domingo, 16 de outubro de 2016

Prêmio Nobel de Química de 2016

           
         O Prêmio Nobel de Química de 2016 foi atribuído conjuntamente aos cientistas Jean-Pierre Sauvage, da Universidade de Estrasburgo – França, Sir J. Fraser Stoddart, da Universidade Northwestern, Evanston, Illinois – EUA e Bernard L. Feringa, da Universidade de Groningen – Holanda, "pelas contribuições à concepção e síntese de máquinas moleculares".
         Os agraciados conseguiram desenvolver as menores máquinas do mundo, a partir de sistemas moleculares fora do equilíbrio para estados cheios de energia em que os seus movimentos podem ser controlados. Essas máquinas moleculares provavelmente serão utilizadas no desenvolvimento de novos materiais, sensores, e sistemas de armazenamento de energia.
         Em 1983, Jean-Pierre Sauvage conseguiu ligar duas moléculas em forma de anel num conjunto para formar uma cadeia, um chamada catenano. Os dois anéis entrelaçados podem se mover um em relação ao outro. Em 1991, Fraser Stoddart desenvolveu a rotaxana, demonstrou que um anel molecular sobre um fino eixo molecular foi capaz de se mover ao longo do eixo. Com base nas rotaxanos, conseguiu desenvolver um elevador molecular, um músculo molecular e um chip de computador baseado nessa molécula. Em 1999, Bernard Feringa foi o primeiro a desenvolver um motor molecular para movimentar um nanocarro.

Perfil biográfico dos agraciados:
         Jean-Pierre Sauvage, nascido em 1944, em Paris – França, obteve seu PhD. na Universidade Louis Pasteur, Estrasburgo, França, sob a supervisão de Jean-Marie Lehn, em 1971. Após um estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford, Reino Unido, voltou a Estrasburgo, onde foi Diretor de Pesquisa no CNRS de 1979 a 2009 e é Professor emérito desde 2009. Entre muitas outras honrarias, Sauvage recebeu em 1971, o Prêmio da Sociedade Francesa de Química; em 1988, a Medalha de Prata da CNRS; em 1994, a Medalha Prelog Ouro da ETH de Zurique, Suíça e em 2012, a Medalha de Química Blaise Pascal da Academia Europeia de Ciências. Atualmente é membro das Academias Francesa e Europeia de Ciências.
         Sir J. Fraser Stoddart, nascido em 1942, em Edimburgo, Reino Unido, obteve seu PhD. na Universidade de Edimburgo, Reino Unido, em 1966. Após o pós-doutorado na Universidade Queen, no Canadá, tornou-se professor de Química na Universidade de Sheffield, Reino Unido. Em 1990, mudou-se para a Cátedra de Química Orgânica da Universidade de Birmingham, Reino Unido, e foi chefe da Escola de Química de 1993 a 1997, e partir deste ano se tornou professor de Química da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), sucedendo ao Prêmio Nobel Donald Cram. Em 2002, se tornou Diretor do Instituto da Califórnia NanoSystems (CNSI), Los Angeles – EUA. Desde 2008, é professor de Química da Universidade de Northwestern, em Evanston, Illinois, EUA. Entre outras honrarias, Stoddart recebeu em 2007 o Prêmio Albert Einstein de Ciências e em 2006, foi nomeado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II.
         Bernard L. Feringa, nascido a 1951, em Barger-Compascuum, Holanda, estudou Química na Universidade de Groningen, Holanda, onde em 1978 obteve seu PhD. Depois de trabalhar como pesquisador nos laboratórios da Shell, na Holanda e no Reino Unido, voltou para a Universidade de Groningen como conferencista. Em 1988, Feringa foi promovido a Professor Catedrático de Química Orgânica e em 2004 foi nomeado Professor de Ciências Moleculares da cátedra de Jacobus H. van't Hoff. Entre muitas outras honrarias, Feringa recebeu o Prêmio Spinoza (a mais alta distinção científica da Holanda), a Medalha de Ouro Prelog, a Medalha Paracelso, a Medalha de Ouro de Nagoya e em 2016, a Medalha August Wilhelm von Hofmann. É membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências e membro da Academia Real Holandesa de Ciências. Em 2008, foi nomeado por esta Academia para ser condecorado pela Rainha da Holanda.

Prêmio Nobel de Química de 2016



           
         O Prêmio Nobel de Química de 2016 foi atribuído conjuntamente aos cientistas Jean-Pierre Sauvage, da Universidade de Estrasburgo – França, Sir J. Fraser Stoddart, da Universidade Northwestern, Evanston, Illinois – EUA e Bernard L. Feringa, da Universidade de Groningen – Holanda, "pelas contribuições à concepção e síntese de máquinas moleculares".
         Os agraciados conseguiram desenvolver as menores máquinas do mundo, a partir de sistemas moleculares fora do equilíbrio para estados cheios de energia em que os seus movimentos podem ser controlados. Essas máquinas moleculares provavelmente serão utilizadas no desenvolvimento de novos materiais, sensores, e sistemas de armazenamento de energia.
         Em 1983, Jean-Pierre Sauvage conseguiu ligar duas moléculas em forma de anel num conjunto para formar uma cadeia, um chamada catenano. Os dois anéis entrelaçados podem se mover um em relação ao outro. Em 1991, Fraser Stoddart desenvolveu a rotaxana, demonstrou que um anel molecular sobre um fino eixo molecular foi capaz de se mover ao longo do eixo. Com base nas rotaxanos, conseguiu desenvolver um elevador molecular, um músculo molecular e um chip de computador baseado nessa molécula. Em 1999, Bernard Feringa foi o primeiro a desenvolver um motor molecular para movimentar um nanocarro.

