quinta-feira, 6 de julho de 2017

Artigos adormecidos

Para estudar o processo científico e aperfeiçoar sistemas de avaliação, pesquisadores analisam papers inovadores que têm reconhecimento tardio.

BRUNO DE PIERRO Pesquisa FAPESP, n. 256, junho 2017.

        

           Pesquisadores que acompanham a produção científica de sua área sabem que bons papers nem sempre têm repercussão instantânea. Não chega a ser incomum que ideias inovadoras demorem um pouco para ter sua importância assimilada – vencedores do prêmio Nobel, com frequência, são premiados por contribuições feitas há muitos anos, às vezes décadas –, assim como acontece de surgirem aplicações baseadas em conceitos já conhecidos, que ganham relevância extemporânea. Especialistas da área de cientometria, ramo que estuda aspectos quantitativos da produção do conhecimento, apelidaram de “belas adormecidas” os artigos que despertam interesse anos ou até décadas depois de terem sido divulgados. E passaram a estudá-los como expressões do fenômeno do reconhecimento tardio da produção científica.

            Um caso famoso e extremo foi o do virologista norte-americano Francis Peyton Rous, que em 1911 publicou um artigo demonstrando que alguns tipos de câncer de pele observado em aves eram causados por vírus de RNA, os retrovírus. A importância do trabalho só se tornou visível em 1951, depois que um vírus da leucemia foi isolado, definindo o início da associação entre infecções causadas por esses organismos e o câncer. Em 1966, Rous foi agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina. Episódios semelhantes foram analisados em estudos que buscam compreender a natureza dos artigos adormecidos e identificar quais fatores contribuem para despertá-los.

            Para o físico Anthony Van Raan, pesquisador da Universidade de Leiden, na Holanda, é preciso ter em mente que os artigos adormecidos com potencial de provocar mudanças de paradigma são bastante raros, o que torna a identificação deles uma tarefa complicada. “Em sua enorme maioria, artigos que passam despercebidos continuarão assim para sempre simplesmente porque não são interessantes”, comenta Raan, que cunhou pela primeira vez o termo “belas adormecidas” (sleeping beauties) para se referir a papers que tardaram a ser reconhecidos e a ter impacto. Seus trabalhos mais recentes buscam identificar os “príncipes” responsáveis por quebrar o encanto e deflagrar o interesse por esses artigos.

            Em artigo publicado em fevereiro na revista Scientometrics, Raan mostrou que, na área de física, 16% dos artigos adormecidos indexados ao Web of Science foram despertados quando mencionados em patentes. Observou também que o intervalo de tempo entre o ano de publicação de um artigo adormecido e sua primeira citação em uma patente diminuiu a partir do início da década de 1990. “Isso pode significar que artigos adormecidos com importância tecnológica, talvez invenções potenciais, estão sendo descobertos cada vez mais cedo”, sugere Raan. Segundo ele, é comum que bons artigos que possam passar despercebidos apresentem conceitos ou tecnologias que estão à frente de seu tempo. Em 1958, por exemplo, foi publicado um artigo que descrevia uma forma eficiente de obter óxido de grafite em larga escala. O estudo só começou a ser citado em 2007, quando se descobriu que o óxido de grafite poderia ser utilizado na obtenção, em escala industrial, do grafeno, material extremamente duro e maleável, caracterizado como uma folha de carbono com espessura atômica e detentor de propriedades elétricas, mecânicas e ópticas.

            O físico Ado Jório de Vasconcelos, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicou em 2002 um paper no qual descrevia a aplicação de uma técnica conhecida como espectroscopia Raman na identificação das propriedades de nanotubos de carbono, considerados bons condutores térmicos. “O artigo passou a ser citado intensamente apenas a partir de 2010, quando a comunidade científica começou a dar importância para o estudo da anomalia de Kohn, uma característica vibracional dos núcleos atômicos que se acoplam nos elétrons. Esse fenômeno era conhecido em materiais metálicos. Meu trabalho já evidenciava que também era uma característica dos nanotubos”, conta Jório, que em 2016 foi incluído na lista dos 3 mil cientistas “mais influentes” do mundo, divulgada pela empresa Thomson Reuters.

 

Avaliação
            Estudos sobre o reconhecimento tardio de papers também buscam aperfeiçoar os sistemas de avaliação da ciência, muitos deles baseados em indicadores que privilegiam o impacto obtido em curto prazo. Um trabalho publicado em abril na revista Nature sugere que artigos científicos que deram contribuições transformadoras, mesmo não se enquadrando propriamente no conceito de belas adormecidas, demoraram em geral mais tempo para repercutir do que aqueles que produziram avanços incrementais. “Observamos que pesquisas realmente inovadoras recebem citações a longo prazo, a partir de sete anos após a publicação”, disse à Pesquisa FAPESPJian Wang, pesquisador da Universidade de Leuven, na Bélgica, um dos autores do estudo. O estudo concluiu que indicadores bibliométricos que utilizam um período de citação de apenas três anos são claramente ineficientes para avaliar pesquisas cujos resultados necessitam de tempo para serem compreendidos.

