segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nobel da pesquisa maluca ajuda a criticar ciência 'séria'

Vencedor do Ig Nobel de neurociência questiona resultados duvidosos de investigação do cérebro.

            O Prêmio Ig Nobel - a paródia do Nobel que elege as pesquisas científicas mais esdrúxulas - destaca neste ano descobertas como a de que chimpanzés reconhecem outros macacos olhando fotos de seus traseiros e um experimento que identificou ideias complexas no cérebro de um salmão morto.

            Apesar do tom de ridículo, o segundo trabalho foi, na verdade, a denúncia de uma crise na neurociência, área em que revistas técnicas têm publicado estudos com conclusões duvidosas sobre mapeamentos cerebrais.

            A lista de ganhadores tinha outros trabalhos inacreditáveis - um deles era sobre o (baixo) risco de pacientes explodirem durante colonoscopias -, e o estudo sobre a mente do peixe acabou meio ofuscado entre os vencedores anunciados ontem (20).

            O experimento de Craig Bennet, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, representa bem o lema do Ig Nobel: premiar pesquisas que "primeiro fazem rir, depois fazem pensar".

            Usando uma máquina de ressonância magnética para mapear o cérebro do animal morto, o cientista mostrou que, usando um pouco de estatística sem rigor para interpretar os resultados, é possível tirar qualquer conclusão. No estudo, Bennet mostrou que o cadáver de peixe tinha empatia e apontou quais áreas de seu cérebro eram responsáveis por isso. "Mostramos ao salmão uma série de fotografias com humanos em situações sociais de valor emocional específico", diz o estudo. "Pedíamos ao salmão para determinar quais emoções o indivíduo estaria sentindo."

            A parte do estudo de Bennet que não tinha graça nenhuma era um levantamento sobre o panorama atual da pesquisa com ressonância magnética funcional (que vê a atividade do cérebro em tempo real). Em um ano, 26% dos artigos científicos estavam se valendo do mesmo método estatístico que ele mostrou ser frágil. Numa conferência, 79% dos trabalhos tinham esse problema. Isso explica, em parte, a proliferação de estudos atribuindo funções ultraespecíficas a partes do cérebro.

            A cerimônia de entrega do prêmio ocorreu ontem (20), no teatro da prestigiada Universidade Harvard (EUA). Conheça os ganhadores da edição 2012 do prêmio Ig Nobel:
 

FÍSICA

Joseph Keller (EUA), Raymond Goldstein (Reino Unido) e colegas

Por calcular o equilíbrio de forças que movem o cabelo e lhe dão forma num penteado com rabo-de-cavalo

 
ACÚSTICA

Kazutaka Kurihara e Koji Tsukada (Japão)

Pela criação do SpeechJammer, um dispositivo que faz as pessoas se embaralharem para falar

 
LITERATURA

Controladoria Geral do Governo dos EUA

Por publicar um relatório acerca de relatórios sobre relatórios que recomenda a preparação de um relatório sobre o relatório acerca de relatórios sobre relatórios

 
QUÍMICA

Johan Pettersson (Suécia)

Por descobrir a razão pela qual alguns habitantes da cidade sueca de Anderslöv estavam ficando com o cabelo verde: o cobre dos canos
 

ANATOMIA

Frans de Waal e Jennifer Pokorny (EUA)

Por descobrir que chimpanzés são capazes reconhecer uns aos outros por meio de fotografias dos seus traseiros
 

NEUROCIÊNCIA

Craig Bennett e colegas (EUA)

Por mostrar que algumas técnicas de neuroimagem podem detectar atividade relevante no cérebro de um salmão morto
 

PSICOLOGIA

Anita Eerland e colegas (Holanda)

Pelo estudo "Inclinar-se para a esquerda faz a Torre Eiffel parecer menor"
 

MEDICINA

Emmanuel Ben-Soussan e Michel Antonietti (França)

Por aconselhar médicos que realizam colonoscopias sobre como minimizar o risco de seus pacientes explodirem

 
PAZ

SKN Company (Rússia)

Por converter munição antiga em diamantes novos

 
DINÂMICA DE FLUIDOS

Rouslan Krechetnikov e Hans Mayer (EUA)

Por compreender padrões do movimento de líquidos dentro de uma xícara de café nas mãos de uma pessoa em movimento

(Folha de São Paulo)

sábado, 6 de outubro de 2012

Artigo: A Atividade de Penhor e a Química


O penhor é uma modalidade de empréstimo que existe há muitos séculos e, desde o seu surgimento,
consiste em se aceitar bens em troca de dinheiro. Artigos como joias, moedas, relógios e peças decorativas
confeccionadas com metais preciosos são penhorados não somente pelo seu valor econômico, mas também
pelo seu valor artístico e histórico. O ouro, a prata e a platina são metais bastante utilizados na confecção de
peças valiosas. Neste artigo, buscou-se descrever a história do dinheiro, do penhor e os materiais e os métodos utilizados na identificação de metais preciosos presentes em joias e objetos de valor.


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Molécula protege neurônios em condições de isquemia


 
Em artigo publicado na PLoS One, pesquisadores do Instituto de Química da USP demonstram que a bradicinina interrompe processo de apoptose celular no tecido cerebral de ratos

Agência FAPESP – Em artigo publicado na revista PLoS One, um grupo de pesquisadores do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP) demonstrou que a bradicinina – peptídeo com conhecida ação anti-hipertensiva – é capaz de reverter o processo de morte celular em condições que ocorrem durante uma isquemia cerebral. A pesquisa foi feita em colaboração com cientistas de Porto Rico.

