novo
·       Para contribuir para o corpo de conhecimento científico
·       Para contribuir com a sociedade
            Essas categorias não são mutuamente exclusivas. Por exemplo, a opção: "Próxima etapa" pode ser enquadrada como ambições futuras e à falta de outras opções. Ambições futuras parece ser a maior força motriz por trás da escolha de fazer um pós-doc, com 45% dos votos, seguido por "amor à ciência", com 30%.

domingo, 12 de outubro de 2014

Ciência absurda com molho de risadas


Bem-humorado, prêmio IgNobel laureia estudo sobre pessoas que veem o rosto de Jesus em torradas, técnica que usou bacon para estancar sangramento e salsicha ‘enriquecida’ com bactérias de fezes de bebês, entre outros casos da ciência improvável.

Por: Marcelo Garcia, Ciência Hoje On-line.
Não há nada errado com quem enxerga o rosto de Jesus em uma torrada ou de Elvis em uma tortilha: essa é a conclusão de um dos ridiculamente interessantes estudos ganhadores do IgNobel de 2014. (foto: Flickr/ joshkehn – CC BY 2.0)

          A zoeira não teve limites na noite de ontem (18/09), durante o evento anual do bom humor na ciência, a cerimônia de entrega do prêmio IgNobel, paródia do prêmio Nobel. Entre as atrações, chuvas de aviões de papel, salsichas ‘enriquecidas’ com bactérias do cocô de bebês, ópera com coro de bactérias, encontros às cegas e, claro, pesquisas estranhas e ridiculamente interessantes premiadas em 2014. O tema deste ano, que orientou boa parte das premiações, foi ‘comida’ – o que, em alguns momentos, fez a coisa toda descambar para a escatologia, mas tudo com muita classe e rigor científico!
          Para abrir a cerimônia, realizada na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, uma cena provavelmente nunca vista em qualquer teatro: nada de tomates ou ovos, a plateia proporcionou um bombardeio de aviões de papel contra um pobre alvo humano.
          Como de costume, o evento contou com laureados do Nobel para entregar os troféus – Roy Glauber, Nobel de Física de 2005, varria os aviõezinhos de papel do palco – e com outros convidados especiais, como Jim Bredt, coinventor da impressão 3D, que fez ‘bico’ de ‘ponto de luz humano’. Nos intervalos, uma ópera mostrou a história de um casal que atingiu a imortalidade trocando a comida por pílulas com nutrientes – até que, 600 anos depois, as bactérias de sua flora digestiva se cansaram da brincadeira!
Fatias de 'bacon' enfiadas no nariz podem ajudar a conter certo tipo de hemorragia nasal incontrolável: essa foi uma das demonstrações dos estudos laureados apresentadas no palco da cerimônia de entrega do IgNobel. (foto: reprodução)
Para todos os gostos
          “Mas e os prêmios?”, você pode estar se perguntando. Depois desse aperitivo, vamos então ao que todo mundo esperava (ou não). A tradição presente até no lema do IgNobel foi cumprida: primeiro fazer rir e, depois, pensar. A premiação começou com um estudo de um grupo japonês muito útil para desenhos animados e esquetes de comédia: laureado na categoria Física, ele avaliou a fricção na interação entre sapato, casca de banana e chão em uma daquelas cômicas derrapadas.
          Muito mais ‘metafísico’ foi o prêmio de neurociência, concedido a pesquisadores da China e do Canadá que estudaram o que ocorre no cérebro de pessoas que veem o rosto de Jesus Cristo em uma torrada – e quem disse que religião e ciência não combinam, não é mesmo? O resultado pode surpreender: não há nada de errado com elas. “Na verdade, seu cérebro é perfeitamente normal se você vê rostos em objetos do dia a dia, como Elvis numa tortilha; mas se você não os vê, isso pode significar que não tem o necessário para uma imaginação vívida”, argumentou Kang Lee, um dos autores. “Mas para quem não tem imaginação, é possível comprar uma torradeira de Jesus no Ebay.”
“Por favor, pare! Estou entediada.” Os berros da pequena ‘Miss Sweety Poo’, de oito anos, faziam calar os oradores mais demorados, como o ganhador do IgNobel de saúde pública Jaroslav Flegr. (foto: reprodução)