            Wang e sua equipe analisaram citações de mais de 660 mil artigos publicados em 2001, em todas as áreas do conhecimento, indexados na base de dados Web of Science. Verificaram que 89% dos manuscritos apresentavam um baixo grau de inovação. Para caracterizar quais artigos seriam considerados inovadores foram selecionados trabalhos que apresentavam referências bibliográficas inusitadas, combinando autores e áreas do conhecimento de forma distinta do padrão de cada área. “Um método para verificar se um artigo contém novas ideias e conceitos é olhar sua capacidade de combinar diferentes referências bibliográficas de maneira inédita. Essa característica pode apontar a natureza mais arriscada da pesquisa”, explica Wang.
            Observou-se que, no período de três anos após a publicação, a probabilidade de que um artigo muito inovador estivesse no conjunto dos 1% altamente citados era menor que a dos demais. Segundo o estudo, os trabalhos que receberam muitas citações logo nos três primeiros anos tenderam a ficar obsoletos. “Já aqueles considerados disruptivos, com alto grau de novidade, representavam 60% dos trabalhos mais citados 15 anos após a publicação”, explica Wang. Ele conclui que, embora agências de fomento sustentem a importância de investir em pesquisas de caráter transformador, seus sistemas de avaliação acabam privilegiando estudos incrementais ao utilizar os indicadores de impacto mais populares. “O uso generalizado de parâmetros como o número de citações por agências de apoio e revisores pode desencorajar pesquisas com potencial de quebrar paradigmas”, sugere Wang.
            Como exemplo de órgãos que utilizam de alguma forma indicadores bibliométricos em seus processos de avaliação, o estudo cita o Conselho Europeu de Pesquisa (ERC), a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China, a Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NSF) e a brasileira Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que criou o sistema Qualis de classificação de periódicos científicos. Rita Barradas Barata, diretora de Avaliação da Capes, explica que, para supervisionar os cerca de 4.200 programas de pós-graduação no país, a instituição monitora a produção científica de professores e alunos. “Como é impossível medir a qualidade de cada um dos mais de 800 mil artigos publicados pelos programas, fazemos uma classificação dos veículos nos quais os trabalhos são publicados”, informa. Para isso, são levados em consideração em várias disciplinas indicadores como o Journal Impact Factor (JIF), apontado no estudo de Wang como uma das ferramentas que desfavorecem artigos que demoram para serem reconhecidos.
            Rita reconhece que as instituições se acostumaram a concentrar sua atenção em artigos muito citados no curto prazo. “Há a tendência de orientar o olhar para aquilo que os indicadores bibliométricos dizem que é bom no momento.” Uma ideia em discussão, segundo a diretora, é que as agências e instituições de pesquisa adotem algum tipo de política de prospecção, na tentativa de garimpar temas que podem estar sendo subestimados. Na avaliação de Wang, as agências não precisam buscar formas de favorecer pesquisadores pouco citados. “Basta julgarem cada proposta por seu próprio mérito, o que é difícil de fazer. Sistemas de avaliação por pares são um bom contraponto para o uso excessivo de métricas”, afirma.