            “Quando há oclusão das artérias e o fluxo de oxigênio é interrompido, as células morrem e liberam uma substância chamada glutamato. Isso estimula os receptores de glutamato, inclusive aqueles do tipo NMDA (N-metil D-Aspartato) em células vizinhas, permitindo a entrada de cálcio na célula de forma descontrolada”, explicou Alexander Henning Ulrich, coordenador do Projeto Temático apoiado pela FAPESP.

            Quando esse excesso de cálcio atinge a mitocôndria, estimula a formação de espécies reativas de oxigênio e induz programas de apoptose, uma espécie de suicídio celular.

            “Em experimento feito com ratos, a bradicinina conseguiu reverter o processo de apoptose. Isolamos cortes de uma região do cérebro desses animais, o hipocampo, e colocamos em uma solução fisiológica. Em seguida, fizemos uma estimulação elétrica com eletrodos e medimos a atividade neuronal”, disse Ulrich.

            Para simular o que ocorre no cérebro após uma isquemia, os pesquisadores trataram o tecido com NMDA, causando uma invasão de cálcio nas células. A medição da atividade neuronal feita em seguida mostrou que 80% dos neurônios piramidais do hipocampo haviam iniciado o processo de apoptose. Mas, quando o tecido cerebral recebeu bradicinina após a exposição ao NMDA, a maioria das células foi resgatada da morte.

            “Ainda estamos investigando qual é exatamente o mecanismo que confere à bradicinina esse efeito neuroprotetor. Nossa hipótese é que ocorre a ativação de uma sinalização que interrompe o processo de apoptose”, disse Ulrich.

            Apesar dos resultados promissores, de acordo com o pesquisador é pouco provável que a bradicinina possa ser usada para tratar isquemia cerebral. Alguns estudos indicam que subprodutos resultantes da degradação da molécula, tais como a des-arg9-bradicinina, poderiam induzir efeitos adversos, agravando os danos causados pela isquemia.

            “Nosso objetivo é descobrir uma substância análoga à bradicinina que tenha o efeito neuroprotetor sem as reações indesejadas”, disse.

Versátil

            A bradicinina foi isolada há mais de 50 anos por pesquisadores brasileiros. Eles observaram que o veneno da cobra jararaca-da-mata (Bothrops jararaca) aumentava a presença desse peptídeo no sangue de mamíferos.

            As substâncias responsáveis pelo aumento da concentração da bradicinina – denominadas peptídeos potencializadores da bradicinina (BPPs) – serviram de base para o desenvolvimento do captopril e de toda uma classe de medicamentos anti-hipertensivos.

            No Temático coordenado por Ulrich, o objetivo é descobrir novos usos para a molécula. A equipe verificou em modelos celulares in vitro que a substância estimula a neurogênese, ou seja, faz com que células-tronco do cérebro se transformem em novos neurônios. A descoberta abre caminho para novos tratamentos para doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson.

            Em outro experimento feito com ratos modelos da doença de Parkinson, Ulrich e a pesquisadora Telma Tiemi Schwindt Diniz Gomes, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, conseguiram reverter quadros semelhantes aos que ocorrem em pacientes com Parkinson em estágio avançado.

            Os resultados foram apresentados durante a 27ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), realizada em Águas de Lindoia no mês de agosto.

            “Induzimos a morte dos neurônios dopaminérgicos em um dos hemisférios dos animais e eles passaram a apresentar falhas motoras, observadas como comportamento rotacional após a indução do sistema dopaminérgico por apomorfina”, contou Ulrich.

            “Cinquenta e seis dias após a administração da bradicinina, o comprometimento da função motora foi revertido na maioria dos animais. A análise histológica sugere que, de fato, a melhora foi causada pela neurogênese induzida pela droga”, afirmou.

O artigo “Kinin-B2 Receptor Mediated Neuroprotection after NMDA Excitotoxicity Is Reversed in the Presence of Kinin-B1 Receptor Agonists” pode ser lido em www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0030755.

 

05/10/2012,  Por Karina Toledo

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O que não mata alivia

Veneno da mamba-negra, um dos mais tóxicos do mundo, contém molécula com potencial analgésico similar ao da morfina, sem seus efeitos colaterais. Estudo da substância também identifica novos alvos potenciais no sistema nervoso para o combate à dor.
Por: Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line
Publicado em 03/10/2012 | Atualizado em 03/10/2012
 
Sem medo: pesquisa mostra que importantes descobertas podem ter as mais perigosas e insuspeitas origens. (foto: viperskin/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)
 
            Ser mordido por uma mamba-negra não deve ser uma experiência agradável – e muito provavelmente seria sua última. Isso porque a cobra, natural da África, possui um dos venenos mais tóxicos conhecidos. Porém, um novo peptídeo encontrado em meio a toda essa letalidade pode dar origem a novas substâncias analgésicas. Em ratos, os mambalgins mostraram uma eficiência similar à da morfina, mas sem seus efeitos colaterais. Além disso, por agirem sobre estruturas moleculares que nunca haviam sido associadas à sensação de dor, podem servir para a identificação de novos alvos para futuros tratamentos.
            “É muito instigante que um veneno tão mortal também contenha uma porção pequena de um poderoso analgésico não tóxico”
            O estudo, desenvolvido na França, foi publicado na edição desta semana da revista Nature. A nova classe de peptídeos corresponde a apenas 0,5% do conjunto de substâncias que formam o veneno da mamba-negra. Os mambalgins (mambalgin-1 e mambalgin-2) inibem a atividade de estruturas do sistema nervoso denominadas canais iônicos sensíveis a ácidos (ASICs, na sigla em inglês). Esses canais são responsáveis pelo transporte seletivo de íons, especialmente de sódio, através da membrana celular de neurônios – processo fundamental para a transmissão dos sinais elétricos.
            “Não sabemos se os mambalgins desempenham algum papel no veneno da cobra ou qual efeito produzem no corpo das presas, mas é muito instigante que um veneno tão mortal também contenha uma porção pequena de um poderoso analgésico não tóxico”, afirma uma das autoras do estudo, a fisiologista Anne Baron, da Universidade de Nice Sophia Antipolis. “Seu potencial contra dor se mostrou comparável ao dos derivados da morfina, sem, no entanto, envolver receptores opioides, relacionados aos muitos efeitos colaterais da substância."
            A aplicação clínica da morfina pode levar a problemas como diminuição da capacidade respiratória, constrição das pupilas, rigidez muscular, sedação, euforia e até dependência química.
 
