terça-feira, 8 de março de 2016

Celebrando o Dia Internacional das Mulheres com um Número Especial do Chemistry–A European Journal



Acesse o número especial do Chemistry–A European Journal, dedicado às mulheres do mundo todo que atualmente trabalham e se dedicam às pesquisas na área de Química.

         Os artigos a seguir destacam grandes contribuições dadas por mulheres à Química e que inspiram muitas jovens a continuar na carreira científica.



Women in Chemistry – Where We Are Today
C. D'Andola


Why Are Women Underrepresented in STEM Fields?
H. Nimmesgern


Is It Easy to Be a Woman in Science?
I. P. Beletskaya


The 'Leaky Pipeline'
M. Resmini


Building an Inclusive Culture in the Chemistry Department at Imperial College
T. Welton

domingo, 6 de março de 2016

Debate sobre uso seguro de agrotóxicos opõe indústria e pesquisadores


A discussão sobre a notificação compulsória nos casos de intoxicação por agrotóxicos ganha mais força quando se debate se existe ou não segurança para a produção, manuseio e aplicação dos agrotóxicos, ou até mesmo no consumo de alimentos ingeridos pela população.


          Enquanto a vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal – Sindiveg, Silvia Fagnani afirma que “se usado de forma correta no campo, a aplicação de agroquímicos é segura”, a dissertação de mestrado do farmacêutico Pedro de Abreu mostra justamente o contrário: “os produtores não possuem nem conhecimento nem recursos para seguir as normas preconizadas pela Lei dos Agrotóxicos ou pelos manuais de segurança, elaborados pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andev, que representa as indústrias químicas) e por instituições públicas de saúde, meio ambiente e agricultura”.
          Na terceira matéria da série “Agrotóxicos: a história por trás dos números” são mostrados casos como os dos trabalhadores das cidades de Lavras, em Minas Gerais, e de Limoeiro do Norte, no Ceará, que apesar da distância geográfica enfrentam o mesmo problema.
          Leia a matéria completa “A controvérsia sobre o uso seguro de agrotóxicos” no site do Icict/Fiocruz: http://www.icict.fiocruz.br/content/controv%C3%A9rsia-sobre-o-uso-seguro-de-agrot%C3%B3xicos

Assessoria de Imprensa – Fiocruz



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica



Combater o mito da genialidade, a perversidade dos pequenos poderes e os "donos de Foucault" é fundamental para termos uma universidade melhor

Por Rosana Pinheiro-Machado, publicado em 24/02/2016, Carta Capital.

