sábado, 16 de fevereiro de 2019

Por que 2019 é o ano da tabela periódica



Ela está presente em todos os laboratórios - dos escolares aos mais sofisticados centros de pesquisas científicas do mundo. Estampa livros e apostilas didáticas, pode ser o terror de alunos do Ensino Médio, mas também é um ícone pop. As releituras fazem a alegria de nerds.



A tabela periódica dos elementos químicos ajudou a sistematizar e a organizar o conhecimento científico. (GETTY IMAGES).

          Ela, a Tabela Periódica dos Elementos Químicos, ajudou a sistematizar e a organizar o conhecimento científico e é a homenageada deste ano de 2019 pela Organização das Nações Unidas (ONU).
          A ONU proclamou 2019 como sendo o Ano Internacional da Tabela Periódica, em um esforço simbólico para "aumentar a sua consciência global e a educação em ciências básicas", conforme declarou em comunicado oficial.
          A tabela original reúne os 63 elementos químicos conhecidos, listados em ordem de sua massa atômica e agrupados por suas propriedades físico-químicas.
          O anúncio foi celebrado pela comunidade científica. Quando a ONU tornou pública a decisão, a presidente da União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC, na sigla em inglês), Natalia Tarasova, afirmou que se sentia "satisfeita e honrada" pelo ano de 2019, enfatizando a importância da "comunicação do conhecimento químico em benefício da humanidade".
          A IUPAC emitiu ainda uma nota afirmando que a ONU estava reconhecendo "a importância de aumentar a conscientização global de como a química promove o desenvolvimento sustentável e fornece soluções para desafios globais em energia, educação, agricultura e saúde".

Mendeleev



          A escolha do ano não foi por acaso. Há 150 anos, um cientista russo chamado Dmitri Mendeleev (1834-1907) criou a primeira tentativa de organização dos elementos químicos em um formato semelhante ao atual.
O cientista russo Dmitri Mendeleev foi o primeiro a tentar organizar os elementos químicos há 150 anos.
          Ele foi engenhoso em sua concepção. Primeiro, fez uma cartela para cada um dos então 63 elementos conhecidos - cada qual com seu símbolo, sua massa atômica e suas propriedades físico-químicas. Então as organizou em ordem crescente, conforme suas massas atômicas. Agrupou ainda os elementos com propriedades semelhantes. Nascia sua Tabela Periódica.
          "A genialidade de Mendeleev está em sua longa dedicação e empenho na organização dos elementos. Anteriormente outros pesquisadores já organizavam os elementos segundo alguns critérios de periodicidade, mas foi com Mendeleev que atingimos um determinado ápice nesta organização", analisa o químico Luís Roberto Brudna Holzle, professor da Universidade Federal do Pampa em entrevista à BBC News Brasil.
          As vantagens em relação aos modelos anteriores eram visíveis. A tabela do russo permitia vislumbrar semelhanças e relações, em análises na vertical, na horizontal e na diagonal. Mendeleev foi ainda o primeiro a deixar espaços vazios, prevendo a descoberta de novos elementos.
          "Muitas pessoas criaram tabelas de elementos antes de Mendeleev e alguns perceberam as lacunas possíveis nela. Mas Mendeleev não apenas sugeriu os lugares onde os elementos faltantes poderiam ficar, como também previu suas propriedades", comenta à BBC News Brasil o químico e escritor Mark Lorch, professor de comunicação científica da Universidade de Hull, na Inglaterra.
'Mendeleev também previu com precisão as propriedades químicas e físicas dos elementos ausentes', afirma Lorch
          "Outro ponto fundamental é que ele reconheceu que o peso atômico de um elemento não era o fator importante para descobrir onde ele deveria ser colocado. Em vez disso, Mendeleev priorizou as propriedades do elemento", explica Lorch.
          A biografia de Mendeleev também é fascinante. Ele nasceu na cidade de Tobolsk, na Sibéria, caçula em uma família de 17 irmãos. Seu pai era diretor de escola - mas acabou perdendo o cargo quando ficou cedo, no mesmo ano em que o futuro cientista nasceu. A mãe trabalhava em uma fábrica de cristais que havia sido fundada por seu avô.
          O menino destacava-se na escola. Quando seu pai morreu e um incêndio destruiu a fábrica onde sua mãe trabalhava, ela decidiu usar todas as economias não para reconstruir o patrimônio, mas sim para investir na educação do filho. Mudaram-se então para Moscou e, em seguida, para São Petersburgo - onde Mendeleev cursaria a universidade.
          A organização dos elementos em sua tabela foi feita em 1869 quando ele escrevia um livro de química inorgânica. Ele tinha 35 anos.
          "Mendeleev não apenas tabulou os elementos. Ele notou padrões em suas propriedades e então deixou lacunas para os elementos que ainda não haviam sido descobertos. Ele também previu com precisão as propriedades químicas e físicas dos elementos ausentes", afirma Lorch.
Uma versão da tabela periódica de Mendeleeev, da primeira edição inglesa do seu livro
           "À primeira vista, a tabela de Mendeleev não se parece muito com a que estamos acostumados", completa o professor. "Mas quando você dá uma volta de 90 graus à tabela de Mendeleev, a semelhança com a versão moderna se torna aparente. Por exemplo, os halogênios - flúor (F), cloro (Cl), bromo (Br) e iodo (I)- todos aparecem próximos um do outro."
 Vodca
          Uma história muito atribuída ao químico é de que ele teria sido inventor da fórmula contemporânea da vodca. Segundo a versão, ele teria padronizado em 40% o teor alcoólico do destilado, quando nomeado, pelo governo russo, responsável por definir as regras básicas da produção.
          Essa lenda chegou a ser utilizada até pelo marketing da marca Russian Standard, que chegou a produzir materiais dizendo que "em 1894, Dmitri Mendeleev, o maior cientista de toda a Rússia, recebeu a missão de estabelecer o padrão de qualidade imperial da vodca russa" e que a bebida produzida por eles hoje segue os parâmetros "da mais alta qualidade de vodca russa conforme regras aprovadas pela comissão do governo liderada por Mendeleev".
          Mas não é bem assim. É verdade que o cientista foi o chefe do Arquivo de Pesos e Medidas de São Petersburgo, a partir de 1892, e que capitaneou o órgão em um sua transformação em agência governamental. Contudo, pesquisadores afirmam que tal instituição nunca definiu normas da produção de vodca - mas, sim, zelava pela existência daquela que já existia. A proporção etílica de 40% da bebida foi definida pelo governo russo em 1843 - na época, Mendeleev tinha apenas 9 anos.

