sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Biossensores para Proteínas Tóxicas




Por Murilo Sérgio da Silva Julião

Neurotoxinas são difíceis de detectar
         Existem inúmeras proteínas que os químicos analíticos gostariam de identificar numa ampla faixa de amostras. Por exemplo: seria muito útil detectar com rapidez a presença da toxina botulínica ou de ricina, uma proteína formada de carboidratos (lectina) e letal ao ser humano, em várias situações como: na área médica, no meio ambiente ou no caso de um ataque biológico. As proteínas tóxicas são notadamente difíceis de identificar, pois além de exigirem técnicas bem complexas e laboriosas, estas não respondem com a rapidez requerida.
         Andrew J. Bonham e colaboradores, da Universidade Metropolitana de Denver, Colorado, EUA, desenvolveram biossensores eletroquímicos a partir de aptâmeros que demostraram aplicabilidade na detecção, tanto da neurotoxina botulínica como da ricina. A equipe sugeriu que o dispositivo foi suficientemente robusto e específico para a detecção da proteína alvo em concentrações ao nível de nM (10-9 molL-1). Além disso, as análises funcionaram em amostras diluídas de soro sanguíneo. O grupo do Dr. Andrew J. Bonham relatou no artigo publicado na revista Chemical Communications que esses "biossensores podem futuramente vir ajudar no diagnóstico rápido de toxinas." A mesma abordagem poderá ser estendida para outras proteínas tóxicas.

Toxinas Botulínica e Ricina
         Os pesquisadores apontam que a bactéria Clostridium botulinum encontrada em solos, bem conhecida pela toxina causadora do botulismo, doença potencialmente fatal, pode ser transmitida para o homem através de má higiene alimentar ou de agulhas contaminadas por usuários de drogas. Embora seja conhecida também por suas aplicações como um relaxante muscular nos campos da cosmética e da medicina, a sua potencial aplicação como um agente de guerra biológica torna-se bastante preocupante. Os testes atuais para a toxina botulínica dependem de inoculação em ratos ou testes de ELISA (ensaios imunosorventes de enzimas ligadas), que têm um tempo de resposta de dois a cinco dias. E infelizmente, o botulismo, uma vez contraído, age rapidamente e é muitas vezes fatal num prazo muito mais curto.
         Do mesmo modo, a ricina, uma proteína produzida pelo óleo de rícino extraído da planta Ricinus comunis, é letal para os seres humanos numa dose < 1,0 mg/Kg de massa corporal. Também pode ser usada como um agente de guerra biológica e seus efeitos letais podem levar de 6 a 12 horas para se manifestar. Mais uma vez, um teste rápido no local para esta proteína seria de grande utilidade aos militares dos serviços de emergência médica.

Aptâmeros se ligam a um alvo específico

         Na busca por testes rápidos para analitos biológicos específicos de interesse médico, uma abordagem recente é o desenvolvimento de biossensores que exploram uma interação altamente específica entre o alvo e o sensor, por exemplo: sensores eletroquímicos baseados no DNA (sensores E-DNA). Tais sensores possuem um oligonucleotídeo (ex.: DNA) que apresenta uma sequência de “aptâmeros" que se ligam à proteína e ao grupo eletroquimicamente ativo, como azul de metileno, que facilmente doa ou recebe elétrons. Este aptâmero é quimicamente ligado a um eletrodo de ouro, que é então utilizado na determinação eletroquímica do seu alvo.
         A conveniência de uma única etapa deste método permite a análise em minutos em vez de dias. Até esta data, outros sensores deste tipo têm sido relatados para a detecção de oligonucleotídeos, fármacos de moléculas pequenas, anticorpos e proteínas ligantes do DNA.

Detecção sensível, mas com ambiente favorável à melhoria

         A próxima etapa no desenvolvimento de biossensores tipo E-DNA seria a definição de uma estratégia geral para torná-los, de modo que quase toda a proteína alvo pudesse ser analisada com um sensor específico. Nesta pesquisa, a equipe do Dr. Bonham a princípio, desenvolveu uma técnica para ligar o aptâmero apropriado às toxinas ricina e botulínica em tais biossensores. "Este método de inserção de aptâmeros em andaimes é muito promissor para uma abordagem genérica", disse Bonham. Os sensores mostraram grande sensibilidade, com valores de concentração aos níveis de 0,4 nM (± 0,2) para a toxina botulínica e 0,7 nM (± 0,5) para a ricina.
         Estes valores de detecção para a ricina são muito próximos da dose letal para esta toxina e por isso este biossensor deve ser sensível o suficiente, no mundo real, para detecção clínica. Uma optimização adicional é necessária para aumentar a sensibilidade do detector para a toxina botulínica a um nível útil, dado que esta toxina é letal numa fração dessa concentração (níveis < 10-12 mol/L). A equipe está trabalhando para alcançar esse objetivo.