          O prêmio de biologia ficou com especialistas da República Tcheca, Alemanha e Zâmbia por identificarem que, quando defecam ou urinam, cães e gatos posicionam-se em paralelo às linhas do campo magnético da Terra. Pode parecer brincadeira, mas há muitos estudos que avaliam a capacidade de animais de ‘sentir’ esse campo invisível. E se a plateia queria levar lembrancinhas para casa, ficou feliz: recebeu saquinhos de papel supostamente contendo o cocô dos animais, educadamente recolhido pelos cientistas.
 Grandes temas, estranhos estudos
          As grandes questões dos nossos tempos também marcaram presença na festa: laureado na categoria Ciência Ártica, um estudo de pesquisadores da Noruega e da Alemanha avaliou a reação de renas ao observar humanos disfarçados como ursos polares, animais com os quais elas passaram a conviver mais devido ao aquecimento global e aos degelos nas altas latitudes – talvez a ciência jamais se recupere dos ridículos disfarces utilizados.
          O Instituto Nacional de Estatística da Itália foi laureado por sua liderança mundial em encontrar maneiras de incluir as receitas de prostituição, tráfico de drogas, contrabando e outras transações ilícitas na contas do PIB.

          Já a crise econômica mundial apareceu no discurso da autora da pesquisa laureada na categoria Arte, que mediu a dor que as pessoas sentem quando olham para uma pintura feia ou bonita enquanto um feixe delaser é apontado para sua mão. “A arte é boa para curar a dor, na Itália somos bons nisso, por razões econômicas”, afirmou a pesquisadora. “Se você está com dor, vá ao museu ver uma pintura, Botticelli é bom para dor de dente e Van Gogh para dor nas costas.”
          O prêmio de economia também foi italiano: o Instituto Nacional de Estatística do país foi o laureado por sua liderança mundial em encontrar maneiras de incluir as receitas de prostituição, tráfico de drogas, contrabando e outras transações ilícitas na contas do Produto Interno Bruto (PIB). Se essa estratégia pega por aí, talvez tivéssemos mudanças no panorama atual da economia mundial, hein?
 Permitido brincar com a comida!
          Por fim, é claro que uma noite de humor com comida não poderia acabar sem algumas ‘nojeiras’: na categoria Nutrição, por exemplo, o estudo espanhol laureado avaliou o uso de bactérias fecais de bebês como potenciais probióticos para salsichas fermentadas, ou seja, como colocar bactéria do cocô em alimentos. Os laureados com o prêmio Nobel presentes puderam provar a ‘receita’ – mas não se empolgaram muito...

Os laureados com o Nobel que participaram da cerimônia tiveram a duvidosa honra de provar a salsicha probiótica espanhola ‘enriquecida’ com bactérias das fezes de bebês. (foto: reprodução)

          Na área de medicina, os pesquisadores da Índia e dos Estados Unidos laureados desenvolveram um método para tratar casos incontroláveis de hemorragia nasal usando tiras de carne de porco curada nas narinas. “Obrigada a todos os canais culinários que dizem que bacon deixa tudo melhor, e também à minha mãe, que sempre dizia: ponha porco em tudo e você ficará bem”, comemorou Sonal Saraiya, uma das autoras. “Esse estudo também foi ótimo porque sou vegetariana e não sabia o que fazer com bacon.”
          Completando a relação de premiados, a láurea de psicologia foi para um estudo que mostrou que quem fica acordado até tarde tende a ter mais autoadmiração, ser mais manipulador e mais psicopata. Já o IgNobel de saúde pública foi para três pesquisas que avaliaram se é mentalmente perigoso para um ser humano possuir um gato. Cada laureado ganhou um belo troféu na forma de bandeja de refeitório, além da quantia de dez trilhões de dólares – do Zimbábue, o que não dá para comprar nem um lanche em qualquer cadeia de fast-food.
          Por fim, a festa contou, ainda, com uma bela homenagem ao pesquisador Francis Fesmire, falecido recentemente e que levou o IgNobel de medicina em 2006 por ter estudado técnicas de parar soluços com recurso ao toque retal. Ele foi lembrado com todos apontando seus indicadores para o alto. Poético, sem dúvida. No próximo ano, o IgNobel completa 25 anos, data que será comemorada, com certeza, com muitas risadas!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Nobel de Química defende ciência básica na UnB e prega persistência em pesquisas


Martin Chalfie criticou a pressão por quantidade de publicações acadêmicas, em detrimento da qualidade do que é divulgado.