Importância da tabela

          Ao organizar de forma clara as informações importantes e facilitar a criação de relações, a Tabela Periódica de Mendeleev contribuiu para os avanços científicos do século 20. E segue contribuindo.
          "O modo mais importante pelo qual a tabela ajuda a desenvolver a ciência é graças à maneira incrivelmente elegante com que ela apresenta uma grande quantidade de informações químicas e físicas", acredita o professor Lorch. "Por isso, é uma ferramenta incrivelmente útil."
          "Para um químico, basta uma olhada na tabela para saber como um elemento pode reagir, se é um bom condutor elétrico, qual sua maleabilidade e muito mais", acrescenta Lorch.
          O químico Holzle compara a tabela de Mendeleev a um quebra-cabeças, em que as peças faltando passaram a servir de pistas para que futuros pesquisadores descobrissem e caracterizassem os demais elementos. "Após preencher tais espaços, a tabela serviu - e ainda serve - como uma espécie de mapa de comunicação", explica.
          "A padronização internacional permite a facilitação na fluência de comunicação entre os químicos de diversas nacionalidades", ressalta o professor. "Além disso, também é útil na área educacional, permitindo a troca de materiais, ideias e criatividade entre professores e estudantes."
          "O desenvolvimento da Tabela Periódica dos Elementos é uma das realizações mais significativas da ciência e um conceito científico unificador, com amplas implicações em astronomia, química, física, biologia e outras ciências naturais", enfatiza o comunicado da IUPAC. "É uma ferramenta única que permite aos cientistas prever a aparência e as propriedades na matéria na Terra e no Universo."
          "Elementos químicos desempenham um papel fundamental em nossas vidas diárias e são cruciais para a humanidade", afirma a instituição.
          Embora a ONU tenha definido que todo o ano de 2019 será em homenagem à Tabela Periódica, sem delimitar uma data exata, algumas são possíveis de ser consideradas. Conforme lembra o professor Lorch, convencionou-se reservar ao 7 de fevereiro o Dia da Tabela Periódica. "É porque foi nesta data, em 1863, que o químico inglês John Newlands publicou uma tabela de elementos baseada naquilo que ele chamou de 'lei das oitavas'", conta.
          Um dos tantos precursores da Tabela Periódica, Newlands, que viveu entre 1837 e 1898, propôs uma classificação em que fez uma analogia às oitavas da música - em seu caso, cada elemento químico foi organizado de modo a ter um comportamento semelhante ao oitavo seguinte da tabela.
          "Uma alternativa seria celebrar o 6 de março", sugere Lorch. "Afinal, foi nesta data, em 1869, que Mendeleev apresentou sua tabela para a Sociedade Química Russa."

Descobertas recentes


          Em termos de design, a Tabela Periódica contemporânea é uma evolução a partir do conceito de Mendeleev. Não foi uma criação estanque.
Tabela periódica em formato de linha de metrô, concebida pelo professor Mark Lorch (tabelaperiodica.org)

          "A genialidade de Mendeleev estava no que ele deixou de fora de sua tabela. Ele reconheceu que certos elementos estavam faltando, ainda a serem descobertos. Então, onde outros se limitaram a publicaram o que era conhecido, Mendeleev deixou espaço para o desconhecido", pontua Lorch. "Ainda mais surpreendente, ele previu com precisão as propriedades dos elementos que faltavam."
          "Os quatro elementos mais recentes da Tabela Periódica, os 113, 115, 117 e 118, foram totalmente adicionados à Tabela Periódica, com a aprovação de seus nomes e símbolos, em 28 de novembro de 2016", informa a IUPAC.
          Nihônio (Nh), moscóvio (Mc), tennessino (Ts) e oganessono (Og) estão na sétima linha da tabela e são elementos que não existem na natureza. Foram criados por aceleradores de partículas a partir de colisões de elementos menores. Seus átomos sobrevivem por apenas frações de segundo. Nihônio foi criado três vezes por cientistas japoneses entre 2004 e 2012. Um grupo de pesquisadores americanos e russos produziram moscóvio, tennessino e oganessono.
          Outras versões da Tabela Periódica vez por outra são propostas. Professor Lorch fez uma tabela periódica inspirada naquele estilo tradicional de mapas de metrô. No site TabelaPeriodica.org, o professor Holzle disponibiliza uma curiosa versão em códigos QR – basta apontar o celular para cada elemento para obter as informações completas sobre o mesmo.

Celebre as mulheres por trás da tabela periódica


Reportagem da Nature destaca pesquisadoras do sexo feminino que descobriram elementos e suas propriedades

