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Artigo de
Suzana Herculano Houzel*, publicado em seu blog
Ah,
as inconsistências do sistema de financiamento da ciência no Brasil. Meu
laboratório nunca esteve mais produtivo; nosso trabalho na PNAS, um de OITO publicados
em revistas internacionais este ano (e, aliás, o segundo na PNAS deste ano)
acabou de sair, com um baita reconhecimento mundo afora; e então... descubro
que nosso projeto de pesquisa não teve seus recursos renovados pelo CNPq para o
ano que vem. Veja bem: não foi pedido de auxílio novo, e sim de renovação de um
projeto super bem sucedido. O comunicado oficial diz que "sua proposta
(...) teve o seu mérito reconhecido. No entanto, na análise comparativa com as
demais propostas, o seu pedido não alcançou classificação que permitisse o
atendimento."
Pensei
em escrever para o CNPq para pedir reconsideração, mas depois que olhei a lista
de agraciados, estou quase mudando de ideia: no meu comitê de avaliação
(morfologia), foram agraciados TODOS nossos professores titulares no Instituto,
e mais dois ou três professores sêniors. Até aqui é "só" coincidência
entre titulação e aprovação. Mas aí começam as estórias de horror nada
científico no Facebook, como relatos de pesquisadores que têm seu projeto
repetidamente recusados sob seu próprio nome, MAS quando submetem o mesmo
projeto com o nome do chefe sênior, professor titular, diretor disto e
daquilo... o projeto miraculosamente é aprovado.
Aiai.
Se eu entrar com recurso e ganhar, daqui a três anos estarei novamente
competindo em pé de desigualdade com meus colegas titulares. Mas se eu não
entrar com recurso agora, concorro de novo ano que vem, quando eles não estarão
concorrendo, e quem sabe assim minhas chances de uma disputa mais justa, por
produtividade, serão maiores... É, fazer ciência no Brasil também tem dessas.
Que se dane a produtividade, se você não é a bola da vez.
O
irônico é que, enquanto o CNPq acha que o nosso projeto não é digno de ter seus
recursos renovados, a revista Science teve uma
repercussão tão grande em seu site da matéria que eles publicaram sobre nosso
artigo na PNAS que me convidou para participar do chat semanal deles esta
semana, na quinta-feira dia 8 de novembro, de 17:45 - 19:45 horário de
Brasília, em http://news.sciencemag.org/sciencelive/
Aliás,
tem sido realmente instrutivo ver a repercussão na mídia desse nosso trabalho.
Mundo afora, vários jornais comentaram, e o posdoc polonês no meu laboratório
diz que foi o assunto da semana passada por lá (ele deve estar exagerando um
pouco, mas de qualquer forma fico honradíssima). No Brasil, até a revista
Claudia vai fazer uma matéria a respeito. A Fundação James McDonnell, nos EUA,
nosso maior financiador, ficou felicíssima com a notícia. Mas os sites da
Faperj e do CNPq? Nem mencionaram o assunto. Não recebi qualquer contato de
jornalistas deles - que eu sei que existem, e recebem os mesmo press releases
que os jornalistas estrangeiros que me ligaram até no meio da noite deles para
conseguir uma entrevista, como foi o caso de uma estação de rádio na Nova
Zelândia.
Esta
tem sido minha "vingança", ou no mínimo meu consolo: eu tenho
reconhecimento... fora do meu país. No momento, por exemplo, estou em Cancun
com todas as despesas pagas pelo IBRO para dar um curso e uma de seis ou oito
palestras plenárias na reunião internacional da Federação de Sociedades de
Neurociência da América Latina. Ano que vem dou palestra em uma reunião em
Cambridge, e serei uma de seis palestrantes convidados, também com tudo pago,
na Reunião Europeia sobre Glia, em Berlin.
Ou seja: os estrangeiros me
chamam para representar nossa ciência lá fora - mas o CNPq não acha que meu
projeto é prioritário o suficiente para merecer continuar sendo financiado.
Então tá. Meu marido, que é americano, está começando a me perguntar "por
que mesmo você ainda trabalha no Brasil???" Vamos ver quanto tempo eu
duro...
*Suzana Herculano Houzel é neurocientista e pesquisadora no
Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
O CNPq não acha meu trabalho digno de financiamento!
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
NASA envia Mona Lisa para Lua para testar comunicação a laser
Comunicação a laser
A NASA fez a primeira demonstração prática de comunicação a laser com a Lua.
Para isso, um laser localizado no Centro Espacial Goddard transmitiu uma imagem do quadro Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, para a sonda espacial LRO, que está orbitando a Lua desde 2009.
A sonda LRO (Lunar Reconnaissance Orbiter) ficou conhecida por fazer asprimeiras fotos dos locais de pouso dos astronautas da Lua, mas foi ela também que traçou o mapa mais preciso já feito do nosso satélite.
Cumpridas as etapas científicas principais da missão, os controladores puderam começar a testar outros equipamentos de demonstração tecnológica que a sonda levava a bordo.
O principal deles é um sistema móvel de laser que permite a troca de dados com a Terra.
Mona Laser
A imagem digitalizada da Mona Lisa teve seus bits transmitidos em pulsos de laser, em uma espécie de código Morse espacial.
A imagem foi convertida em uma matriz de 152 por 200 pixels. Cada pixel foi convertido em tons de cinza, representados por um número entre zero e 4.095.
Cada pixel foi transmitido por um pulso de laser, cada pulso sendo disparado em um de 4.096 intervalos de tempo possíveis, durante uma janela de tempo determinada.
Os erros de transmissão, gerados por flutuações no sinal induzidos pela atmosfera terrestre, foram corrigidos com os mesmos algoritmos usados pelos aparelhos de CD e DVD.
"Esta é a primeira vez que se consegue realizar uma comunicação a laser unidirecional a distâncias planetárias," disse David Smith, do MIT, responsável pelo equipamento a bordo da sonda, chamado LOLA (Lunar Orbiter Laser Altimeter).