Perfil biográfico dos agraciados:
         Jean-Pierre Sauvage, nascido em 1944, em Paris – França, obteve seu PhD. na Universidade Louis Pasteur, Estrasburgo, França, sob a supervisão de Jean-Marie Lehn, em 1971. Após um estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford, Reino Unido, voltou a Estrasburgo, onde foi Diretor de Pesquisa no CNRS de 1979 a 2009 e é Professor emérito desde 2009. Entre muitas outras honrarias, Sauvage recebeu em 1971, o Prêmio da Sociedade Francesa de Química; em 1988, a Medalha de Prata da CNRS; em 1994, a Medalha Prelog Ouro da ETH de Zurique, Suíça e em 2012, a Medalha de Química Blaise Pascal da Academia Europeia de Ciências. Atualmente é membro das Academias Francesa e Europeia de Ciências.
         Sir J. Fraser Stoddart, nascido em 1942, em Edimburgo, Reino Unido, obteve seu PhD. na Universidade de Edimburgo, Reino Unido, em 1966. Após o pós-doutorado na Universidade Queen, no Canadá, tornou-se professor de Química na Universidade de Sheffield, Reino Unido. Em 1990, mudou-se para a Cátedra de Química Orgânica da Universidade de Birmingham, Reino Unido, e foi chefe da Escola de Química de 1993 a 1997, e partir deste ano se tornou professor de Química da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), sucedendo ao Prêmio Nobel Donald Cram. Em 2002, se tornou Diretor do Instituto da Califórnia NanoSystems (CNSI), Los Angeles – EUA. Desde 2008, é professor de Química da Universidade de Northwestern, em Evanston, Illinois, EUA. Entre outras honrarias, Stoddart recebeu em 2007 o Prêmio Albert Einstein de Ciências e em 2006, foi nomeado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II.
         Bernard L. Feringa, nascido a 1951, em Barger-Compascuum, Holanda, estudou Química na Universidade de Groningen, Holanda, onde em 1978 obteve seu PhD. Depois de trabalhar como pesquisador nos laboratórios da Shell, na Holanda e no Reino Unido, voltou para a Universidade de Groningen como conferencista. Em 1988, Feringa foi promovido a Professor Catedrático de Química Orgânica e em 2004 foi nomeado Professor de Ciências Moleculares da cátedra de Jacobus H. van't Hoff. Entre muitas outras honrarias, Feringa recebeu o Prêmio Spinoza (a mais alta distinção científica da Holanda), a Medalha de Ouro Prelog, a Medalha Paracelso, a Medalha de Ouro de Nagoya e em 2016, a Medalha August Wilhelm von Hofmann. É membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências e membro da Academia Real Holandesa de Ciências. Em 2008, foi nomeado por esta Academia para ser condecorado pela Rainha da Holanda.

domingo, 18 de setembro de 2016

Ciência tem que ter critérios mais rígidos, diz presidente da Fapesp


          Além de trabalharem em um ambiente científico sólido, onde não falta dinheiro, José Goldemberg, 88, presidente da Fapesp, defende a tese de que os pesquisadores paulistas devem ter a barra de qualidade de seus trabalhos colocada mais no alto.
          O exemplo que usa é inspirado no atleta brasileiro Thiago Braz, 22, ouro na prova de salto com vara na Rio-2016. "Ciência é como competição olímpica mesmo. Tem que ser mais criterioso, apertar mais os parafusos", afirma Goldemberg, que completa um ano à frente da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) neste mês de setembro.
          Físico de formação, o cientista e administrador público tem em seu currículo uma extensa lista de cargos, desde o Ministério da Educação no governo Collor, até a reitoria da USP (Universidade de São Paulo) entre 1986 e 1990.
          O próprio prazo dos doutorados é um dos problemas que impede a melhoria do trabalho dos pesquisadores em início de carreira, diz ele.
          "Você tem até quatro anos para se doutorar [tempo que, em média, dura uma bolsa de doutorado]. Por quê? No exterior não tem isso – você ganha o grau de doutor quando acaba. A USP tem muitos doutorados por ano, 5 mil. Precisa ser mais exigente".
          Segundo Goldemberg, até mesmo a tese, geralmente requerida para a obtenção do título acadêmico, é algo discutível. "Existem universidades no exterior que você não apresenta tese, mas uma coletânea de artigos publicados em revistas científicas".
          Em grande medida, é por meio da avaliação da produção científica –medida pelo número e qualidade de artigos científicos– que os cientistas são avaliados, tanto para obtenção de verba para a pesquisa quanto na avaliação em concursos públicos.

AMIGOS, AMIGOS...
          Um dos possíveis contaminantes dessa maneira de avaliação (como em bancas de defesa de tese ou para a concessão de financiamentos) é a amizade entre avaliador e avaliado. Nesses casos, vigora a avaliação entre pares, ou seja, cientistas avaliam outros cientistas.
          "Aqui no Brasil não podemos ter critérios de amizades. Eles precisam ser objetivos. Outra má ideia é essa história de acabar com a nota das teses. O sistema quando tinha nota passava uma mensagem. Se você fosse aprovado com 9 ou 9,5, ficava bem. Não me lembro de ter dado nunca um dez em uma banca", afirma Goldemberg.
          Atualmente em universidades como USP e Unifesp só há dois conceitos: aprovado ou reprovado. Em uma banca, uma nota 7 deixaria claro para o postulante ao título que o trabalho apresentado não é tão bom assim.
          Para Goldemberg, falta o Brasil melhorar na publicação em revistas de alto prestígio, critério em que o país amarga colocações de medianas a ruins em rankings internacionais, como o Nature Index –apesar do crescente número total de publicações nas últimas décadas.
          Mesmo assim, sobre a situação de São Paulo, onde atua a fundação, Goldemberg faz questão de frisar que o sistema científico do Estado é bastante sólido, principalmente porque houve financiamento contínuo, ao longo de décadas.
          "A maioria dos pesquisadores do Estado de São Paulo –5 mil na USP, 2 mil na Unicamp e outros 2 mil na Unesp–, tem o básico. Eles têm o que precisam. No Estado, há trabalho sério sendo feito e é algo permanente".
          Todas as áreas de conhecimento em que o Brasil tem destaque no exterior, seja em astronomia ou nas pesquisas contra o vírus da zika ou em mudanças climáticas, por exemplo, lembra Goldemberg, têm recursos da Fapesp.
          Nos apoios às pesquisas, a fundação não paga salários, somente bolsas. Em algumas modalidades há um aporte de recursos maior para bancar a aquisição de equipamentos. Já a infraestrutura tem de ser fornecida pela instituição à qual o pesquisador é filiado.