Referência
Electrochemical Aptamer Scaffold Biosensors for Detection of Botulism and Ricin Toxins, Lisa Fetter, Jonathan Richards, Jessica Daniel, Laura Roon, Teisha J. Rowland, Andrew J. Bonham, Chem. Commun. 2015.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A História da Luz: há mais de 2 mil anos ela instiga filósofos e cientistas

Desde o filósofo grego Empédocles até os dias atuais, a luz é objeto de estudo

O que ocorre nos olhos que nos permite ver? A informação que vemos sobre o mundo vem de fora ou está dentro dos olhos? A visão depende da luz? Afinal, o que é a luz? Uma onda? Uma partícula?
Essas foram questões que dividiram filósofos e cientistas por mais de 2 mil anos. Entre os gregos antigos, havia várias teorias para tentar explicar a luz e a visão. Os primeiros questionamentos nesse sentido foram algo como ‘Os homens enxergavam porque algo saía dos olhos ou porque algo entrava nos olhos?’ Primeiramente, acreditou-se que a visão era resultado de raios emitidos pelos olhos.
No século 5 a.C., o filósofo Empédocles, que postulou que tudo era composto de quatro elementos (terra, fogo, água e ar), foi um dos mais influentes em sua época sobre a questão da luz. Ele acreditava que o olho humano havia sido feito por Afrodite e que essa deusa da beleza e do amor havia acendido o fogo dentro desse órgão. Portanto, era essa luz emitida pelos olhos que permitia a visão.
Para Empédocles, esse fogo interno “tocava” os objetos e, ao retornar para a pupila, trazia informações sobre eles, como se fossem tentáculos. Por sua vez, os objetos também emitiam um tipo de fogo que carregava suas informações, como a cor e a forma. Assim, o fenômeno da visão ocorria quando o fogo interno dos olhos entrava em contato com o fogo externo dos objetos.
Mas a teoria de que a luz emanava dos olhos deixava questões em aberto: por que não é possível enxergar num lugar escuro? Que relação tem a luz do dia com o fogo emitido pelos olhos?
O matemático Euclides, famoso por seu livro sobre geometria, questionou-se sobre a natureza da luz. Ele se perguntava como era possível fechar os olhos, à noite, e, ao abri-los, ver imediatamente a luz das estrelas distantes? Para ele, isso só seria possível se a luz emitida pelos olhos viajasse com velocidade infinita.
As ideias de Empédocles sobre a luz foram criticadas pelos atomistas, filósofos que acreditavam que as coisas eram feitas de diminutas partículas, os átomos. Lucrécio, por exemplo, escreveu, em 55 a.C., que a luz e o calor do Sol eram compostos de átomos, que, assim que disparados, viajavam, sem perder tempo algum, através do ar. Para os atomistas, os objetos emitiam átomos em todas as direções e entravam nos nossos olhos, produzindo a visão.
Porém, a teoria atomista não explicava outros tantos questionamentos: as partículas desprendidas de um objeto não se chocavam contras as do objeto? Elas passariam umas pelas outras sem interagir? Como a imagem de um objeto muito grande encolheria para caber nos olhos?
O matemático árabe Alhazen (Foto: Reprodução TV)

A hipótese de que algo saía dos olhos foi duramente criticada pelo matemático e astrônomo árabe Alhazen – também conhecido como Ibn Al-Haytham –, que viveu no século 10 da era cristã. Para Alhazen era absurdo supor que uma emanação fluindo do olho seria capaz de preencher os céus visíveis quase simultaneamente ao levantar de nossas pálpebras.
Para ele, uma das propriedades da luz é afetar o olho, e é uma propriedade da visão ser afetada pela luz. A sensação visual, portanto, só é adequadamente explicada em termos da luz que chega aos olhos, vinda de um objeto. Num pensamento semelhante ao dos atomistas, Alhazen defendeu que a luz solar era feita de diminutas partículas que viajavam em linha reta, com grande velocidade, mas finita, e que eram refletidas pelos objetos para dentro de nossos olhos. Alhazen estudou não só a reflexão da luz pelos corpos, mas também a passagem dela por eles, fenômeno chamado refração.
Pelo conjunto de sua obra, reunida nos sete volumes do livro Óptica, publicado em latim em 1270, Alhazen é considerado, por muitos estudiosos da cultura árabe, como o primeiro físico experimental da história. Isso porque ele usou a câmara escura para estudar os fenômenos luminosos e provar suas ideias, principalmente a de que eram os objetos que emitiam luz e não os olhos.
Quase seis séculos se passaram até que surgisse uma contribuição importante para o entendimento dos fenômenos ópticos. Isso foi feito pelo astrônomo alemão Johannes Kepler. Em seu livro A parte óptica de astronomia, de 1604, considerado um dos marcos da óptica moderna, ele explica a formação da imagem no olho e apresenta uma teoria matemática para explicar o funcionamento de uma câmara escura. Também explicou problemas de visão, como a miopia (dificuldade de enxergar de longe) e a hipermetropia (de perto).
Kepler afirmou que a imagem do objeto observado é formada na retina – e não na lente do olho, o cristalino, como acreditava Alhazen. Mas não se perturbou com o fato de que a imagem aparecesse de cabeça para baixo nessa parte ao fundo do olho.
Em 1611, em outra obra importante, Dioptrica, Kepler, para quem a velocidade da luz era infinita, traça as bases das leis da passagem da luz através de um sistema de lentes. Ele mostra, por exemplo, como duas lentes convexas podem tornar os objetos maiores, embora invertidos. Esse é o princípio usado nos telescópios astronômicos.
Mas qual a importância de Kepler para o entendimento dos fenômenos ópticos?
René Descartes (Foto: Reprodução TV)