Os erros de transmissão, gerados por flutuações no sinal induzidos pela atmosfera terrestre, foram corrigidos com os mesmos algoritmos usados pelos aparelhos de CD e DVD. [Imagem: Xiaoli Sun/NASA Goddard]
Comunicação espacial de alta velocidade
O projeto LCRD (Laser Communications Relay Demonstration) também pretende lançar as bases para o estabelecimento de uma "presença virtual" no espaço, em outro planeta ou em um outro corpo do Sistema Solar, inicialmente para o controle de robôs espaciais.
"No futuro próximo esse tipo simples de comunicação a laser poderá servir como backup para a comunicação por rádio que os satélites usam. No futuro mais distante, ele poderá permitir a comunicação a velocidades mais altas do que os links de rádio atuais podem oferecer," explicou Smith.
Para comparação, a sonda MRO (Mars Reconnaissance Orbiter) leva 90 minutos para transmitir uma única foto de Marte em alta resolução. Com um sistema a laser, com capacidade de 500 Mbps, essa mesma foto chegaria à Terra em cerca de 1 minuto.
A imagem completa da Mona Lisa, usando o sistema experimental, foi transmitida a uma taxa de dados de cerca de 300 bits por segundo.
O próximo teste de comunicação a laser no espaço será feito com a sonda espacial LADEE (Lunar Atmosphere and Dust Environment Explorer), que deverá ser lançada até o final deste ano, levando a bordo um sistema capaz de trocar dados em alta velocidade, a até 622 Mbps.
Fonte:http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=nasa-envia-mona-lisa-lua-testar-comunicacao-laser&id=010130130120
Entrevista: físico demonstra ser possível aliar o sucesso acadêmico à divulgação científica
A mais recente entrevista do blog Dissertação Sobre Divulgação Científica apresenta um físico, ou melhor, um físico-comunicador, um profissional articulado, receptivo aos divulgadores e proativo na divulgação científica. Astrônomo do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), Martin Makler, 38 anos, cresceu apaixonado pela ciência e aprendeu desde menino a exteriorizar o que aprendia, habilidade que até hoje está presente em sua carreira.
Filho de pai físico e mãe matemática, Martin é natural de Buenos Aires, Argentina, cresceu em Niterói-RJ e também morou um tempo na Bélgica, onde aprendeu a "brincar" com a astronomia. O retorno ao Brasil veio acompanhado de uma vontade de divulgar aquele prazer, que quase foi comprometido pela má qualidade de um professor durante o ensino médio (aí está um exemplo da prioridade de mais do que valorizar e educação, inclusive os professores).
Ele graduou-se na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1996, e concluiu o doutorado cinco anos depois no CBPF, cuja tese lhe rendeu uma menção honrosa pela Sociedade Brasileira de Física (SBF). O pós-doutorado, também pela UFRJ, foi obtido em 2003.
Uma das principais atividades de pesquisa dele é o projeto o Dark Energy Survey, consórcio internacional que visa estudar e compreender algumas das principais questões históricas da humanidade em relação ao Universo, tais como: de onde viemos? Onde estamos? Para onde vamos? E (principalmente) do que é composto o Universo?
Confira a entrevista:
Como surgiu o seu interesse pela ciência e pela divulgação científica?
O que me despertou foi a série de televisão Cosmos, do astrônomo e divulgador Carl Sagan, durante a minha infância. Eu gostava de ciências em geral, mas principalmente de astronomia, mesmo sem saber que o campo tinha esse nome e era tão bem organizado, definido. Essa afinidade cresceu após eu passar algum tempo em Liège, na Bélgica, onde os meus pais foram fazer pós-doutorado. Lá, com cerca de 13 anos, tive a oportunidade de participar de palestras, acampamentos, comprar um telescópio, tirar fotos de astros e ingressar em um clube da área. Quando eu voltei ao Brasil, tinha a ideia de criar um clube de astronomia em Niterói, mas a minha visão era a de uma associação mais restrita. Marcelo Souza, então professor do ensino médio e aluno da Universidade Federal Fluminense (UFF), ficou sabendo da proposta e me procurou, só que com a intenção de atingir uma audiência mais ampla. Tudo isso foi determinante para amadurecer os meus gostos e objetivos de vida e carreira, apesar de no ensino médio eu ter sido aluno de um professor de física muito ruim, que chegou a tirar a minha motivação pelo campo. Lembro que na época do vestibular, fiz testes vocacionais que me apontaram para todos os lados: medicina, direito, engenharia, química... mas acabei optando por física, exatamente pela possibilidade de ser astrônomo. Mesmo durante a graduação busquei ser ativo nas atividades de divulgação.
Você já comentou que realiza muito menos divulgação científica do que gostaria. O que o inibe?
A grande questão é que há uma certa competição entre as atividades de pesquisa e da divulgação. Neste momento da carreira, o meu tempo está bastante cosumido pelos projetos científicos e atenção aos meus orientandos. O nascimento do meu filho também fez com que eu reduzisse o tempo destinado à DCT.
Qual é a sua motivação pela DCT?
Há o prazer pessoal de estimular o gosto pelo conhecimento e comunicar o que eu faço, de incentivar outras pessoas, assim como eu fui pela série Cosmos. Porém, o interesse maior é o social, que herdei daquele professor com quem eu promovia o clube de astronomia em Niterói. Eu gosto muito de levar a ciência para os espaços mais diferentes e inusitados, fora dos centros tradicionais, onde as ações serão motivo de surpresa.
Você identifica essa mesma motivação entre os seus colegas acadêmicos?
Bom, o cenário melhorou bastante ao longo do tempo. Lembro que na minha graduação os poucos grupos dedicados à divulgação eram até mesmo desprezados, havia uma resistência bem maior do que hoje em dia. Nos últimos anos, o governo tem ampliado as medidas em benefício do campo, como a criação do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia, a implementação de um espaço específico para a divulgação no currículo Lattes, a multiplicação de eventos organizados por instituições públicas, entre outras. Porém, de forma geral os meus pares se interessam pouco por essa atividade. Além da falta de consciência ou de interesse e do medo de comunicar para uma audiência mais ampla, acho que falta um canal confiável, um estímulo determinante capaz de fazer com que o cientista enxergue a possibilidade de divulgar o seu trabalho de forma profissional e séria. Talvez haja a vontade latente, mas o pesquisador não quer perder tempo para preparar uma palestra, por exemplo, mas sim já realizá-la. Um gancho bem interessante seria a valorização institucional, no sentido da missão do cargo ser, inclusive, a divulgação. Hoje, no entanto, somos avaliados no fundo pela pesquisa em si. Outra situação curiosa é que o pesquisador, quando convidado para proferir uma palestra na escola do filho, tende a aceitar. Então, se as próprias escolas se dirigissem com mais frequência ao CBPF, a disponibilidade acadêmica poderia ser maior.
