domingo, 18 de junho de 2017

Comemoração pelos 21 anos do Curso de Química da Universidade Estadual Vale do Acaraú e Homenagem ao Dia do Químico


  O progresso da humanidade nos últimos cem anos esteve diretamente ligado ao desenvolvimento da Química aliada às outras ciências. A descoberta de vacinas e medicamentos; os combustíveis integrando as diversas regiões do planeta; a conservação de alimentos; a síntese de novos tecidos; a descoberta de gases refrigerantes; o desenvolvimento de novos materiais; a síntese de diversos tipos de plásticos. Tudo isto faz parte de nosso cotidiano, nos dá uma melhor qualidade de vida e está diretamente ligado ao desenvolvimento da Química. Entretanto, paralelo ao progresso, surgiram problemas relacionados ao uso indevido da Química, tais como: poluição dos mares e rios; poluição do ar; poluição do solo; chuva ácida; buraco na camada de ozônio; efeito estufa etc.
    Estando a Química, presente em todos os aspectos de nossa vida é de primordial importância que todo cidadão tenha um pouco de conhecimento nesta área. Portanto, é função do Químico mostrar à sociedade a influência desta Ciência no nosso cotidiano, os benefícios proporcionados à humanidade e também as consequências negativas à natureza, bem como formas de contornar estes problemas, pelo uso racional e sem desperdícios dos recursos naturais ao nosso dispor.
    É neste contexto que a coordenação do Curso de Química da UVA tem o prazer de convidar a comunidade da região Norte do Ceará para participar do aniversário de maioridade do 1o.curso de Química do interior do Ceará.
    Estas atividades estão sendo promovidas e coordenadas pela Capela da Ciência da UVA, Coordenações do Subprojeto de Química do PIBID/UVA e do Curso de Química a fim de homenagear os 21 anos do Curso de Química da Universidade Estadual Vale do Acaraú e o Dia do Químico.
     O Curso de Licenciatura em Química da UVA foi criado em 16 de junho de 1995, por meio da Resolução nº 39-A/95 do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE/UVA), de acordo com o disposto na Lei N. 9131, de 25 de novembro de 1995. Em 2011 teve início a primeira turma do Curso de Bacharelado em Química.

PROGRAMAÇÃO
19 de junho de 2017 (Segunda-feira)

18h30min – Abertura das Comemorações de 21 anos do Curso de Química da UVA

Composição e Formação da Mesa de Abertura
Prof. Dr. Petrônio Emanuel Timbó Braga (Pró-Reitor de Ensino de Graduação)
Prof. Dr. Francisco Helder Almeida Rodrigues (Diretor do CCET)
Prof. Dr. Geovany Amorim Gomes (Coordenador do Curso de Química)
Prof. Dr. Dráulio Sales da Silva (Coordenador do Subprojeto de Química do PIBID/UVA) 
Prof. Dr. Murilo Sérgio da Silva Julião (Coordenador da Capela da Ciência)
Local: Auditório do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia (CCET)

20h00min – Palestra: "A Pesquisa no Ensino de Química"

Palestrante: Prof. Dr. Francisco Souto de Sousa Junior (UFERSA)
Local: Auditório do CCET

20 de junho de 2017 (Terça-feira)

18h30min – Homenagem ao Dia do Químico

Composição e Formação da Mesa de Abertura
Prof. Dra. Maria Somália Sales Viana (Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação)
Prof. Dr. Geovany Amorim Gomes (Coordenador do Curso de Química)
Prof. Dr. Murilo Sérgio da Silva Julião (Coordenador da Capela da Ciência)
Local: Auditório do CCET

19h30min – Palestra de Abertura: "Avanços da Ciência e Tecnologia no Desenvolvimento do Brasil: Contexto Histórico da Agricultura e Biocombustíveis"

Palestrante: Profa. Dra. Tigressa Helena Soares Rodrigues (UVA)
Local: Auditório do CCET

20h30min - Encerramento: Confraternização entre alunos e professores do curso de Química e sorteio de livros de Química.

Local: Auditório do CCET

sábado, 17 de junho de 2017

O Segredo de um Excelente Vinho? Química Orgânica


O químico especialista em vinhos Andrew Waterhouse fala sobre ensinar uma geração de vinicultores

Por Bethany Halford, Chemical & Engineering News (C&EN), V. 95, n. 24, p. 22-23, 2017.