Fator de impacto
            Em estudo publicado em 2015 na revista PNAS, pesquisadores da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, analisaram 22 milhões de papers publicados ao longo de 100 anos, indexados aos arquivos da American Physical Society e da Web of Science, e verificaram que a maior parte dos artigos que permaneceram adormecidos por longos períodos de tempo, e depois tornaram-se célebres em suas áreas, é de química, física e estatística. O estudo dos pesquisadores de Indiana chama a atenção para o fato de que o próprio conceito de “fator de impacto” permaneceu escondido em um artigo publicado em 1955 por Eugene Garfield. No artigo, Garfield, que morreu em fevereiro, apresenta ideias e conceitos que mais tarde seriam usados para consolidar a base de dados Web of Science, da Thomson Reuters. “O paper esteve adormecido por quase 50 anos, até se tornar popular no início dos anos 2000 e ser citado em trabalhos sobre bibliometria, alguns do próprio Garfield”, informa o estudo.
            Van Raan explica que, embora se concentrem mais nas ciências exatas, os artigos adormecidos podem ser encontrados em praticamente todas as áreas do conhecimento. “Estou começando a investigar as áreas médicas e também as ciências sociais e espero descobrir coisas interessantes”, conta Raan, que aposta no desenvolvimento de programas de computador capazes de identificar belas adormecidas da ciência.
            Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP, vê com naturalidade o fato de bons artigos não receberem, à primeira vista, o devido reconhecimento. “Pesquisas com ideias muito diferentes do mainstream demoram para ser digeridas pela comunidade científica, que muitas vezes reage com estranhamento e até com preconceito a novas ideias”, explica. Segundo ele, os estudos que tentam analisar os artigos adormecidos podem cumprir um papel importante. “Podem nos fornecer pistas para entender por que grandes ideias passam despercebidas.
            Trata-se de uma oportunidade de alertar as editoras a pensarem estratégias de tornar os artigos mais visíveis e legíveis, porque hoje o grau de especialização nas pesquisas é excessivo, o que dificulta o entendimento até para quem é da própria área de pesquisa”, observa. Para Ado Jório, cabe ao autor da pesquisa esforçar-se para divulgar seus trabalhos, especialmente quando sabe que está propondo algo que bate de frente com o paradigma vigente. “Não basta publicar o artigo e torcer para que ele seja lido, compreendido e citado. É preciso participar de congressos, conferências e debates, procurando sempre falar sobre sua pesquisa com as pessoas que possam se interessar por ela”, recomenda.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Homenagens pelo Dia do Químico e 21 Anos do Curso de Química da UVA/CE


  19 de junho de 2017 (Segunda-feira)
18h30min – Abertura das Comemorações de 21 anos do Curso de Química da UVA

Composição da Mesa de Abertura
Prof. Dr. Petrônio Emanuel Timbó Braga (Pró-Reitor de Ensino de Graduação)
Prof. Dr. Francisco Helder Almeida Rodrigues (Diretor do CCET)
Prof. Dr. Geovany Amorim Gomes (Coordenador do Curso de Química)
Local: Auditório do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia (CCET)






20h00min – Palestra: "A Pesquisa no Ensino de Química"
Palestrante: Prof. Dr. Francisco Souto de Sousa Junior (UFERSA)
Local: Auditório do CCET





20 de junho de 2017 (Terça-feira)

18h30min – Homenagem ao Dia do Químico

Composição da Mesa de Abertura
Prof. Dra. Maria Somália Sales Viana (Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação)
Prof. Dr. Geovany Amorim Gomes (Coordenador do Curso de Química)
Prof. Dr. Murilo Sérgio da Silva Julião (Coordenador da Capela da Ciência)
Local: Auditório do CCET






19h30min – Palestra de Abertura: "Avanços da Ciência e Tecnologia no Desenvolvimento do Brasil: Contexto Histórico da Agricultura e Biocombustíveis"

Palestrante: Profa. Dra. Tigressa Helena Soares Rodrigues (UVA)
Local: Auditório do CCET







20h30min - Encerramento: Confraternização entre alunos e professores do curso de Química e sorteio de livros de Química.
Local: Auditório do CCET






domingo, 18 de junho de 2017

Comemoração pelos 21 anos do Curso de Química da Universidade Estadual Vale do Acaraú e Homenagem ao Dia do Químico


  O progresso da humanidade nos últimos cem anos esteve diretamente ligado ao desenvolvimento da Química aliada às outras ciências. A descoberta de vacinas e medicamentos; os combustíveis integrando as diversas regiões do planeta; a conservação de alimentos; a síntese de novos tecidos; a descoberta de gases refrigerantes; o desenvolvimento de novos materiais; a síntese de diversos tipos de plásticos. Tudo isto faz parte de nosso cotidiano, nos dá uma melhor qualidade de vida e está diretamente ligado ao desenvolvimento da Química. Entretanto, paralelo ao progresso, surgiram problemas relacionados ao uso indevido da Química, tais como: poluição dos mares e rios; poluição do ar; poluição do solo; chuva ácida; buraco na camada de ozônio; efeito estufa etc.
    Estando a Química, presente em todos os aspectos de nossa vida é de primordial importância que todo cidadão tenha um pouco de conhecimento nesta área. Portanto, é função do Químico mostrar à sociedade a influência desta Ciência no nosso cotidiano, os benefícios proporcionados à humanidade e também as consequências negativas à natureza, bem como formas de contornar estes problemas, pelo uso racional e sem desperdícios dos recursos naturais ao nosso dispor.
    É neste contexto que a coordenação do Curso de Química da UVA tem o prazer de convidar a comunidade da região Norte do Ceará para participar do aniversário de maioridade do 1o.curso de Química do interior do Ceará.
    Estas atividades estão sendo promovidas e coordenadas pela Capela da Ciência da UVA, Coordenações do Subprojeto de Química do PIBID/UVA e do Curso de Química a fim de homenagear os 21 anos do Curso de Química da Universidade Estadual Vale do Acaraú e o Dia do Químico.
     O Curso de Licenciatura em Química da UVA foi criado em 16 de junho de 1995, por meio da Resolução nº 39-A/95 do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE/UVA), de acordo com o disposto na Lei N. 9131, de 25 de novembro de 1995. Em 2011 teve início a primeira turma do Curso de Bacharelado em Química.