Qual é o seu público da divulgação?
Como eu faço divulgação em lugares bastante diversos, percebo que a audiência é ampla e com características bem variadas, mas sempre procuro uma identificação e a adequação da linguagem. Para se ter uma ideia, no fim da década de 1990, eu participei de uma dinâmica de popularização no presídio Edgar Costa, em Niterói, onde o nível cultural das pessoas era bem abaixo de outros ambientes. Já o público das ações da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência ou da Casa da Ciência, das quais eu participo, por exemplo, possui um grau educacional mais elevado, está mais a par dos assuntos e a qualidade das perguntas costumam ser melhores. Isso mostra que a minha divulgação é destinada a segmentos diversos e heterogêneos. É difícil definir rigidamente.
Qual é o seu procedimento quando pretende realizar uma divulgação, faz por si ou procura alguma assessoria de comunicação?
Depende bastante. Em geral, são iniciativas pessoais, muitas motivadas por convites de escolas, comitês, clubes e associações. Cotidianamente, o contato é muito mais comigo do que com o próprio CBPF. Por outro lado, em ações coordenadas e institucionais, como na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, a divulgação é via CBPF, que é solicitado pelo Ministério da C&T para integrar o movimento.
E como é o seu relacionamento com os jornalistas? Você tem receio deles?
Receio eu não tenho e gosto de recebê-los para dar as informações solicitadas. Acho importante essa interação. Porém, eu já acompanhei situações grotescas ocorrerem por falta de precisão e entendimento. Lembro que uma equipe de reportagem de um importante jornal de Niterói foi comigo em um parque da cidade cobrir a passagem do cometa Hale-Bopp. Eu havia explicado que além do astro luminoso, havia, por coincidência, uma aproximação visível entre os planetas Mercúrio e Vênus, fato curioso, sem relação direta com o cometa. No dia seguinte, o veículo noticiou que a causa do sobrevoo do Hale-Bopp visível em Niterói foi a junção entre os dois planetas, informação transmitida com a legitimidade da minha fala entre aspas. Por isso, eu sempre peço o envio do material antes da publicação, procedimento que deveria ser padrão. A mídia mais genérica não costuma atender ao pedido, até mesmo pela velocidade da produção e publicação do jornalismo, que exige do repórter habilidade para levantar dados em curto espaço de tempo. Já a imprensa mais especializada, como a revista Ciência Hoje, sempre retorna o texto.
Quais são as habilidades que o cientista precisa adquirir para facilitar a interação com o divulgador?
Antes de qualquer coisa, é importante ser didático, saber apresentar o conteúdo de forma mais suave, com menos fórmulas, utilizando ilustrações e analogias, por exemplo. Mais do que uma habilidade inerente, um dom natural, é importante desenvolver essa capacidade de externar o trabalho realizado. A didática se consegue praticando. A questão é que no Brasil a formação do pesquisador carece desse tipo de treinamento. Por muitos anos, o pesquisador-divulgador foi visto com desconfiança pelos pares. Aqui, a ideia de testes e provas está muito enraizada no sistema educativo e de C&T, já em outros países a cobrança é para apresentações e exposições, como palestras e seminários. Isso inibe muitos de nós a querer popularizar e dialogar com a sociedade. As poucas pessoas ativas nesse campo acabam sobrecarregadas, pois são as mais procuradas para atender à imprensa e outras solicitações de divulgação.
Há algum patamar que deva orientar os objetivos da DCT nacional?
Embora eu não disponha de muitos dados e informações mais precisas, observo que os Estados Unidos são desenvolvidos nessa questão. Lá, a visão social da ciência é mais otimista e progressista. Um cidadão comum admira o cientista como alguém inteligente e importante. Já no Brasil, embora também haja admiração, as pessoas associam a pesquisa a dificuldades, à falta de recursos e até mesmo à futilidade, como alguém cujos trabalhos não são tão determinantes para o desenvolvimento humano e da nação. O nosso esforço deveria ser para mudar esse estereótipo, demonstrando que é possível fazer ciência importante e de qualidade.
Há algum projeto de DCT que você pretenda realizar, mas que até o momento tenha faltado tempo?
Nada em mente, por enquanto. Quando eu posso, faço o que tenho feito nos últimos tempos, que é apresentar as minhas pesquisas em andamento.
Nota da redação: O blog disponibiliza a entrevista também em áudio. Clique aqui para ouvir.
(Com informações de Bruno Lara)
17º Prêmio Jovem Talento em Ciência da Vida
em Ciência da Vida, promovido pela Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular e a GE Healthcare Life Sciences. Podem participar alunos de iniciação científica e pós-graduação (mestrado e doutorado) que realizarem suas teses nos países da América Latina, e doutores com tese concluída após 30 de janeiro de 2012.
Os prêmios são US$ 1.500, passagem aérea para participar de um congresso internacional de escolha do candidato e a apresentação do trabalho durante a 42ª. Reunião Anual da SBBq. O comitê encarregado da seleção será composto por membros destacados da comunidade científica, indicados pela diretoria da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular.
O comitê analisará todos os inscritos e selecionará até cinco candidatos para apresentarem seus trabalhos na 42ª Reunião Anual, que serão avaliados durante o simpósio. Mais informações em:http://www.sbbq.org.br/2012/12/17o-premio-jovem-talento-em-ciencias-da-vida-2013/
(Site da SBBq)
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Ciência para o desenvolvimento - artigo de Marco Antonio Raupp na Folha de São Paulo
Para alcançar seus objetivos de desenvolvimento sustentado e competitividade econômica global, o Brasil não pode abrir mão das contribuições do conhecimento científico e tecnológico. Diante dessa realidade inexorável, estamos preparando o sistema de ciência e tecnologia (C&T) do país, para que responda rapidamente ao desafio.