A história de como dezenas de elementos foram reunidos e confinados em uma tabela periódica ultrapassa uma pessoa e um ponto no tempo. Os cientistas classificaram e previram elementos antes e depois da estrutura de 1869 de Dmitri Mendeleev. E muitos mais trabalharam para encontrar e explicar essas novas substâncias. Gases nobres, radioatividade, isótopos, partículas subatômicas e mecânica quântica eram todos desconhecidos em meados do século XIX.
Aqui destacamos algumas das mulheres que revolucionaram nossa compreensão sobre os elementos. Marie Curie é a mais célebre, por sua dupla conquista do prêmio Nobel com suas pesquisas sobre radioatividade e pela descoberta do polônio e do rádio. Histórias sobre os papéis de outras mulheres são escassas. Assim também é a apreciação das habilidades necessárias, incluindo tenacidade e diligência, na realização de experimentos, analisando dados e reavaliando teorias.
Provar a descoberta de um novo elemento é difícil. O primeiro passo é encontrar uma atividade incomum – comportamento químico ou propriedades físicas que não podem ser atribuídas a elementos conhecidos, como emissões radioativas ou linhas espectroscópicas inexplicadas. Então, o elemento, ou seu composto, deve ser isolado em quantidades suficientes para que seja pesado, testado e usado para convencer os outros.
Pesquisar e classificar
Marie Curie não procurava elementos quando começou seu doutorado em “raios de urânio”, em 1897. Ela queria explorar a radioatividade, que havia sido descoberta por Henri Becquerel, em 1896. E se deparou com a pechblenda, um minério com radioatividade que era forte demais para ser explicado apenas pelo urânio. Ela suspeitou da presença de outros elementos e trouxe o marido, Pierre, para ajudar.
Em 1898, eles identificaram linhas espectroscópicas de dois novos elementos – rádio e polônio. No entanto, levaram mais de três anos para moer, dissolver, ferver, filtrar e cristalizar toneladas do mineral para extrair apenas 0,1 grama de composto de rádio. (Eles lutaram para fazer o mesmo pelo polônio por causa de sua curta meia-vida.) Prêmios Nobel seguiram as descobertas – o primeiro compartilhado pelo casal e Becquerel em 1903, por descobrir a radioatividade; o segundo por Marie sozinha, em 1911, pelas descobertas de polônio e rádio e pelo isolamento e estudo do rádio.
Posicionar um elemento na tabela periódica requer o estabelecimento de seu peso atômico e propriedades químicas. Por exemplo, o rádio se comporta muito como o bário e tem um peso atômico maior, então ele se encaixa logo abaixo do bário na tabela periódica. Determinar pesos atômicos é difícil porque exige substâncias puras.
Elementos de peso e caráter semelhantes são difíceis de distinguir. Logo depois de Mendeleev preparar sua tabela, a química russa Julia Lermontova aceitou o desafio – provavelmente a pedido de Mendeleev – de refinar os processos de separação dos metais do grupo da platina (rutênio, ródio, paládio, ósmio, irídio e platina). Este foi um pré-requisito para o próximo passo de colocá-los em ordem. O único relato de seu trabalho (até onde sabemos) está nos arquivos de Mendeleev, junto com a correspondência deles. Lermontova estudou química em Heidelberg, na Alemanha, sob orientação de Robert Bunsen (que descobriu o césio e rubídio em 1860 com Gustav Kirchhoff, usando seu espectroscópio recém-inventado), e foi a primeira mulher a obter um doutorado em química na Alemanha, em 1874.
A garantia de valores para pesos atômicos também foi crucial para trabalhar séries de decaimento radioativo e para distinguir novos elementos e versões desconhecidas dos existentes – isótopos. Isso resolveu o problema de aparentemente muitos novos elementos estarem surgindo, mas apenas algumas lacunas foram deixadas na tabela periódica. Embora o químico britânico Frederick Soddy tenha introduzido o conceito de isótopos em 1913, foi a médica Margaret Todd que sugeriu o termo (que significa “mesmo lugar” em grego) em um jantar.
Provas experimentais de isótopos foram logo fornecidas por Stefanie Horovitz, uma química polonesa-judia. Trabalhando no Radium Institute, em Viena, ela mostrou que mesmo um elemento comum, como o chumbo, pode ter diferentes pesos atômicos, dependendo se deriva do decaimento radioativo do urânio ou do tório.
Outro problema era a natureza de uma curiosa “emanação” do rádio. Seria uma partícula ou um gás? A estudante de física canadense Harriet Brooks resolveu o problema com seu supervisor Ernest Rutherford, da McGill University, em Montreal, Canadá. Em 1901, Brooks e Rutherford mostraram que a emanação difundia-se como um gás pesado, fornecendo a primeira evidência de que um novo elemento poderia ser produzido durante o decaimento radioativo. Em 1907, William Ramsay sugeriu que o gás, mais tarde chamado de radônio, pertencia ao “grupo de elementos de hélio” – agora chamado de gases nobres.
Em 1902, Rutherford e Soddy anunciaram sua teoria da desintegração radioativa: os átomos decaem espontaneamente em novos átomos enquanto emitem raios. Rutherford foi agraciado com o Prêmio Nobel de Química em 1908 por suas investigações; a contribuição do radônio de Brooks foi um primeiro passo crucial. Ela raramente é creditada. Embora o primeiro artigo fosse de autoria de Brooks e Rutherford, o seguinte na Nature continha apenas o nome de Rutherford – com uma linha de crédito que Brooks lhe ajudou. Como mulher, Brooks achava difícil conseguir posições permanentes (especialmente depois de casada) e buscar uma linha de pesquisa constante.
Aprofundando no assunto
Insights sobre a física do núcleo atômico continuaram a surgir. Em 1917-18, a física Lise Meitner e o químico Otto Hahn descobriram o elemento 91, o protactínio, em Berlim. Meitner era austríaca e tinha ido para a Alemanha depois de seu doutorado para melhorar suas oportunidades de carreira. Em 1907, ela foi admitida como colaboradora não remunerada de Hahn no departamento de química da Universidade de Berlim. Ela teve que trabalhar no porão – as mulheres não deveriam ser vistas. Em 1913, depois de Hahn ter se mudado para o Instituto Kaiser-Wilhelm de Química em Berlin-Dahlem, ela se tornou uma “associada” do instituto.
Hahn e Meitner descobriram o protactínio enquanto procuravam a “substância mãe” do actínio na série de decaimento radioativo. Eles faziam parte de uma corrida mais ampla para encontrar o elemento, e as disputas de prioridade inevitavelmente se seguiam. A descoberta da dupla acabou sendo reconhecida como a primeira porque Meitner e Hahn haviam coletado mais substância e a caracterizaram mais completamente do que seus concorrentes.
Outro elemento, o número 75 – rênio – foi descoberto em 1925 pelos químicos alemães Ida Noddack e seu marido Walter Noddack, em Berlim, juntamente com Otto Berg, na empresa de engenharia elétrica Siemens–Halske (posteriormente parte da firma Siemens). Ida Noddack, cujo sobrenome de solteira era Tacke, era engenheira química e deixou a indústria para caçar elementos perdidos. Em 1925, ela começou como pesquisadora não remunerada do Physikalisch-Technische Reichsanstalt (Instituto Imperial Físico e Técnico) em Berlim, onde Walter dirigiu o laboratório de química. Os Noddacks lutaram para produzir quantidades ponderáveis ​​de rênio, que receberam o nome do Reno; é um dos elementos mais raros da Terra e não é radioativo.