 
 
Derivada do ópio, a morfina é um dos fármacos mais utilizados no combate à dor. Os mambalgins apresentaram um potencial analgésico comparável ao do composto, mas sem provocar seus muitos efeitos colaterais. (foto: -sel/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)
 
 
            Além de identificar os peptídeos, o estudo também traz novos conhecimentos sobre a fisiologia molecular da dor e abre novas perspectivas para seu combate. Muitos ASICs são reconhecidamente associados à transmissão da sensação de dor, tanto nos nociceptores (células nervosas especializadas nesse tipo de sinal), quanto em neurônios do sistema nervoso central, que conduzem a informação dos nociceptores até o cérebro.
            No entanto, os mambalgins atuam sobre canais de íons que nunca haviam sido relacionados a essa sensação, denominados ASIC1a, ASIC2a e ASIC1b. “A ciência já havia relacionado outros canais de íons à sensação de dor, mas essas associações são inéditas”, comemora Baron. “Por isso, o estudo desses canais e de substâncias que atuem sobre eles pode dar origem a novas classes de analgésicos”, acredita.
 
Sobre ratos e cobras
            Os pesquisadores avaliaram a ação da substância no alívio da dor a partir de testes com ratos. Soluções com os mambalgins eram injetadas nos animais por diversas vias (como subcutânea e intracerebral) e a sensibilidade dos roedores era medida a partir de suas reações a estímulos de dor aguda e dor inflamatória.
            “As vias associadas à dor são parecidas no homem e no rato, o que nos dá confiança no seu potencial para combater a dor”
            “Não sabemos ainda se poderemos repetir, em humanos, os bons resultados obtidos com os ratos”, pondera Baron. “Mas as vias neurológicas associadas à dor são parecidas no homem e nesses animais, o que nos dá confiança no seu potencial para combater a dor.”
            Ela pondera, no entanto, que ainda há muitas etapas a serem vencidas para uma aplicação comercial da molécula. O próximo passo será a realização de mais testes pré-clínicos que avaliem seu potencial para o alívio de outros tipos de dor, como dores crônicas, e com outras vias de administração.
            “Há muitos desafios nesse caminho”, avalia. “Por exemplo, sua própria natureza de peptídeo pode dificultar a manipulação dos mambalgins pela indústria farmacêutica, por serem pouco estáveis e difíceis de administrar oralmente. No entanto, a química de hoje é boa o suficiente para superar esse tipo de barreira.”
            Baron lembra que, apesar de se tratar de um fato raro, essa não é a primeira vez que substâncias analgésicas são identificadas no veneno de animais. Até agora, a mais notável delas não vem de cobras, mas de caracóis marinhos, e é utilizada no combate à dor crônica.
Rápida, mortal e famosa
 
A mamba-negra ou mamba-preta (Dendroaspis polylepis) é uma das cobras mais venenosas do mundo: sua taxa de mortalidade, sem tratamento, é de quase 100%, levando a presa à morte de minutos a poucas horas depois da mordida. Ela pode ser encontrada em boa parte da África e é uma das mais velozes serpentes do planeta, podendo se deslocar sobre o solo em velocidades de até 20 km/h. Seu nome está relacionado à coloração da parte interna da sua boca – uma ameaçadora bocarra negra. A espécie ficou famosa em 2003 e 2004, por aparecer (como na imagem acima) nos filmes da série Kill Bill, do cineasta Quentin Tarantino, e servir de codinome para a personagem principal da produção, Beatrix Kiddo, interpretada pela atriz Uma Thurman.

Bactéria pode atuar como “vacina” para dengue


  Organismo pode bloquear a multiplicação do vírus da dengue dentro do Aedes aegypti ao ser inoculado no inseto, indicam cientistas. Há também possibilidade de estender a estratégia para o vetor da malária (UCSC).

Agência FAPESP – Primeiramente encontrada em 1924 no mosquito Culex pipiens, a Wolbachia pipientis é uma bactéria presente nas células de cerca de 70% dos insetos, desde borboletas ao pernilongo.

          O Aedes aegypti, vetor da dengue – considerada a mais importante doença viral transmitida por mosquitos no mundo –, pertence aos 30% de invertebrados que não têm a bactéria. Ou não tinham.

          Pesquisadores descreveram, durante o 28º Congresso Internacional de Medicina Tropical, evento realizado no Rio de Janeiro entre os dias 24 e 27 de setembro pela Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, como a Wolbachia pode atuar como uma “vacina” para o Aedes, bloqueando a multiplicação do vírus dentro do inseto ao ser inoculada no mosquito.