PROGRAMAÇÃO
19 de junho de 2017 (Segunda-feira)

18h30min – Abertura das Comemorações de 21 anos do Curso de Química da UVA

Composição e Formação da Mesa de Abertura
Prof. Dr. Petrônio Emanuel Timbó Braga (Pró-Reitor de Ensino de Graduação)
Prof. Dr. Francisco Helder Almeida Rodrigues (Diretor do CCET)
Prof. Dr. Geovany Amorim Gomes (Coordenador do Curso de Química)
Prof. Dr. Dráulio Sales da Silva (Coordenador do Subprojeto de Química do PIBID/UVA) 
Prof. Dr. Murilo Sérgio da Silva Julião (Coordenador da Capela da Ciência)
Local: Auditório do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia (CCET)

20h00min – Palestra: "A Pesquisa no Ensino de Química"

Palestrante: Prof. Dr. Francisco Souto de Sousa Junior (UFERSA)
Local: Auditório do CCET

20 de junho de 2017 (Terça-feira)

18h30min – Homenagem ao Dia do Químico

Composição e Formação da Mesa de Abertura
Prof. Dra. Maria Somália Sales Viana (Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação)
Prof. Dr. Geovany Amorim Gomes (Coordenador do Curso de Química)
Prof. Dr. Murilo Sérgio da Silva Julião (Coordenador da Capela da Ciência)
Local: Auditório do CCET

19h30min – Palestra de Abertura: "Avanços da Ciência e Tecnologia no Desenvolvimento do Brasil: Contexto Histórico da Agricultura e Biocombustíveis"

Palestrante: Profa. Dra. Tigressa Helena Soares Rodrigues (UVA)
Local: Auditório do CCET

20h30min - Encerramento: Confraternização entre alunos e professores do curso de Química e sorteio de livros de Química.

Local: Auditório do CCET

sábado, 17 de junho de 2017

O Segredo de um Excelente Vinho? Química Orgânica


O químico especialista em vinhos Andrew Waterhouse fala sobre ensinar uma geração de vinicultores

Por Bethany Halford, Chemical & Engineering News (C&EN), V. 95, n. 24, p. 22-23, 2017.