Andrew Waterhouse (Crédito: Eleni Kardaras Photography)
Dados biográficos:
▸ Cidade natal: Davis, Califórnia.
▸ Educação: PhD. em Química Orgânica Sintética, Universidade da Califórnia, Berkeley.
▸ Destaque profissional: Doutorado honorário da Universidade de Bordeaux, uma escola com um programa de vinhos desde 1880, mesmo ano em que o programa de viticultura e enologia foi inicado na Universidade da Califórnia.
▸ Molécula favorita: acetaldeído, um importante produto da oxidação dos vinhos.
▸ Modo favorito para desfrutar um copo de vinho: retirando amostras de vinhos de barris com amigos.
▸ Cidade favorita: Ljubljana, Eslovênia. "A comida é maravilhosa; as coisas são organizadas; há muitos vinhos locais excelentes para se provar e não há muitos turistas".
         Para Andrew L. Waterhouse, ser encarregado da seleção de vinhos ao tomar bebidas com familiares, amigos ou jornalistas curiosos é algumas vezes um risco ocupacional. "É apenas parte do trabalho", diz o professor de viticultura e enologia da Universidade da Califórnia (UC) em Davis.
         É uma boa aposta que Waterhouse escolherá um vinho vencedor. Ele é amplamente respeitado por seu amplo conhecimento da Química do vinho e formou uma geração de vinicultores durante seus 26 anos de ensino no programa de renome mundial da UC de Davis.
         Mas Waterhouse nem sempre foi um conhecedor do vinho. Com a pesquisa na síntese de produtos naturais, ele começou sua carreira em uma escola diferente ensinando química orgânica principalmente para estudantes de graduação e pesquisando análise conformacional de polissacarídeos. Um dia, enquanto paginava um número da C&EN num vôo, Waterhouse leu uma proposta de trabalho como professor assistente de viticultura e enologia da UC em Davis. Retornou para a costa Oeste, onde foi para até a universidade e se candidatou.
         "Assim que eu ouvi que havia sido admitido no emprego, comecei a estudar", lembra ele. "Profissionalmente, não sabia nada. Era um amante de vinho, mas não tinha ideia do que estava no vinho, realmente, além do álcool”. Agora estuda os produtos naturais complexos do vinho, como os flavonoides. "Os produtores de vinhos chamam de Química dos fios de frango", diz ele, porque os hexágonos nas estruturas dos flavonoides se assemelham ao fio de frango para aqueles que não sabem Química.
         Waterhouse diz que quando começou na UC em Davis, tentou ensinar Química Orgânica para os futuros vinicultores da mesma maneira que ensinava para os graduandos em Medicina. "Não funcionou", disse ele. Por exemplo, quando ensinava aos alunos sobre os terpenos, compostos responsáveis pelo sabor em certos vinhos, como os Rieslings, ele abordava como os compostos sofriam reorganização catalisada por ácidos durante o envelhecimento.
         "Estava mostrando aos alunos a formação de cátions alilícos formando, rearranjando e eliminando. E foi completamente inútil para eles", diz ele. "Eles têm que entender algo sobre a Química dos terpenos, mas não precisam entender as transformações mecanicistas de um terpeno para outro". Isso fez Waterhouse repensar completamente como deveria ensinar Química para esses alunos. Precisava falar da Química que seria útil na elaboração de vinhos. "É por isso que eles têm aulas – querem entender o que está acontecendo para que possam gerenciar melhor. Isto é o uso muito aplicado da Química".
         Os estudantes da Química do vinho diferem dos de medicina de outra forma, observou Waterhouse. Mesmo que os estudantes de vinicultura estejam cursando graduação, mestrado ou doutorado, a paixão pelo objetivo é a mesma, disse Waterhouse. "Quando ensinava Química Orgânica para os futuros médicos, estes não tinham interesse pelo assunto. Só precisavam de uma nota A. Era uma aula chata para eles e por isto não gostavam. "Não e este o caso com os estudantes da UC, em Davis, disse ele. "Eles realmente queriam aprender e queriam saber por que é útil".
         Em 2016, depois de 25 anos como Químico de vinhos, Waterhouse decidiu escrever um livro que fosse uma fonte de pesquisa para outros que estejam interessados em ensinar o assunto ou para químicos que estão apenas interessados em saber mais sobre a Química do vinho. Juntamente com Gavin L. Sacks da Universidade Cornell e David W. Jeffery, da Universidade de Adelaide, escreveu o livro “Entendendo a Química do Vinho”.
         Segundo ele, o livro é diferente de outros livros sobre a Química do vinho porque se concentra na Química Orgânica do vinho. "A maioria dos químicos nesta área são químicos analíticos, e são muito bons nisso, mas quando escrevem sobre isso, se concentram apenas nas questões analíticas, como comparar resultados analíticos com o sabor e com resultados de análises sensoriais". Embora seja importante, Waterhouse e os co-autores queriam escrever um livro sobre as reações químicas que ocorrem no vinho.
         "Apenas entendendo a Química, você pode intervir de maneira muito simples", observa Waterhouse. Por exemplo, os vinhos Sauvignon Blanc da Nova Zelândia são conhecidos por possuírem aromas de goiaba e de maracujá, mas essa nota frutada geralmente desaparece após o armazenamento. Um químico orgânico descobriu que o aroma surge de um éster se hidrolisa. Agora, os vinicultores da Nova Zelândia mantêm o Sauvignon Blanc tão frio quanto possível, até que seja engarrafado e armazenado, preservando assim os aromas. "Então, o entendimento da Química é deveras necessário, mesmo na elaboração de vinhos", observa Waterhouse.
         Mas, Waterhouse diz logo, que a Química não tem todas as respostas. "Quando cheguei a Davis, pensei que tudo o que tínhamos que fazer seria descobrir quais são as principais moléculas presentes num grande vinho. Muitas pessoas tinham essa ideia, eu não era diferente. Acontece que tem muita gente inteligente pensando nisso há muito tempo", disse ele.
         "O que descobri é que não é realmente apenas a Química que torna o vinho interessante ou valioso. Há muito mais por trás da história do vinho do que a Química. Sei que isso pode ser decepcionante para alguns químicos, mas a realidade é que as pessoas adoram o vinho. E as pessoas adoram o vinho não apenas por causa do gosto. Adoram o vinho por muitas razões", disse ele. "Quando você é um produtor de vinhos, uma das principais coisas que você tem que fazer é transmitir uma mensagem sobre seu produto – uma história sobre você ou a terra ou o histórico da propriedade. Essas coisas são, de alguma forma, mais importantes para um bebedor de vinho do que o vinho que tem apenas um bom gosto ".

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O previsível fiasco do ensaio clínico da fosfoetanolamina, a improvável "pílula do câncer"


Por Francisco J. R. Paumgartten
O desenvolvimento de novos medicamentos é processo complexo, longo, caro e altamente seletivo, com elevadíssima taxa de insucesso. Estima-se que de 5 mil a 10 mil moléculas que são submetidas à triagem inicial para atividade farmacológica, apenas uma se tornará um novo medicamento, aprovado para comercialização pelos órgãos reguladores e útil na prática médica.