Cada cepa da bactéria é responsável por uma reação em seu hospedeiro. Há alguns anos, ao observarem que ela diminuía pela metade o tempo de vida da Drosophila (a mosca-das-frutas), cientistas do programa internacional “Eliminar a Dengue: Nosso Desafio”, liderados por Scott O’Neill, da Universidade de Monash (Melbourne, Austrália), demonstraram que a Wolbachia, se inoculada no Aedes aegypti, poderia também reduzir a longevidade do mosquito, diminuindo a sua capacidade de transmitir o vírus.

          “Se o mosquito vivesse pela metade, ele teria menor chance de transmitir o vírus, já que esse precisa ficar incubado de oito a dez dias dentro do corpo do vetor. Então, pensamos que, se vivesse 15 em vez de 30 dias, o inseto morreria antes de se alimentar e de haver a incubação do vírus”, disse o entomologista molecular Luciano Moreira, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição brasileira parceira do projeto mundial.

          “Mas, quando inoculamos a bactéria, ficamos surpresos ao ver que ela, além de diminuir o tempo de vida do mosquito, também fazia com que o vírus não se desenvolvesse”, disse.

          “Agora, há uma nova cepa da bactéria que está sendo usada na Austrália e que não encurta a vida do inseto, mas apenas bloqueia o vírus. Então, a ideia de encurtamento da vida do mosquito já não é tão importante. O importante é o bloqueio do vírus”, disse Moreira à Agência FAPESP.

          A Wolbachia foi transferida da mosca-das-frutas para o Aedes aegypti por meio da técnica de microinjeção, que consiste em uma agulha fina que insere a bactéria nos ovos do mosquito.

          Em 2008, Moreira se mudou para a Austrália e passou a trabalhar com a equipe de pesquisadores que desenvolviam o projeto no país. “A partir do momento que tivemos a linhagem de mosquitos com a bactéria, trouxemos os ovos para o Brasil e fizemos o cruzamento com as populações brasileiras de mosquitos, ainda mantidos em laboratório”, contou.

          No Brasil, o projeto em sua primeira fase foi focado na manutenção de colônias dos mosquitos com a bactéria e no cruzamento com Aedes aegypti de populações brasileiras.

          A soltura da nova linhagem de mosquitos na natureza deve ocorrer no começo de 2014, no Rio de Janeiro, escolhido por este ser o estado campeão de casos da doença e pela quantidade de mosquitos encontrada ao longo do ano inteiro. Na Austrália, os mosquitos com as bactérias já foram soltos. No Vietnã e na Indonésia, a soltura ocorrerá no ano que vem.

          “Há um processo de preparação. Temos que trabalhar primeiro com as comunidades e informá-las sobre o projeto. Além disso, precisamos conhecer dados entomológicos sobre as populações de mosquitos locais”, explicou Moreira.
 

Projeto seguro e sustentável

          A Wolbachia só pode ser transmitida verticalmente (de mãe para filho) por meio do ovo da fêmea do mosquito. Fêmeas com Wolbachia sempre geram filhotes com a bactéria no processo de reprodução.

          “Por isso, uma vez estabelecido o método em campo, os mosquitos continuam a transmitir a bactéria naturalmente para seus descendentes”, disse Moreira.

          Após soltos em campo, o número de mosquitos machos e fêmeas com Wolbachia tende a aumentar, até que a população inteira de mosquitos tenha a bactéria e o vírus não se estabeleça mais.

          “Nossa estratégia é completamente compatível com outras. Não será a única forma de controle da dengue. As pessoas terão que continuar a tirar os criadouros e os cientistas a continuar as pesquisas em vacinas”, disse Moreira.

          O entomologista ressalta as principais características do projeto, como a segurança e a autossustentabilidade. “É um projeto seguro, pois a bactéria já está presente na natureza. É autossustentável porque, a partir do momento em que é colocada no campo, a bactéria é passada para a natureza. Além de tudo isso, não tem fins lucrativos. Os mosquitos não serão vendidos. Serão espalhados e assim utilizados”, afirmou.

          Assim como o A. aegypti, o Anopheles, principal vetor da malária no Brasil, não tem a bactéria. “Mas já foi demonstrado que se a Wolbachia for injetada no corpo do mosquito ela bloqueará o parasita causador da malária”, destacou Moreira.
 
03/10/2012, Por Washington Castilhos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Computadores vão se Comparar a Mente Humana no Ano de 2029


Em coisa de 50 anos, a humanidade será completamente diferente do que sempre foi. Máquinas menores que a espessura de um fio de cabelo ajudarão a manter a saúde no interior do corpo e participarão da atividade cerebral, tornando mundos virtuais tão realistas para os sentidos quanto o mundo verdadeiro. E a imortalidade estará ao nosso alcance. 

Maluquice? Pode ser. Mas o maior proponente dessas ideias certamente não é maluco. Um dos inventores mais brilhantes das últimas décadas, o americano Ray Kurzweil é um importante impulsor da inteligência artificial há mais de 30 anos. Entre suas criações estão sistemas de reconhecimento de caracteres e de voz. 

Aos que torcem o nariz para a sua futurologia, Kurzweil lembra que, usando o mesmo raciocínio, ele foi capaz de prever a explosão mundial da internet quando ela se resumia a 2.000 cientistas usuários, na década de 1980. Ele prevê alguns avanços notáveis que podem servir de balizas para o seu poder de previsão. O inventor sugere, por exemplo, que um computador poderá exibir comportamento que imite de forma indistinguível um ser humano em 2029. 

Confira a seguir trechos da entrevista que ele concedeu à Folha durante sua última passagem por São Paulo, durante o evento de gestão Fórum HSM. 