A história do pensamento sobre a natureza da luz pode ser dividida em duas correntes: 1) aqueles que defendiam ser a luz uma onda e 2) os que acreditavam se tratar de um corpúsculo. Como vimos, os atomistas e Alhazen eram adeptos desta última, sendo que a teoria corpuscular foi retomada por pensadores no século 17, como o francês Pierre Gassendi. Já a visão da luz como sendo uma onda teria adeptos de peso, como o filósofo e matemático francês René Descartes e o inglês Robert Hooke, que viveram no século 17.
Descartes defendia que o espaço era preenchido com algo que ele chamou de ‘plenum’, que transmitia pressão da fonte de luz até os olhos. Portanto, não era uma coisa material – partícula, átomo ou fogo – que realmente se deslocava de uma fonte luminosa até o olho.
Adepto de Kepler, Descartes apelou para um experimento bizarro para comprovar o argumento do astrônomo alemão de que a imagem se formava na retina de cabeça para baixo. Olhou através de um olho de boi do qual havia arrancado a retina e viu que a imagem realmente era invertida.
Descartes, para quem a velocidade da luz era finita, dedicou-se a um dos problemas mais difíceis até então da óptica: a refração, ou seja, a passagem da luz de um meio para o outro, como do ar para a água. Ele apontou a forma de calcular o desvio que ela sofre nesse processo. Além disso, ele tentou explicar o arco-íris.
Influenciado pelas ideias de Descartes, o matemático e físico holandês Christiaan Huygens desenvolveu uma teoria baseada na concepção de que a luz seria uma onda que se propaga pelo éter, um meio que, segundo os filósofos antigos, permeava todo o espaço. Isso o fez discordar de aspectos da teoria sobre luz e cores de Isaac Newton, baseada numa concepção corpuscular da luz. Para Huygens, a luz se comportava como uma série de ondas, que transmitiam o movimento de uma a outra – como a transferência de movimento de uma bolinha a outra.
Com sua teoria ondulatória da luz, Huygens explicou satisfatoriamente vários fenômenos ópticos, como a propagação retilínea da luz, a refração e a reflexão. Para ele, a luz se propaga com velocidade enorme, mas finita. Seus estudos podem ser consultados em seu mais conhecido trabalho sobre o assunto, o Tratado sobre a luz, de 1690. A teoria ondulatória de Huygens, no entanto, foi eclipsada pela teoria corpuscular de Newton, que prevaleceu ao longo de todo o século 18. A fama e o alcance das ideias desse cientista inglês desempenharam um papel essencial nessa preponderância.
O físico inglês Isaac Newton defendeu a teoria corpuscular da luz. Ele foi influenciado pelas ideias do atomista Gassendi. Essa visão causou grande controvérsia com outro cientista inglês, igualmente influente, Robert Hooke, que, poucos anos antes, havia publicado sua teoria ondulatória da luz. As ideias de Newton, no entanto, prevaleceriam, disseminadas pelo século 18 por seus seguidores.
No final do século 19, no entanto, a concepção ondulatória da luz passou a ser predominante. Agora, a luz visível era apenas um dos vários tipos de ondas eletromagnéticas, que podem viajar no espaço sem qualquer matéria que sirva de suporte para elas. Diferentemente do som, a luz pode viajar no vácuo, com uma velocidade de 300 mil km por segundo, o que permite a ela dar várias voltas em torno da Terra em um piscar de olhos. A velocidade da luz é um limite na natureza.
Albert Einstein (Foto: Reprodução TV)
O resultado de um experimento publicado pelo inglês Thomas Young foi fundamental para o estabelecimento da visão ondulatória da luz. No chamado experimento da dupla fenda, a luz, depois de atravessar dois orifícios muito pequenos feitos sobre um obstáculo, incide sobre um anteparo, formando nele um fenômeno que é típico das ondas: a interferência.
Foi o físico alemão Albert Einstein, no início do século passado, que, mais uma vez, inverteu esse cenário. Ele demonstrou que a luz é formada de partículas, diminutos pacotes de energia, denominados fótons. No final da década de 1900, Einstein perceberia que o entendimento de vários fenômenos naturais só seria completo se a luz fosse entendida como sendo tanto uma onda quanto um corpúsculo.
A confirmação final sobre a realidade física do fóton foi obtida apenas na metade da década de 1920. Um dos experimentos que comprovaram a existência dos fótons foi feito pelo físico norte-americano Arthur Compton. Nele, Compton demonstrou que, quando um fóton colide com um elétron, ambos se comportam como partículas.
Em meados da década de 1950, já no final de sua vida, Einstein costumava dizer que qualquer um achava saber o que era o fóton. Mas, na verdade, as pessoas não sabem. Porque a natureza do fóton ainda continua um mistério.
Afinal, o que é a luz?
Fonte: GLOBO CIÊNCIA

domingo, 28 de junho de 2015

Química verde



Veja o vídeo produzido pela equipe da Pesquisa Fapesp, 
que mostra como uma nova tecnologia para 
processamento de minérios chamada de 
nanohidrometalurgia magnética (NHM), desenvolvida na 
USP, poderá tornar a mineração, sobretudo de cobre,  
mais eficiente e menos danosa ao meio ambiente 