          A vaidade intelectual marca a vida acadêmica. Por trás do ego inflado, há uma máquina nefasta, marcada por brigas de núcleos, seitas, grosserias, humilhações, assédios, concursos e seleções fraudulentas. Mas em que medida nós mesmos não estamos perpetuando esse modus operandi para sobreviver no sistema? Poderíamos começar esse exercício auto reflexivo nos perguntando: estamos dividindo nossos colegas entre os “fracos” (ou os medíocres) e os “fodas” (“o cara é bom”).
          As fronteiras entre fracos e 'fodas' começam nas bolsas de iniciação científica da graduação. No novo status de bolsista, o aluno começa a mudar a sua linguagem. Sem discernimento, brigas de orientadores são reproduzidas. Há brigas de todos os tipos: pessoais (aquele casal que se pegava nos anos 1970 e até hoje briga nos corredores), teóricas (marxistas para cá; weberianos para lá) e disciplinares (antropólogos que acham sociólogos rasos generalistas, na mesma proporção em que sociólogos acham antropólogos bichos estranhos que falam de si mesmos).
          A entrada no mestrado, no doutorado e a volta do doutorado sanduíches vão demarcando novos status, o que se alia a uma fase da vida em que mudar o mundo já não é tão importante quanto publicar um artigo em revista Qualis A1 (que quase ninguém vai ler).
          Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dizíamos que quando alguém entrava no mestrado, trocava a mochila por pasta de couro. A linguagem, a vestimenta e o ethos mudam gradualmente. E essa mudança pode ser positiva, desde que acompanhada por maior crítica ao sistema e maior autocrítica – e não o contrário.
          A formação de um acadêmico passa por uma verdadeira batalha interna em que ele precisa ser um gênio. As consequências dessa postura podem ser trágicas, desdobrando-se em dois possíveis cenários igualmente predadores: a destruição do colega e a destruição de si próprio.
          O primeiro cenário engloba vários tipos de pessoas (1) aqueles que migraram para uma área completamente diferente na pós-graduação; (2) os que retornaram à academia depois de um longo tempo; (3) os alunos de origem menos privilegiada; (4) ou que têm a autoestima baixa ou são tímidos. Há uma grande chance destas pessoas serem trituradas por não dominarem o ethos local e tachadas de “fracos”.
          Os seminários e as exposições orais são marcados pela performance: coloca-se a mão no queixo, descabela-se um pouco, olha-se para cima, faz-se um silêncio charmoso acompanhado por um impactante “ãaaahhh”, que geralmente termina com um “enfim” (que não era, de fato, um “enfim”). Muitos alunos se sentem oprimidos nesse contexto de pouca objetividade da sala de aula. Eles acreditam na genialidade daqueles alunos que dominaram a técnica da exposição de conceitos.
          Hoje, como professora, tenho preocupações mais sérias como estes alunos que acreditam que os colegas são brilhantes. Muitos deles desenvolvem depressão, acreditam em sua inferioridade, abandonam o curso e não é raro a tentativa de suicídio como resultado de um ego anulado e destruído em um ambiente de pressão, que deveria ser construtivo e não destrutivo.
          Mas o opressor, o “foda”, também sofre. Todo aquele que se acha “bom” sabe que, bem lá no fundo, não é bem assim. Isso pode ser igualmente destrutivo. É comum que uma pessoa que sustentou seu personagem por muitos anos, chegue na hora de escrever e bloqueie.
          Imagine a pressão de alguém que acreditou a vida toda que era foda e agora se encontra frente a frente com seu maior inimigo: a folha em branco do Word. É “a hora do vâmo vê”. O aluno não consegue escrever, entra em depressão, o que pode resultar no abandono da tese. Esse aluno também é vítima de um sistema que reproduziu sem saber; é vítima de seu próprio personagem que lhe impõe uma pressão interna brutal.
          No fim das contas, não é raro que o “fraco” seja o cavalinho que saiu atrasado e faça seu trabalho com modéstia e sucesso, ao passo que o “foda” não termine o trabalho. Ademais, se lermos o TCC, dissertação ou tese do “fraco” e do “foda”, chegaremos à conclusão de que eles são muito parecidos.
          A gradação entre alunos é muito menor do que se imagina. Gênios são raros. Enroladores se multiplicam. Soar inteligente é fácil (é apenas uma técnica e não uma capacidade inata), difícil é ter algo objetivo e relevante socialmente a dizer.
          Ser simples e objetivo nem sempre é fácil em uma tradição “inspirada” (para não dizer colonizada) na erudição francesa que, na conjuntura da França, faz todo o sentido, mas não necessariamente no Brasil, onde somos um país composto majoritariamente por pessoas despossuídas de capitais diversos.
          É preciso barrar imediatamente este sistema. A função da universidade não é anular egos, mas construí-los. Se não dermos um basta a esse modelo a continuidade desta carreira só piora. Criam-se anti-professores que humilham alunos em sala de aula, reunião de pesquisa e bancas. Anti-professores coagem para serem citados e abusam moral (e até sexualmente) de seus subalternos.
          Anti-professores não estimulam o pensamento criativo: por que não Marx e Weber? Anti-professores acreditam em Lattes e têm prazer com a possibilidade de dar um parecer anônimo, onde a covardia pode rolar às soltas.