Andrew Waterhouse (Crédito: Eleni Kardaras Photography)
Dados biográficos:
▸ Cidade natal: Davis, Califórnia.
▸ Educação: PhD. em Química Orgânica Sintética, Universidade da Califórnia, Berkeley.
▸ Destaque profissional: Doutorado honorário da Universidade de Bordeaux, uma escola com um programa de vinhos desde 1880, mesmo ano em que o programa de viticultura e enologia foi inicado na Universidade da Califórnia.
▸ Molécula favorita: acetaldeído, um importante produto da oxidação dos vinhos.
▸ Modo favorito para desfrutar um copo de vinho: retirando amostras de vinhos de barris com amigos.
▸ Cidade favorita: Ljubljana, Eslovênia. "A comida é maravilhosa; as coisas são organizadas; há muitos vinhos locais excelentes para se provar e não há muitos turistas".
         Para Andrew L. Waterhouse, ser encarregado da seleção de vinhos ao tomar bebidas com familiares, amigos ou jornalistas curiosos é algumas vezes um risco ocupacional. "É apenas parte do trabalho", diz o professor de viticultura e enologia da Universidade da Califórnia (UC) em Davis.
         É uma boa aposta que Waterhouse escolherá um vinho vencedor. Ele é amplamente respeitado por seu amplo conhecimento da Química do vinho e formou uma geração de vinicultores durante seus 26 anos de ensino no programa de renome mundial da UC de Davis.
         Mas Waterhouse nem sempre foi um conhecedor do vinho. Com a pesquisa na síntese de produtos naturais, ele começou sua carreira em uma escola diferente ensinando química orgânica principalmente para estudantes de graduação e pesquisando análise conformacional de polissacarídeos. Um dia, enquanto paginava um número da C&EN num vôo, Waterhouse leu uma proposta de trabalho como professor assistente de viticultura e enologia da UC em Davis. Retornou para a costa Oeste, onde foi para até a universidade e se candidatou.
         "Assim que eu ouvi que havia sido admitido no emprego, comecei a estudar", lembra ele. "Profissionalmente, não sabia nada. Era um amante de vinho, mas não tinha ideia do que estava no vinho, realmente, além do álcool”. Agora estuda os produtos naturais complexos do vinho, como os flavonoides. "Os produtores de vinhos chamam de Química dos fios de frango", diz ele, porque os hexágonos nas estruturas dos flavonoides se assemelham ao fio de frango para aqueles que não sabem Química.
         Waterhouse diz que quando começou na UC em Davis, tentou ensinar Química Orgânica para os futuros vinicultores da mesma maneira que ensinava para os graduandos em Medicina. "Não funcionou", disse ele. Por exemplo, quando ensinava aos alunos sobre os terpenos, compostos responsáveis pelo sabor em certos vinhos, como os Rieslings, ele abordava como os compostos sofriam reorganização catalisada por ácidos durante o envelhecimento.
         "Estava mostrando aos alunos a formação de cátions alilícos formando, rearranjando e eliminando. E foi completamente inútil para eles", diz ele. "Eles têm que entender algo sobre a Química dos terpenos, mas não precisam entender as transformações mecanicistas de um terpeno para outro". Isso fez Waterhouse repensar completamente como deveria ensinar Química para esses alunos. Precisava falar da Química que seria útil na elaboração de vinhos. "É por isso que eles têm aulas – querem entender o que está acontecendo para que possam gerenciar melhor. Isto é o uso muito aplicado da Química".
         Os estudantes da Química do vinho diferem dos de medicina de outra forma, observou Waterhouse. Mesmo que os estudantes de vinicultura estejam cursando graduação, mestrado ou doutorado, a paixão pelo objetivo é a mesma, disse Waterhouse. "Quando ensinava Química Orgânica para os futuros médicos, estes não tinham interesse pelo assunto. Só precisavam de uma nota A. Era uma aula chata para eles e por isto não gostavam. "Não e este o caso com os estudantes da UC, em Davis, disse ele. "Eles realmente queriam aprender e queriam saber por que é útil".
         Em 2016, depois de 25 anos como Químico de vinhos, Waterhouse decidiu escrever um livro que fosse uma fonte de pesquisa para outros que estejam interessados em ensinar o assunto ou para químicos que estão apenas interessados em saber mais sobre a Química do vinho. Juntamente com Gavin L. Sacks da Universidade Cornell e David W. Jeffery, da Universidade de Adelaide, escreveu o livro “Entendendo a Química do Vinho”.
         Segundo ele, o livro é diferente de outros livros sobre a Química do vinho porque se concentra na Química Orgânica do vinho. "A maioria dos químicos nesta área são químicos analíticos, e são muito bons nisso, mas quando escrevem sobre isso, se concentram apenas nas questões analíticas, como comparar resultados analíticos com o sabor e com resultados de análises sensoriais". Embora seja importante, Waterhouse e os co-autores queriam escrever um livro sobre as reações químicas que ocorrem no vinho.
         "Apenas entendendo a Química, você pode intervir de maneira muito simples", observa Waterhouse. Por exemplo, os vinhos Sauvignon Blanc da Nova Zelândia são conhecidos por possuírem aromas de goiaba e de maracujá, mas essa nota frutada geralmente desaparece após o armazenamento. Um químico orgânico descobriu que o aroma surge de um éster se hidrolisa. Agora, os vinicultores da Nova Zelândia mantêm o Sauvignon Blanc tão frio quanto possível, até que seja engarrafado e armazenado, preservando assim os aromas. "Então, o entendimento da Química é deveras necessário, mesmo na elaboração de vinhos", observa Waterhouse.
         Mas, Waterhouse diz logo, que a Química não tem todas as respostas. "Quando cheguei a Davis, pensei que tudo o que tínhamos que fazer seria descobrir quais são as principais moléculas presentes num grande vinho. Muitas pessoas tinham essa ideia, eu não era diferente. Acontece que tem muita gente inteligente pensando nisso há muito tempo", disse ele.
         "O que descobri é que não é realmente apenas a Química que torna o vinho interessante ou valioso. Há muito mais por trás da história do vinho do que a Química. Sei que isso pode ser decepcionante para alguns químicos, mas a realidade é que as pessoas adoram o vinho. E as pessoas adoram o vinho não apenas por causa do gosto. Adoram o vinho por muitas razões", disse ele. "Quando você é um produtor de vinhos, uma das principais coisas que você tem que fazer é transmitir uma mensagem sobre seu produto – uma história sobre você ou a terra ou o histórico da propriedade. Essas coisas são, de alguma forma, mais importantes para um bebedor de vinho do que o vinho que tem apenas um bom gosto ".