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Entre promover e fiscalizar

Em artigo para a Revista Piauí, publicado no dia 16 de junho, o jornalista Bernardo Esteves fala sobre a tensão entre jornalismo científico e divulgação


O jornalismo científico precisa de menos ciência e mais jornalismo? Essa foi a provocação que motivou talvez a mais interessante sessão de uma conferência que reuniu centenas de repórteres e editores especializados de todo o mundo na semana passada em Seul. A proposta era retomar um debate que reverbera há tempos entre praticantes e estudiosos do gênero: a tese de que os jornalistas devem agir menos como porta-vozes que relatam as novidades da ciência sem maiores questionamentos, e mais como fiscais que noticiam as atividades científicas sob luz crítica e espírito investigativo.
A plateia foi orientada a se posicionar em função de suas convicções – aqueles que concordavam e discordavam dessa tese sentaram-se frente à frente, à imagem da disposição dos assentos no parlamento britânico, o que deu dinamismo ao debate. Quem mudasse de opinião durante a discussão podia se levantar e bandear para o campo oposto; outras questões foram colocadas em pauta durante a sessão para o julgamento da audiência.
Antes que a palavra fosse aberta ao público, representantes dos dois pontos de vista fizeram uma breve exposição de seus argumentos. A defesa de que é preciso mais jornalismo e menos ciência coube ao britânico Andrew Jack, jornalista do Financial Times. Jack criticou os veículos que pautam sua cobertura predominantemente pela publicação de artigos científicos nos periódicos com revisão por pares.
“Precisamos tirar mais os cientistas da sua zona de conforto e aproveitar sua expertise fora do ciclo de publicação acadêmica”, afirmou. Para o britânico, os jornalistas têm a obrigação de questionar os fundamentos dos estudos científicos, apontar casos de fraude e manipulação de dados e discutir a forma como os recursos estão sendo empregados. “O jornalismo de ciência deveria sempre questionar aspectos como a responsabilidade dos cientistas, dinheiro, poder, as forças maiores que movem a sociedade”, concluiu.
Para defender a visão oposta, a escalada foi a repórter francesa Émilie Martin, da revista Ciel et Espace. Martin defendeu que o jornalismo de ciência difere dos demais gêneros noticiosos pela dificuldade técnica intrínseca aos temas tratados. Em sua avaliação, para os profissionais que não dominam a linguagem matemática é praticamente impossível compreender a produção científica.
“Creio que desempenhamos um duplo papel”, defendeu a francesa. “Por um lado, temos que relatar os fatos de forma honesta, mas temos ainda que agir como intermediários entre o público e os cientistas. Em outras palavras, somos também educadores”, afirmou. Mas isso não deprecia o papel dos jornalistas, frisou Martin – “apenas torna nosso trabalho mais difícil”.
Jornalismo vs. Divulgação
O debate promovido em Seul retomou uma velha discussão entre jornalistas e estudiosos da área, já tratado numa série de ensaios acadêmicos, reportagens e posts de blog. Para ficar com um só exemplo, vale citar um editorial muito comentado da revista Nature que tratava da polarização entre os jornalistas que promovem a ciência de forma acrítica – os cheerleaders – e aqueles que fiscalizam a prática científica em nome do interesse público – os watchdogs.
Outra forma de colocar essa polarização é entendê-la como uma tensão entre jornalismo científico e divulgação cientifica. Há certa superposição entre os dois domínios, mas cada um tem suas especificidades. O jornalismo, em sua função de informar o leitor das novidades surgidas no mundo da ciência, muitas vezes ajuda a popularizar o conhecimento científico, missão da divulgação. Mas é importante não perder de vista que os profissionais dos dois campos atendem a interesses distintos – se os divulgadores têm como função aproximar a ciência da sociedade, aos jornalistas cabe defender os leitores e cidadãos.
No animado debate em Seul, o blog sentou-se do lado daqueles que defendiam mais jornalismo e menos ciência – campo majoritário naquele dia –, por entender que a função do jornalista não pode se resumir à de tradutor de um conhecimento técnico para o público leigo, e nem é seu papel suprir deficiências na formação científica dos cidadãos. Cabe-lhe, sim, oferecer aos leitores as armas para que possam se posicionar em relação a um número cada vez maior de questões de interesse público atravessadas pelo conhecimento científico.
O debate teve argumentos inflamados de parte a parte, embora ninguém tenha mudado de campo em relação a essa questão. A mencionar apenas uma intervenção, destaco a fala do sociólogo da ciência Nicolas Baya-Lafitte, pós-doutorando na Universidade de Paris-Est (que falou noutra mesa-redonda da conferência). Lafitte defendeu que os jornalistas precisam mostrar mais a inserção da ciência na sociedade, dando visibilidade à prática cotidiana dos cientistas. “Não precisamos do hype sobre descobertas recentes, novas tecnologias ou as promessas da nanotecnologia. Falta mostrar como os pesquisadores trabalham no dia a dia”, argumentou.
O sociólogo citou o caso paradoxal do aquecimento global, em que um forte grau de consenso entre os estudiosos do tema não se alastrou pela sociedade, onde há setores resistentes à ideia da influência humana sobre o clima. Para ele, os jornalistas não vão mudar esse quadro se derem ao leitor mais fatos científicos. “É preciso um entendimento mais concreto de como os cientistas constroem seus fatos e alegações e como os oponentes têm suas redes de poder”, disse Baya-Lafitte. “Só avançaremos no entendimento público da mudança do clima se tornarmos explícitos os recursos por trás de cada argumento.”
O blog viajou à Coreia do Sul com bolsa da Federação Mundial dos Jornalistas de Ciência.  (Revista Piauí)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Ex-bolsista da Funcap, jovem cientista cearense desenvolve sensor para aplicação na indústria petrolífera

 

Graduado na UVA, sobralense Esequiel Mesquita está cursando doutorado em Portugal.