O dono do Foucault
          Uma vez, na graduação, aos 19 anos, eu passei dias lendo um texto de Foucault e me arrisquei a fazer comparações. Um professor, que era o dono do Foucault, me disse: “não é assim para citar Foucault”.
          Sua atitude antipedagógica, anti-autônoma e anti-criativa, me fez deixar esse autor de lado por muitos anos até o dia em que eu tive que assumir a lecture “Foucault” em meu atual emprego. Corrigindo um ensaio, eu quase disse a um aluno, que fazia um uso superficial do conceito de discurso, “não é bem assim...”.
          Seria automático reproduzir os mecanismos que me podaram. É a vingança do oprimido. A única forma de cortamos isso é por meio da autocrítica constante. É preciso apontar superficialidade, mas isso deve ser um convite ao aprofundamento. Esquece-se facilmente que, em uma universidade, o compromisso primordial do professor é pedagógico com seus alunos, e não narcisista consigo mesmo.
          Quais os valores que imperam na academia? Precisamos menos de enrolação, frases de efeitos, jogo de palavras, textos longos e desconexos, frases imensas, “donos de Foucault”. Se quisermos que o conhecimento seja um caminho à autonomia, precisamos de mais liberdade, criatividade, objetividade, simplicidade, solidariedade e humildade.
          O dia em que eu entendi que a vida acadêmica é composta por trabalho duro e não genialidade, eu tirei um peso imenso de mim. Aprendi a me levar menos a sério. Meus artigos rejeitados e concursos que fiquei entre as últimas colocações não me doem nem um pouquinho. Quando o valor que impera é a genialidade, cria-se uma “ilusão autobiográfica” linear e coerente, em que o fracasso é colocado embaixo do tapete. É preciso desconstruir o tabu que existe em torno da rejeição.
          Como professora, posso afirmar que o número de alunos que choraram em meu escritório é maior do que os que se dizem felizes. A vida acadêmica não precisa ser essa máquina trituradora de pressões múltiplas. Ela pode ser simples, mas isso só acontece quando abandonamos o mito da genialidade, cortamos as seitas acadêmicas e construímos alianças colaborativas.
          Nós mesmos criamos a nossa trajetória. Em um mundo em que invejas andam às soltas em um sistema de aparências, é preciso acreditar na honestidade e na seriedade que reside em nossas pesquisas.

Transformação
          Tudo depende em quem queremos nos espelhar. A perversidade dos pequenos poderes é apenas uma parte da história. Minha própria trajetória como aluna foi marcada por orientadoras e orientadores generosos que me deram liberdade única e nunca me pediram nada em troca.
          Assim como conheci muitos colegas que se tornaram pessoas amargas (e eternamente em busca da fama entre meia dúzia), também tive muitos colegas que hoje possuem uma atitude generosa, engajada e encorajadora em relação aos seus alunos.
          Vaidade pessoal, casos de fraude em concursos e seleções de mestrado e doutorado são apenas uma parte da história da academia brasileira. Tem outra parte que versa sobre criatividade e liberdade que nenhum outro lugar do mundo tem igual. E essa criatividade, somada à colaboração, que precisa ser explorada, e não podada.
          Hoje, o Brasil tem um dos cenários mais animadores do mundo. Há uma nova geração de cotistas ou bolsistas Prouni e Fies, que veem a universidade com olhos críticos, que desafiam a supremacia das camadas médias brancas que se perpetuavam nas universidades e desconstroem os paradigmas da meritocracia.
          Soma-se a isso o frescor político dos corredores das universidades no pós-junho e o movimento feminista que só cresce. Uma geração questionadora da autoridade, cansada dos velhos paradigmas. É para esta geração que eu deixo um apelo: não troquem o sonho de mudar o mundo pela pasta de couro em cima do muro.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Um exército de doutores desempregados