Precisamos nos valer dos exemplos em que mostramos competência ao aliar C&T com produção econômica. Para se tornar líder mundial na identificação e prospecção de petróleo em águas superprofundas, a Petrobras se vale de seu centro de pesquisas e de dezenas de universidades brasileiras.
O êxito da Embraer está ligado às contribuições do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do Centro Técnico de Aeronáutica (CTA). Já os altos índices de produtividade da nossa agropecuária têm origem na Embrapa e nas faculdades de ciências agrárias e veterinárias. As pesquisas que realizamos possibilitaram o surgimento de uma agricultura tipicamente tropical.
Trabalhamos agora para estender esses modelos exitosos aos setores industrial e de serviços de modo amplo, para termos a inovação tecnológica como atividade central da nossa economia. Para isso, contamos com políticas públicas recentes e com a sólida base científica nacional.
Entre as políticas públicas, destacam-se o Plano Brasil Maior (PBM), que expressa a política industrial do governo Dilma Rousseff, e a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI), definida no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Já a nossa base científica apresenta virtudes importantes, como um amplo sistema de formação de doutores, atuação em um número significativo de áreas e uma produção de conhecimento considerável.
Mas, se já alcançamos a 13ª posição no ranking mundial de produção científica, ultrapassando países de maior tradição na área, como Rússia e Holanda, nos rankings de inovação ainda ocupamos posições periféricas. É para melhorar --e muito-- nossa capacidade inovativa que o MCTI vem adotando uma série de providências.
Uma delas é estimular o desenvolvimento de novas tecnologias, especialmente em setores estratégicos como petróleo e gás, energias renováveis, aeroespacial, TI e defesa, e em áreas como nanotecnologia e biotecnologia.
Outra providência é dotar a base científica de estruturas que sirvam para atender as necessidades tanto da academia como da indústria. A construção de novos laboratórios, o alinhamento dos institutos de pesquisa do MCTI às políticas federais e a constituição da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial --Embrapii (a "Embrapa da indústria") estão alinhados com o novo momento.
A formação de recursos humanos está sendo incrementada para satisfazer as necessidades de inovação nas empresas, a exemplo do programa Ciência sem Fronteiras.
Em razão dos elevados riscos financeiros, o governo federal vem partilhando custos das atividades de inovação tecnológica com as empresas por meio de subvenção econômica, fomento a projetos em parceria universidade-empresa e empréstimos com juros subsidiados.
Um dado inquestionavelmente positivo é o consenso existente entre o poder público e a sociedade. Estamos construindo uma política de Estado para ciência, tecnologia e inovação. Ao formar
um amplo sistema de produção científica, o Brasil mostrou que sabe transformar dinheiro em conhecimento. Agora, precisamos transformar conhecimento em riqueza.
Marco Antonio Raupp é ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Nota da redação: O conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Ciência em tom jornalístico
Texto do jornalista Mauro Malin publicado no portal Observatório da
Imprensa, no dia 4 de dezembro.
O jornalismo dito científico é um ramo
tardio da frondosa árvore de que se ocupa este Observatório da Imprensa. O
"dito científico" não vai aí para provocar os profissionais que a ele
se dedicam, muitos dos quais altamente competentes. É que, a rigor, a
especialidade deveria se chamar jornalismo "de ciência", ou
"sobre ciência". Caráter científico é a última coisa que se pode
pretender de qualquer modalidade de jornalismo.
Tempos atrás, o desafio era obter
alguma informação sobre assunto científico em linguagem leiga. Desde os anos
1980, pouco mais ou menos, tornaram-se correntes em todas as mídias
jornalísticas as reportagens sobre ciência e tecnologia. A bem da verdade, é
preciso reconhecer que eram, e são até hoje, reportagens predominantemente
ancoradas em aspectos sensacionais. Jogam para uma arquibancada aparentemente
mais sensível à emoção do que à razão.
Hoje, como disse em entrevista a
professora Sonia Vasconcelos, o público está mais atento (ver "Comunicação
científica para um público mais atento"). Reage quando há exagero,
incoerência, fundamentação débil. Mas uma nova fronteira do pensamento crítico,
nessa modalidade de jornalismo, está à vista: o escrutínio das fontes
acadêmicas, até não muito tempo atrás consideradas praticamente sacrossantas.
Invenção e bazófia - A
professora Sonia gentilmente indicou ao Observatório um artigo publicado no JAMA
(The Journal of the American Medical Association), "Spin and Boasting in
Research Articles" (invenção e bazófia em artigos de pesquisa, numa
tradução livre), assinado por Peter Cummings e Frederick P. Rivara, que abre os
olhos dos leitores para truques praticados correntemente por uma minoria (na
estatística dos autores) de pesquisadores.
O texto diz que "alguns autores
exageram a importância de suas pesquisas e depreciam de modo desleal outros
estudos". Cummings e Rivara confessam cometer eles mesmos alguns desses
pecados redacionais. E sentenciam, muito apropriadamente, que "melhorar a
redação é trabalho para a vida inteira".
O primeiro tópico do texto diz
respeito a exagerar na introdução sua importância. Eles exemplificam: "(X)
atingiu uma proporção alarmante", "um número que apavora" e
"drástico aumento". E comentam:
"Essas palavras tonitruantes não
têm significado científico. Na verdade, supervalorizam um tempo e um lugar
particulares: contagem de eventos, taxas de incidência ou estimativas de
prevalência. Que tal descrever como essas quantidades variaram ao longo do
tempo? Deixe o leitor decidir se algo é alarmante, apavorante ou drástico.
Escrever 'prioridade decisiva', mesmo se em alguma medida for verdade, é apenas
uma opinião que provavelmente não será convincente. Referir-se a uma 'epidemia
de obesidade' é um clichê. Frases banais não fazem o autor parecer sério. São
chatas e ocupam espaço. Imagine se o leitor precisa saber mais uma vez que a
obesidade é uma doença generalizada, o diabetes tem incidência crescente e o
custo do tratamento é um problema."