Os Noddacks também alegaram ter encontrado o elemento 43, que chamaram de masúrio (como a região da Masúria, agora na Polônia). Mas nunca conseguiram reproduzir suas linhas espectrais ou isolar o material. De fato, usar técnicas de “química úmida” para esse elemento era impossível. Em 1937, o elemento 43 tornou-se o primeiro a ser produzido artificialmente, chamado tecnécio.
Diferente de Marie Curie, que foi reconhecida por direito e assumiu a cadeira de Pierre na Universidade de Paris após sua morte, Ida Noddack trabalhou como convidada no laboratório do marido durante a maior parte de sua vida. Essa foi uma das razões pelas quais ela não foi levada a sério quando, em 1934, sugeriu que o núcleo poderia se dividir, um processo que agora chamamos de fissão.
As descobertas do nêutron em 1932 e da radioatividade induzida em 1934 abriram uma nova linha de pesquisa – fabricando elementos no laboratório por meio do bombardeamento de átomos com partículas. Em 1934, o físico Enrico Fermi e seus colegas da Universidade de Roma anunciaram que haviam produzido os elementos 93 e 94, disparando nêutrons no urânio. Ida Noddack apontou em um artigo na Angewandte Chemie que Fermi falhou ao mostrar que nenhum outro elemento químico, incluindo os mais leves, havia sido produzido. “É concebível”, argumentou ela, “que o núcleo se separe em vários fragmentos grandes.” Os físicos a ignoraram.
Então, em 1938, Meitner e Hahn perceberam que um dos elementos que Fermi havia produzido era o bário, e que o núcleo de urânio havia de fato se partido. Naquela época, no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, Meitner, sendo judia, havia fugido para a Suécia. Embora fossem seus cálculos que convenceram Hahn de que o núcleo havia se partido, ele não incluiu o nome de Meitner na publicação de 1939 sobre o resultado, nem estabeleceu o registro correto quando aceitou o Nobel de Química de 1944 em 1945.
A maioria dessas pioneiras trabalhou com colaboradores do sexo masculino e é difícil separar suas contribuições. Marguerite Perey é uma exceção: a física francesa é considerada a única descobridora do elemento 87, frâncio, em 1939. Perey ingressou no Instituto Marie Curie em Paris aos 19 anos, como técnica de laboratório, sob a direção de Irène Joliot-Curie e André. Debierne. Ambos independentemente pediram a ela para fornecer um valor preciso para a meia-vida do isótopo actínio-227, um procedimento técnico delicado durante o qual ela identificou o novo elemento. Como os dois não podiam concordar com quem Perey estava trabalhando na época, nenhum deles conseguiu reivindicar um papel na descoberta. Perey passou a liderar o departamento de química nuclear na Universidade de Estrasburgo e, em 1962, tornou-se a primeira mulher a ser eleita para a Academia Francesa de Ciências – como membro correspondente. (Embora não houvesse nenhuma regra contra a admissão de mulheres, o primeiro membro pleno do sexo feminino não foi eleito até 1979).
O frâncio foi o último elemento a ser descoberto na natureza. Hoje, uma descoberta como essa exige grandes equipes com aceleradores de partículas e grandes orçamentos. O significado de um elemento químico mudou, do conceito de Mendeleiev de uma substância estável e intransponível para espécies isotópicas que existem por apenas milissegundos.
Usando essas técnicas, a química americana Darleane Hoffman deu um salto monumental no início dos anos 70. Ela mostrou que o isótopo férmio-257 podia se dividir espontaneamente – não só depois de ser bombardeado com nêutrons. Primeira mulher a liderar uma divisão científica no Laboratório Nacional Los Alamos, no Novo México, Hoffman também descobriu o plutônio-244 na natureza. Ela treinou gerações de mulheres cientistas. Uma delas é Dawn Shaughnessy, agora principal pesquisadora do projeto de elementos pesados (e vários outros) no Laboratório Nacional Lawrence Livermore, na Califórnia, que ajudou a descobrir seis novos elementos (números 113-118).
Usando elementos
Muito mais mulheres expandiram nosso conhecimento de elementos. Depois que o químico francês Henri Moissan isolou o flúor em 1886, uma equipe de mulheres (notavelmente Carmen Brugger Romaní e Trinidad Salinas Ferrer) trabalhou com José Casares Gil na Universidade de Madri na década de 1920 e início dos anos 30 para estudar seus efeitos sobre a saúde e presença em águas minerais. Quando tiveram que abandonar a pesquisa após a guerra civil espanhola de 1936-39, seus trabalhos caíram na bibliografia de Casares.
A química Reatha Clark King foi a primeira cientista feminina afro-americana a trabalhar no National Bureau of Standards, em Washington DC. Na década de 1960, ela estudou a combustão de misturas gasosas de flúor, oxigênio e hidrogênio: a alta reatividade do flúor deu-lhe um potencial uso em propulsores de foguete. Algumas misturas eram tão explosivas que exigiam aparelhos e técnicas especiais, que ela criou e a NASA adotou.
Na década de 1910, a médica e pesquisadora norte-americana Alice Hamilton comprovou a toxicidade do chumbo e seus malefícios para o público e para os metalúrgicos. Ela forçou seguradoras e fabricantes a tomar medidas de segurança e compensar os afetados. E também organizou ações sociais para reconhecer doenças relacionadas ao trabalho para pessoas que trabalham com outros metais pesados, como o mercúrio. Em 1919, Hamilton se tornou a primeira mulher indicada para o corpo docente da Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts. Ela se manifestou contra a introdução de chumbo na gasolina já em 1925.
A técnica nipo-americana Toshiko “Tosh” Mayeda dominou a medição de radioisótopos de oxigênio nos anos 50. Apontada para lavar instrumentos de vidro no laboratório de Harold C. Urey, na Universidade de Chicago, Illinois, ela logo foi encarregada dos espectrômetros de massa. Ela ajudou a medir a proporção de isótopos de oxigênio em conchas fossilizadas para deduzir as temperaturas dos oceanos pré-históricos e expandiu esse método para os meteoritos.
Como todos os americanos descendentes de japoneses, Mayeda foi enviada para campos de concentração nos EUA depois que Pearl Harbor foi atacada, em 7 de dezembro de 1941, e enfrentou discriminação. Com apenas um diploma de bacharel em química, ela poderia ter sido uma das muitas mulheres técnicas que permaneceram invisíveis enquanto faziam contribuições cruciais. Felizmente, Mayeda foi apoiada por seus superiores, e seu nome apareceu em publicações em pé de igualdade com os titulares de doutores e cátedras.
Imagem mais ampla
Tal como acontece com as próprias descobertas, trazer esses contos de mulheres cientistas à luz levou muito trabalho em equipe, incluindo os colaboradores Gisela Boeck, John Hudson, Claire Murray, Jessica Wade, Maria Mark Ockerbloom, Raymond-Canham Marelene, Geoffrey Rayner-Canham, Xavier Roqué Matt Shindell e Ignacio Suay-Matallana.
Rastrear mulheres na história da química revela uma imagem mais completa de todas as pessoas que trabalham com descobertas científicas, de assistentes e técnicos não remunerados a líderes de grandes laboratórios. Neste ano comemorativo da tabela periódica, é crucial reconhecer como ela foi construída – e continua sendo moldada – por esses esforços individuais e amplas colaborações.
Nature, tradução Jornal da Ciência