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O previsível fiasco do ensaio clínico da fosfoetanolamina, a improvável "pílula do câncer"


Por Francisco J. R. Paumgartten
O desenvolvimento de novos medicamentos é processo complexo, longo, caro e altamente seletivo, com elevadíssima taxa de insucesso. Estima-se que de 5 mil a 10 mil moléculas que são submetidas à triagem inicial para atividade farmacológica, apenas uma se tornará um novo medicamento, aprovado para comercialização pelos órgãos reguladores e útil na prática médica.

         Pense um absurdo, a Bahia tem precedente. A célebre frase de Otávio Mangabeira, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e ex-governador da Bahia, é injusta ao se restringir ao estado natal do seu autor. A afirmação se aplica ao país todo, como demonstra o insólito episódio da pílula de fosfoetanolamina sintética ("fosfo"), também conhecida como "pílula do câncer".
         O absurdo, no caso da fosfo, não reside no fato de muitos terem acreditado nas alegações não comprovadas de que ela seria um medicamento eficaz, capaz de curar pacientes com câncer. Afinal, não é incomum, e é até compreensível, que pacientes com doenças graves, considerados pelos médicos como "fora de possibilidades terapêuticas", e seus familiares, agarrarem-se firmemente a crenças infundadas de que a cura, negada pela medicina, poderia ser alcançada por terapias alternativas, não convencionais, e não reconhecidas pela ciência.
         O absurdo, nesse caso, é o Congresso Nacional ter ignorado as recomendações contrárias à liberação do uso da fosfo, feitas pelo órgão técnico regulador, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e por entidades científicas respeitadas como a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e aprovado, por esmagadora maioria de seus membros, a Lei 13.269/2016 – prontamente sancionada sem vetos pela então presidente da república – que autoriza a produção, prescrição e uso da pílula de fosfo. A eficácia da Lei 13.269/2016 foi temporariamente suspensa por decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em ação direta de inconstitucionalidade impetrada pela AMB. Pesou na decisão da suprema corte, alcançada por estreita maioria de votos dos membros do colegiado, o argumento de que a eficácia e a segurança da fosfo não haviam sido demonstradas por estudos clínicos.
         No momento em que este artigo está sendo escrito, o autor recebeu a notícia que o ensaio clínico da fosfo, patrocinado pela Secretaria de Saúde de São Paulo, foi suspenso "por questões éticas". Isto porque uma avaliação clínica programada revelou que 58 de 59 pacientes com câncer de várias localizações que haviam recebido regularmente a fosfo não apresentaram qualquer resposta ao tratamento. Por se tratar de estudo não controlado, em relação ao único paciente (com melanoma) que teria melhorado, não é possível excluir um efeito retardado da quimioterapia anterior, a melhora espontânea, ou a contribuição do efeito placebo.
         A interrupção do estudo é decisão acertada, mas, na realidade, esse insólito estudo, fora dos padrões metodológicos mais rigorosos, com resultados previsíveis e riscos para os pacientes que não foram adequadamente avaliados, "por razões éticas" nunca poderia ter sido aprovado e iniciado. Como antecipado lucidamente por alguns pesquisadores, a avassaladora onda da fosfo – como tantos outros modismos e crenças populares em remédios milagrosos – acabaria se desfazendo espontaneamente com o tempo. Entretanto, embora desaparecendo da mídia, o episódio da fosfo deixará uma indelével mácula na história do sistema brasileiro de revisão ética.
         Um dos requisitos fundamentais para um ensaio clínico ser considerado "ético", é o julgamento criterioso e a conclusão, com base na melhor evidência científica disponível, que os potenciais benefícios para os pacientes, e o conhecimento a ser adquirido pela sociedade, se sobrepõem aos riscos para os participantes da pesquisa. Quando se trata de um novo medicamento ou terapia farmacológica, o potencial benefício é avaliado pelos resultados dos testes pré-clínicos de triagem de possível atividade terapêutica. Os estudos pré-clínicos realizados com a fosfo não apenas falharam em indicar consistentemente uma "possível atividade terapêutica", como mostraram justamente o oposto, a improbabilidade da fosfo ter efeito antineoplásico clinicamente útil.