PESQUISA INÚTIL
          O fato de a concessão de bolsas e auxílios de pesquisa na Fapesp serem baseados na meritocracia, para o presidente José Goldemberg, é que faz a fundação sempre apoiar ideias criativas, inovadoras.
          A afirmação sobre a utilidade da pesquisa bancada pela Fapesp vai de encontro ao discurso do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Em abril deste ano, o tucano disse, em reunião de secretários, que a Fapesp vem priorizando estudos sem utilidade pública.
          Relativamente baratas de serem realizadas, as pesquisas em ciências humanas, criticadas pelo governador, recebem cerca de 10% dos recursos da instituição anualmente.
          "Sobre a afirmação do governador, é importante contar a história toda", afirma Goldemberg. A Fapesp foi implementada em 1947, "com um forte componente cultural e científico", diz. Mas, na Constituinte estadual de 1989, "de forma muito acertada", avalia Goldemberg, a missão da instituição também passou a ser o fomento tecnológico. Para isso, a receita tributária repassada foi de 0,5% para 1%.
          "A transição para incluir pesquisa tecnológica demorou um pouco. De 1989 para cá o pessoal está aprendendo. Temos uma quantidade muito grande de programas que não são acadêmicos como no passado". Cerca de metade do orçamento investido pela Fapesp em 2015 foi aplicado em pesquisa com vistas em aplicações diretas.
          A fundação lança hoje o Relatório de Atividades de 2015. A porcentagem do ICMS recebido do Estado em 2015 ficou em cerca de R$ 1,0 bilhão. No mesmo período foram gastos R$ 1,2 bilhão.
          "Em 2015, aprovamos um Pipe (Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas) por dia. São programas ótimos, a fundo perdido. Na Olimpíada, os balões que faziam monitoramentos climáticos saíram de uma dessas start-ups. Nós não geramos nenhum Bill Gates ainda, mas a França também não. A Inglaterra também não. Quando há um sistema sólido, essas pessoas vão aparecendo", diz Goldemberg.

Por EDUARDO GERAQUE e GABRIEL ALVES, Folha de São Paulo, 14/09/2016.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

RESULTADO DA SELEÇÃO PARA 02 BOLSISTAS DE ICT/FUNCAP (2016-2017) PARA O LAQA

Classificação dos Candidatos às 02 bolsas da FUNCAP para o Laboratório de Química Analítica Aplicada (LAQA)

1o. Lugar: Vanessa Moreira Frota
2o. Lugar: Janielle Gomes Dias
3o. Lugar: Hallison Mateus Rosa Farias
4o. Lugar: Josiane Gomes Rocha

Observações:
1) As duas primeiras candidatas deverão comparecer amanhã (16/09/2016)  a partir das 08:30 horas para assinar a Ficha de Solicitação de Bolsa da FUNCAP e o Termo de Compromisso, sendo que este deverá ter o firmo reconhecido em cartório.
2) As duas primeiras candidatas deverão enviar e-mail para: murilo-sergio@uol.com.br - enviando os dados de RG, data de expedição do RG, No. do CPF, local e data de nascimento, endereço residencial, e-mail, telefone.

Atenciosamente,
Prof. Dr. Murilo Sérgio da Silva Julião

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Uma dose de AAS a cada três dias é suficiente para prevenção de infarto e AVC


Em artigo no The Journal of Clinical Pharmacology, pesquisadores brasileiros mostram que benefício do novo esquema terapêutico é equivalente ao da dose diária e tem menor risco gastrointestinal

            Para pacientes de risco, a ingestão de uma dose de ácido acetilsalicílico (AAS) a cada três dias pode ser tão eficiente na prevenção de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e doença vascular periférica quanto consumir o medicamento diariamente. E com uma vantagem: a probabilidade de complicação gastrointestinal diminui.
            A conclusão é de um estudo brasileiro apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Biolab Farmacêutica. Os resultados foram publicados no The Journal of Clinical Pharmacology e o artigo foi destacado como “escolha do editor”.
            “Há 50 anos o AAS tem sido adotado na prevenção de eventos cardiovasculares, mas seu uso constante pode causar irritação e sangramento gástrico – muitas vezes sem sintomas prévios. Por isso, nos últimos anos, vem se tentando reduzir a dose. Neste estudo, propomos um esquema terapêutico diferente”, disse Gilberto De Nucci, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, coordenador do Projeto Temático ao qual está vinculado o estudo.
            Conforme explicou De Nucci, o ácido acetilsalicílico inibe a ação da enzima cicloxigenase (COX). Nas plaquetas, isso diminui a produção de tromboxano, um tipo de lipídeo que favorece a agregação plaquetária. Por essa razão, na linguagem popular, costuma-se dizer que o AAS “afina” o sangue, ou seja, diminui a probabilidade de formação de coágulos que podem obstruir o fluxo sanguíneo.
            Por outro lado, na mucosa gástrica, a inibição da enzima COX diminui a produção de prostaglandinas – substâncias lipídicas que protegem o estômago e o intestino.
            “Originalmente, o AAS americano tinha 325 miligramas (mg) do princípio ativo. Na tentativa de diminuir os efeitos adversos, a dose foi reduzida para 162 mg e, depois, para 81 mg. Também há comprimidos de 75 mg. Mas a verdade é que, até hoje, ainda não se sabe ao certo qual é a dose necessária para obter o benefício cardiovascular”, comentou De Nucci.
            No ensaio clínico realizado durante o doutorado de Plinio Minghin Freitas Ferreira, na USP, sob orientação de De Nucci, foi adotada a dose de 81 mg. Vinte e quatro voluntários sadios foram divididos em dois grupos. Metade recebeu AAS todos os dias durante um mês. Os demais receberam o fármaco a cada três dias e, no intervalo, apenas placebo.
            Antes e ao final do tratamento, todos os voluntários passaram por diversos exames, entre eles endoscopia, biópsia gástrica e teste de agregação plaquetária. Também foi medido no sangue o nível de tromboxano e, no estômago, o de prostaglandina do tipo 2 (PGE2).
            “No grupo que tomou AAS todos os dias, houve uma redução de 50% na síntese de PGE2, enquanto nos voluntários que tomaram a cada três dias não foi observada diferença em relação aos níveis basais. Por outro lado, em ambos os grupos, a inibição de tromboxano foi superior a 95% e o resultado no teste de agregação plaquetária foi equivalente”, contou De Nucci.
            Na avaliação de Ferreira, os dados permitem concluir que o uso de AAS a cada 72 horas é tão eficaz – e mais seguro – quanto seu uso diário. Essa descoberta, segundo o pesquisador, abre a possibilidade de adotar o fármaco também na prevenção primária de eventos cardiovasculares.
            Atualmente, o Food and Drug Administration (FDA) – órgão que regulamenta o consumo de alimentos e de medicamentos nos Estados Unidos – recomenda que o AAS seja usado apenas na prevenção secundária de doenças cardiovasculares, ou seja, em pacientes diagnosticados com doença vascular periférica e os que já tiveram algum episódio de infarto ou AVC e correm risco de um segundo evento. Somente nessa situação, segundo o FDA, os benefícios da terapia suplantariam os riscos de efeitos adversos.
            “Com esse novo esquema terapêutico, o AAS também poderia ser usado no tratamento de pacientes que nunca tiveram um evento cardiovascular, mas apresentam alto risco, como os diabéticos”, disse Ferreira.