          O Prêmio Nobel de Química, pesquisador norte-americano Martin Chalfie, defende a ciência básica como caminho para grandes descobertas, e critica a pressão por quantidade de publicações acadêmicas, em detrimento da qualidade do que é divulgado. Chalfie, que é professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, recebeu hoje (25) o título de doutor honoris causa da Universidade de Brasília e deu palestra para estudantes, professores e admiradores. A eles, o Nobel deu um recado: que não desistam das pesquisas e sejam persistentes.
          Chalfie defende que a chamada ciência básica – que se faz para aquisição de novos conhecimentos, que parte de uma inquietação – não deve ser deixada de lado por uma valorização apenas da ciência aplicada, voltada para um problema específico, em uma definição simples. Para que ela seja mantida, o pesquisador defende que o estado contribua com o desenvolvimento dos projetos.
          “O apoio do governo à ciência é muito importante. Usualmente, as empresas fazem pesquisa, mas é para objetivos específicos: querem desenvolver um remédio ou industrializar algo”, diz. “Nos Estados Unidos, o principal mantenedor da ciência é o governo nacional. As empresas dão muito, mas não chega ao que é investido pelo governo”.
          O Nobel de Química também critica a pressão por quantidade de publicações. No seu entender, “é importante o conteúdo, o teor; não a quantidade. Sobre a pressão por publicar, acredito que as pessoas precisam publicar os resultados. É importante disseminar, as pessoas precisam dos resultados para pensar. Mas [os pesquisadores] poderiam concluir os trabalhos e não focar [na pressa em publicá-los]“.
          Chalfie se dirigiu aos pesquisadores presentes e os incentivou a insistirem nas pesquisas, mesmo que os resultados não sejam os esperados. “Se você fizer um experimento e confirmar a sua hipótese, faz uma medição. Se fizer um experimento e refutar sua hipótese, você faz uma descoberta. Descoberta é aquilo que fomenta o avanço da ciência. Para fazê-la é preciso ser teimoso, insistir”, enfatizou.
          “Geralmente gostamos de fazer relatos científicos que não tomem muito tempo, e não falamos dos problemas ocorridos, apenas do lado bom”, acrescenta e brinca que as descobertas em químicas são feitas jogando-se o material no chão, jogando-o fora.
          Ele conta a história do também Nobel de Química, Osamu Shimomura. Foi jogando o material no qual trabalhou durante todo um dia – com exaustão, sem conseguir um resultado – na pia, que ele conseguiu combiná-lo quase acidentalmente a outra substância, o que deu o impulso inicial para os trabalhos com a chamada Proteína Verde Fluorescente, que renderam a Shimomura e a Chalfie o Prêmio Nobel.
          Chalfie também destaca a importância do trabalho em equipe, e relata que foi quando publicou o trabalho e, antes disso, quando o ofereceu a outros pesquisadores, que outras aplicações surgiram, ampliando o escopo da descoberta.
          O Nobel foi premiado em 2008 pela descoberta da Proteína Verde Fluorescente como marcador biológico. É possível injetá-la em organismos vivos, como microrganismos, minhocas, e fazer estudos que antes só eram possíveis com os organismos mortos. A utilização do marcador foi expandida em cerca de 160 trabalhos publicados após a descoberta.
          Perguntado o que ainda falta ser desenvolvido na química, ele responde: “Esta é uma pergunta difícil [de responder]. Se eu soubesse, estaria ganhando meu próximo Prêmio Nobel”.
          A iniciativa de trazer o pesquisador foi do Decanato de Pesquisa e Graduação da Universidade, em parceria com a biofarmacêutica AstraZeneca e o Nobel Media, empresa responsável por levar premiados pelo Nobel a universidades e centros de pesquisa.

(Mariana Tokarnia / Agência Brasil)