domingo, 24 de junho de 2018

100 anos da IUPAC




O centenário será comemorado de 5 a 12 de julho de 2019 com a realização da 50ª Assembleia Geral da instituição e do 47º Congresso Mundial de Química em Paris

         O ano de 2019 será muito especial para a International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC), com a realização da 50ª Assembleia Geral da instituição e a realização do 47º Congresso Mundial de Química, eventos que integrarão as comemorações do 100º Aniversário da IUPAC que ocorrerá entre os dias 5 e 12 de julho, tendo como palco o Palácio dos Congressos localizado na capital francesa – Paris.
         O tema do congresso será Frontiers in Chemistry – Let’s Create our Future: 100 Years with IUPAC. Além de reconhecer os sucessos dos primeiros cem anos da IUPAC, seu objetivo não é limitar-se ao passado, mas sim olhar para o futuro dessa comunidade internacional de químicos que podem continuar a contribuir agora e no futuro para atender às necessidades do mundo, através da pesquisa química.
         Entre os participantes está o professor e pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP Adriano Andricopulo, como membro do International Advisory Board do evento, único representante da América Latina e que vai dividir responsabilidades com grandes nomes da ciência mundial, entre eles cinco laureados com o Prêmio Nobel da Química: Yuan T. Lee (1986), Ryoji Noyori (2001), Kurt Wütrich (2002), Gerhard Ertl (2007) e Dan Shechtman (2011).
         As inscrições para este evento abrirão no mês de setembro do corrente ano (2018), sendo que a submissão de trabalhos se iniciará em outubro deste ano e cujas datas serão anunciadas brevemente.
         Para conferir o programa científico deste evento, clique AQUI.
         Para obter mais informações, clique AQUI e AQUI.
Jornal da Ciência, com informações da USP e CIBFar


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Arte e Ciência: ligações necessárias



THELMA LOPES*

         Arte e Ciência, hoje, podem parecer duas áreas distantes e antagônicas, mas a relação entre as duas, que se subdividem em outras, nem sempre foi de distância. Pintores renascentistas aplicavam princípios matemáticos para conferir ilusão de volume e proporção às imagens, visando retratar a natureza realisticamente. Os médicos, por sua vez, recorriam aos artistas, que, ao registrarem dissecações, como Rembrandt, em “Lição de anatomia”, documentavam o corpo humano gerando fontes de estudo inéditas. Já Escher utilizou a geometria para criar realidade à parte: infinita e fantasiosa. Quando o paradigma dominante passou a ser o científico, Arte e Ciência foram afastadas, especializando métodos, processos e linguagens. Um vocabulário relacionado à Ciência foi incorporado ao cotidiano, por diferentes setores da sociedade, de forma indiscriminada, por vezes deturpada, e outras com fins mercadológicos. O caráter utilitário da Ciência e a concretude do progresso tecnológico contribuíram para que a última passasse a ser encarada como algo inconteste. Como duvidar do “cientificamente comprovado”? Não se trata de dispensar ou banalizar a Ciência, o que por si só seria uma ingenuidade nos dias atuais, face ao consenso generalizado de sua autoridade no âmbito social, a despeito das críticas a tal status dentro da própria Ciência e dos recentes retrocessos.
         Não, a Terra não é plana! Trata-se de legitimar outros saberes. Enquanto Einstein revolucionava a Física e apresentava nova forma de interpretar tempo e espaço, Michel Proust desfigurava o tempo e fazia dele o grande protagonista de sua densa obra “Em busca do tempo perdido”. Se Einstein desvelava que o tempo não era absoluto, como postulou Newton, revelando assim um amplo universo de possibilidades temporais, paralelamente, o autor francês demonstrava como o tempo é relativo e quantos universos podem caber em um adocicado pedaço de madeleine. Proust relacionou tempo, memória e afetos. Estudos posteriores comprovaram que olfato e paladar são os únicos sentidos que se ligam diretamente ao hipocampo, o centro da memória. O escritor pressentiu tais ligações e explorou cheiro e gosto do típico bolo francês para reviver sua infância. Proust se antecipou à Ciência. E foi além. Ao falar de uma memória na qual selecionamos aquilo que gostaríamos de recordar para embelezar nossas lembranças, o autor sublinha a importância do esquecimento. Daí a ideia proustiana de que só se vive plenamente na memória. Não fosse a capacidade de esquecer, como poderíamos seguir adiante depois que um grande amor se vai? Como ser feliz sem saber esquecer as dores do corpo e da alma? Manter a memória viva é tão importante quanto saber esquecer: isso também nos diz Proust.
         Embora haja longo caminho a percorrer são crescentes as iniciativas de reconciliação entre Arte e Ciência. No Brasil e exterior, como na prestigiada Universidade de Harvard. Destaca-se a criação do termo “ArtScience”, que ao aglutinar os dois campos nos convida a novas interpretações. No entanto, ainda é preciso fortalecer o entrelaçamento de saberes, principalmente em contextos como o nosso.  O Brasil é um país onde o abismo social é profundo. E desse fosso, que também é cultural, emergem desigualdades que repercutem uma sociedade violenta, injusta, árida de delicadezas e que fazem o belo e a estética parecerem artigos de luxo. Mas a Arte é necessidade primária do ser humano na produção e registro do conhecimento, como as pinturas rupestres, por exemplo. Fruto e expressão dos tempos originais, deixaram legado inestimável sobre uma das questões mais inquietantes: de onde viemos? Tal qual a Ciência, a Arte é forma de ver, antever e inscrever. É meio indispensável para enxergar soluções em um ambiente cada vez mais complexo, hostil e conflitante. Alimentar a falsa incomunicabilidade entre elas, mais que um equívoco, é contribuir para uma sociedade desigual, na qual não se reconhece na pluralidade do conhecimento, poderoso aliado para leitura plena de um mundo tão diverso, rico de significados e cambiante.
*Artista profissional, mestre em Teatro e doutora em Ciência.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A Capela da Ciência é Notícia nas Mídias Digitais



         O JC Notícias, boletim de Divulgação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e o Nossa Ciência publicaram em suas páginas eletrônicas a lista dos principais equipamentos de divulgação científica existentes na América Latina, dentre estes está a Capela da Ciência.