Patente
            Os dois grupos de voluntários que participaram do ensaio clínico receberam, além de AAS, o anti-hipertensivo losartan. Conforme explicou De Nucci, o objetivo foi mostrar que uma droga não influencia a ação da outra.
            Em um estudo anterior, publicado no Journal of Bioequivalence & Bioavailability, o grupo já havia mostrado que o AAS não diminui a biodisponibilidade do losartan. As duas drogas são frequentemente associadas no tratamento de pessoas com insuficiência cardíaca, hipertensão e doenças isquêmicas.
            “Em parceria com a Biolab, nós solicitamos nos Estados Unidos a patente do esquema terapêutico adotado no estudo. Umas das possibilidades em estudo é lançar um produto que associe, na mesma cartela, o AAS e o losartan ou algum outro medicamento. No primeiro dia, o paciente tomaria os dois fármacos, no segundo e no terceiro, apenas o anti-hipertensivo e placebo e assim por diante. Isso ajudaria as pessoas a tomar os medicamentos corretamente”, afirmou De Nucci.
            O artigo Acetylsalicylic Acid Daily vs Acetylsalicylic Acid Every 3 Days in Healthy Volunteers: Effect on Platelet Aggregation, Gastric Mucosa, and Prostaglandin E2 Synthesis (doi: 10.1002/jcph.685) pode ser acessado no seguinte link.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

“Pílula do câncer” é testada em seres humanos


          Os primeiros testes com a fosfoetanolamina mostraram que ela não é tóxica para os seres humanos, mas mostraram também que ela não tem eficácia maior que outros medicamentos que já existem e são usados no tratamento do câncer, aponta o ex-ministro da Saúde, Humberto Costa. Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e parceria entre Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC e pelo Instituto Nacional de Câncer do Rio de Janeiro conduzem os estudos clínicos
          Simples placebo ou droga realmente eficaz no combate ao câncer? Vinte anos depois de ser sintetizada e começar a ser distribuída pelo químico Gilberto Chierice no interior de São Paulo, a fosfoetanolamina, composto de nome complicado que se tornou sinônimo de polêmica, finalmente é posta à prova em humanos de acordo com padrões reconhecidos pelo governo e instituições de pesquisa.
          Dois estudos clínicos conduzidos por entidades respeitadas no setor de oncologia estão dando os primeiros passos. Um deles, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), é financiado pelo governo daquele estado. O outro, com financiamento dos Ministérios da Saúde e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, é feito em parceria pelo Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da Universidade Federal do Ceará (NPDM-UFC) e pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), com sede no Rio de Janeiro.
          — A questão mais crítica em relação à fosfoetanolamina é que ela não foi produzida, encapsulada e distribuída aos pacientes seguindo as práticas laboratoriais, farmacêuticas e clínicas — avalia a coordenadora de Pesquisa e Educação do Inca, Marisa Dreyer.
          Segundo ela, se desde o começo da produção do composto esses procedimentos tivessem sido seguidos, “já teríamos encontrado com segurança respostas a todas as perguntas”.
          Os dois estudos obedecem a um protocolo aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável por liberar a utilização e comercialização de medicamentos no País.
          A primeira fase, chamada pré-clínica, tem testes in vitro (com células humanas ou de animais em laboratório) e experimentos in vivo (com animais como camundongos). Um dos principais objetivos nessa etapa é verificar a segurança (não toxicidade) da droga.
          Esse estágio foi dispensado na pesquisa do ICESP pelo fato de a fosfoetanolamina vir sendo ministrada há anos a pacientes com câncer. Mesmo assim, o estudo iniciado no final de julho começou pela fase clínica 1, que visa testar a segurança da droga na ingestão das pílulas por seres humanos. Os primeiros resultados da fase atual devem sair em dois meses, mas todas as etapas da pesquisa previstas para antes da comercialização podem levar cerca de dois anos.
          No caso do estudo financiado pelos ministérios, a fase pré-clínica, na Universidade Federal do Ceará, ocorreu no fim do ano passado e a avaliação com humanos pode começar este mês.
          No dia 16, o Ministério da Ciência e Tecnologia divulgou os resultados de pesquisa sobre os efeitos da fosfoetanolamina em camundongos com melanoma. O estudo indicou que a substância foi capaz de reduzir o tumor, mas com efeito menor que a ciclofosfamida, já usada na quimioterapia contra o câncer.
Origem
          A fosfoetanolamina foi sintetizada no Instituto de Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP), há cerca de 20 anos, pelo professor Gilberto Chierice. A substância tem sido usada sem autorização da Anvisa e vinha sendo distribuída de forma gratuita no campus da universidade em São Carlos.
          Em 2014, a entrega foi suspensa depois que uma portaria do governo determinou que substâncias experimentais deveriam obter todos os registros antes de serem liberadas à população.
          O assunto ganhou repercussão. Em setembro de 2015, o Senado entrou nas discussões, com pronunciamentos de senadores e audiências públicas.
          Nos debates, que contaram com Chierice e diversos especialistas, as posições divergiram. Alguns pesquisadores relataram casos de regressão do câncer pela substância. Outros apontaram a necessidade dos estudos controlados em humanos.
          No Congresso, Ivo Cassol (PP-RO) é um dos maiores defensores da fosfoetanolamina. Em pronunciamento em 14 de abril, o senador saudou a sanção da Lei 13.269/2016, que autorizou o uso da substância por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna antes do registro pela Anvisa.
          No entanto, a aplicação da lei foi suspensa em maio pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ao deferir ação direta de inconstitucionalidade proposta pela Associação Médica Brasileira (AMB). A entidade sustentou que, diante da ausência de testes em seres humanos, a liberação do medicamento é incompatível com direitos constitucionais à saúde, à segurança e à vida.
          Para Humberto Costa (PT-PE), ex-ministro da Saúde, a realização dos testes é justa, já que há depoimentos apontando a redução de sintomas com o uso da substância. O senador ressalta, porém, que não pode haver comercialização sem as pesquisas clínicas.
          — No caso da fosfoetanolamina, os primeiros testes mostraram que ela não é tóxica para os seres humanos, mas mostraram também que ela não tem eficácia maior que outros medicamentos que já existem e são usados no tratamento do câncer.