Artigo de Hugo Fernandes-Ferreira, publicado originalmente na Tribuna do Ceará
Vou contar uma história para vocês, para que entendam em que ponto a Ciência brasileira se insere nessa crise. Ao personagem, dou o nome de Carinha. Obviamente, é uma história generalista, que jamais pode ser aplicada a todos, mas pelo menos a uma enorme parcela dos acadêmicos. Você verá muitos amigos seus na pele do Carinha. Talvez, você mesmo.
1 – No começo dos anos 2000, principalmente a partir de 2005, novas universidades começam a surgir e o número de vagas, inclusive nas já existentes, aumentam vertiginosamente. A estrutura também melhora e as taxas de evasão de cursos de Ciência básica (Física, Química, Biologia e Matemática, por exemplo) caem. O Carinha, então, ingressa em um desses cursos.
2 – O Carinha que entrou em 2005 e se formou em 2009 passou o período da faculdade desconhecendo o mercado de trabalho do seu curso fora do meio acadêmico. Ao seu lado, muitos colegas que passaram quatro anos sem saber nem o que estavam fazendo. Para o Carinha, não havia outra solução a não ser lecionar em escolas ou tentar o Mestrado, que oferecia bolsa de pesquisa de R$ 1.100,00. Mas, para isso, teria que passar por uma difícil e concorrida seleção. Até que, com o aumento do número de programas e bolsas de pós-graduação, ele viu então que aquilo não era tão difícil assim. Em 2010, torna-se mestrando.
3 – Enquanto seu amigo engenheiro civil, recém-formado, já está dando entrada para comprar um carro, o Carinha usa sua bolsa para pagar seus pequenos gastos pessoais, além de sua pesquisa sem financiamento externo. Em dois anos, tenta produzir alguns artigos para enriquecer o currículo. Tem planos para publicar cinco, mas publica um, em revista de qualis baixo. Em paralelo, entra num forte estresse para entregar sua dissertação e passar pelo forte crivo da banca, que pode reprová-lo. Será? Na semana de sua defesa, seu colega também é aprovado, mas com um projeto medíocre e mal conduzido, que, apesar de criticado, foi encaminhado pela banca porque reprovações não são interessantes para a avaliação de conceito do Programa. Normas do MEC.
4 – Já mestre, publica mais um artigo e entra no Doutorado, em 2012. Foi mais difícil que o Mestrado, porém mais fácil do que teria sido anos atrás, por conta do bom número de bolsas disponível. Boa parte daqueles colegas medianos desiste da vida acadêmica, mas aquele dito cujo sem perfil de cientista de alto nível também é aprovado. Afinal, ter bolsas desocupadas não é interessante, porque senão o Programa é obrigado a devolvê-las. Normas do MEC.
5 – Sua bolsa de R$ 2.500,00 já ajuda um pouco sua condição financeira, enquanto aquele colega engenheiro conta sobre sua primeira casa própria. Além disso, o amigo já contribui com o INSS, tem seguro desemprego, 13º salário, plano de saúde, cartão alimentação, entre outros benefícios. O Carinha não, tem só a bolsa e um abraço. Normas do MEC. Mas, tudo bem, é um investimento em longo prazo. Logo menos, ele tentará um concurso para ser professor universitário, com iniciais de cerca de R$9.000,00. Ele se esforça, publica artigos, dá aulas, redige a Tese, defende e é aprovado. O colega mediano faz um terço disso, mas também alcança o título.
6 – Eis que, em 2016, doutor Carinha se depara com uma grave crise financeira. Cortes profundos no orçamento, principalmente no Ministério da Educação, tornam escassas as vagas como docente. Concursos em cidades remotas do interior, antes com dois, cinco concorrentes no máximo, contam hoje com 30, 50, 80. A solução então é caminhar urgentemente para um Pós-Doutorado, com bolsa de R$ 4.100,00, metade do que ganha seu amigo engenheiro, mas ok, dá um caldo bom, ainda que continue sem direitos trabalhistas. Pouco tempo atrás, as bolsas sobravam e os convites eram feitos pelo próprio professor. Hoje, ele enfrenta uma seleção com 30. Ele passa, o outro colega já fica pelo caminho, assim como centenas espalhados pelo País. O que eles estão fazendo agora?
O resumo da história é… Temos um exército de graduados analfabetos funcionais e de mestres que não merecem o título. Em um pelotão menor, mas ainda numeroso, doutores cujo diploma só servem para enfeitar a parede. Bilhões de reais gastos para investir e manter um grupo cujo retorno científico é pífio para o País. Entretanto, esse não é o pior cenário.
Alarmante é ver outro exército de Carinhas, esse qualificado, com boas produções, só que desempregado e enfrentando a maior dificuldade financeira de suas vidas. Alguns há anos em bolsas de Pós-Doutorado, sem saberem se essas podem ser cortadas no ano seguinte. Se forem, nenhum mísero centavo de seguro desemprego. Na rua, ponto. Outros abandonando por vez a carreira para tentar os já escassos concursos públicos em outras áreas ou mesmo para fazer doces caseiros, entre outras alternativas.
Ao passo que o Governo acertou na criação de novas universidades, programas e bolsas de pós-graduação nesses últimos 14 anos, a gestão desse material humano e financeiro foi bastante descontrolada. Quantidade exacerbada de cursos criados sem demanda profissional, falta de política de cargos e carreiras para o cientista brasileiro, recursos transportados para um programa de intercâmbio que não exigia praticamente nenhum produto de um aluno de graduação (sobre Ciência Sem Fronteiras, teremos um post exclusivo), critérios de avaliação bem distantes da realidade das melhores universidades do mundo, além de uma série de outros absurdos.
Teremos cerca de dez anos pela frente para que essa curva entre oportunidades e demanda volte a estabilizar. Não tenho dúvidas de que alcançaremos isso. Mas, até lá, cabe a pergunta. O que faremos com os novos Carinhas que ainda surgem a cada vestibular?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Einstein acertou: cientistas provam que ondas gravitacionais existem