Menos adjetivos - Cummings e Rivara sugerem que
pesquisadores usem o mínimo de adjetivos. Criticam também os que, para promover
seus próprios trabalhos, afirmam haver uma "crise de credibilidade" e
uma "grande carência de pesquisas". Apontam especificamente
expressões como "resultados inconsistentes" ou "confusos".
Essas palavras vagas não explicam nada, afirmam. "Fazemos estudos com amostras
finitas, portanto algumas diferenças são quase inevitáveis."
Um dos trechos do artigo é dedicado ao
"uso de palavras para convencer, não para esclarecer". Novamente, os
autores nos ajudam com exemplos: "Nossos resultados mostram
claramente", "estas análises fornecem respostas claras",
"(X) foi claramente afetado", "acreditamos que nosso estudo
deixa claro". Outras expressões sugerem força: "Nossa análise...
oferece forte evidência", "este estudo mostra que (X) é muito
efetivo", a "firme associação".
Em outro trecho, o ponto é a
fanfarronada. São comuns os artigos que se vangloriam de ser pioneiros.
"Alguns são involuntariamente
cômicos devido à abundância de qualificativos, algo equivalente a ufanar-se de
ter sido o primeiro canhoto a andar de costas no Washington Monument. Se o
estudo é pioneiro, a ausência de comparação com trabalhos anteriores, na seção
de comentários, deixará isso evidente. Se a pretensão de originalidade estiver
errada, o que não é raro em nossa experiência, os que tiverem sido de fato
pioneiros não serão amistosos e você revelará desconhecimento de trabalhos
anteriores."
Outras bazófias incluem, segundo
Cummings e Rivara, frases como: "os achados... abrem uma nova
fronteira", "este estudo configura a primeira demonstração
inequívoca", "a maior amostra", "novas fortes evidências",
"um dos mais detalhados estudos sobre...", "este estudo
apresenta nova compreensão", "nossa avaliação abrangente".
Vejamos como esses fenômenos se
manifestaram recentemente nas duas revistas mais influentes do país, Veja e
Época. É fácil, como diria Adoniran Barbosa.
Atributos musculares - A Época
número 757 (de 19/11) traz duas reportagens singulares. A primeira ("A
política à base de músculos") refere-se a um (1, hum) estudo segundo o
qual "quanto mais músculos tem um cidadão, menos atenção ele dá aos menos
favorecidos" (passe a repetição da palavra). Dá a impressão de que a
matéria entrou na revista antes de uma comemoração intempestiva do fim do ano.
Todo mundo querendo sair, vamos fechar logo.
Os indivíduos comparados são Paul
Ryan, um dos corifeus da ultradireita republicana, companheiro de chapa de Mitt
Romney, e o Mahatma Gandhi. Legendas das fotos, para não perdermos tempo
comentando o texto:
"Paul Ryan. Altura: 1,88m. Peso:
74 kg. Candidato à vice-presidência dos EUA etc. Ryan disse que queria 'gerar
riqueza, não redistribuição'."
"Mahatma Gandhi. Altura: 1,64m.
Peso: 46 kg. Liderou a Índia na luta pela independência do Império Britânico
sem violência. Fez greves de fome para atrair atenção para sua causa."
Não é uma gracinha? E o pior é que na
matéria se afirma que os musculosos são mais firmes na defesa de suas causas,
sejam eles as dos ricos ou as dos pobres... Pensando bem, a matéria parece ter
sido fechada imediatamente depois de uma confraternização regada a álcool.
E tome adjetivo, advérbio... - Outra da
mesma safra faz pensar no artigo dos médicos americanos mencionado acima.
Chama-se "Os avanços da ciência da alma. Uma pesquisa inédita usa
equipamentos de última geração para investigar o cérebro dos médiuns durante o
transe. As conclusões surpreendem: ele funciona de modo diferente."
Impliquemos com uma palavra do
subtítulo: "última geração". Essa expressão é puro marketing. Por
definição, não existe uma "última" geração de equipamentos, como não
houve o "fim da História" de Francis Fukuyama. Existe uma geração
mais recente de equipamentos, que em alguma próxima esquina do desenvolvimento
tecnológico se tornará superada.
A matéria tem como referência
acadêmica a publicação Neuroimaging during Trance State: A Contribution to the
Study of Dissociation, de Julio Fernando Peres, Alexander Moreira-Almeida,
Leonardo Caixeta, Frederico Leão e Andrew Newberg. A Época traduz como
"Neuroimagem durante o estado de transe: uma contribuição ao estudo da
dissociação".
Lê-se logo no início do resumo que (em
tradução livre) "poucos pesquisadores enfocaram experiências espirituais
envolvendo estados dissociativos relacionados com mediunidade" etc. No
segundo parágrafo da introdução, "Este estudo aborda importantes teorias..."
Estão lá os adjetivos e advérbios.
Médiuns e best-sellers - No resumo
da biografia de Chico Xavier, convocado para atestar a relevância do assunto,
informam os autores que ele "produziu mais de 400 livros de escrita
automática abarcando amplo leque de estilos e assuntos, que venderam milhões de
cópias".
Se vender milhões de exemplares é
argumento, cabe propor que mentes semelhantes às de Barbara Cartland, Enid
Blyton, Dr. Seuss, Gilbert Patten, Jackie Collins, Horatio Alger Jr., R.L.
Stine, Corin Tellado, Louis L'Amour e Dean Koontz sejam objeto de atenção
científica. Quem são essas figuras? Todos venderam centenas de milhões de
exemplares de livros.
A reportagem trata de um assunto
relevante, mas a única conclusão a que se pode chegar é que quanto mais
sabemos, mais sabemos que pouco sabemos. Passemos ao próximo exemplar.
"Cura" da depressão - A edição
nº 2.297 de Veja, datada de 28/11, traz na capa a seguinte maluquice:
"Depressão. A promessa da cura. A cetamina é a primeira esperança de
tratamento totalmente eficaz da doença que afeta 40 milhões de
brasileiros". Agora que você está versado nas malandragens da divulgação
de pesquisas, salta aos olhos a antinomia entre "promessa" e
"primeira esperança", de um lado, e "totalmente eficaz", de
outro. Acrescente-se que é no mínimo arriscado falar em alguma coisa
"totalmente eficaz" nesse terreno.