Ceará da ciência
SCIARÁ

Nossa Ciência, quarta-feira, 24 janeiro 2018.

O lema da Seara da Ciência é "proibido não mexer", um incentivo à curiosidade e à interação dos visitantes com o espaço. (Foto: Giselle Soares)
Estado do Ceará concentra o maior número de museus e centros de ciências acessíveis do Nordeste
Em dezembro de 2017, a Fundação Cecierj, a RedPOP e a Fiocruz lançaram o primeiro Guia de Museus e Centros de Ciências Acessíveis da América Latina e do Caribe. A publicação contabilizou 110 espaços científico-culturais que se dedicam à popularização da ciência e tecnologia de dez países da América Latina e do Caribe. Desses, 69 localizam-se no Brasil, sendo 14 no Nordeste. O Ceará tem quatro espaços citados na lista: Planetário de Sobral, Museu do Eclipse, Capela da Ciência e Seara da Ciência.
Para a pesquisa foi feito um levantamento com mais de 400 espaços, que responderam a um questionário on-line com perguntas abertas e fechadas sobre acessibilidade física, do local e do entorno, visual, auditiva e intelectual.
Museus acessíveis

A Seara da Ciência é o espaço de divulgação científica e tecnológica da Universidade Federal do Ceará. Fundada em 1999, por um grupo de professores da UFC, a Seara visa estimular a curiosidade por ciência, cultura e tecnologia através de conexões com a vida cotidiana e da interdisciplinaridade. Entre as ações desenvolvidas, destacam-se as visitas ao salão de exposições, os cursos básicos, cursos de férias, peças teatrais e vídeos de divulgação científica.
Museu do Eclipse e Planetário de Sobral. (Foto: Divulgação)
Localizada em Sobral, a Capela da Ciência é um equipamento de difusão e popularização de ciência e tecnologia ligado à Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). A instituição organiza oficinas para professores de Ciências Naturais das escolas públicas de Sobral e região norte do Ceará e desenvolve kits de experimentos direcionados ao aprendizado de assuntos teóricos ensinados nas disciplinas de Biologia, Física e Química.
O Museu do Eclipse também está localizado em Sobral, cidade onde foram feitas observações da expedição britânica durante o eclipse solar de 1919, fundamentais para a comprovação da Teoria Geral da Relatividade, de Albert Einstein. O museu foi fundado em 1999, pela Prefeitura Municipal de Sobral, para celebrar os 80 anos da expedição. A exposição permanente inclui painéis contendo mapas e fotos de Sobral na época do eclipse, dos integrantes das expedições brasileira e estrangeira que estiveram na cidade e instrumentos utilizados pelos cientistas.
O Planetário de Sobral permite uma observação simulada do céu de qualquer região da Terra. Localiza-se na Praça Osvaldo Rangel, no Centro de Sobral.

Para conhecer a lista completa de museus e centros de ciência acessíveis, clique aqui 
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Giselle Soares


Quem são os melhores cientistas do Brasil?


Publicação de um ranking espanhol mostra como é difícil (e muitas vezes injusto) comparar a qualidade de pesquisadores por uma única métrica

Herton Escobar, 29 Março 2015. (http://ciencia.estadao.com.br/blogs/herton-escobar/)

Símbolo do experimento ATLAS, do Large Hadron Collider (LHC), do qual participam vários físicos brasileiros. Crédito: ATLAS Experiment.

Quem são os melhores cientistas do Brasil?
Várias vezes já me desafiei a fazer uma reportagem sobre essa pergunta, mas nunca consegui chegar a uma resposta justa para ela.
Essa percepção foi reforçada nos últimos dias pela divulgação de um ranking de cientistas brasileiros preparado pelo Cybermetrics Lab, da Espanha, com base em informações do Google Scholar. A lista, com quase 3 mil nomes, é organizada em ordem decrescente pelo “índice H”, uma espécie de nota usada para medir o grau de impacto da produção científica de um pesquisador. Por exemplo: se um cientista tem índice H 10, isso significa que ele tem pelo menos 10 trabalhos publicados com 10 ou mais citações cada. Um índice H alto, portanto, indica que o pesquisador não só tem muitos trabalhos publicados, mas que vários desses trabalhos são de alto impacto (com muitas citações).
         O primeiro problema com o ranking do Cybermetrics é que ele contém um erro logo no início. O primeiro nome que aparece na lista  (supostamente o cientista com maior fator H do Brasil) é João Santana da Silva, da Universidade de São Paulo (USP), com índice H 99. Como não reconheci o pesquisador, resolvi fazer uma busca para saber mais sobre ele.
O que encontrei foi uma grande confusão: O perfil do Google Scholar no qual o ranking se baseou identifica João Santana da Silva como imunologista da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, mas as publicações atribuídas a ele são todas da área de física de partículas, ligadas à descoberta do bóson de Higgs no Large Hadron Collider (LHC) — aquele acelerador de partículas gigante na Europa. “Um imunologista que faz pesquisas no LHC? Alguma coisa está errada”, pensei.
O próximo passo foi consultar a plataforma Lattes do CNPq: De fato, há um pesquisador chamado João Santana da Silva na FMRP USP (http://goo.gl/mtImJe), extremamente competente, com bolsa de produtividade 1A e índice H 37. Mas ele é bioquímico, trabalha com resposta imune a infecções parasitárias, e não tem nada a ver com as pesquisas que são feitas no LHC. Os trabalhos de física nuclear que aparecem no seu perfil do Google Scholar aparentemente pertencem a um outro “J. Silva”, do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), de Lisboa, em Portugal.
Ou seja: o Google Scholar, aparentemente, criou um “perfil frankenstein”, com cabeça de bioquímico brasileiro e corpo de físico português. O mesmo parece ter ocorrido com o número 8 da lista, G. S. Oliveira Junior, que é um anestesista formado pela Universidade Federal da Bahia, mas aparece no Google Scholar com o mesmo currículo de físico nuclear ligado ao LHC.

Entrei em contato por e-mail com um dos autores responsáveis pelo ranking, Isidro Aguillo, no sábado (28). Ele concordou que as informações no Google Scholar estavam incorretas e disse que a lista seria corrigida o mais rápido possível.