Detecção acontece pouco mais de cem anos após publicação da Teoria da Relatividade Geral pelo físico


Por CESAR BAIMA

Ondas gravitacionais geradas por colisões de buracos negros foram observadas pela primeira vez pelo LIGO – Divulgação de vídeo do LIGO

RIO — Última das principais previsões da Relatividade Geral de Albert Einstein que ainda não tinham sido observadas diretamente, as ondas gravitacionais foram finalmente detectadas, provando mais uma vez a correção da teoria publicada pelo físico de origem alemã há pouco mais de cem anos. Após meses de rumores na comunidade científica, que ganharam ainda mais força nas últimas semanas, pesquisadores do experimento Ligo (Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria a Laser, na sigla em inglês), nos EUA, anunciaram ontem em uma conferência em Washington que seus equipamentos registraram a passagem dessas distorções no espaço-tempo pela Terra em 14 de setembro último, o que deverá representar uma nova era na astronomia e cosmologia.

— Senhoras e senhores, nós detectamos ondas gravitacionais. Conseguimos! — comemorou David Reitze, pesquisador do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e diretor-executivo do Ligo. — Esta é a primeira vez que o Universo fala conosco por meio de ondas gravitacionais. Ao abrirmos essa nova janela para a astronomia, poderemos ver coisas que nunca vimos antes.

Processo que mostra a colisão de dois buracos negros, o que acontece em pouquíssimos segundos - Divulgação/LIGO

         Elaborada para explicar como funciona a gravidade, a Relatividade Geral diz que toda massa distorce a estrutura do espaço-tempo à sua volta, deformações geralmente ilustradas, de maneira simplificada, como uma bola de boliche pousada em uma cama elástica, e que sentimos como uma força atrativa. Mas como nada no Universo é estático, a movimentação de qualquer objeto provoca oscilações no tecido do espaço-tempo que se espalham a partir dele como uma pedra atirada em um lago, que são as chamadas ondas gravitacionais.