O inventor norte-americano Ray Kurzweil se apresenta emevento em Nova Déli, Índia.

Folha - O sr. fala do aumento exponencial da tecnologia, mas há quem já fique irritado de ter de comprar um iPhone novo todo ano. O próprio perfil de consumo não vai frear o ritmo de avanço tecnológico?
Ray Kurzweil - Isso não vai acontecer, porque a tecnologia está evoluindo para se adaptar ao ser humano. Quando eu era jovem, computadores eram só para engenheiros e técnicos. Hoje, a interface está cada vez mais simples e intuitiva. Hoje, as pessoas conhecem faixas muito estreitas do conhecimento, mas temos nossas ferramentas computadorizadas para encontrar as informações de que precisamos. Então, já estamos expandindo nossas mentes por essas ferramentas. No fim das contas, elas vão parar dentro do nosso corpo e do nosso cérebro. 

Como o sr. vê o percurso futuro da tecnologia, uma vez que mesmo eventos como guerras mundiais ou recessões econômicas fortes parecem ser incapazes de frear seu avanço? Há um limite?
Os limites definitivos, que vêm das leis da física, na verdade não são muito limitadores. Podemos expandir nossa inteligência trilhões de vezes antes de alcançar esse limiar. Agora, o que pode parar tudo é um derretimento existencial da civilização. Isso não é impossível. Nós temos armas atômicas em número suficiente para fazer isso.

E quanto ao risco representado por novas tecnologias?
Eu escrevi muito sobre o risco existencial vindo da genética, da nanotecnologia e da robótica. Eu não acho que a solução certa seria banir essas tecnologias. Primeiro, estaríamos nos privando dos benefícios. Ainda há muito sofrimento no mundo. Não acho que queremos dizer aos pacientes de câncer, "bem, estamos muito próximos de reprogramar a biologia e eliminar o câncer, mas vamos cancelar tudo isso por causa do risco de bioterrorismo". 

Em segundo lugar, seria preciso um sistema totalitário para impor um banimento em biotecnologia. 
Mais importante, contudo, isso não funcionaria. Só empurraríamos essas tecnologias para o submundo, onde as únicas pessoas que teriam acesso a elas seriam os criminosos.

Cientistas responsáveis, com quem contaríamos para nos proteger, não teriam acesso às ferramentas para fazer isso.

Embora sua visão seja extremamente otimista quanto ao avanço da medicina, temos um sistema de desenvolvimento e aprovação de novos medicamentos que consome muitos anos. Isso não impedirá a evolução acelerada?
Eu acho que há problemas com a regulação. Mas não acho que seja um problema com a FDA [agência que regula remédios nos EUA] e com as agências reguladoras de outros países, e sim com as expectativas públicas e a ideia do juramento de Hipócrates, que eu acho errada. Ele diz: "em primeiro lugar, não faça mal". Se você quer não fazer mal, demita todos os médicos e feche todos os hospitais, porque então você nunca faria mal nenhum. Sempre que você tenta ajudar as pessoas, há uma possibilidade de fazer mal a elas. 

Sim, mas a ideia é ser cauteloso...

Não é um jogo de risco zero, você tem de considerar o risco da doença. E isso não recebe igual atenção na regulamentação. Se houver uma pequena chance de prejudicar o paciente, isso vai segurar o processo, mesmo que haja uma chance enorme de ajudar o paciente. 

O sr. tem defendido que o desenvolvimento de máquinas capazes de pensar passa por usar o cérebro humano como modelo, e o sr. também fala de superinteligência, muito superior à do cérebro humano. Entretanto, temos exemplos de supercapacidades em humanos, como os savants, que têm memória e habilidades prodigiosas, mas, em compensação, apresentam um sério deficit em outras áreas da cognição. Será que não há aí uma barreira intransponível para a superinteligência?
O cérebro humano tem limitações. Faz certas coisas muito bem, e só podemos nos beneficiar aprendendo como funciona e então evitando algumas de suas limitações. Uma delas diz respeito à capacidade. Estimo que haja cerca de 300 milhões de reconhecedores de padrões no neocórtex. É isso que pode caber lá, biologicamente, por causa da arquitetura do crânio. 

Uma vez que possamos criar um córtex artificial que funcione do mesmo modo, não existe razão pela qual o limitemos em 300 milhões, porque não teremos essa limitação física. Você pode ir para 1 bilhão, 1 trilhão... 

Mas como saber que vai funcionar? Talvez haja uma limitação inerente à arquitetura do sistema. Não há como saber se ele continuará operando se você aumentar a escala ou se simplesmente haverá uma sobrecarga.

Você obviamente terá de tentar construir [esse supercérebro] para saber se ele funciona. Até agora funciona bem. Ainda não estamos no nível humano de inteligência. Mas, quando os computadores aprendem a fazer alguma coisa, conseguem fazê-la muito bem, na verdade melhor que os humanos. 
Temos muito caminho a percorrer, mas não acho que estejamos muito longe. A data que eu sugiro é 2029, quando os computadores estarão no nível dos humanos. 

E quanto à diferença entre inteligência e consciência? O sr. acha que máquinas serão capazes de fazer esse salto de autopercepção?
Bem, é uma questão filosófica. Algumas pessoas acham que a consciência é pensar sobre pensar; se você pode descrever seu processo de pensamento, isso é consciência. Minha posição é de que algumas teorias a esse respeito soam científicas, mas não são. Não são diferentes da crença religiosa de que há um ser supremo que atribui consciência a certas coisas, como humanos. Minha conclusão: você não pode evitar saltos de fé. 