         Pense um absurdo, a Bahia tem precedente. A célebre frase de Otávio Mangabeira, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e ex-governador da Bahia, é injusta ao se restringir ao estado natal do seu autor. A afirmação se aplica ao país todo, como demonstra o insólito episódio da pílula de fosfoetanolamina sintética ("fosfo"), também conhecida como "pílula do câncer".
         O absurdo, no caso da fosfo, não reside no fato de muitos terem acreditado nas alegações não comprovadas de que ela seria um medicamento eficaz, capaz de curar pacientes com câncer. Afinal, não é incomum, e é até compreensível, que pacientes com doenças graves, considerados pelos médicos como "fora de possibilidades terapêuticas", e seus familiares, agarrarem-se firmemente a crenças infundadas de que a cura, negada pela medicina, poderia ser alcançada por terapias alternativas, não convencionais, e não reconhecidas pela ciência.
         O absurdo, nesse caso, é o Congresso Nacional ter ignorado as recomendações contrárias à liberação do uso da fosfo, feitas pelo órgão técnico regulador, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e por entidades científicas respeitadas como a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e aprovado, por esmagadora maioria de seus membros, a Lei 13.269/2016 – prontamente sancionada sem vetos pela então presidente da república – que autoriza a produção, prescrição e uso da pílula de fosfo. A eficácia da Lei 13.269/2016 foi temporariamente suspensa por decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em ação direta de inconstitucionalidade impetrada pela AMB. Pesou na decisão da suprema corte, alcançada por estreita maioria de votos dos membros do colegiado, o argumento de que a eficácia e a segurança da fosfo não haviam sido demonstradas por estudos clínicos.
         No momento em que este artigo está sendo escrito, o autor recebeu a notícia que o ensaio clínico da fosfo, patrocinado pela Secretaria de Saúde de São Paulo, foi suspenso "por questões éticas". Isto porque uma avaliação clínica programada revelou que 58 de 59 pacientes com câncer de várias localizações que haviam recebido regularmente a fosfo não apresentaram qualquer resposta ao tratamento. Por se tratar de estudo não controlado, em relação ao único paciente (com melanoma) que teria melhorado, não é possível excluir um efeito retardado da quimioterapia anterior, a melhora espontânea, ou a contribuição do efeito placebo.
         A interrupção do estudo é decisão acertada, mas, na realidade, esse insólito estudo, fora dos padrões metodológicos mais rigorosos, com resultados previsíveis e riscos para os pacientes que não foram adequadamente avaliados, "por razões éticas" nunca poderia ter sido aprovado e iniciado. Como antecipado lucidamente por alguns pesquisadores, a avassaladora onda da fosfo – como tantos outros modismos e crenças populares em remédios milagrosos – acabaria se desfazendo espontaneamente com o tempo. Entretanto, embora desaparecendo da mídia, o episódio da fosfo deixará uma indelével mácula na história do sistema brasileiro de revisão ética.
         Um dos requisitos fundamentais para um ensaio clínico ser considerado "ético", é o julgamento criterioso e a conclusão, com base na melhor evidência científica disponível, que os potenciais benefícios para os pacientes, e o conhecimento a ser adquirido pela sociedade, se sobrepõem aos riscos para os participantes da pesquisa. Quando se trata de um novo medicamento ou terapia farmacológica, o potencial benefício é avaliado pelos resultados dos testes pré-clínicos de triagem de possível atividade terapêutica. Os estudos pré-clínicos realizados com a fosfo não apenas falharam em indicar consistentemente uma "possível atividade terapêutica", como mostraram justamente o oposto, a improbabilidade da fosfo ter efeito antineoplásico clinicamente útil.
         Ensaios da toxicidade da fosfo "sintética" para linhagens de células neoplásicas, publicados pelos próprios proponentes da "pílula do câncer", evidenciaram efeitos citotóxicos que podem ser considerados não específicos, ou seja, efeitos que ocorrem apenas em concentrações relativamente elevadas, com CL50s (concentrações letais 50%; i.e., concentrações que matam 50% das células expostas) na faixa de concentrações milimolares (mM ou 10-3 M), enquanto os medicamentos oncológicos são mais específicos, sendo tóxicos para as linhagens de células neoplásicas em concentrações muito menores, com CL50s nas faixas do micromolar (µM ou 10-6 M) ou nanomolar (nM ou10-9 M), ou seja, as CL50 de medicamentos anticâncer usados na clínica são, via de regra, mil ou 100 mil vezes inferiores às CL50 obtidas para a fosfo com as mesmas linhagens de células cancerosas.
         Esses resultados preliminares desalentadores já seriam suficientes para que não fossem investidos mais recursos e tempo na investigação de uma improvável atividade anticâncer. Se tivesse sido submetida à abordagem hierarquizada para triagem de novos medicamentos anticâncer proposta pelo Instituto Nacional de Câncer dos EUA (NCI-60 Human Tumor Cell Line Screen), a fosfo teria sido reprovada logo no primeiro nível de testes. Além disso, os estudos in vivo da fosfo em ratos e camundongos com tumores xeno-enxertados produziram resultados modestos e inconsistentes entre experimentos.
         O desenvolvimento de novos medicamentos é processo complexo, longo, caro e altamente seletivo, com elevadíssima taxa de insucesso. Estima-se que de 5 mil a 10 mil moléculas que são submetidas à triagem inicial para atividade farmacológica, apenas uma se tornará um novo medicamento, aprovado para comercialização pelos órgãos reguladores e útil na prática médica.
         Não obstante esse fato, surpreendentemente, o Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), já em pleno "apagão" do financiamento para a pesquisa científica no país, investiu R$ 10 milhões em estudos pré-clínicos da fosfo como medicamento oncológico. Há, certamente, um grande número de moléculas muito mais promissoras do que a fosfo para tratamento do câncer, ou potencialmente úteis para tratar as várias doenças negligenciadas que afligem a nossa população, que permanecem nas prateleiras dos laboratórios universitários, aguardando o apoio das agências de fomento à pesquisa para serem investigadas em profundidade.
         Além da falta de evidências experimentais (e de relatos de casos clínicos documentados) de que a fosfo tem atividade anticâncer, o conjunto de estudos pré-clínicos de toxicidade da fosfo foi notoriamente insuficiente para apoiar a etapa subsequente de investigação clínica de eficácia e segurança em pacientes com câncer.
         Não se trata apenas de excluir a possibilidade de efeitos tóxicos agudos que aparecem no curto prazo (a história de uso da fosfo por pacientes que se automedicaram já sugere que esse risco é baixo), mas de revelar potenciais efeitos adversos mais sutis, que não são apontados por estudos não controlados. A realização de estudos clínicos envolvendo o tratamento de pacientes por períodos prolongados requer, entre outras investigações prévias, ensaios pré-clínicos de segurança de duração comparável à do estudo clínico proposto (e.g., de 90 e até 180 dias), em pelo menos duas espécies animais (uma delas deve ser o cão, o macaco ou outra espécie que não um roedor). Esses estudos não foram realizados com a fosfo. Vale a pena registrar que, além disso, há pelo menos um estudo in vitro de Kano-Sueoka e colaboradores, publicado nos Anais da Academia de Ciências dos EUA (PNAS 1979; 76:5741-4), sugerindo que a fosfo estimulava a proliferação de células de carcinoma mamário de ratos. Na mesma linha, um dos estudos preliminares patrocinados pelo MCTI indicou que a fosfo poderia aumentar a incidência de metástases de tumores xeno-enxertados em roedores.
         Portanto, a mais alta instância do sistema de revisão ética do país, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), aprovou o ensaio clínico de uma substância (fosfo) cujo potencial benefício terapêutico para os pacientes sujeitos da pesquisa era altamente improvável (nada havia nesse sentido, exceto relatos anedóticos e não documentados de pacientes "tratados" com a fosfo), e cujos eventuais riscos para os participantes não haviam sido devidamente avaliados.
         Outro problema com o ensaio clínico da fosfoetanolamina "sintética" aprovado pela Conep é a identidade e qualidade farmacêutica da substância a ser estudada. A fosfoetanolamina é molécula formada naturalmente no organismo pela fosforilação da etanolamina, e é um composto intermediário na síntese de fosfolipídios que integram a membrana celular. As moléculas da fosfo, quer sejam sintetizadas no organismo, quer sejam produzidas na bancada do laboratório, são moléculas idênticas, e por isso são identificadas por um único número de registro no Chemical Abstracts (Número do CAS 1071-23-4, massa molecular 141,06). O rótulo de fosfo "sintética", dado pelos químicos que a sintetizaram no laboratório na USP campus de São Carlos, aparentemente para diferenciá-la da fosfoetanolamina disponível comercialmente, não faz qualquer sentido.
         Uma análise por ressonância magnética nuclear dessa fosfo "sintética" (contida nas pílulas distribuídas para os pacientes com câncer) realizada por um respeitado laboratório de química da Unicamp, contratado pelo MCTI, mostrou que a molécula de fosfoetanolamina corresponde a apenas 32,2% do conteúdo da cápsula, sendo os demais constituintes uma variedade de impurezas (incluindo fosfatos de Ca, Mg, Fe, Mn, Al, Zn e Ba) remanescentes de uma síntese química de baixo rendimento, que não foi sucedida por um processo de purificação. A fosfo "sintética" da pílula (na verdade, a forma farmacêutica da fosfo sintética distribuída pelos químicos da USP é a cápsula), portanto, não é uma única substância, mas uma mistura de substâncias em que predominam uma diversidade de impurezas.
         Para aprovar ensaios clínicos de novos medicamentos, é exigido que os patrocinadores demonstrem que os medicamentos testados têm qualidade farmacêutica adequada (identificação, pureza e potência) e que esta qualidade seja consistente entre os lotes usados nos ensaios pré-clínicos e clínicos. Obviamente, a qualidade farmacêutica da fosfo "sintética" usada nos ensaios realizados está longe de ser adequada para um ensaio clínico em pacientes.
         Por fim, o delineamento do ensaio clínico da fosfo, que foi aprovado pela Conep, não reúne as características metodológicas que são esperadas de um estudo de eficácia e segurança de um novo medicamento. Embora muitos detalhes não tenham sido publicados, as informações disponíveis na mídia indicam que o ensaio não foi controlado, e que a população estudada abrangeu um conjunto muito heterogêneo de pacientes com tumores de diferentes localizações e, possivelmente, em diferentes estágios da doença, e que sofreram diversos tratamentos anteriores.
         O MCTI e a Secretaria de Saúde de São Paulo investiram pelo menos 10 e 1,5 milhões de reais, respectivamente, nos ensaios pré-clínicos e clínicos da fosfo, o que representa apenas uma pequena fração das centenas de milhões de dólares a que pode chegar o custo total do desenvolvimento de um medicamento oncológico inovador. Onze milhões e meio, entretanto, é um investimento muito elevado, quando os estudos iniciais falharam em fornecer qualquer indício de que o medicamento experimental, como é o caso da fosfo, tem potencial utilidade terapêutica.
         O absurdo é ainda maior quando a aposta no improvável êxito do desenvolvimento é feita quando há uma escassez generalizada de recursos para financiar a pesquisa científica e a assistência médica no país. Representantes do MCTI, da Secretaria de Saúde de São Paulo e alguns pesquisadores envolvidos diretamente com os estudos da fosfo, costumam justificar os investimentos alegando que as instituições de pesquisa têm a obrigação moral de dar uma resposta aos "clamores" da sociedade.
         Não resta dúvida que as instituições devem responder questões como essa que mobilizam a sociedade, mas no caso da "pílula do câncer", a resposta correta que deveria ter sido dada à população é que as alegações terapêuticas de atividade anticâncer da fosfo são cientificamente infundadas e não justificam a realização de estudos não clínicos adicionais e de ensaios com pacientes.
         A rápida aprovação, pela Conep, do ensaio clínico da fosfo, negligenciando o fato do estudo proposto não atender vários requisitos fundamentais que, de acordo com o entendimento de órgãos internacionais como o Council for International Organizations of Medical Sciences (CIOMS), são necessários para tornar eticamente aceitável a investigação clínica de um novo medicamento, é sem dúvida a pior sequela deixada por esse triste e absurdo episódio. A insólita decisão da Conep sobre a fosfo, deixando de lado a razão e a isonomia, e cedendo a uma onda de apoio formada no ambiente político, criou um perigoso precedente, que põe em dúvida o rigor e a seriedade do sistema de revisão ética do país.
Francisco José Roma Paumgartten é formado pela Faculdade de Medicina da UFRJ, doutor em ciências pela Escola Paulista de Medicina (atual Unifesp), professor e pesquisador titular da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, Rio de Janeiro.