         O jovem cientista cearense Esequiel Mesquita desenvolveu um sensor ótico para medição de nível de líquidos em condições hostis. Esequiel foi bolsista da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) durante a graduação em Engenharia Civil pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e hoje é bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no doutorado na Universidade do Porto, em Portugal.
         O sensor tem como objetivo realizar medições de nível de líquidos em reservatórios subterrâneos, e pode ser utilizado para medições do nível do lençol freático, prospecção e para estimar o nível de reservatórios petrolíferos. “Uma das vantagens do sensor que nós desenvolvemos é que ele não utiliza corrente elétrica, o que o torna mais seguro para aplicações na indústria petrolífera”, explicou Esequiel.
         A descrição em detalhes do funcionamento do sensor foi publicada na Revista Measurement, importante publicação internacional, sob o título “Liquid level gauge based in plastic optical fiber”.

Apoio da Funcap
         Bolsista de IC da Funcap entre 2008 e 2011, o pesquisador afirma que a participação no Programa de Iniciação Científica da Fundação foi fundamental na escolha pela carreira acadêmica. “Desde criança eu sempre fui bastante curioso, e quando eu cheguei à Faculdade e tive a oportunidade de juntar-me ao grupo de pesquisadores do Laboratório de Materiais (LabMat) da UVA percebi que era aquilo que eu queria fazer pro resto da minha vida”, destaca Esequiel.
         A bolsa de Iniciação Científica ajudou ainda no custeio das despesas de moradia e alimentação, entre outras, pois o bolsista precisou se deslocar de Irauçuba, sua cidade natal, à Sobral “para que pudesse tirar o máximo proveito da minha época de graduação. E pela concessão da bolsa de IC eu pude dedicar-me exclusivamente a minha formação profissional sem ter que buscar um emprego formal”, informa.
         As produções científicas desenvolvida no LabMat tornaram possível a participação do então graduando em conferências nacionais e internacionais, além de influenciarem a aprovação nos processos seletivos de mestrados da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade de Brasília (UnB), em 1º e 2º lugar, respectivamente.
         No entanto, antes de realizar as inscrições para a seleção nos mestrados, Esequiel Mesquita participou do Congresso Internacional de Patologia e Recuperação de Estruturas, em 2011, em La Plata, na Argentina.
         Durante o evento, a professora Maria Positiere, do Departamento de Engenharia Civil da Universidad Tecnológica Nacional, na Argentina, em virtude da boa qualidade do trabalho apresentado no evento, perguntou ao estudante se ele tinha interesse em ingressar no doutorado naquela instituição. Segunda a docente, ao fazer uma análise previa do curriculum de Esequiel, ela percebeu a presença das aptidões necessárias para ingressar direto no doutorado.
         “Depois disto, conversei com o meu orientador, o professor Francisco Carvalho, e ele aconselhou-me a pelo menos participar da seleção do doutorado, além das seleções de mestrado. Então eu inscrevi-me nas seleções de mestrado da UFC e UnB e de doutorado da Universidad Tecnologica Nacional e da Universidade do Porto. E, para minha completa surpresa, fui aprovado nas seleções de mestrado e também consegui o primeiro lugar nas duas seleções de doutorado”, comemora o pesquisador.
         A primeira colocação na seleção permitiu ao estudante conseguir uma bolsa de Doutorado Pleno no Exterior pela Capes. “E, assim, ingressei no doutorado na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto aos 24 anos”, destaca.

Pesquisa atual
         Na tese de doutorado de Esequiel, além do sensor de nível de líquidos que já está publicado, o cearense está desenvolvendo, em conjunto com pesquisadores europeus, mais três sensores: um sensor de corrosão, um sensor para medir o deslizamento entre o aço-concreto e um sensor de pressão.
         “Estes sensores serão utilizados para compor um sistema de monitorização estrutural, que essencialmente deverá realizar a avaliação do risco que uma estrutura terá de colapsar. Em princípio, o sensor ótico para medição do nível de líquidos, que foi desenvolvido pensando em aplicação na indústria petrolífera, foi amplamente testado e o protótipo final validado, e atualmente encontra-se pronto para ser empregado pela indústria.”, explica o jovem cientista.
         Já os outros três sensores encontram-se, atualmente, em etapa de experimentação, e uma vez que for observado o cumprimento de todos os requisitos de desempenho esperados pela equipe de pesquisadores será então realizado o depósito da patente para que depois os artigos sejam publicados e divulgados na comunidade científica.
         “A nossa meta é que esses trabalhos contribuam para que o Ceará ocupe uma posição de destaque na geração de inovação tecnológica no contexto brasileiro, e assim mais industrias se sintam atraídas para se instalarem em nosso estado” afirma o jovem cientista cearense.