A aceleração da tecnologia leva, numa expressão que o sr. tomou emprestado da física, a uma singularidade -uma realidade imprevisível que não podemos ver agora porque está escondida de nós da mesma forma que um buraco negro. Queria levar essa metáfora um pouco mais adiante. Se eu fosse um viajante espacial e passasse perto de uma singularidade, faria tudo para evitá-la. Nós devemos evitar a singularidade tecnológica?
É uma ótima pergunta. Eu acho que estamos sendo puxados para ela e não podemos evitá-la. Nós temos inteligência suficiente para falar de como seria cair numa singularidade. Nós não necessariamente perceberíamos que cruzamos o horizonte dos eventos. Acho que é a mesma coisa aqui. 

O mais difícil de encarar é a noção de uma IA (inteligência artificial) não amigável, que seria mais inteligente que nós e defenderia valores que não reconhecemos em nosso sistema moral.

Acho que o melhor jeito de nos defendermos disso é enfatizar os valores que respeitamos em nossa sociedade hoje, valores como democracia, tolerância, apreciação pelo próximo, liberdade de expressão e por aí vai. 

O mundo do futuro não virá de um único laboratório. Ele emergirá do mundo de hoje. Se praticarmos esses valores agora, temos a melhor chance de refleti-lo no mundo do futuro. Não é uma estratégia infalível. Mas acho que é o melhor que podemos fazer.

Mas como os nossos valores vão ser transferidos às máquinas?
Bem, acho que nossas máquinas estão tremendamente integradas à nossa sociedade. Elas não estão isoladas em algum laboratório. Há 6 bilhões de celulares, 1 bilhão de smartphones, uma criança na África tem mais poder na sua mão que o presidente dos Estados Unidos tinha 15 anos atrás, em termos de acesso ao conhecimento e à informação. Indivíduos, jovens, têm o poder de mudar o mundo. Não é uma abstração. E as máquinas não estão lá fora com sua própria cultura. Nós já somos uma civilização homem-máquina.




Fonte: Salvador Nogueira, Folha de São Paulo de 03.10.1951

Chaves da Fotossíntese são Desvendadas



Os químicos do Centro Baruch '60 para Pesquisas Bioquímicas de Energia Solar no Instituto Politécnico em Rensselaer sob a liderança da KV Lakshmi forneceram informações importantes sobre uma porção específica do processo fotossintético designado de fotossistema II. Essa descoberta oferece dados para uma nova pesquisa básica entender como as plantas convertem eficientemente a energia do sol e poderá ajudar a desenvolver a criação de tecnologias de energia solar novas, de peso e mais eficientes.
 

A nova pesquisa está se concentrando nas duas reações fotoquímicas que as plantas usam para converter a energia solar em energia química que ocorre dentro do fotossistema II. Particularmente, os pesquisadores estudaram uma ligação e ativação das moléculas de água do substrato em um sítio catalítico do fotossistema II. O fotossistema II é um complexo de proteínas nas plantas e as cianobactérias que usam os fótons da luz para dividir as moléculas de água, também conhecido como oxidação solar da água. Os prótons e elétrons resultantes desta divisão são então usados pela planta para abastecer os sistemas restantes no processo fotossintético que transforma a luz em energia química.

Maiores detalhes estão disponíveis na nota à imprensa no site do Instituto Politécnico de Rensselaer: http://news.rpi.edu/update.do?artcenterkey=3063.

domingo, 30 de setembro de 2012

Bicho-da-seda Transgênico Produz "Teia do Homem-Aranha".


Genética da seda

Uma equipe internacional de pesquisadores criou bichos-da-seda geneticamente modificados para produzir fios com uma resistência similar aos fios das teias de aranha. Segundo os cientistas da Universidade de Wyoming, os resultados do experimento podem levar ao desenvolvimento de materiais revolucionários para a medicina e engenharia, já que a seda produzida pelas aranhas é mais resistente que o aço. Tentativas anteriores de criar aranhas para a produção comercial de sua seda fracassaram porque os aracnídeos não produzem quantidades suficientes e têm tendência a comer uns aos outros. Bichos-da-seda, por seu lado, podem ser criados em cativeiro facilmente e produzem grandes quantidades de seda, mas o material é mais frágil. A solução foi unir o melhor de cada um dos animais por meio da engenharia genética.

 Teia em volume industrial

Pesquisadores vêm tentando há anos chegar à produção de seda super-resistente em quantidades industriais, através da inserção de genes das aranhas nos bichos-da-seda, mas os animais geneticamente modificados não haviam produzido seda suficiente até agora. O estudo da equipe liderada por Don Jarvis gera um composto de seda de aranha e de bicho-da-seda - tão forte como as teias dos aracnídeos - em vastas quantidades. Os primeiros resultados da pesquisa surgiram em 2010, quando a equipe conseguiu criar os primeiros bichos-da-seda transgênicos capazes de produzir teia de aranha artificial.
Agora eles conseguiram ampliar essa produção a um nível passível de exploração comercial. 

Medicina e plásticos

Para o professor Christopher Holland, da Universidade de Oxford, a pesquisa pode tornar mais viável a produção de seda fortalecida em escala comercial. "Essencialmente, o que este estudo mostra é que os cientistas foram capazes de usar um componente da seda de aranha e fazer com que bichos-da-seda o transformassem em uma fibra juntamente com sua própria seda. Eles também provaram que este composto, que contém partes da seda de aranha e da seda do próprio bicho-da-seda, tem propriedades mecânicas melhoradas", explicou ele. Na área médica, o novo material poderia ser usado para criar suturas, implantes e ligamentos mais fortes. A seda de aranha geneticamente modificada também poderia ser usada como um substituto mais sustentável para os plásticos duros, que usam muita energia em sua produção. 