Referências
         As referências originais dos estudos que apoiam as afirmações contidas neste artigo podem ser encontradas em: "Sobre a alegada eficácia anticâncer da pílula de fosfoetanolamina, fragilidade da evidência científica e preocupações éticas", de Paumgartten F. J. R., publicada em: Vigil. Sanit debate 2016; 4(3):4-12 (doi: 10.22239/2317-269X.00822pt).

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quinta-feira, 9 de março de 2017

Cientista brasileira recebe prêmio da União Internacional de Química Pura e Aplicada


Yvonne Mascarenhas é a única brasileira entre as 12 homenageadas do prêmio para mulheres que se destacaram na química e na engenharia química no mundo

         A física e química brasileira Yvonne Mascarenhas é uma das doze vencedoras do prêmio da União Internacional de Química Pura e Aplicada (International Union of Pure and Applied Chemistry – IUPAC, na sigla em inglês) para mulheres que se destacaram na química e na engenharia química no mundo inteiro. A associação anunciou ontem, dia internacional das mulheres, as 12 homenageadas da quarta edição de seu prêmio bianual, o “IUPAC 2017 Distinguished Women in Chemistry or Chemical Engineering Awards”. Mascarenhas foi a única cientista da América do Sul na lista.
         As premiadas são apontadas por instituições de seus países e as indicações são avaliadas considerando a excelência das pesquisas – básicas ou aplicadas, as conquistas como professoras e educadoras, e a liderança na condução de estudos nas ciências químicas. Yvonne Mascarenhas foi indicada pela Sociedade Brasileira de Química (SBQ), pelo seu trabalho pioneiro que implantou e difundiu no Brasil as pesquisas com cristalografia – o estudo da determinação das estruturas cristalinas e moleculares por difração de raios-X.
         Formada em física e química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mascarenhas conta que iniciou suas pesquisas com cristalografia nos Estados Unidos em 1959. Ela passou um ano e meio pesquisando na Universidade de Princeton. Em 1961, retornou ao Brasil decidida a criar um grupo de estudos nessa área.
         “Comecei a fazer contato tanto com físicos como com químicos. Isso me deu chance de ter muitos alunos, de iniciação científica, mestrado e doutorado, que se formaram na mesma área e que foram se distribuindo pelo Brasil: São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Amazonas, Alagoas, Goiás, etc. Esses meus ex-alunos também tiveram seus alunos e, assim, foi crescendo a área no Brasil. Eu acho que foi isso que fiz de mais importante: essa multiplicação quase espontânea, que teve grandes resultados”, comenta a cientista.
         Atuando hoje no Instituto de Física da USP, São Carlos, Mascarenhas conta com um grupo interdisciplinar que trabalha a cristalografia aplicada a vários setores, desde cristalografia aplicada a proteínas, a novos fármacos, doenças negligenciadas, principalmente doenças tropicais.
         Em entrevista ao Jornal da Ciência, Mascarenhas diz ainda que o prêmio da IUPAC é uma grande honra que compartilha com toda essa rede de pesquisadores. “A gente não trabalha sozinha, principalmente na universidade. Me sinto recebendo em nome de todo esse conjunto de fatores que propiciaram que eu pudesse realizar uma contribuição favorável”, ressalta.