domingo, 21 de agosto de 2016

Comentário sobre o artigo “Transgênicos e hidrelétricas”, do Jornal O Estado de S. Paulo, divulgado no Jornal da Ciência


        Refiro-me ao artigo do professor José Goldemberg, publicado no Estadão e projetado pelo Jornal da Ciência.
        Discordo do ilustre cientista a começar por ele dizer que transgênicos são feitos para proteger plantas de pragas. Sabe-se que o único transgênico plantado para essa finalidade no Brasil é o milho Bt. Assim, o professor esqueceu ou fez esquecer que, para essa finalidade, é introduzido na planta um gene produtor de toxina que mata insetos e, consequentemente, a planta passa a funcionar como um inseticida!
   A toxina Bt, assim como mata insetos, intoxica o próprio ser humano. Frequentemente é citado na literatura o alto risco, inclusive fatal, para o indivíduo. Um exemplo dessas variedades de milho Bt é a variedade milho MO 810: proibida para uso humano pelo próprio país produtor, pela França, Alemanha, Inglaterra e outros países europeus. Infelizmente, a variedade é autorizada no Brasil e quem autorizou não se preocupou em nos fazer de simples cobaias! Em países pobres da África foi rejeitado até como presente. A Zâmbia preferiu ver seu povo sofrer de fome a morrer envenenado! Além de matar insetos invasores, a toxina Bt mata insetos úteis, como abelha de mel e outros polinizadores necessários para que a planta gere frutas.
  Quando esse tipo de transgênico morre, ao final de estação de crescimento, suas raízes deixam para o solo resíduos tóxicos que matam bactérias fixadoras de nitrogênio e transformam o solo em um ambiente envenenado para o crescimento da bactéria fixadora do Azoto, que forma fertilizante. Assim, fica impedido o crescimento de qualquer cultura leguminosa. O fabricante desse transgênico gasta milhões de reais com todos os tipos de propagandas, em todas as formas e todos os níveis: o resultado é o mais alto nível o custo das sementes transgênicas, que chega a ser 130 vezes mais cara do que o preço normal. Os pequenos agricultores enganados e iludidos pela propaganda, quando não podem pagar dívidas, correm para um destino trágico: o suicídio. Há muitos casos conhecidos da Índia, que chegou a registrar, em apenas um ano, 180 mortos.
    É bom um físico falar sobre hidrelétricas, mas é questionável que se afirme dogmaticamente sobre transgênicos. E por que ele escolheu transgênicos para associá-los às hidrelétricas? Será como uma fachada que esconde o mal dos transgênicos? Isto me lembra do manifesto assinado por cem ganhadores de Nobel em favor de transgênicos escondendo atrás o arroz dourado. Entre esses ganhadores de Nobel, físicos, químicos, até de literatura e, além de tudo, três mortos!
   Lembro-me também de um cientista distante da área que foi há dez anos à Câmara de Deputados com argumentos e pedidos para a liberação da soja transgênica, e não pelos resultados científicos, que nunca foram apresentados e nem existiam, mas para não prejudicar agricultores que contrabandeavam soja.

Nagib Nassar
Professor emérito da Universidade de Brasília
Presidente da fundação FUNAGIB (www.funagib.geneconserve.pro.br)


segunda-feira, 18 de julho de 2016

Pesquisadora da USP monta mapa da contaminação por agrotóxico no Brasil


A pesquisadora reuniu os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica que dá dimensão complexa a um problema pouco debatido no País