         Ensaios da toxicidade da fosfo "sintética" para linhagens de células neoplásicas, publicados pelos próprios proponentes da "pílula do câncer", evidenciaram efeitos citotóxicos que podem ser considerados não específicos, ou seja, efeitos que ocorrem apenas em concentrações relativamente elevadas, com CL50s (concentrações letais 50%; i.e., concentrações que matam 50% das células expostas) na faixa de concentrações milimolares (mM ou 10-3 M), enquanto os medicamentos oncológicos são mais específicos, sendo tóxicos para as linhagens de células neoplásicas em concentrações muito menores, com CL50s nas faixas do micromolar (µM ou 10-6 M) ou nanomolar (nM ou10-9 M), ou seja, as CL50 de medicamentos anticâncer usados na clínica são, via de regra, mil ou 100 mil vezes inferiores às CL50 obtidas para a fosfo com as mesmas linhagens de células cancerosas.
         Esses resultados preliminares desalentadores já seriam suficientes para que não fossem investidos mais recursos e tempo na investigação de uma improvável atividade anticâncer. Se tivesse sido submetida à abordagem hierarquizada para triagem de novos medicamentos anticâncer proposta pelo Instituto Nacional de Câncer dos EUA (NCI-60 Human Tumor Cell Line Screen), a fosfo teria sido reprovada logo no primeiro nível de testes. Além disso, os estudos in vivo da fosfo em ratos e camundongos com tumores xeno-enxertados produziram resultados modestos e inconsistentes entre experimentos.
         O desenvolvimento de novos medicamentos é processo complexo, longo, caro e altamente seletivo, com elevadíssima taxa de insucesso. Estima-se que de 5 mil a 10 mil moléculas que são submetidas à triagem inicial para atividade farmacológica, apenas uma se tornará um novo medicamento, aprovado para comercialização pelos órgãos reguladores e útil na prática médica.
         Não obstante esse fato, surpreendentemente, o Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), já em pleno "apagão" do financiamento para a pesquisa científica no país, investiu R$ 10 milhões em estudos pré-clínicos da fosfo como medicamento oncológico. Há, certamente, um grande número de moléculas muito mais promissoras do que a fosfo para tratamento do câncer, ou potencialmente úteis para tratar as várias doenças negligenciadas que afligem a nossa população, que permanecem nas prateleiras dos laboratórios universitários, aguardando o apoio das agências de fomento à pesquisa para serem investigadas em profundidade.
         Além da falta de evidências experimentais (e de relatos de casos clínicos documentados) de que a fosfo tem atividade anticâncer, o conjunto de estudos pré-clínicos de toxicidade da fosfo foi notoriamente insuficiente para apoiar a etapa subsequente de investigação clínica de eficácia e segurança em pacientes com câncer.
         Não se trata apenas de excluir a possibilidade de efeitos tóxicos agudos que aparecem no curto prazo (a história de uso da fosfo por pacientes que se automedicaram já sugere que esse risco é baixo), mas de revelar potenciais efeitos adversos mais sutis, que não são apontados por estudos não controlados. A realização de estudos clínicos envolvendo o tratamento de pacientes por períodos prolongados requer, entre outras investigações prévias, ensaios pré-clínicos de segurança de duração comparável à do estudo clínico proposto (e.g., de 90 e até 180 dias), em pelo menos duas espécies animais (uma delas deve ser o cão, o macaco ou outra espécie que não um roedor). Esses estudos não foram realizados com a fosfo. Vale a pena registrar que, além disso, há pelo menos um estudo in vitro de Kano-Sueoka e colaboradores, publicado nos Anais da Academia de Ciências dos EUA (PNAS 1979; 76:5741-4), sugerindo que a fosfo estimulava a proliferação de células de carcinoma mamário de ratos. Na mesma linha, um dos estudos preliminares patrocinados pelo MCTI indicou que a fosfo poderia aumentar a incidência de metástases de tumores xeno-enxertados em roedores.
         Portanto, a mais alta instância do sistema de revisão ética do país, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), aprovou o ensaio clínico de uma substância (fosfo) cujo potencial benefício terapêutico para os pacientes sujeitos da pesquisa era altamente improvável (nada havia nesse sentido, exceto relatos anedóticos e não documentados de pacientes "tratados" com a fosfo), e cujos eventuais riscos para os participantes não haviam sido devidamente avaliados.
         Outro problema com o ensaio clínico da fosfoetanolamina "sintética" aprovado pela Conep é a identidade e qualidade farmacêutica da substância a ser estudada. A fosfoetanolamina é molécula formada naturalmente no organismo pela fosforilação da etanolamina, e é um composto intermediário na síntese de fosfolipídios que integram a membrana celular. As moléculas da fosfo, quer sejam sintetizadas no organismo, quer sejam produzidas na bancada do laboratório, são moléculas idênticas, e por isso são identificadas por um único número de registro no Chemical Abstracts (Número do CAS 1071-23-4, massa molecular 141,06). O rótulo de fosfo "sintética", dado pelos químicos que a sintetizaram no laboratório na USP campus de São Carlos, aparentemente para diferenciá-la da fosfoetanolamina disponível comercialmente, não faz qualquer sentido.