Mulheres na ciência
         Homenageada em um prêmio que tem como objetivo destacar a liderança das mulheres na química, Mascarenhas observa que, apesar de existirem muitas mulheres bem sucedidas nas ciências, ainda existe uma cultura muito forte de fazer as meninas acreditarem que elas terão desempenho melhor nas áreas de humanas.
         “A dificuldade para muitas mulheres é que existe um tabu que as faz acreditar que elas têm dificuldade de entrar nas áreas de exatas. Temos procurado desmistificar isso. Porque são tantas mulheres bem sucedidas nessas áreas, mas até hoje vejo a maioria das meninas muito voltadas para as áreas de humanas”, afirma.
         Ela ressalta os esforços da Sociedade Brasileira de Física (SBF) e da SBQ em estimular a participação feminina e, hoje, segundo ela, existem muitas mulheres atuantes nessas organizações.
         “Existe um esforço coletivo dessas nossas Sociedades de procurar desmistificar, diante das meninas, esse fato de que elas não têm muita vocação para exatas. É uma questão de estimular desde o curso fundamental, pois precisa muito esforço para demonstrar para as meninas que elas terão muitas oportunidades de trabalho e de alta realização entrando nas áreas que são consideradas mais masculinas, por que isso é um tabu, não é nada verdadeiro”, diz.
         A cientista conta que ela mesma, ainda jovem, pensava em fazer letras.  Mas, quando começou o curso clássico, teve um excelente professor de física e também começou a perceber que a química era extremamente valiosa para a sociedade. “Desisti de fazer letras e resolvi fazer química. Nunca me arrependi dessa escolha”, lembra, acrescentando que não teve grandes problemas de ser aceita. “Sinto que houve um reconhecimento quase que natural de que o interesse era legítimo, que queria fazer o melhor possível”, conta.
         Além de seu destacado trabalho com pesquisa em cristalografia, desde 2010, também coordena um projeto do Instituto de Estudos Avançados da USP, polo de São Carlos, de difusão científica. O programa é voltado a estudantes do ensino fundamental e médio. Segundo ela, a difusão científica é uma grande ferramenta para estimular o interesse de meninas pela ciência, porém, esta é uma atividade pouco valorizada no País.
         Ela destaca que existem poucos museus de ciência no Brasil, e acrescenta que a maioria deles não são atraentes para crianças e adolescentes. “É uma tarefa enorme, que requer muito investimento, mas que não é à toa: isso chama muito a atenção de toda a população. Com isso, a ciência se torna uma conversa familiar. Como a nossa população tem uma cultura científica muito fraca, as famílias ainda não estão preparadas para isso. Temos que estimular essa cultura, que vem desde a família. E desenvolvimento científico e tecnológico é o que o País precisa mais”, reforça.

O prêmio
         O objetivo do prêmio “IUPAC 2017 Distinguished Women in Chemistry or Chemical Engineering Awards”, criado em 2011, é reconhecer e promover o trabalho de mulheres na química e na engenharia química em todo o mundo. A cerimônia de entrega é realizada durante a conferência internacional da IUPAC, que acontece a cada dois anos. A primeira edição do prêmio foi em Porto Rico e homenageou 23 cientistas. Desde então, a cada edição, 12 mulheres cientistas recebem o prêmio: 2013, na Turquia; 2015, na Coreia do Sul. Neste ano, o Brasil, pela primeira vez, será sede do 46º Congresso Mundial da IUPAC, em São Paulo, em julho, onde será realizada a cerimônia de homenagem às premiadas de 2017.
         A vice-presidente da SBPC, Vanderlan Bolzani, foi uma das premiadas na primeira edição do prêmio da IUPAC. Ela lembra que 2011 foi especial, pois foi o Ano Internacional da Química e, na ocasião, ela foi a única representante da América Latina toda a receber a homenagem. “É importante ter entidades e associações internacionais que reconhecem o papel da mulher na ciência. As mulheres ainda são muito descriminadas quando começam a galgar espaços mais competitivos na carreira científica. Mas o fato é que o mundo precisa de homens e mulheres trabalhando juntos para superar os grandes desafios que temos. Premiações como essa são importantes porque estimulam a participação das mulheres”, diz Bolzani que, na edição deste ano, será co-chair do evento no Brasil.
Daniela Klebis – Jornal da Ciência.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Plantas da Caatinga são as novas armas da ciência contra Aedes e micro-organismos resistentes


Segundo o pesquisador Alexandre Gomes, do Insa, os experimentos mostraram que a solução do óleo da umburana cambão tem uma eficiência de 50% a partir de 90 partes por milhão, o que significa que apenas uma gota é suficiente para proteger uma caixa d’água do Aedes

         O Instituto Nacional do Semiárido participa de rede de pesquisa que estuda os potenciais das espécies nativas da Caatinga. Enquanto a umburana de cambão possui propriedades inseticidas e pode ser usada no combate ao Aedes aegypti, a maçaranduba e a vick apresentaram grande eficácia contra a triconomose. Já o pequi é rico em proteínas, fibras, vitaminas A e C, minerais e compostos fenólicos e carotenoides totais, que estão associados à prevenção de processos oxidativos.
         O potencial das plantas na prevenção e na cura de doenças motivou a formação de uma rede de pesquisa sobre as propriedades medicinais, terapêuticas e aromáticas das espécies da Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro. Com um rico patrimônio biológico, a Caatinga abriga animais e plantas adaptados à escassez de água. Jatobá (Hymenaea courbaril), pau-ferro ou jucá (Libidibia ferrea), pequi (Caryocar coriaceum), macaúba, ameixa do mato (Ximenia americana), umburana de cambão (Commiphora leptophloeos) são espécies com potencial antioxidante, inseticida, fungicida e bactericida.
         Desde 2010, pesquisadores do Núcleo de Bioprospecção da Caatinga do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) se uniram no esforço de estudar as plantas da Caatinga. Uma delas, a umburana cambão, se revelou uma importante arma contra o Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, vírus zika e febre chikungunya.
         Segundo o pesquisador Alexandre Gomes, do Insa, os experimentos mostraram que a solução do óleo da umburana cambão tem uma eficiência de 50% a partir de 90 partes por milhão, o que significa que apenas uma gota é suficiente para proteger uma caixa d’água do Aedes. O cheiro característico da folha da árvore foi a pista para investigar as possíveis propriedades inseticidas da planta.
         “Já sabemos que alguns compostos de plantas têm atividade inseticida. Esses compostos são chamados terpenoides e podem ser aromáticos voláteis. Um exemplo deles está na folha da pitanga, que, quando se amassa, tem um cheiro típico”, explica Gomes.
         Apesar do resultado satisfatório da umburana contra o mosquito da dengue, é fundamental não descuidar das recomendações para combater o Aedes aegypti como eliminar criadouros, esvaziando e lavando todos os recipientes que acumulem água; limpar as calhas das casas; e preencher pratos de vasos de plantas com areia. Nem mesmo água sanitária é garantia de que o mosquito não se desenvolverá.