No subtítulo da reportagem, está lá o
adjetivo que dá ideia de força: "um potente antidepressivo"... No
correr do texto, outros truques para "anabolizar" a cetamina. Um
psiquiatra diz, a respeito do efeito da droga: "Foi uma transformação
impressionante, num curtíssimo espaço de tempo". Tirado da revista
Science, tida como séria nos meios científicos: "indiscutivelmente a
descoberta mais decisiva para o tratamento da depressão em meio século".
Mais à frente, ficamos sabendo que a
cetamina "tem uma forma de ação inédita". E faz o que faz "de
forma muito rápida e eficiente". Um psiquiatra brasileiro, Rodrigo Machado
Vieira, afirma que as substâncias com ação em glutamato, como a cetamina,
"são, sem dúvida nenhuma, a aposta da medicina para uma nova geração de
antidepressivos".
Um longo caminho - A horas tantas, a revista
adverte: "Há ainda um longo caminho a ser percorrido até que a cetamina
saia dos laboratórios e possa ser comercializada como instrumento de combate à
depressão". Sabe o que isso significa, desprevenido leitor? Que os testes
clínicos podem apontar a probabilidade de tantos efeitos colaterais que a
substância vá fazer companhia às milhares que nunca chegaram ao mercado.
Mas não há que perder o ânimo: "A
expectativa é que em dez anos esses conhecimentos possam ser usados na prática
clínica".
Sabe como é hoje? "Sob a forma de
injeção, a cetamina só pode ser aplicada em ambiente hospitalar, de preferência
com o acompanhamento de um anestesista. Durante os quarenta minutos de duração
do procedimento, o paciente pode ter a sensação de dissociação entre o corpo e
a mente, como se formas, cores e movimento se embaralhassem". Numa dessas,
a pobre vítima vai e não volta. Que saudade dos velhos sossega-leões. É ou não
é um monumento de irresponsabilidade - escarninha, como diria Drummond?
Cruzada contra hospitais - Na mesma
linha de sensacionalismo (anti)científico, mas com sinal trocado, a Época
dedicou a capa da edição 758 (26/11) a um esforço com aparências de meritório:
"O que os hospitais não contam para você". Infelizmente, a reportagem
é sensacionalista, conduz a conclusões alarmantes e algumas passagens sugerem
ao leitor comportamentos que são tiros no pé.
O dado talvez mais chocante é
esquentado: "25% dos pacientes internados sofrem algum tipo de dano,
revelou estudo da Universidade Harvard". Como todos os números agregados,
nesses 25% estão incluídas coisas díspares, desde o dano horrendo da amputação
da perna errada, descrito na reportagem, até casos discutíveis de mortes em
cirurgias e, mais importante, falhas menores, muito distantes daquilo que leva
alguém a evitar um hospital.
O próprio texto dá uma pista:
"Mesmo nos centros americanos de alta tecnologia, pequenas falhas ou erros
gravíssimos ocorrem rotineiramente". Com certeza. Mas a ideia de que
existe algo perfeito no comportamento humano é uma presunção desmiolada que só
aumenta a aflição dos viventes. Onde não há erros? Quem não os comete? Atire a
primeira pedra etc.
Importante informação é a de que, por
incrível que pareça, boa parte das infecções hospitalares se deve a que
"muitos médicos não lavam as mãos antes e depois de atender um paciente no
quarto ou na UTI". Eis aí uma pauta importante, focada: quanta gente morre
ou adquire uma nova doença devido a essa irresponsabilidade cavalar dos
médicos? Os especialistas em infecções hospitalares afirmam que só uma minoria
lava as mãos. E uma minoria da minoria o faz corretamente.
Ou diagnósticos, ou procedimentos - A
reportagem orienta: "Escolha com cuidado os médicos do hospital". Dá
o primeiro conselho: "Desconfie das superestrelas que se acham capazes de
resolver tudo". Em seguida, classifica: "Basicamente [êta
palavrinha...], há três tipos de médicos: os que são bons de diagnóstico, os
que são bons de procedimento; e os que não são bons em nada".
Mas que gigantesca besteira. Quer
dizer que um médico capaz de diagnosticar com exatidão é incapaz de tratar
competentemente o doente? Tenham a santa paciência. A frase "não são bons
em nada" é de uma arrogância ímpar. Dá vontade de dizer... Não, deixa para
lá.
Adiante, um redobrar de
irresponsabilidade. Após o intertítulo "Como se proteger", vem um
conselho que não favorece a avaliação do QI dos envolvidos na produção da reportagem:
"Pergunte a opinião dos enfermeiros"!!! Caramba, até onde se pode
chegar para enviesar um texto.
Plataforma Lattes - Pensou que a coisa tenha ficado
por aí? Ledo engano, tolerante leitor. A matéria recomenda também a consulta ao
currículo do médico na Plataforma Lattes, do CNPq. A Plataforma Lattes é, sim,
como está no texto, "uma base de dados científicos". Por isso mesmo
consultá-la não é tarefa para o cidadão comum.
Façamos uma experiência com o
currículo de um dos médicos mais consagrados de uma capital brasileira, médico
que não será nomeado. A descrição tem mais de 50 mil palavras. Para que se
tenha uma ideia: até aqui, o longo texto que você está lendo tem pouco mais de
1.300 palavras. O que escolher? Onde o homem trabalha? O que publicou? Seus
títulos acadêmicos?
Para complicar um pouquinho mais: é um
notável cirurgião, mas recentemente fez uma barbeiragem ao operar uma pessoa
conhecida. O paciente escapou por pouco da morte. Isso não está no currículo. E
também não anula a competência do médico. Novamente: atire a primeira pedra
etc.
Síndrome de Juruna - Tem mais.
E é preocupante. A reportagem ouviu uma advogada, Rosana Chiavassa, que propõe
o seguinte despautério: "Aconselho os pacientes a gravar as consultas
médicas, para evitar dúvidas posteriores". Ora, ora. Isso só leva ao
distanciamento entre médico e paciente, fenômeno recente no Brasil e
totalizante nos Estados Unidos, onde existe uma mania nacional de levar os
problemas aos tribunais.