Os mapas produzidos por Larissa Mies Bombardi são chocantes. Quando você acha que já chegou ao fundo do poço, a professora de Geografia Agrária da USP passa para o mapa seguinte. E, acredite, o que era ruim fica pior. Mortes por intoxicação, mortes por suicídio, outras intoxicações causadas pelos agrotóxicos no Brasil. A pesquisadora reuniu os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica que dá dimensão complexa a um problema pouco debatido no País.
Ver os mapas, porém, não é enxergar o todo: o Brasil tem um antigo problema de subnotificação de intoxicação por agrotóxicos. Muitas pessoas não chegam a procurar o Sistema Único de Saúde (SUS); muitos profissionais ignoram os sintomas provocados pelos venenos, que muitas vezes se confundem com doenças corriqueiras. Nos cálculos de quem atua na área, se tivemos 25 mil pessoas atingidas entre 2007 e 2014, multiplica-se o número por 50 e chega-se mais próximo da realidade: 1,25 milhão de casos em sete anos.
Além disso, Larissa leva em conta os registros do Ministério da Saúde para enfermidades agudas, ou seja, aquelas direta e imediatamente conectadas aos agrotóxicos. As doenças crônicas, aquelas provocadas por anos e anos de exposição aos venenos, entre as quais o câncer, ficam de fora dos cálculos. “Esses dados mostram apenas a ponta do iceberg”, diz ela.
Ainda assim, são chocantes. O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos, posto roubado dos Estados Unidos na década passada e ao qual seguimos aferrados com unhas e dentes. A cada brasileiro cabe uma média de 5,2 litros de venenos por ano, o equivalente a duas garrafas e meia de refrigerante, ou a 14 latas de cerveja.
Em breve, todo o material reunido por Larissa será público. O livro Geografia sobre o uso de agrotóxicos no Brasil é uma espécie de atlas sobre o tema, com previsão de lançamento para o segundo semestre. Será um desenvolvimento do Pequeno Ensaio Cartográfico Sobre o Uso de Agrotóxicos no Brasil, já lançado este ano, com dados atualizados e mais detalhados. No período abrangido pela pesquisa, 2007-2014, foram 1.186 mortes diretamente relacionadas aos venenos. Ou uma a cada dois dias e meio: “Isso é inaceitável. Num pacto de civilidade, que já era hora de termos, como a gente fala com tanta tranquilidade em avanço de agronegócio, de permitir pulverização aérea, se é diante desse quadro que a gente está vivendo?”, indaga a professora ao programa De Olho nos Ruralistas.
O papel do agronegócio
Larissa fala de agronegócio porque é exatamente esse modelo o principal responsável pelas pulverizações. Os mapas mostram que a concentração dos casos de intoxicação coincide com as regiões onde estão as principais culturas do agronegócio no Brasil, como a soja, o milho e a cana de açúcar no Centro-Oeste, Sul e Sudeste. No Nordeste, por exemplo, a fruticultura. A divisão por Unidades da Federação e até por municípios comprovam com exatidão essa conexão.
A pesquisadora compara a relação dos brasileiros com agrotóxicos à maneira como os moradores dos Estados Unidos lidam com as armas: aceitamos correr um risco enorme. Quando se olha para um dos mapas, salta à vista a proporção entre suicídio e agrotóxicos. Em parte, explica Larissa, isso se deve ao fato de que estes casos são inescapavelmente registrados pelos órgãos públicos, ao passo que outros tipos de ocorrências escapam com mais facilidade. Mas, ainda assim, não é possível desconsiderar a maneira como distúrbios neurológicos são criados pelo uso intensivo dos chamados “defensivos agrícolas”, termo que a indústria utiliza para tentar atenuar os efeitos negativos das substâncias. Soja, milho e cana, nesta ordem, comandam as aplicações.
Uma relação exposta no mapa, que mostra um grande cinturão de intoxicações no centro-sul do País. São Paulo e Paraná aparecem em destaque em qualquer dos mapas, mas a professora adverte que não se pode desconsiderar a subnotificação no Mato Grosso, celeiro do agronegócio no século 21.

O veneno está na cidade
A conversa com o De Olho nos Ruralistas – durante gravação do piloto de um programa de TV pela internet – se deu em meio a algumas circunstâncias pouco alvissareiras para quem atua na área. Há alguns dias, a Rede Globo tem veiculado em um de seus espaços mais nobres, o intervalo do Jornal Nacional, uma campanha em favor do “agro”. Os vídeos institucionais têm um tom raríssimo na emissora da família Marinho, com defesa rasgada dos produtores rurais de grande porte.
“Querem substituir a ideia do latifúndio como atraso”, resume Larissa. Ela recorda que, além do tema dos agrotóxicos, o agronegócio é o responsável por trabalho escravo e desmatamento. E questiona a transformação do setor agroexportador em modelo de nação. “A alternativa que almejaríamos seria a construção de outra sociedade em que esse tipo de insumo não fosse utilizado. Almejamos uma agricultura agroecológica com base em uma ampla reforma agrária que revolucione essa forma de estar na sociedade”.
No mesmo dia da entrevista, o Diário Oficial da União trouxe a sanção, pelo presidente provisório, Michel Temer, da Lei 13.301. Em meio a uma série de iniciativas de combate à dengue e à zika, a legislação traz a autorização para que se realize pulverização aérea de venenos em cidades, sob o pretexto de combate ao mosquito Aedes aegypti. A medida recebeu parecer contrário do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, posição que foi ignorada por Temer.
Larissa considera que a medida representa um grande retrocesso e demonstra preocupação pelo fato de a realidade exposta em seus mapas ser elevada a potências ainda desconhecidas quando se transfere um problema rural para as cidades. “O agrotóxico se dispersa pelo ar, vai contaminar o solo, vai contaminar a água. O agrotóxico não desaparece. Ao contrário, ele permanece”. Em outras palavras: o veneno voa e mergulha. Alastra-se. E tem longa duração.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

18 de Junho – Dia do Químico

Fonte: Freerange Stock

         O exercício profissional em Química foi regulamentado no Brasil através de uma lei assinada em 18 de junho de 1956 ("Lei Mater dos Químicos"), pelo então presidente Juscelino Kubitschek, que possibilitou a criação dos conselhos de Química (CRQ/CFQ) e estabeleceu as atribuições específicas de cada um dos profissionais diretamente ligados à Química. Desde então o dia 18 de Junho é celebrado como o Dia do Químico no Brasil, em homenagem a todos os profissionais que se dedicam a esta carreira apaixonante.
         Paixão, inclusive, é uma palavra diretamente ligada à Química. Paixão, compreensão, companheirismo, afinidade, afeto, sintonia, identidade entre pessoas, são sinônimos cotidianamente atribuídos à "Química existente entre elas". Coincidentemente o Dia do Químico é comemorado apenas seis dias após a comemoração mais apaixonada do calendário nacional, o Dia dos Namorados. Não-coincidentemente, paixão e amor pela sua profissão são as palavras mais ouvidas daqueles que se dedicam a fazer da Química o seu ofício.
         No dia 18 de junho celebramos a Química – e portanto, celebramos a vida. Celebramos todos os benefícios que essa ciência fascinante nos proporciona. Celebramos a realidade de que a Química está enraizada em tudo o que temos e dispersa por tudo o que fazemos. E celebramos a modéstia dessa área do conhecimento que, embora central e imprescindível para a maioria das áreas correlatas, se mantém elegantemente discreta – como convém às grandes e verdadeiras estrelas.
         Parabéns a todos os profissionais em Química do Brasil. A Diretoria e Conselho da Sociedade Brasileira de Química desejam a todos um Feliz dia do Químico.
Um forte abraço,
Aldo José Gorgatti Zarbin

Presidente da SBQ

sábado, 7 de maio de 2016

Ciência e Educação, políticas de Estado


Helena Nader
06/05/2016, Folha de São Paulo.