Antioxidantes naturais
         Outras plantas têm o poder de neutralizar os oxidantes no organismo humano, como o cambuí, a macaúba e o pequi. Nativo do Cerrado e também encontrado na Caatinga, o pequi (Caryocar coriaceum) é rico em proteínas, fibras, vitaminas A e C, minerais e compostos fenólicos e carotenoides totais, que estão associados à prevenção de processos oxidativos. Por isso, o óleo de pequi, extraído da sua polpa ou amêndoa, é aplicado em cosméticos, como cremes anti-idade. Além disso, foram verificados os benefícios do pequi para a ação anti-inflamatória, proteção cardiovascular, prevenção de aterosclerose e redução da pressão arterial.
         Os pesquisadores também observaram propriedades antioxidantes no cambuí (Myrciaria tenella) e no fruto da macaúba (Acrocomia aculeata), palmeira nativa encontrada em extensa área do Brasil, usada na produção de biocombustível.

DST
         Os cientistas ainda descobriram nas plantas da Caatinga potencial para o desenvolvimento de novos antibióticos para tratar micro-organismos mais resistentes. Os medicamentos usados contra a triconomose, doença sexualmente transmissível com 276 milhões de novos casos por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde, estão perdendo a eficácia diante da resistência do protozoário Trichomonas vaginalis. Uma solução, investigada por pesquisadores da UFRGS, é o extrato da espécie Polygala decumbens, popularmente conhecida como vick, que foi capaz de controlar a infecção causada pelo protozoário.
         Substâncias encontradas no extrato da folha da maçaranduba (Manilkara rufula) também se mostraram eficazes contra a triconomose. O trabalho investigou a atividade do extrato acetônico da folha da planta (produzido a partir do pó da folha mergulhado na acetona, um solvente orgânico) e de sete frações produzidas a partir deste extrato. O estudo comprovou que concentrações de 10 mg/mL do extrato e as frações foram capazes de matar os protozoários.
Fonte: Ascom – MCTIC

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Ciência para Educação


ROBERTO LENT, Tendências/debates/Folha de São Paulo, 17/11/2016

          Todo mundo sabe o que é ciência, todo mundo sabe o que é educação. Mas talvez nem todos conheçam a expressão "ciência para educação".
          Trata-se de uma modalidade de pesquisa translacional, isto é, pesquisa científica inspirada pelo uso social, como já se faz tradicionalmente para a saúde e as engenharias. O uso social, neste caso, é a educação.
          Em saúde, por exemplo, ninguém duvida de que a pesquisa científica é crucial para descobrir a causa das doenças, desenvolver novos tratamentos e medidas de prevenção, avaliar se as intervenções propostas funcionam.
          Resultou dessa compreensão um grande avanço na expectativa de vida em vários países, inclusive o nosso, apesar de ainda estarmos muito longe do ideal.
          No caso da educação, tudo isso é novo. Ultimamente, a cultura da avaliação científica usada por epidemiologistas, economistas e cientistas sociais tem crescido em aceitação e importância.
          A recente medida provisória sobre o ensino médio, por exemplo, foi orientada pelo mau resultado dos estudantes brasileiros nesse segmento, avaliado com metodologia relativamente rigorosa.
          Essa forma de pesquisa pode ser denominada "reativa", isto é, realizada depois que uma intervenção é implementada, sendo esta concebida por critério políticos, ideológicos ou eleitorais.
          Já é alguma coisa. No entanto, melhor seria se as políticas educacionais fossem propostas com base em evidências obtidas antes da implementação nas escolas. Seria uma forma mais controlada e eficaz de política pública, que podemos chamar de "proativa".
          Um bom exemplo seria incluir, e não excluir, naquela mesma medida provisória as aulas de educação física na grade curricular obrigatória.
          Isso teria levado em conta as extensas evidências científicas, em animais e humanos, de que o exercício físico aumenta a produção de neurônios e melhora o desempenho da memória (ou seja, da aprendizagem também).
          O ícone dessa forma de pesquisa inspirada pelo uso é Louis Pasteur, que derrotou a concepção da origem espontânea da vida. Foi uma revolução na ciência natural.
          Todavia, poucos sabem que as pesquisas de Pasteur foram inspiradas (leia-se, financiadas) pelos vinicultores e cervejeiros, preocupados em entender e controlar a contaminação natural dos seus produtos. Pasteur revolucionou a ciência básica e criou tecnologias que até hoje são empregadas, como a pasteurização dos alimentos.
          Ciência para educação, portanto, é um novo enfoque agregador para as políticas sociais, que exige a captação do interesse de neurocientistas, psicólogos, pedagogos, linguistas, cientistas da computação, matemáticos e muitos outros.
          Todos eles deveriam se envolver em projetos voltados para otimizar a aprendizagem das crianças, o tratamento de transtornos que prejudicam o rendimento escolar, a adequada orientação dos professores e o desenvolvimento de tecnologias educacionais eficazes.
          Poucos países começam a adotar essa nova vertente: Estados Unidos, Austrália, China, Coreia. Ninguém mais, ainda. A chance é agora, quando a corrida está começando.

ROBERTO LENT é professor titular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Ciências.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Ciência – o inédito, o interessante, o aplicável, o rentável… Ciência – o exercício de cidadania de um país

Artigo de Regina P. Markus, professora titular do IBUSP, membro da ABC e ACIESP, e dos conselhos deliberativos da SBPC e do CNPq.