Qual é o efeito dessa desconfiança? Os
médicos começam a pedir um número exagerado de exames, para se cercar de
"provas" em seus diagnósticos e recomendações. A medicina sai
encarecida. A moda migra dos consultórios particulares para o serviço público.
O sistema todo fica mais caro, portanto menos acessível (principalmente nos
ambulatórios e hospitais públicos), e cada vez mais os médicos se veem na
contingência de escolher quem vai receber o melhor tratamento e quem não vai. É
cruel, é desumano, é um passo firme na direção errada.
Mas o cúmulo é este "olho":
"Peça uma segunda opinião antes de fazer um procedimento
desnecessário". Como assim? A lógica foi para o beleléu, de mala e cuia.
Outra advogada, Renata Vilhena Silva,
ensina que antes de escolher um hospital deve-se observar se ele tem a
estrutura e a capacidade técnica necessárias para realizar o tratamento:
"Se a paciente se submeterá a uma cesárea, deve escolher um hospital com
UTI adulta e UTI neonatal. E nunca aceitar se submeter a cirurgias plásticas,
ortopédicas ou qualquer outra em clínicas". Tudo indica que essas
informações são precisas, mas tratam de alguns casos entre centenas, talvez
milhares de modalidades de cirurgias.
Para não dizer que as oito páginas da
reportagem da Época não contêm informações úteis - embora num contexto quase
histericamente antimédicos e anti-hospitais -, reconheçamos que existe, sim, e
muito, comércio na medicina.
O jornalismo nunca pode ser
"científico". Nenhuma pessoa sensata o negará. O diabo é quando a
ciência parece ficar jornalística.
sábado, 17 de novembro de 2012
Ciência Hoje On-line: Genômica no consultório
Radiografia, eletrocardiograma, tomografia, ressonância magnética. Apesar das variações nos custos e das limitações dos sistemas de saúde, todos esses exames são, hoje, relativamente comuns e acessíveis e também fundamentais no tratamento de doenças. Passada mais de uma década do sequenciamento do genoma humano, a genômica poderá, em breve, fazer parte desse rol. O diagnóstico é do geneticista Sergio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cujo laboratório já realiza exames clínicos com uma técnica pioneira - prática que, segundo ele, poderá modificar muito o tratamento de doenças genéticas.
O potencial de iminente aplicação clínica da genômica deve-se, em grande parte, à evolução das técnicas de sequenciamento genético. O primeiro rascunho do genoma humano levou 11 anos e custou mais de dois bilhões de dólares para ser realizado. Hoje, o trabalho pode ser feito em uma semana, por alguns milhares de dólares. "A perspectiva é que cheguemos a um custo de mil dólares em pouco tempo, mesma faixa de preço de exames como a ressonância magnética, o que abre as portas para uma aplicação clínica ampla de técnicas genéticas de diagnóstico", defende o geneticista.
Leia a matéria completa na Ciência Hoje On-line, que tem conteúdo exclusivo atualizado diariamente:http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2012/11/genomica-no-consultorio.
(ICH)
Esperança na luta contra o câncer, artigo de Ana Amélia
Ana Amélia é senadora (PP-RS). Artigo publicado no Correio Braziliense de hoje (14).
Quando o projeto for sancionado pela presidente Dilma Rousseff, o SUS terá de agilizar o acesso à terapia. A proposta do ex-senador Osmar Dias, que tive a honra de relatar, no Senado, tem enorme alcance social, pois, quanto mais cedo for iniciado o tratamento com cirurgia, radioterapia ou quimioterapia, dependendo da recomendação do oncologista, maiores são as chances de cura. Para o diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer (Inca), oncologista Luiz Antônio Santini, "a iniciativa beneficia os pacientes do SUS e melhora a eficácia e a prestação de serviços no tratamento da doença".
O diretor-geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira (Icesp), oncologista Paulo Hoff, usa números alarmantes para chamar a atenção para o problema. São registrados, por ano, 500 mil novos casos de todos os tipos da doença no Brasil. Somente em relação ao câncer de mama, 1 milhão de pessoas desenvolve a doença, anualmente no mundo, conforme dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).
No Brasil, as estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca) indicam que, até o fim de 2012, pelo menos 52,6 mil novos casos de tumores na mama devem ser registrados. São 35 mulheres brasileiras morrendo, todos os dias, no país, por causa dessa doença, como alerta a líder da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), mastologista Maira Caleffi. Dados da entidade indicam que o diagnóstico antecipado aumenta em 95% as chances de cura. São números preocupantes, que comprovam a importância das ações voltadas ao diagnóstico precoce e à prevenção.
Outro projeto que pode aumentar a esperança dos pacientes, de minha autoria, o Projeto de Lei nº 3.998/2012 inclui, nas coberturas obrigatórias dos planos de saúde, a quimioterapia oral no tratamento da doença, em domicílio. O PL está na Câmara dos Deputados. É iniciativa legislativa inspirada na sugestão do Instituto Oncoguia e objetiva facilitar o tratamento, com rapidez. O projeto recebeu apoio das entidades médicas e tem o aval do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Essa parceria fortalece a confiança de que outra boa notícia para os pacientes de câncer está a caminho. Há solidariedade ao projeto também na Câmara.
O câncer é, com certeza, uma das preocupações no Congresso. Atualmente, 530 ações relativas à doença, incluindo projetos, requerimentos e pedidos de audiências públicas tramitam nas duas casas legislativas. São propostas que concedem benefícios fiscais, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na compra de automóvel adaptado para quem sofreu limitações físicas e sequelas após o câncer de mama (linfedema).
O PL nº 241/2011, também de minha autoria, foi proposta pela Femama. O PL nº 645/2011, iniciativa coletiva da Comissão de Assuntos Sociais (CAS), presidida pelo senador Jayme Campos (DEM-MT), criando incentivos fiscais a pessoas físicas e jurídicas interessadas em apoiar instituições filantrópicas ou privadas dedicadas ao tratamento de câncer, foi resultado de audiência pública com entidades de combate ao câncer. O governo desestimulou o projeto, mas, felizmente, voltou atrás e apresentou idêntico benefício na Medida Provisória nº 563.