Registro de uma colisão de prótons no experimento ATLAS. Crédito: ATLAS Experiment
Dito isso, voltemos à argumentação do início deste artigo:
Mesmo que a lista estivesse correta, ela não poderia, de maneira nenhuma, ser vista como um ranking dos “melhores” cientistas do Brasil. É um ranking de índice H, e ponto.
         Afinal, o que significa ser “melhor”? Todos os dez primeiros colocados no ranking (já excluindo Silva e Oliveira Junior) são físicos — vários deles, de fato, físicos de partículas ligados aos experimentos do LHC, que levaram à descoberta do bóson de Higgs. Ok, mas o fato de eles terem o índice H mais alto significa que eles são os “melhores” cientistas do Brasil? Claro que não. Significa que eles são excelentes cientistas, sem dúvida.
O Brasil, felizmente, apesar de todas as dificuldades, tem cientistas de altíssima competência em diversas áreas: física, química, biologia, medicina, agronomia, etc. E não há nenhuma “métrica universal” que permita comparar a qualidade de todos eles numa tacada só.
         O índice H é um indicador valioso, mas que deve ser avaliado com pesos diferentes para cada área do conhecimento, pois seu impacto varia de acordo com o número de pesquisadores e de publicações que se dedicam ao estudo de um determinado tema. Por exemplo: o número de cientistas que trabalham com ecologia de formigas é muito menor do que o de pesquisadores que trabalham com física nuclear. Assim, mesmo o melhor especialista em formigas do mundo nunca vai ter um fator H tão alto quanto o de um físico que trabalha com partículas elementares, porque um trabalho sobre formigas (por mais pioneiro e revolucionário que seja) nunca vai ter um número tão grande de citações quanto o de um trabalho sobre a matéria-prima do universo.
Então, quem é “melhor cientista”, o físico com um índice H 90 ou o ecólogo com um índice H 20? Nem um nem outro. Ambos podem ser igualmente os melhores cientistas em suas respectivas áreas de pesquisa. Não dá para comparar a competência de um e outro com uma mesma régua. Seria como determinar quem é o “melhor jogador” de um time de futebol baseando-se apenas no número de gols marcados, sem levar em conta as diferentes funções e características de cada posição.
E não é só isso… Há muitas outras diferenças e detalhes que precisam ser levados em conta nesse tipo de comparação. Um cientista que não publica tantos trabalhos, mas que orienta muitos alunos e forma grandes pesquisadores para o futuro pode estar contribuindo para a ciência brasileira de forma mais significativa do que alguém que publica um trabalho por mês, mas não orienta ninguém. Assim como alguém que publica um trabalho de grande impacto por ano pode ser um pesquisador muito “melhor” do que alguém que publica um trabalho de baixo impacto por mês. E o que vale mais: ser colaborador num grande projeto internacional ou capitanear um projeto de pesquisa básica para atender a alguma demanda científica local? Tudo isso é importante e precisa ser valorizado.

Diferenciar um bom cientista de um mau cientista é fácil. Ranquear aqueles que são bons é muito mais difícil. Talvez impossível.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Inventores da Técnica de Microscopia Crio-eletrônica ganham o Prêmio Nobel de Química de 2017


Jacques Dubochet, Joachim Frank e Richard Henderson foram agraciados por terem desenvolvido a técnica que permite visões sem precedentes de biomoléculas importantes.
Por Stu Broman, C&EN, October, 04 2017.

Chamada algumas vezes de "blobologia" devido às limitações de resolução, a microscopia crio-eletrônica agora pode revelar proteínas como a glutamato desidrogenase com resolução atômica. O maior responsável pelas melhorias de resolução foi a nova tecnologia de detectores introduzida em 2013.
Crédito: Martin Högbom / The Royal Swedish Academy©


            O Prêmio Nobel de Química de 2017 foi concedido a Jacques Dubochet da Universidade de Lausanne; Joachim Frank da Columbia University e Richard Henderson do Laboratório de Biologia Molecular MRC, em Cambridge. Receberão o prêmio "pelo desenvolvimento da microscopia crio-eletrônica (crio-EM) para a determinação de estruturas, em alta resolução, de biomoléculas em solução”. Os cientistas dividirão um prêmio de aproximadamente US$ 1,11 milhão de dólares americanos.
            Na cryo-EM, um feixe de elétrons é passada através de uma amostra molecular que foi congelada, geralmente com etano líquido. O material desvia os elétrons de forma a permitir que os pesquisadores determinem a estrutura da amostra. Os feixes de elétrons danificam fisicamente as biomoléculas, mas congelando-as, a parte "cryo" do cryo-EM, protege-as do dano eletrônico e também evita que elas se desidratem na câmara de vácuo do microscópio eletrônico.

Dubochet, Frank e Henderson
           
As estruturas obtidas a partir da crio-EM e outras técnicas estruturais são de fundamental importância para a compreensão da química da vida e ajudam os cientistas a desenvolver novos fármacos, explicando a maneira como estes interagem com as biomoléculas.
            "As proteínas estão em todos os seres vivos – humanos, plantas, animais, bactérias", diz Allison A. Campbell, presidente da American Chemical Society. O prêmio de hoje "destaca o papel que a química desempenha em todos os aspectos de nossas vidas. Dos medicamentos que ingerimos às plantas que cultivamos, a compreensão das proteínas – e a química dessas proteínas – é fundamental".
            Tradicionalmente, os cientistas sempre utilizaram a cristalografia de raios-X e a espectroscopia de ressonância magnética nuclear (RMN) para obtenção das estruturas biomoleculares. A Cryo-EM, no entanto, pode resolver algumas estruturas de cristalografia que a RMN não resolve. Por exemplo, elimina a necessidade de cristalizar as biomoléculas, necessárias na cristalografia de raios X e pode ser extremamente difícil de realizar em alguns casos.
            A Cryo-EM também pode lidar com estruturas muito maiores do que é possível com a RMN ou mesmo com cristalografia de raios-X: a especialista em Cryo-EM, Sarah Butcher da Universidade de Helsinque estima que a técnica pode analisar estruturalmente objetos 100 vezes maiores do que a cristalografia pode manipular, incluindo vírus inteiros e até células congeladas. Isso torna "muito, muito mais adaptável a muitos tipos diferentes de questões biológicas do que a RMN ou a cristalografia de raios-X", diz ela.
            Henderson estabeleceu as bases para a cryo-EM quando, em 1975, quando usou a microscopia eletrônica para determinar um modelo tridimensional da bacteriorodopsina, com a média das imagens múltiplas obtidas com feixes fracos de elétrons. Este estudo mostrou que o microscópio eletrônico poderia obter imagens tão detalhadas quanto às obtidas pela cristalografia de raios-X, que era uma técnica inerentemente de maior resolução naquela época. Durante a próxima década, Frank, então no Departamento de Saúde do Estado de Nova York, desenvolveu tecnologia de processamento de imagem para converter imagens convencionais de microscopia eletrônica bidimensional em estruturas 3-D. Henderson também ajudou a avançar as técnicas de processamento de imagens.
            No início da década de 1980, Dubochet desenvolveu métodos para congelar rapidamente amostras biomoleculares para que fossem protegidos contra elétrons prejudiciais e ficassem hidratados, mesmo no vácuo, mantendo suas formas moleculares nativas. Em 1990, a tecnologia melhorou de tal maneira que Henderson conseguiu obter a primeira estrutura crio-EM com resolução atômica. Seu alvo, a bacteriorodopsina, apresentavuma estrutura bem ordenada que tornou alta resolução mais fácil de alcançar do que seria o caso de muitas outras biomoléculas.
            Na última década, os avanços na tecnologia de detecção de elétrons, em particular o desenvolvimento de detectores de elétrons diretos, melhoraram significativamente as capacidades de resolução do cryo-EM. Os detectores de elétrons diretos, agora comercialmente disponíveis, juntamente com outras melhorias recentes nas técnicas de tratamento de dados, "causaram uma grande revolução na qualidade dos dados do cryo-EM", diz Butcher". Agora, isso significa que podemos recuperar toda a informação e ir para a resolução atômica, o que é o que os cristalográficos fazem. Mas podemos fazê-lo sem ter que fazer cristais, e os cristais são uma dor ".