          Se numa transição governamental normal (via eleições) a Ciência e a Educação devem ser entendidas e tratadas como política de Estado, a assunção de um novo governo pelo afastamento, temporário ou definitivo, do anterior não pode negar essa condição aos temas que mais dizem respeito ao futuro do país.
          A notícia de que um bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (Marcos Pereira, presidente nacional do PRB) é cotado para assumir o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em eventual governo Temer, mostra que a barganha política está acima dos critérios de competência, afinidade e compromissos com a área.
          Não temos nada contra religiões, nem contra a pessoa do político cotado para o posto, mas não se pode misturar preceitos religiosos com a Ciência. Precisamos de um ministro empenhado no progresso científico, com conhecimento a acrescentar, e não de um político com agenda religiosa.
          Durante décadas, repetimos exaustivamente que os rumos da Ciência e Tecnologia e da Educação não poderiam continuar submetidos exclusivamente aos interesses do governante que estivesse ocupando o Palácio do Planalto.
          O Brasil caminhou e podemos dizer que, nos últimos anos, Ciência e Tecnologia e Educação vêm avançando progressivamente para atingir o status de políticas de Estado. Portanto, não podemos admitir a possibilidade de retrocessos.
          Conseguimos, a partir do momento em que a educação passou a superar a condição de política de governo, universalizar o acesso ao ensino básico, estabelecer mecanismos de avaliação em todos os níveis do sistema e envolver a sociedade nas lutas pela melhoria da escola.
          Ainda precisamos universalizar a qualidade do ensino, especialmente na escola pública. O tamanho dessa tarefa nos faz exigir, na iminência de um novo governo, que as questões educacionais tenham tratamento à altura deste desafio: gente competente no Ministério da Educação (do ministro aos chefes de programas), orçamento condizente com a importância da pasta, eficiência administrativa e diálogo com a comunidade educacional.
          Com a Ciência, o quadro é o mesmo: avançamos nos últimos anos, mas há chão pela frente – principalmente porque o conhecimento científico está associado a três níveis de desenvolvimento indispensáveis ao Brasil de hoje e de amanhã.
          Um nível é o da Ciência como base do desenvolvimento tecnológico e da inovação, ferramentas cada vez mais utilizadas para a promoção da competitividade das empresas e das economias nacionais.
          O outro nível é o de desenvolvimento humano. Por exemplo, ao potencializar a funcionalidade de alimentos; ao pesquisar doenças, suas causas, comportamento e remédios; ao desenvolver equipamentos de alta tecnologia para diagnóstico e cura de enfermidades.
          O terceiro nível é o da sustentabilidade ambiental com desenvolvimento econômico. Conhecer e explorar nossos recursos naturais são dois aspectos que se interligam. Não há outra alternativa que não seja recorrer à Ciência para termos as respostas que nos indiquem os caminhos corretos para utilização das riquezas da nossa biodiversidade.
          Nesses três níveis, a Ciência brasileira já caminhou consideravelmente, mas ainda tem muito a contribuir com o país. Portanto, para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação também deve haver pré-requisitos: escolha de um ministro compromissado com o saber científico, seu desenvolvimento e sua aplicação; orçamento que acompanhe a curva histórica de crescimento; investimento equilibrado em Ciência básica e na sua aplicação.
          Precisamos de ações e pessoas à altura do Estado brasileiro.

HELENA NADER, 68, biomédica e professora titular de biologia molecular da UNIFESP, é presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Cadê os mortos da fosfoetanolamina?



Artigo de Roxana Tabakman para o Observatório da Imprensa

A história já é conhecida por todos. A pílula “milagrosa” contra o câncer era distribuída inexplicavelmente pela nossa melhor universidade, a loucura um dia parou, as pessoas choraram em frente às câmeras e logo seus promotores conseguiram apoio de juízes e políticos ineptos. Diante da repercussão, os ministérios de Ciência, Tecnologia e Inovação e Saúde acharam dinheiro que ninguém sabia que tinham e estão promovendo pesquisas. A parte da sociedade que está bem informada já compartilha os primeiros resultados.
A fosfoetanolamina não cura: as primeiras evidências mostram não apenas que não funciona, como provavelmente aumentaria os processos tumorais. E nem sequer é fosfoetanolamina, acrescentam os relatórios. As cápsulas que se distribuem contêm apenas 32% de essa substância e o resto são outros ingredientes. Como se à República faltassem problemas e a Anvisa não existisse, o último capítulo desta nefasta história é um projeto de lei que prevê a livre produção e comercialização da substância. Ou seja, a decisão de o que fazer com os pacientes com câncer aguarda agora o posicionamento da presidente Dilma.
Nesta questão dolorosa, a população está unida pela sensação de vergonha. Mas ao repassar os comentários dos leitores, as matérias, os vídeos e os posts, fica claro que essa sensação não acomete a todos pelas mesmas causas. Uma parte dos brasileiros está chocada pela postura de líderes e governantes que, apesar das evidências em contrário, ainda defendem a pílula como fonte de esperança. Outros, pelo contrário, ainda acreditam nos seus impulsores e veem no assunto toda uma conspiração da indústria farmacêutica internacional.
Depois de seguir durante meses o assunto na mídia, abrigo a sensação de que, de maneira geral, a imprensa entende bem a situação científica e informa corretamente, porem está fazendo algo errado. Se o objetivo é tirar dos enganados a bolha de esperança que lhes turva a visão, não tenho certeza de que o esteja conseguindo.