A MP, transformada na Lei nº 12.715/2012, cria o Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (Pronom), permitindo que empresas e pessoas físicas apliquem parte do Imposto de Renda devido na prestação de assistência na oncologia ou em doações para pesquisas. Em parceria com a advogada Antonieta Barbosa, meu gabinete produziu a cartilha sobre os direitos dos portadores de câncer, inspirada em trechos do livro Câncer - Direito e cidadania, de autoria dessa advogada pernambucana que percorreu os labirintos da legislação para desenhar o mapa da cidadania dos pacientes de câncer.
São ações políticas importantes sobre tema de grande interesse da sociedade. O protagonismo do Congresso nessa matéria tem forte respaldo de entidades médicas filantrópicas públicas e privadas, apoiadoras da causa. Estimular a prevenção, promover pesquisas e facilitar o tratamento do câncer são, sem dúvida, um desafio coletivo.
* A equipe do Jornal da Ciência esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do jornal.
Manaus sediará Encontro Preparatório para o Fórum Mundial de Ciência 2013
Manaus será a terceira capital a reunir cientistas, pesquisadores, especialistas de diversas áreas e representantes do poder público para discutir importantes temas ligados à "Diversidade tropical e ciência para o desenvolvimento", entre os dias 28 e 30 de novembro no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
O Encontro na capital do Amazonas faz parte da programação das reuniões temáticas em sete capitais e tem como objetivo promover uma ampla discussão nacional para ser levada para o âmbito internacional. As propostas relatadas serão encaminhadas para o Fórum Mundial de Ciência, que será realizado no Rio de Janeiro em novembro de 2013.
Será a primeira vez que o evento ocorrerá fora da Hungria. Com o tema "Ciência para o Desenvolvimento Global", o Fórum é organizado pela Academia de Ciências da Hungria em parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), International Council for Science (ICSU), American Association for the Advancement of Science (AAAS), a Academy of Sciences for the Developing World (TWAS), o European Academies Science Advisory Council (EASAC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).
Organizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), ABC e o Inpa, o Encontro Preparatório de Manaus abordará os seguintes assuntos:
- Trópico úmido: singularidades, potencialidades, demandas para seu desenvolvimento e o papel da ciência;
- Ciência para o uso de recursos naturais e tropicais;
- Florestas tropicais, mitigação e adaptação a mudanças climáticas;
- Educação e cultura para formação de cientistas e inovadores nos trópicos;
- Ética e ciência na fronteira do conhecimento;
- Ciência para inclusão social e redução da pobreza nos trópicos
O Encontro, programado para acontecer no Auditório da Ciência, contará com a participação especial do pesquisador e professor Edward Osborne Wilson (Harvard University, EUA), com o tema principal "Diversidade tropical e ciência para o desenvolvimento", após a abertura solene composta por autoridades locais e nacionais às 15h do dia 28.
Para atender ao público que não puder comparecer ao evento, o CGEE transmitirá ao vivo as palestras e atividades pela web. A ideia é garantir que pesquisadores, cientistas e profissionais do setor tenham acessos às principais discussões sobre os temas apresentados no Encontro de Manaus.
A Comissão Executiva Nacional do Fórum já realizou dois Encontros Preparatórios. O primeiro aconteceu em São Paulo, entre os dias 29 e 31 de agosto deste ano, com o tema 'Ciência para o desenvolvimento global - da educação para a inovação: construindo as bases para a cidadania e o desenvolvimento sustentável'.
O segundo foi realizado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), entre os dias 29 e 30 de outubro, com o tema 'Desafios para o desenvolvimento científico e tecnológico nos trópicos'.
As inscrições para o Encontro Preparatório de Manaus podem ser feitas no link: http://fmc.cgee.org.br/index.php?option=com_wrapper&view=wrapper&Itemid=188. A entrada é franca e a transmissão online do evento será por meio do link:http://fmc.cgee.org.br.
(Ascom da SBPC)
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Alçapão molecular captura CO2
Filtragem de CO2
Pesquisadores
australianos desenvolveram uma nova técnica para capturar e armazenar dióxido
de carbono (CO2) de forma simples e seletiva.
Os
cientistas acreditam que capturar e guardar o CO2 emitido pelas
atividades humanas é a única forma de evitar que o aquecimento global atinja
níveis perigosos.
E
não apenas guardar, já que o gás é um recurso útil para a fabricação de
produtos químicos, combustíveis e até medicamentos.
Energia solar transforma CO2 em combustível para carros
No entanto, os processos atuais são ineficientes e exigem várias fases de extração para produzir dióxido de carbono puro o suficiente para sua reutilização ou armazenagem.
Nanopeneira
Uma
das técnicas mais usadas para a captura do dióxido de carbono é através de uma
peneira molecular, um sistema de filtragem ultrafina que captura uma variedade
de moléculas, que precisam depois ser separadas por meio de mais filtragens,
até se obter apenas o CO2.
Agora,
Jin Shang e seus colegas da Universidade de Melbourne desenvolveram uma
nanopeneira com uma dupla vantagem.
A
primeira é que ela possui um mecanismo de abre e fecha, parecido com um
alçapão, que não deixa a molécula de CO2 retornar, aumentando a
eficiência e diminuindo a necessidade de energia para a filtragem.
O
segundo é que nanopeneira é seletiva, capturando apenas as moléculas de dióxido
de carbono, eliminando assim a necessidade de refiltragens e gerando um gás puro.
Purificação de gás natural
"Os
resultados sugerem que este novo material terá importantes aplicações para
purificação de gás natural. Muitos campos de gás natural contêm dióxido de
carbono em excesso, que deve ser removido antes que o gás possa ser liquefeito
e enviado para uso," explicou o professor Paul Webley.
Tão
logo a molécula de CO2 passa pela nanopeneira, o alçapão molecular
se fecha, aprisionando-a.
"Temos
um novo material que é capaz de separar o dióxido de carbono de qualquer vapor,
como a exaustão das usinas termoelétricas ou das fontes de gás natural. Embora
não possamos mudar a indústria de uma vez só, estamos oferecendo uma ponte para
uma solução viável," disse Webley.
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