         Estamos sob uma nova velha ordem no Brasil que vem construindo uma ponte entre momentos históricos. Como sempre, pouco conhecemos do passado recente, visto que apenas conseguimos ver o que os nossos olhos, ou mesmo óculos conseguem focar. Assim, em cada grupo ideológico, classe social ou origem parental temos opiniões diferentes. Há, no entanto, “coisas” que consideramos essenciais e entre estas está a educação e a saúde e outras que parecem ser muito importantes, mas que podem ser relativizadas e entre estas está a ciência.
         Ciência, uma atividade que tem permitido a humanidade distinguir-se de outras espécies levando o homem a domínio e uso de tecnologias cada vez mais avançados. Atividade pouco compreendida que às vezes é romantizada, às vezes temida e outras precisa ser controlada.
         Um fato é certo, a capacidade de gerar conhecimento é que tem distinguido nações e povos ao longo da história. O domínio da agricultura e da tecnologia da construção. A capacidade de singrar os mares e o espaço. A melhoria da condição de vida através do progresso da medicina. Todos estes fatos, que foram importantes na antiguidade, no início da Era Comum, na Idade Média e Moderna continuam sendo na atualidade.
         Vindo para o mundo real lembro do dia 24 de outubro de 1924, a famosa quebra das bolsas de Nova York. Falta de regulação e de comprometimento fez com que uma país inteiro e o mundo sofresse grandes perdas, a partir de papel. E as empresas estavam com dinheiro, e com estoques, mas não tinham para quem vender. No que aplicar? No que investir? Conta a história que uma delas resolve investir em perguntas básicos e saber se é possível formar longas cadeias de carbono (polímeros). Muita química? Muito técnico? Sim, para a maioria, mas não para o jovem William Carothers e a diretoria da Dupont. Era algo revolucionário na época, mas era uma forma de investimento e a Dupont de 1924 investiu em ciência básica e colheu os frutos dez anos depois, com o início da era do nylon e de muitos outros polímeros.
         Será que é muito distante? Então voemos no tempo até 2016, e vamos avaliar o plano quinquenal da China (2016 – 2020). O objetivo do 13o Plano Quinquenal é que os trabalhos científicos da China passem a ser os segundos mais citados no mundo e que os cientistas da China estejam entre os 10% mais citados do mundo. O Fundo criado para este fim é gerenciado pela “National Natural Science Foundation of China (NSCF)”. Esta vontade é traduzida em investimento de 88.8 bilhões de yuans (13,6 bilhões de dólares).
         E o Brasil??? Nos últimos 40 anos, com investimento nacional e no caso de São Paulo com um forte investimento estadual, o Brasil logrou alcançar o 13o lugar em publicação e 18o em citações no mundo (Thomas Reuters, SCImago, 1996-2014). Disto deveríamos nos orgulhar e continuar. Mas, ao invés vemos o governo atual desmontar o sistema, e mais do que isto, começamos a ver que existe estudos teóricos baseando estas atitudes (Fernanda de Negri, O Estado de São Paulo, 7 de novembro de 2016). Estes estudos ignoram o obtido e consideram que a ciência brasileira pouco contribuiu para o desenvolvimento do País. Dizem que é preciso focar na busca do conhecimento. Sabemos que esta é a forma ideal para chegarmos a muito pouco.
         Nas áreas em que o Brasil tem competência em absorver o conhecimento gerado, a contribuição foi altamente significativa, como é o caso da agricultura – e isto não só se reflete na competência econômica, como também retorna para a competência científica – o Brasil responde por 10% dos trabalhos internacionais nas áreas Ciências Agrícolas (Thomas Reuters, inCities – 2011). Em ciências ambientais o Brasil responde por 7,4% – o que demonstra que também temos visibilidade no caso de meio ambiente e biodiversidade – a nossa ciência vem contribuindo de forma mensurável para o equilíbrio entre o desenvolvimento humano e a saúde planetária.
         Seguindo nesta lista que mostra o quanto a ciência brasileira vem produzindo encontramos a área de Farmacologia e Toxicologia – a indústria farmacêutica brasileira engatinha e as internacionais têm suas bases científicas alhures… Então?? Neste caso temos que considerar que os avanços obtidos em território nacional e nas Universidades Brasileiras, com foco especial ao Campus de Ribeirão Preto da USP, são marcos importantes na Farmacologia Internacional e que o Brasil está inserido como capítulos básicos de livros textos e na história do desenvolvimento de fármacos para hipertensão, inflamação e dor. Nominar apenas um Centro em todo o território nacional é uma injustiça e é preciso deixar registrado que centros de excelência científica são encontrados no Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Sul – e que alguns estão sendo formados na região Norte.
         Respostas rápidas a problemas emergentes só podem ser dadas quando a competência instalada está ativa e articulada. Anos de financiamento, com avaliação permanente e foco em excelência fizeram com que rapidamente os cientistas brasileiros tivessem competência de focar na Zika e mostrarem que esta causava microcefalia. Passo muito importante na busca da solução, quer individual, quer de grupo.
         Por que a Ciência Brasileira não é reconhecida e encontra importantes críticos dentro e fora das Universidades? A falta de capacidade de captação do conhecimento e transferência do mesmo para o setor produtivo é uma questão que tem que ser avaliada. Investimento dirigido por aqueles que podem consumir e transformar, leis que permitam que esta transferência seja objetivada. Enfim, temos que nos debruçar neste processo e encontrar formas adequadas de gerar pessoal e competência na área de transferência. Mas, NUNCA, JAMAIS – tolher e extinguir com todo o progresso já conseguido na GERAÇÃO de conhecimento. Não existe conhecimento inútil.
         A desconstrução da ciência brasileira ora em curso precisa parar.

domingo, 16 de outubro de 2016

Prêmio Nobel de Química de 2016

           
         O Prêmio Nobel de Química de 2016 foi atribuído conjuntamente aos cientistas Jean-Pierre Sauvage, da Universidade de Estrasburgo – França, Sir J. Fraser Stoddart, da Universidade Northwestern, Evanston, Illinois – EUA e Bernard L. Feringa, da Universidade de Groningen – Holanda, "pelas contribuições à concepção e síntese de máquinas moleculares".
         Os agraciados conseguiram desenvolver as menores máquinas do mundo, a partir de sistemas moleculares fora do equilíbrio para estados cheios de energia em que os seus movimentos podem ser controlados. Essas máquinas moleculares provavelmente serão utilizadas no desenvolvimento de novos materiais, sensores, e sistemas de armazenamento de energia.
         Em 1983, Jean-Pierre Sauvage conseguiu ligar duas moléculas em forma de anel num conjunto para formar uma cadeia, um chamada catenano. Os dois anéis entrelaçados podem se mover um em relação ao outro. Em 1991, Fraser Stoddart desenvolveu a rotaxana, demonstrou que um anel molecular sobre um fino eixo molecular foi capaz de se mover ao longo do eixo. Com base nas rotaxanos, conseguiu desenvolver um elevador molecular, um músculo molecular e um chip de computador baseado nessa molécula. Em 1999, Bernard Feringa foi o primeiro a desenvolver um motor molecular para movimentar um nanocarro.