sábado, 30 de setembro de 2017

Cortes na Ciência ameaçam o futuro do Brasil, dizem ganhadores do Nobel


Carta enviada a Temer traz assinatura de 23 ganhadores do prêmio; mesmo argumento está em outro texto, enviado por 250 pesquisadores da área de Matemática
Herton Escobar, O Estado de S.Paulo, 30 de Setembro de 2017.


         Os cortes orçamentários em Ciência e Tecnologia “comprometem seriamente o futuro do Brasil” e precisam ser revistos “antes que seja tarde demais”, segundo um grupo de 23 ganhadores do Prêmio Nobel, que enviou nesta sexta-feira, 29, uma carta ao presidente Michel Temer, recomendando mudanças na postura do governo com relação ao setor.
  

Marcha. Pesquisadores protestam contra corte de verbas  Foto: Felipe Rau/Estadão.

         O documento, enviado por e-mail ao gabinete da Presidência, faz referência ao corte de 44% no Orçamento deste ano do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), assim como à perspectiva de um novo corte em 2018 - que deverá ser da ordem de 15%, caso o Projeto de Lei Orçamentária Anual enviado pelo governo ao Congresso seja aprovado como está.
         “Isso danificará o Brasil por muitos anos, com o desmantelamento de grupos de pesquisa internacionalmente reconhecidos e uma fuga de cérebros que afetará os melhores jovens cientistas” do País, escrevem os pesquisadores.
         A carta, à qual o Estado teve acesso com exclusividade, é assinada pelo físico francês Claude Cohen-Tannoudji e outros 22 laureados com o Prêmio Nobel nas áreas de Física, Química e Medicina. “Sabemos que a situação econômica do Brasil é muito difícil, mas urgimos o senhor a reconsiderar sua decisão antes que seja tarde demais”, conclui a carta.

Repercussão

         “É uma iniciativa que mostra a importância da ciência brasileira e a gravidade da situação”, disse o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, que também recebeu uma cópia da carta. A Presidência da República foi procurada pela reportagem, mas não respondeu até às 21 horas.
         “A situação é trágica, não há outra palavra para descrevê-la”, disse ao Estado o pesquisador David Gross, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, vencedor do Nobel de Física em 2004 e também signatário da carta. Ele prevê que muitos jovens pesquisadores brasileiros vão desistir da carreira científica ou migrar para outros países, mais favoráveis à ciência. “Eles vão embora e não voltarão”, alertou. “É uma política estúpida, autodestrutiva”, completou Gross, referindo-se aos cortes horizontais aplicados pelo governo em todas as áreas, sem definição de prioridades.
         A ciência, de acordo com ele, é uma área que precisa de investimentos consistentes e de longo prazo para produzir resultados que são essenciais para qualquer sociedade moderna. “Não é algo que você liga e desliga sem ter consequências graves.”
         A carta dos laureados reproduz argumentos que vem sendo usados exaustivamente pela comunidade científica brasileira nos últimos anos. Em uma carta enviada à Presidência da República no início da semana, mais de 250 pesquisadores da área de Matemática pedem também a Temer que reconsidere os cortes orçamentários do setor.
         “À fria luz dos fatos e além de qualquer partidarismo, repudiamos os repetidos e substanciais cortes de verba que sabotam o potencial transformador da ciência brasileira”, diz o documento. Entre os signatários está o matemático Artur Ávila, ganhador da Medalha Fields, considerada o Prêmio Nobel da Matemática.

Cortes

         O orçamento deste ano do MCTIC é o menor de todos os tempos, com cerca de R$ 3,2 bilhões disponíveis (depois do contingenciamento de 44% no início do ano) para o financiamento de pesquisas e pagamentos de bolsas em todo o País. Isso equivale a um terço do que o ministério tinha quatro anos atrás (antes de ser unificado com a pasta de Comunicações), e a proposta inicial do governo para 2018 é reduzir esse valor ainda mais, para R$ 2,7 bilhões.

Signatários

Nobel de Medicina
Harold Varmus (1989)
Jules Hoffman (2011)
Tim Hunt (2001)
Torsten Wiesel (1981) 
Nobel de Química
Martin Chalfie (2008)
Johann Deisenhofer (1988)
Robert Huber (1988)
Ada Yonath (2009)
Dan Shechtmann (2011)
Venkatraman Ramakrishnan (2009)
Jean-Marie Lehn (1987)
Yuan Lee (1986) 
Nobel de Física
Albert Fert (2007)
David Gross (2004)
Serge Haroche (2012)
Claude Cohen-Tannoudji (1977)
Andre Geim (2010)
Robert Laughlin (1998)
Frederic Haldane (2016)
Klaus von Klitzing (1985)
Arthur McDonald (2015)
Takaaki Kajita (2015)
Jerome Friedman (1990)