Agradecimento: Bióloga Carliane Ribeiro

Bibliografia:
 Silkworms transformed with chimeric silkworm/spider silk genes spin composite silk fibers with improved mechanical properties Florence Teulé, Yun-Gen Miao, Bong-Hee Sohn, Young-Soo Kim, J. Joe Hull, Malcolm J. Fraser, Jr, Randolph V. Lewis, Donald L. Jarvis Proceedings of the National Academy of Sciences January 3, 2012 Vol.: Published ahead of print DOI: 10.1073/pnas.1109420109

Ligação Avançada: Cabo de Fibra Ótica Ligará Fortaleza a Luanda.


Técnicos da Telebrás e da Angola Cable concluem em duas semanas os estudos do cabo submarino de fibra óptica de seis mil quilômetros que ligará Fortaleza e Luanda.

Em muitos países, a disseminação da fibra óptica nas redes de telecomunicações é fator estratégico para o desenvolvimento econômico e social. O Brasil já conta com mais de 350 mil km de fibra, principalmente nos backbones, a espinha dorsal das redes das operadoras. Mas, sem uma política pública definida e longe de dispor de uma meta para opticalização de sua infraestrutura de telecomunicações, o país precisa correr para alcançar os resultados de nações como Japão e Coreia, que em 2010 atingiram a meta de cobertura de fibra óptica em 95% dos domicílios.

A Comissão Europeia estabeleceu a "Agenda Digital para a Europa" com as metas de que, até 2020, todos os europeus tenham acesso à internet com velocidades acima de 30 Mbps e que pelo menos 50% dos lares sejam atendidos com velocidades acima de 100 Mbps.

Segundo dados do FTTX Council, havia 74,7 milhões de acessos residenciais (FTTH/B) no mundo em 2011, sendo 54,3 milhões na Ásia, 9,7 milhões nos Estados Unidos/Canadá, 5,7 milhões na Rússia e países vizinhos, 4,5 milhões na Europa e 0,52 milhões no Oriente Médio.

"Ainda temos o desafio da opticalização. Nosso objetivo é expandir os grandes backbones nacionais, que hoje atingem apenas duas mil cidades, para 95% dos municípios até 2022, dentro do que o ministro Paulo Bernardo vem chamando de PNBL 2.0. Mas, no caso do acesso, ainda não chegamos a um desenho nem a uma meta", explica Artur Coimbra Oliveira, diretor do departamento de banda larga do Ministério das Comunicações.

Criado em 2010, o Plano Nacional da Banda Larga (PNBL) tem por objetivo ampliar a infraestrutura e os serviços de telecomunicações, promovendo o acesso com melhores condições de preço, cobertura e qualidade. Mas a meta sempre foi acanhada: permitir o acesso à banda larga a 40 milhões de domicílios brasileiros até 2014 à velocidade de, no mínimo, 1 Mbps.

"O objetivo do PNBL 1 foi massificar o acesso, e isso está sendo feito por meio da redução de custo e do aumento da competição. No PNBL 2.0, vamos focar o aumento da velocidade com a meta de acesso mínimo de 5 Mbps, podendo chegar a 100 Mbps até 2022", assegura Oliveira. Para Foad Shaikhzadeh, presidente da Furukawa, a fibra óptica vai avançar no País quando houver um benefício econômico para as operadoras. "Sem isso, vamos levar 30 anos para ter o País coberto por fibra", afirma.

O mercado aguardava com expectativa a Lei 12.715 que cria o Regime Especial de Tributação do Programa Nacional de Banda Larga para Implantação de Redes de Telecomunicações. Mas o artigo 34, que previa a possibilidade de projetos estratégicos gerarem créditos no Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel), foi vetado pela presidente Dilma Rousseff. "Mas o regime especial prevê incentivos fiscais de PIS e Cofins para expansão e modernização de redes, desde que os projetos sejam executados com tecnologia nacional", diz Oliveira.

Para Eduardo Levy, diretor-executivo da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), qualquer desoneração é bem-vinda, mas ele adverte que as operadoras terão de submeter projetos e é possível que a contrapartida de investimentos obrigatórios seja maior do que os benefícios tributários que vão receber.

Os projetos não se restringem ao território nacional. Empresas brasileiras e estrangeiras já firmaram contratos para investir na instalação de cabos submarinos que vão ampliar a conexão do Brasil com outros países.

A fibra óptica é um filamento de vidro ou materiais poliméricos. A partir de equipamentos emissores a LED ou a laser, os sinais elétricos de dados e imagens são convertidos em pulsos de luz, que são transmitidos pela fibra. Na ponta, ficam os equipamentos eletrônicos de tecnologia WDM/DWDM (Wavelength-Division Multiplexing / Dense Wavelength Division Multiplexing), que transformam as informações de vários comprimentos de onda em um único pulso de luz, chegando a taxas de transmissão de 1,6 Terabits/s em um único par de fibras.

Desde a privatização, as operadoras brasileiras avançaram na opticalização de suas redes de transporte e praticamente todos os grandes backbones já são de fibra. O passo seguinte é a implementação de fibra no backhaul, redes metropolitanas que vão do backbone até os pontos de distribuição do tráfego. Praticamente todas as grandes cidades já têm redes metropolitanas em fibra. A última fronteira é levar o meio óptico ao acesso, correspondente à última milha da rede, que vai da central até os domicílios.