(Assessoria de Comunicação da Funcap)

terça-feira, 24 de março de 2015

Tornando visível as dez principais atividades que integram o exercício da profissão acadêmica de pesquisador/professor



Artigo publicado no Jornal da Ciência pelo sociólogo Carlos José Saldanha, pesquisador em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz e membro do Comitê de Assessoramento de Ciências Ambientais do CNPq

       Em um momento da vida nacional de aceleração da degradação ambiental, desaceleração econômica intensa, retração do investimento público e privado, rápida elevação dos juros para além de patamares já proibitivos, escassez de novos empregos, mudanças nos direitos trabalhistas e previdenciários e corte de verbas das instituições de ensino e pesquisa superior (IES), faz-se necessário apresentar para a sociedade uma síntese das principais atividades de uma categoria de trabalhador insubstituível no processo de construção do desenvolvimento sustentável do país, o pesquisador/professor.
      Independente do tipo de administração (pública ou privada), de missão institucional (universidades federais, estaduais e municipais, centros universitários, institutos, faculdades integradas, faculdades e escolas), de formação educacional e de titulação dos pesquisadores/professores, do regime e das condições materiais de trabalho em suas instituições, bem como dos traços estruturais dos projetos desenvolvidos (em redes colaborativas, com ou sem plataformas multiusuários e/ou multi-institucionais…), é possível sintetizar, sem ser reducionista, o trabalho desenvolvido por homens e mulheres de ciências e de tecnociências, agrupando em dez suas principais atividades, a saber:

Primeira: capacitar recursos humanos (dar aulas na graduação e na pós-graduação, orientar teses, dissertações, monografias e iniciar jovens ao mundo das ciências e das tecnociências), porque o governo, a indústria, o comércio e as IES têm demandado cada vez mais força de trabalho qualificada e especialistas com grau universitário para poder alavancar a economia nacional.

Segunda: construir, manter e atualizar a infraestrutura do local de trabalho, que pode ser um laboratório e/ou uma sala de professor(a)/pesquisador(a) para o desenvolvimento de projetos de pesquisa e formação de recursos humanos, porque as tecnologias da informação e comunicação se desenvolvem com tal rapidez que equipamentos, softwares e redes precisam ser atualizados em intervalos de tempo cada vez mais curto.

Terceira: organizar e gerir bases de dados para as pesquisas e das pesquisas, diante do número de pessoas nelas envolvidas e o número de publicações que produzem em velocidade crescente.

Quarta: acompanhar, pari passo, o que fazem os colegas e/ou laboratórios e/ou instituições concorrentes no desenvolvimento de temas de interesse restrito de partes selecionadas de uma disciplina, porque, na prática das ciências e das tecnociências, há pouco prêmio para a simples duplicação de conhecimentos produzidos e segundo o que outros produziram: as ciências e a tecnociências, para crescerem, avançarem na formulação de questões novas de pesquisa e ampliarem os conhecimentos até então produzidos, fazem-no olhando para a empiria, apoiadas nos ombros dos(as) colegas vivos(as) e mortos(as), nunca ficando sentadas e descansando sobre esses ombros, por mais reconfortantes que sejam.

Quinta: atender às demandas dos setores da administração e da gestão da pesquisa e do ensino e enfrentar a morosidade de processos de compra e/ou liberação alfandegária de insumos básicos das atividades de P&D, o que gera perda de insumos e atrasos nos cronogramas dos projetos e colaborações nacionais e internacionais, obrigando o(a) pesquisador(a) a se envolver diretamente em tarefas burocráticas de compras públicas alheias a sua formação educacional com vistas a encontrar soluções que viabilizem o processo de produção de conhecimentos científicos robustos e sua permanência no competitivo mundo internacional das ciências e das tecnociências.

Sexta: organizar e/ou participar de eventos técnico científicos, divulgando o conhecimento produzido e atualizando suas informações sobre o que outros(as) pesquisadores(as) e grupos de pesquisa estão fazendo sobre o(s) seu(s) tema(s) de pesquisa(s).

Sétima: produzir e publicar artigos científicos, capítulos de livros, trabalhos em anais, relatórios de pesquisa, manuais técnicos, organizar livros e números temáticos em revistas, porque um(a) pesquisador(a) improdutivo(a) não é bem-aceito(a) pelos pares e pelas agências de fomento.

Oitava: fazer divulgação científica, por meio da redação de textos escritos em uma linguagem acessível ao grande público, através de publicações de cunho popular, do tipo que é vendido em bancas de jornais a fim de tornar sua pesquisa conhecida, fora do âmbito acadêmico, contribuindo para o cumprimento de uma das grandes promessas da democracia contemporânea: a educação para a cidadania, apoiada em políticas públicas saudáveis no âmbito local, capazes de promover o bem-estar dos cidadãos e lhes dar o instrumental educacional para transformá-los em agentes ativos do processo político e da gestão ambiental, em prol de uma sociedade sustentável.

Nona: participar de processos de avaliação ad hoc de projetos de pedido de financiamento a agências de fomento e formação pós-graduada, obriga- tório para quem tem bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq, e de artigos científicos de revistas e livros de editoras em que fazem parte do comitê editorial ou são convidados para tal.