Perfil biográfico dos agraciados:
         Jean-Pierre Sauvage, nascido em 1944, em Paris – França, obteve seu PhD. na Universidade Louis Pasteur, Estrasburgo, França, sob a supervisão de Jean-Marie Lehn, em 1971. Após um estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford, Reino Unido, voltou a Estrasburgo, onde foi Diretor de Pesquisa no CNRS de 1979 a 2009 e é Professor emérito desde 2009. Entre muitas outras honrarias, Sauvage recebeu em 1971, o Prêmio da Sociedade Francesa de Química; em 1988, a Medalha de Prata da CNRS; em 1994, a Medalha Prelog Ouro da ETH de Zurique, Suíça e em 2012, a Medalha de Química Blaise Pascal da Academia Europeia de Ciências. Atualmente é membro das Academias Francesa e Europeia de Ciências.
         Sir J. Fraser Stoddart, nascido em 1942, em Edimburgo, Reino Unido, obteve seu PhD. na Universidade de Edimburgo, Reino Unido, em 1966. Após o pós-doutorado na Universidade Queen, no Canadá, tornou-se professor de Química na Universidade de Sheffield, Reino Unido. Em 1990, mudou-se para a Cátedra de Química Orgânica da Universidade de Birmingham, Reino Unido, e foi chefe da Escola de Química de 1993 a 1997, e partir deste ano se tornou professor de Química da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), sucedendo ao Prêmio Nobel Donald Cram. Em 2002, se tornou Diretor do Instituto da Califórnia NanoSystems (CNSI), Los Angeles – EUA. Desde 2008, é professor de Química da Universidade de Northwestern, em Evanston, Illinois, EUA. Entre outras honrarias, Stoddart recebeu em 2007 o Prêmio Albert Einstein de Ciências e em 2006, foi nomeado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II.
         Bernard L. Feringa, nascido a 1951, em Barger-Compascuum, Holanda, estudou Química na Universidade de Groningen, Holanda, onde em 1978 obteve seu PhD. Depois de trabalhar como pesquisador nos laboratórios da Shell, na Holanda e no Reino Unido, voltou para a Universidade de Groningen como conferencista. Em 1988, Feringa foi promovido a Professor Catedrático de Química Orgânica e em 2004 foi nomeado Professor de Ciências Moleculares da cátedra de Jacobus H. van't Hoff. Entre muitas outras honrarias, Feringa recebeu o Prêmio Spinoza (a mais alta distinção científica da Holanda), a Medalha de Ouro Prelog, a Medalha Paracelso, a Medalha de Ouro de Nagoya e em 2016, a Medalha August Wilhelm von Hofmann. É membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências e membro da Academia Real Holandesa de Ciências. Em 2008, foi nomeado por esta Academia para ser condecorado pela Rainha da Holanda.

Prêmio Nobel de Química de 2016



           
         O Prêmio Nobel de Química de 2016 foi atribuído conjuntamente aos cientistas Jean-Pierre Sauvage, da Universidade de Estrasburgo – França, Sir J. Fraser Stoddart, da Universidade Northwestern, Evanston, Illinois – EUA e Bernard L. Feringa, da Universidade de Groningen – Holanda, "pelas contribuições à concepção e síntese de máquinas moleculares".
         Os agraciados conseguiram desenvolver as menores máquinas do mundo, a partir de sistemas moleculares fora do equilíbrio para estados cheios de energia em que os seus movimentos podem ser controlados. Essas máquinas moleculares provavelmente serão utilizadas no desenvolvimento de novos materiais, sensores, e sistemas de armazenamento de energia.
         Em 1983, Jean-Pierre Sauvage conseguiu ligar duas moléculas em forma de anel num conjunto para formar uma cadeia, um chamada catenano. Os dois anéis entrelaçados podem se mover um em relação ao outro. Em 1991, Fraser Stoddart desenvolveu a rotaxana, demonstrou que um anel molecular sobre um fino eixo molecular foi capaz de se mover ao longo do eixo. Com base nas rotaxanos, conseguiu desenvolver um elevador molecular, um músculo molecular e um chip de computador baseado nessa molécula. Em 1999, Bernard Feringa foi o primeiro a desenvolver um motor molecular para movimentar um nanocarro.

Perfil biográfico dos agraciados:
         Jean-Pierre Sauvage, nascido em 1944, em Paris – França, obteve seu PhD. na Universidade Louis Pasteur, Estrasburgo, França, sob a supervisão de Jean-Marie Lehn, em 1971. Após um estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford, Reino Unido, voltou a Estrasburgo, onde foi Diretor de Pesquisa no CNRS de 1979 a 2009 e é Professor emérito desde 2009. Entre muitas outras honrarias, Sauvage recebeu em 1971, o Prêmio da Sociedade Francesa de Química; em 1988, a Medalha de Prata da CNRS; em 1994, a Medalha Prelog Ouro da ETH de Zurique, Suíça e em 2012, a Medalha de Química Blaise Pascal da Academia Europeia de Ciências. Atualmente é membro das Academias Francesa e Europeia de Ciências.
         Sir J. Fraser Stoddart, nascido em 1942, em Edimburgo, Reino Unido, obteve seu PhD. na Universidade de Edimburgo, Reino Unido, em 1966. Após o pós-doutorado na Universidade Queen, no Canadá, tornou-se professor de Química na Universidade de Sheffield, Reino Unido. Em 1990, mudou-se para a Cátedra de Química Orgânica da Universidade de Birmingham, Reino Unido, e foi chefe da Escola de Química de 1993 a 1997, e partir deste ano se tornou professor de Química da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), sucedendo ao Prêmio Nobel Donald Cram. Em 2002, se tornou Diretor do Instituto da Califórnia NanoSystems (CNSI), Los Angeles – EUA. Desde 2008, é professor de Química da Universidade de Northwestern, em Evanston, Illinois, EUA. Entre outras honrarias, Stoddart recebeu em 2007 o Prêmio Albert Einstein de Ciências e em 2006, foi nomeado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II.
         Bernard L. Feringa, nascido a 1951, em Barger-Compascuum, Holanda, estudou Química na Universidade de Groningen, Holanda, onde em 1978 obteve seu PhD. Depois de trabalhar como pesquisador nos laboratórios da Shell, na Holanda e no Reino Unido, voltou para a Universidade de Groningen como conferencista. Em 1988, Feringa foi promovido a Professor Catedrático de Química Orgânica e em 2004 foi nomeado Professor de Ciências Moleculares da cátedra de Jacobus H. van't Hoff. Entre muitas outras honrarias, Feringa recebeu o Prêmio Spinoza (a mais alta distinção científica da Holanda), a Medalha de Ouro Prelog, a Medalha Paracelso, a Medalha de Ouro de Nagoya e em 2016, a Medalha August Wilhelm von Hofmann. É membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências e membro da Academia Real Holandesa de Ciências. Em 2008, foi nomeado por esta Academia para ser condecorado pela Rainha da Holanda.