Cabos submarinos - Técnicos da Telebrás e da Angola Cable concluem em duas semanas os estudos do cabo submarino de fibra óptica de seis mil quilômetros que ligará Fortaleza e Luanda. A previsão é que as obras comecem em dois meses e estejam prontas até 2014. A capacidade e custo do projeto serão definidos no edital de licitação internacional para a realização do empreendimento.

A parceria é parte da estratégia da Telebrás de ter uma rede de cabos submarinos ligando o Brasil à África, Europa e Estados Unidos. A empresa trabalha para lançar cinco cabos submarinos - quatro internacionais e um em território brasileiro. Serão 24 mil quilômetros de rede a um custo estimado de R$ 1,8 bilhão.

"Muitos desses projetos visam a Copa do Mundo. Se não forem viabilizados, será preciso sobrecarregar a rede que já existe. Se acontecerem, folga para todo mundo", diz Sebastião Nascimento, gerente de projetos especiais da Telebrás.

A Claro, subsidiária do grupo mexicano América Móvil, constrói com a Embratel um cabo submarino com 17.500 quilômetros que vai ligar o Brasil e os Estados Unidos. A Oi também tem plano de lançar novas redes internacionais de fibra óptica além da extensão até a Colômbia do GlobeNet que liga Tuckerton, em Nova Jersey, e Boca Raton, na Flórida, a Fortaleza e Rio de Janeiro, no Brasil, St. David, nas Bermudas, e Maiquetía, na Venezuela. Outros grupos, como Seaborn Networks, EFive e Wasace Cable Company também têm projetos de novos cabos submarinos com passagem pelo Brasil. "A necessidade de banda para conexão à internet praticamente dobra a cada ano", diz Eduardo Tude, presidente da Teleco, empresa de consultoria em telecomunicações.

O projeto da Telebrás é estratégico para garantir ao país autonomia na comunicação internacional por meio de uma conexão de alta velocidade e qualidade. Hoje, 46% do tráfego de internet do Brasil vem de fora do País e 90% faz escala nos Estados Unidos. As novas rotas diretas também permitirão o barateamento dos custos de internet.

Hoje, o tráfego entre a Europa e a América Latina é 600 vezes menor do que com a América do Norte por falta de infraestrutura. A rede de novos cabos submarinos aumentará a capacidade do tráfego de informações do País, que hoje é de 1,8 Terabytes por segundo, para 32 Tbps. Apenas 500 Gigabytes por segundo são acessados via redes internacionais pelos cabos submarinos existentes.

A Telebrás também já firmou acordo com espanhola IslaLink para a execução de ações conjuntas que viabilizem a construção do cabo submarino entre América do Sul e Europa com passagem por Cabo Verde, na África. O cabo com saída para os Estados Unidos e chegada em Miami, Jacksonville ou Virgínia, passará pelo Caribe e conectará o Brasil à Colômbia e Venezuela. O projeto para o Cone Sul fará a ligação do Brasil com Argentina e Uruguai.

O investimento da Claro no cabo submarino AMX, com capacidade de 500 Gbps, será de US$ 1 bilhão. O traçado sai de Salvador, passa pelo Rio de Janeiro e Fortaleza até chegar a Miami. A previsão da operadora é concluir o projeto no primeiro trimestre do ano que vem. O grupo América Móvil integra um consórcio com operadores internacionais que já controla dois cabos submarinos: o Atlantis-II e o Americas-II, que ligam o Brasil aos Estados Unidos. "Este cabo submarino permitirá suportar o crescimento de tráfego previsto para os próximos anos", diz a operadora no Plano de Melhoria dos Serviços entregue à Anatel em agosto.

A Seaborn Networks planeja o Seabras-I, entre Nova York e São Paulo. O grupo sulafricano EFive já anunciou a construção do South Atlantic Express (SAEx), para ligar a África do Sul ao Brasil e aos Estados Unidos. A Wasace Cable Company está desenvolvendo uma série de três sistemas, dois dos quais se conectam à América Latina: o Wasace Américas e o Wasace África, integrando África do Sul, Angola, Brasil e Estados Unidos. Grupos de investimento sulafricanos também já propuseram um cabo chamado BRICs desde Vladivostok, na Rússia, a Fortaleza, no Brasil, com passagem por China, Índia, Ilhas Maurício, África do Sul e Cingapura.

O primeiro cabo submarino do Brasil, parte da primeira linha telegráfica do país, foi inaugurado em 1857, tinha 50 quilômetros, 15 debaixo d'água, e ia da Praia da Saúde, no Rio de Janeiro, a Petrópolis. Hoje, sete sistemas fazem a conexão internacional do país. Eles somam quase 100 mil quilômetros. O Americas-II, que entrou em operação em 2000, liga o Brasil de Fortaleza à Guiana Francesa, Trinidad e Tobago, Venezuela, Curaçao, Martinica, Porto Rico e Estados Unidos. Tem 9 mil quilômetros de extensão, quatro pares de fibras óticas e capacidade de transmissão de 80 Gbps. O Americas-I, que segue o mesmo traçado, foi inaugurado em 1994.

O Atlantis-II tem 12 mil quilômetros. Liga o Brasil à América do Sul, EUA, Europa e África. Pertence a um consórcio internacional formado por 25 empresas, entre elas a Embratel, custou US$ 370 milhões e tem capacidade de 20 Gbps com previsão para atingir 40 Gbps. Pelo Atlantis-II o Brasil integra uma rede digital que conecta os cinco continentes e é composta por 73 sistemas de cabos de fibras ópticas com 385 mil Km de extensão.
(Valor Econômico)