         Uma análise por ressonância magnética nuclear dessa fosfo "sintética" (contida nas pílulas distribuídas para os pacientes com câncer) realizada por um respeitado laboratório de química da Unicamp, contratado pelo MCTI, mostrou que a molécula de fosfoetanolamina corresponde a apenas 32,2% do conteúdo da cápsula, sendo os demais constituintes uma variedade de impurezas (incluindo fosfatos de Ca, Mg, Fe, Mn, Al, Zn e Ba) remanescentes de uma síntese química de baixo rendimento, que não foi sucedida por um processo de purificação. A fosfo "sintética" da pílula (na verdade, a forma farmacêutica da fosfo sintética distribuída pelos químicos da USP é a cápsula), portanto, não é uma única substância, mas uma mistura de substâncias em que predominam uma diversidade de impurezas.
         Para aprovar ensaios clínicos de novos medicamentos, é exigido que os patrocinadores demonstrem que os medicamentos testados têm qualidade farmacêutica adequada (identificação, pureza e potência) e que esta qualidade seja consistente entre os lotes usados nos ensaios pré-clínicos e clínicos. Obviamente, a qualidade farmacêutica da fosfo "sintética" usada nos ensaios realizados está longe de ser adequada para um ensaio clínico em pacientes.
         Por fim, o delineamento do ensaio clínico da fosfo, que foi aprovado pela Conep, não reúne as características metodológicas que são esperadas de um estudo de eficácia e segurança de um novo medicamento. Embora muitos detalhes não tenham sido publicados, as informações disponíveis na mídia indicam que o ensaio não foi controlado, e que a população estudada abrangeu um conjunto muito heterogêneo de pacientes com tumores de diferentes localizações e, possivelmente, em diferentes estágios da doença, e que sofreram diversos tratamentos anteriores.
         O MCTI e a Secretaria de Saúde de São Paulo investiram pelo menos 10 e 1,5 milhões de reais, respectivamente, nos ensaios pré-clínicos e clínicos da fosfo, o que representa apenas uma pequena fração das centenas de milhões de dólares a que pode chegar o custo total do desenvolvimento de um medicamento oncológico inovador. Onze milhões e meio, entretanto, é um investimento muito elevado, quando os estudos iniciais falharam em fornecer qualquer indício de que o medicamento experimental, como é o caso da fosfo, tem potencial utilidade terapêutica.
         O absurdo é ainda maior quando a aposta no improvável êxito do desenvolvimento é feita quando há uma escassez generalizada de recursos para financiar a pesquisa científica e a assistência médica no país. Representantes do MCTI, da Secretaria de Saúde de São Paulo e alguns pesquisadores envolvidos diretamente com os estudos da fosfo, costumam justificar os investimentos alegando que as instituições de pesquisa têm a obrigação moral de dar uma resposta aos "clamores" da sociedade.
         Não resta dúvida que as instituições devem responder questões como essa que mobilizam a sociedade, mas no caso da "pílula do câncer", a resposta correta que deveria ter sido dada à população é que as alegações terapêuticas de atividade anticâncer da fosfo são cientificamente infundadas e não justificam a realização de estudos não clínicos adicionais e de ensaios com pacientes.
         A rápida aprovação, pela Conep, do ensaio clínico da fosfo, negligenciando o fato do estudo proposto não atender vários requisitos fundamentais que, de acordo com o entendimento de órgãos internacionais como o Council for International Organizations of Medical Sciences (CIOMS), são necessários para tornar eticamente aceitável a investigação clínica de um novo medicamento, é sem dúvida a pior sequela deixada por esse triste e absurdo episódio. A insólita decisão da Conep sobre a fosfo, deixando de lado a razão e a isonomia, e cedendo a uma onda de apoio formada no ambiente político, criou um perigoso precedente, que põe em dúvida o rigor e a seriedade do sistema de revisão ética do país.
Francisco José Roma Paumgartten é formado pela Faculdade de Medicina da UFRJ, doutor em ciências pela Escola Paulista de Medicina (atual Unifesp), professor e pesquisador titular da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, Rio de Janeiro.

Referências
         As referências originais dos estudos que apoiam as afirmações contidas neste artigo podem ser encontradas em: "Sobre a alegada eficácia anticâncer da pílula de fosfoetanolamina, fragilidade da evidência científica e preocupações éticas", de Paumgartten F. J. R., publicada em: Vigil. Sanit debate 2016; 4(3):4-12 (doi: 10.22239/2317-269X.00822pt).

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