As estratégias dos programas de entretenimento
Quando começou a confusão, os blogueiros e vlogueiros científicos saíram na frente. Pirula, um dos mais conhecidos divulgadores científicos do YouTube, fez um vídeo muito claro  que dava resposta a muitas das perguntas que as pessoas faziam. Mas logo teve que fazer uma nova filmagem para responder questões do público que para outros já eram óbvias. Durante longos meses, ele e outros cientistas e comunicadores de ciência continuaram dando show de bola não apenas nas análises técnicas, como nas leituras sociais. Tomo como exemplo Maurício Tuffani, que em seu blog na Folha descreveu a situação como “um lamentável exemplo da corrupção da democracia por meio da demagogia”, ou Carlos Orsi, que lamentou que o relatório venha a ser “ignorado pelas vítimas do verdadeiro culto que se formou em torno da substância e pelos abutres, de diferentes plumagens, que esperam transformar o desespero dos doentes em votos ou dinheiro”. Destaco aqui também o trabalho minucioso de uma mulher, Natalia Pasternak Taschner, que no blog “Café na bancada” faz 18 perguntas claras que ainda não têm resposta.
“Enquanto essas questões permanecerem sem reposta, não há como saber se a motivação do grupo do IQSC (Instituto de Química de São Carlos) foi messiânica, ingênua ou de má-fé. Entretanto, é no mínimo curioso que até agora ninguém tenha se interessado em respondê-las e dar uma satisfação para a sociedade”, conclui Natalia.
A mídia escrita, de forma geral, ficou também do lado da ciência. Com menos avaliação própria e muita menos profundidade do que os blogueiros, a imprensa limitou-se a apresentar as diferentes opiniões médicas e científicas, cumprindo o seu rito de divulgar todos os fatos e deixando quase sempre bem claro que frágil era o peso das evidências que lhes eram oferecidas. Essa visão crítica foi aumentando com o tempo. Então, se todo mundo fala que a fosfoetanolamina contra o câncer é uma grande mentira, por que o assunto ainda não morreu? Há muitas explicações possíveis. A única certeza é que a culpa não é do público que gosta de ser enganado.
Uma possibilidade é que talvez os que colocam os dedos no teclado fiquem longe demais das estratégias dos programas de entretenimento (Ratinho e outros) que apoiam a fosfo. Informam sem tocar as emoções, não se preocupam em procurar histórias verdadeiras que apoiem as ideias que estão difundindo. Em palavras mais afiadas, as matérias que mostram que as cápsulas da USP não servem para nada são blocos de gelo. Cadê os mortos da fosfoetanolamina?

O jornalismo científico deveria mudar
Contrapor às crenças irracionais as mesmas ferramentas que são usadas para divulgá-las (concretamente, mostrar depoimentos pessoais) é um caminho pouco explorado. Mas funcionou, pelo menos parcialmente, no caso de Julian Rodriguez, que foi mencionado neste site na matéria “Justiça para Mario Rodriguez”. No mês passado, o pai de Mario, cujo caso é apresentado como de uma vítima das pseudociências, teve uma pequena alegria: o processo ao “médico alternativo” parcialmente responsável da sua morte foi reaberto.
O jornal El País titulou a matéria “A mi hijo lo ha matado la incultura cientifica” mas, quase uma advertência à imprensa para melhorar o conhecimento científico da população. É verdade: hoje, mais do que nunca, a mídia precisa explicar em palavras claras e simples os antecedentes históricos de como seria a nossa vida se não existissem regras definidas na experimentação e uso de substâncias medicamentosas. Mas a educação científica pode não ser suficiente para acabar com o problema.
Talvez tenha chegado a hora de uma autocrítica: perguntar-nos se a imprensa crítica à fosfoetanolamina não está contando a história incompleta. Não há dúvida que divulgar assuntos médicos sem ouvir a voz dos pacientes é contar apenas uma parte; porém, às vezes, não parecemos conscientes das consequências da deficiência. Não é preciso ter tido uma educação menos privilegiada para cair na armadilha de acreditar na mulher que fala em frente à câmera que sem a fosfoetanolamina não estaria viva para contar a história. Isso é simplesmente possível com uma mente menos focada em dados laboratoriais e mais em histórias, com a empatia mais desenvolvida do que o ceticismo. O hábito da imprensa de desatender essas sensibilidades pessoais poderia estar afastando o nosso público da compreensão total da realidade que tentamos divulgar.
Há muita polêmica no jornalismo científico, mas pertenço ao grupo que considera que deveriam se fazer mudanças profundas porque estamos fracassando. Na luta contra os “milagres”, são muitas as vezes que não conseguimos mostrar o nosso lado. Neste contexto, é interessante a iniciativa de um engenheiro do nome Tim Farley que utiliza histórias humanas para promover o pensamento crítico.

Uma realidade que é triste, mas não é visível
No site whatstheharm.net (Qualeodano.net, em tradução livre), Farley divulga com nome, foto e cidade casos reais de pessoas que morreram por “acreditar” errado. Provavelmente por se tratar de um esforço individual de jornalismo-cidadão sem objetivo de lucro, é bastante incompleto, mas vale pela ideia. Inclui desde vítimas de ervas chinesas supostamente inofensivas até pessoas que, no momento inadequado, ouviram conselhos inadequados (de homeopatas que na hora certa não souberam dizer “vá logo para um hospital”). Para mostrar até onde podem chegar as consequências de acreditar em inverdades, Tim Farley inclui entre as vítimas 365 mil sul-africanos: o número se baseia numa pesquisa da Universidade de Harvard referente a um fato histórico. No ano 2000, o presidente Thabo Mbeki ainda não “acreditava” que o vírus HIV era a causa da Aids e por cinco anos o país inteiro manteve doentes sem tratamento em consequência do engano em que caiu Mbeki.
As pessoas que caíram na promessa enganosa da fosfoetanolamina não devem ser desprezadas. Muito pelo contrário, devem ser procuradas para a cobertura jornalística completa, para mostrar as vidas por detrás do fracasso que mostra a ciência. Entrevistar os familiares de alguns dos milhares que morreram “apesar da fosfoetanolamina” exige tempo, sensibilidade e paciência. Nem sempre é fácil convencer indecisos, temerosos e fóbicos a divulgarem à imprensa sua intimidade, especialmente se foram enganados. Mas eles têm que entender que é um serviço importante para a comunidade porque mesmo sem terem um final feliz de esperança para contar, podem ajudar a outros a evitar situações de dor ainda mais profundas por causa do engano.
Dificilmente conseguimos informar bem sobre assuntos de saúde e doença se antes não tomamos consciência da fragilidade humana. Todas as pessoas querem saber, mas há muitos para quem as verdades ficam inacessíveis porque, como os daltônicos que não conhecem as cores, têm dificuldade para processar a informação de forma puramente analítica. Para essas pessoas pode ser difícil entender que os efeitos podem não ser reais, mas uma simples miragem provocada por situações aleatórias.
Para fazer um bom jornalismo de assuntos médicos complexos, como o da fosfoetanolamina, não basta ir pelo caminho fácil de amplificar o que mostram os especialistas. Seria bom a imprensa se esforçar mais, não apenas para dar a informação correta, mas para mostrar uma realidade que é triste, mas que, infelizmente, não é visível para todo mundo.

*Roxana Tabakman é bióloga e jornalista. É autora de A saúde na mídia – Medicina para jornalistas, jornalismo para médicos, Ed. Summus