Décima: participar de reuniões colegiadas de instâncias de gestão e/ou administração da pesquisa científica para não ficar à margem do processo decisório da política científica local e arcar com as consequências negativas de decisões tomadas por terceiros que incidem sobre o andamento e a realização de suas pesquisas.

      Quase todas essas dez atividades precisam ser desenvolvidas com base na integridade ética da pesquisa e do ensino segundo as diretrizes estabelecidas pelas IES e/ou pelas agências de fomento nacionais e internacionais, com a instituição local de comitês de ética na pesquisa observando a adoção ou não dessa prática na metodologia dos projetos de pesquisa.
      Através das atividades desses profissionais, fauna, flora, clima, solo, subsolo, composição físico-química das águas, população humana e não humana, economia etc., tornaram-se mais visíveis com os pesquisadores fixando o foco de suas narrativas na leitura de resultados alfanuméricos alcançados. É o nosso olhar instrumentalizado – para tornar translúcidos os elementos e suas inter-relações que configuram a dinâmica dos modos de existência de todos os entes que percebemos como sendo a natureza – que tem aguçado a nossa consciência da situação em que se encontra a vida na sociedade brasileira e na Terra. Mulheres e homens de ciências e de tecnociências que veem narrando as transformações da sociedade brasileira e da Terra, com base em uma cultura epistêmica transnacionalizada, agem de forma pró-ativa, e em número crescente, ao participarem do debate público que se dá em um conjunto descentrado, plural e complexo de conversações sobrepostas, ocorrendo em múltiplos e divergentes lugares. As ciências e as tecnociências têm contribuído para a realização da importante missão da democracia diante das formas contemporâneas de degradação ambiental: desenhar instituições que capacitem os cidadãos não apenas a se engajarem ativamente, de forma individual e/ou associativa, em questões que afetam suas vidas mas, também, a fazerem julgamentos verossímeis sobre quando e como se manterem combativos ou passivos.

Referência bibliográfica:

MACHADO, C.J.S. Desenvolvimento sustentável para o Antropoceno: um olhar panorâmico. Rio de Janeiro: E-papers, 2014.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Como a fraude em artigos afeta a atividade científica


Contra esses problemas, universidades e publicações científicas contam com poucas armas – como softwares que identificam trechos de outros artigos e a revisão de conteúdo por outros especialistas da área.
          Dois químicos brasileiros foram acusados nesta semana de usar dados fabricados em artigos científicos. Com o caso, a questão da fraude na ciência voltou a ser alvo de discussão no mundo acadêmico brasileiro.
A fabricação de dados, o plágio e a invenção de informações são alguns dos tipos de fraude mais comuns hoje. Contra esses problemas, universidades e publicações científicas contam com poucas armas – como softwares que identificam trechos de outros artigos e a revisão de conteúdo por outros especialistas da área.
          Quando um erro é encontrado após a publicação de um artigo, há dois caminhos possíveis. Um deles é a correção, adotada pelas revistas de ciência em casos considerados de menor gravidade. Já no caso das fraudes, o procedimento mais comum é a retratação (também conhecida como despublicação).
          Embora continuem a constar na base de dados da publicação, artigos despublicados ganham um aviso que informa que o conteúdo “não é confiável”. Quem explica toda dinâmica descrita acima são a linguista Ana Munhoz e a antropóloga Debora Diniz. Elas são autoras do livro “Plágio: palavras escondidas”.
          “A infração ética gera vergonha e desconfiança do pesquisador como alguém cuja contribuição para o conhecimento acadêmico possa ser levada a sério”, explicaram elas por e-mail para EXAME.com.

E depois?
          “A demonstração de uma fraude com dolo, deveria levar à rejeição dos ofensores pela comunidade como um todo, mas isso raramente acontece”, afirmou em entrevista a EXAME.com o bioquímico Sergio Pena. Ele é um dos autores do guia “Rigor e Integridade na Condução da Pesquisa Científica”, da Academia Brasileira de Ciência (ABC).
          A afirmação faz ainda mais sentido quando se considera o caso denunciado na última segunda. Ele envolve o uso de imagens fraudadas num artigo publicado em julho de 2013. Entre os autores desse artigo, está o químico Claudio Airoldi.
          Em 2011, esse mesmo pesquisador foi suspenso por 15 dias pela Unicamp após investigações comprovarem o uso de imagens fraudadas em 11 artigos em que ele aparecia como autor.
          Responsável pela parte experimental desses trabalhos, o cientista Denis Guerra foi demitido da Universidade Federal do Mato Grosso em função do episódio, tido hoje como o maior caso de infração ética da história acadêmica brasileira.
          Ana e Debora destacam que nem todo caso de fraude é necessariamente fruto de má fé. Segundo elas, fatores como preguiça, engano e desinformação podem gerar o problema. “Precisamos de duas coisas: falar e educar”, defendem elas.

Consequências
          As consequências de uma fraude no mundo da ciência são as mais diversas possíveis. Como exemplo, Pena lembra um estudo publicado pelo periódico The Lancet em 1998.
          Nele, os pesquisadores apontavam uma conexão entre a vacina contra o sarampo e o desenvolvimento de autismo. Posteriormente, essa relação foi desmentida e o artigo foi alvo de retratação por parte da publicação.
          Mesmo com todas essas precauções, a informação errada se difundiu nos Estados Unidos. Como resultado, muitos pais deixaram de vacinar seus filhos contra o sarampo. Por fim, isso fez com que microepidemias da doença (antes raras) voltassem a ocorrer naquele país.
          “A confiança é o pilar da atividade de pesquisa”, afirma o guia de ética científica da ABC. Por isso, as fraudes na ciência são tão problemáticas. Quando elas acontecem, quem vira alvo de dúvidas é a própria atividade científica.
(Agência Fapeam, com informações da Exame)

 Leia também:
Exame.com
Químicos brasileiros são acusados de usar dados fabricados


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Carta à revista Veja


Helena B. Nader, presidente da SBPC, envia comentários e esclarecimentos a respeito da reportagem publicada na semana passada, intitulada “Artigos de segunda”

         A presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena B. Nader, enviou carta à revista Veja com comentários e esclarecimentos a respeito da reportagem publicada na semana passada, intitulada “Artigos de segunda”. Como a Veja publicou a carta (na edição que está nas bancas) com cortes que podem comprometer o conteúdo exposto pela presidente da SBPC, reproduzimos neste blog a carta na íntegra.

Leia abaixo:
         A reportagem “Artigos de segunda” (10 de dezembro) poderia ter servido para introduzir um importante assunto na sociedade brasileira: o acesso a informações científicas. Contudo, a revista se mostra desinformada ao tentar passar ao leitor a impressão de que as publicações tradicionais são infalíveis enquanto as do sistema open Access são desqualificadas. Na verdade, ambas têm virtudes e problemas.
         VEJA não disse, mas o rigor da análise prévia por pares não impede erros. A tradicionalíssima Science, por exemplo, precisou se retratar a respeito de artigo em que seus autores relataram terem encontrado uma bactéria em cujo DNA o fósforo (elemento essencial para a vida) era substituído pelo arsênio (normalmente tóxico).
         Dois artigos sobre técnicas para modificar células tronco, publicados na Nature, foram contestados e a revista também precisou se retratar. Várias publicações tradicionais e de renome da área de saúde (PNAS, Lancet Oncology, JAMA, NEJM, Blood, entre outras) tiveram que se retratar por terem publicado 10 artigos de resultados inconsistentes de autoria de um pesquisador da Universidade Duke.
         De fato, há aspectos a serem melhorados em relação às publicações open access, mas na reportagem foram omitidas virtudes reconhecidas desse sistema. A principal delas é exatamente possibilitar o livre acesso a informações científicas – o que sempre foi desejado e que, com a internet, se tornou universalmente possível. Como se trata de um sistema novo (os estudiosos do tema consideram que foi inaugurado em 1993), o open Access ainda está em construção e tem grandes possibilidades de se aperfeiçoar satisfatoriamente e crescer muito num curto espaço de tempo, uma vez que a comunidade científica mundial está atenta às publicações abertas e interessada no seu êxito. Por exemplo, os Prêmios Nobel deste ano em Química, Stephen Hell, e em Física, Shuji Nakamura, têm publicado seus artigos em open access. O Nobel de Medicina do ano passado, Randy Schekman, foi mais além: declarou que seu laboratório deixará de enviar papers para as revistas Nature, Cell e Science, pois, na sua avaliação, elas distorcem o processo científico. Segundo Schekman, a pressão para publicar em revistas de “luxo” estimulou os pesquisadores a cortar custos e buscar campos da moda na ciência, em vez de trabalharem em áreas mais importantes. O brasileiro Arthur Ávila, ganhador da Medalha Fields em 2014, também publica em open access.
         E mais: a Sociedade Europeia de Astronomia, a Sociedade Europeia de Física e a Associação Europeia para Química e Ciências Moleculares estão discutindo a transição para o sistema open access. Já o CERN (Organização Europeia para Pesquisa Nuclear), o mais importante centro de pesquisa na área, já tomou sua decisão. Em comunicado do dia 16 de outubro último, o diretor geral da instituição solicitou a todos seus pesquisadores que publiquem seus papers em revistas open access.
         Se está interessada em discutir as publicações abertas para divulgação científica, VEJA precisa dar informações completas sobre esse sistema a seus leitores. A reportagem publicada foi parcial e tendenciosa – ou seja, não contribuiu em nada para um tema tão importante.

Helena B. Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

SBPC envia carta a deputados contra o ensino do criacionismo em escolas


A entidade quer que permaneça no ensino o princípio da laicidade e liberdade de crença garantidos pela Constituição federal


A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) enviou aos deputados federais uma carta solicitando que o Projeto de Lei 8099/2014, de deputado Marco Feliciano (PSC/SP), que propõe a inserção de conteúdos sobre criacionismo na grade curricular das Redes Pública e Privada de Ensino, e seu apensado ao PL 309/2011, de autoria do mesmo deputado, que “altera o Art. 33 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, para dispor sobre a obrigatoriedade do ensino religioso nas redes públicas de ensino do país”, sejam rejeitados e arquivados. Segundo a SBPC, isso é necessário para se manter o princípio da laicidade e liberdade de crença garantidos pela Constituição federal, bem como o não comprometimento do ensino das Ciências aos alunos.

Veja a carta na íntegra em:


(Ascom SBPC)