50 vezes a energia de todas as estrelas
Estas oscilações, no entanto, são muito pequenas. Assim, para as ondas gravitacionais serem detectadas, pelo menos com a tecnologia disponível atualmente — e inexistente na época de Einstein —, é preciso, primeiro, que elas sejam geradas por objetos extremamente maciços se movendo muito rápido. E foi exatamente isso que o Ligo observou.
Segundo os cientistas, o sinal captado — com uma frequência que começou em 35 ciclos por segundo (hertz) e rapidamente subiu para 250 hertz, e por isso foi equiparado ao “pio” de um passarinho — foi provocado pela fusão de dois buracos negros, um com cerca de 36 vezes a massa do Sol e outro com 29 massas solares, que colidiram a uma velocidade equivalente à metade da luz em uma galáxia distante, há estimados 1,3 bilhão de anos. Dessa união resultou um novo buraco negro com 62 vezes a massa do Sol, com as três massas solares faltantes convertidas em uma fração de segundo na energia que alimentou a emissão das ondas gravitacionais, num total que, neste breve período de tempo, ultrapassou em 50 vezes a energia liberada por todas as estrelas do Universo juntas.
Apesar de todo este poder na sua origem, os efeitos da passagem das ondas gravitacionais pela Terra foram ínfimos. Isso porque, assim como as ondas geradas pela pedra no lago vão diminuindo de tamanho à medida que se afastam do ponto de impacto, essas oscilações no espaço-tempo perderam “força” ao percorrerem os 1,3 bilhão de anos-luz que nos separam do agora único buraco negro. Assim, durante uma fração de segundo, elas esticaram e espremeram o espaço-tempo no nosso planeta em apenas uma parte em um sextilhão, no equivalente à largura de um simples núcleo atômico.
E essa variação tão pequena só pôde ser detectada graças à incrível sensibilidade do Ligo. Idealizado pelos físicos americanos Rainer Weiss, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Kip Thorne, do Caltech, e o escocês Ronald Drever, hoje aposentado, mas anteriormente associado ao instituto californiano — e todos eles desde já considerados fortes candidatos a receberem um futuro Prêmio Nobel de Física, se não ainda este ano muito em breve —, o experimento é, na verdade, composto por dois observatórios instalados nos estados americanos de Washington e Louisiana, cerca de três mil quilômetros distantes um do outro.
Construídos a um custo de mais de US$ 1,1 bilhão (cerca de R$ 4,4 bilhões) a partir dos anos 1990 pela Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF), nestes dois observatórios potentes lasers com comprimento de onda extremamente curto batem e voltam constantemente em espelhos colocados nas extremidades de dois corredores de aproximadamente quatro quilômetros de comprimento cada, erguidos em forma de “L” e cuidadosamente protegidos de vibrações externas. Em situações normais, esses dois raios de luz se anulam ao se encontrarem no “canto” do “L”, num processo conhecido como interferometria. Mas, quando uma onda gravitacional passa por eles, um dos “braços” do “L” fica ligeiramente mais curto ou longo que o outro, e parte da luz “vaza” para atingir um detector. Com isso, os dois observatórios podem medir variações no comprimento dos corredores por essas oscilações no espaço-tempo com uma precisão de um décimo de milésimo do diâmetro de um próton.

Uma nova era na astronomia
Mais que provar, novamente, que Einstein estava certo, porém, a detecção das ondas gravitacionais promete abrir novos caminhos para as pesquisas em astronomia e cosmologia. Até hoje, por exemplo, alguns teóricos, embora poucos, duvidavam da possibilidade da existência de buracos negros — ideia que inclusive não agradava e chegou a ser rechaçada pelo famoso autor da Relatividade Geral —, o que agora foi definitivamente comprovado, já que nenhum outro par de objetos poderia concentrar tanta massa em tão pouco espaço e se comportar da maneira como os dois cuja fusão foi observada pelo Ligo.
— A importância desta detecção vai além do que podemos prever, pois acaba de nascer um novo campo da ciência — destaca a astrônoma brasileira Duilia de Mello, professora da Universidade Católica da América, nos EUA, e pesquisadora do Centro de Voo Espacial Goddard, da Nasa. — Já estudamos a teoria de ondas gravitacionais há muito tempo, mas só hoje (ontem) é que esta teoria virou realidade. Só hoje (ontem), quando os cientistas do Ligo mostraram os sinais observados, que a comunidade científica respirou aliviada. Agora estamos prontos para inventar, inovar e transformar a ciência e a tecnologia mais uma vez. Já pensou quanta coisa importante está por ser descoberta que antes não conhecíamos? Agora que podemos ouvir buracos negros se chocando, podemos sonhar em ouvir muito mais e entender melhor fenômenos que nos deixam sempre perplexos e que fazem parte da história do Universo.




sábado, 23 de janeiro de 2016

A Nova Química Revive uma Questão Elementar


A Tabela Periódica é um símbolo público da Química. Porém, à medida que vai ela aumentando de tamanho, devemos mais ainda salientar que não é função da Ciência produzir listas, disse Philip Ball.

             
              Raramente a Química desfruta do fato de ser o centro das atenções, como o foi nas últimas semanas. O anúncio feito pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) que de que a sétima linha da tabela periódica foi preenchida por meio da descoberta de quatro elementos químicos criados artificialmente (113, 115, 117 e 118) tem gerado um amplo debate público. Como serão chamados? Que propriedades químicas que têm esses elementos? A tabela periódica pode ser ainda mais alargada?
            Esta recepção entusiástica é certamente muito benéfica para a Química. Mas raramente, também, uma descoberta científica tão festejada possui tão poucas implicações no campo da pesquisa científica. O anúncio da IUPAC não é sobre a descoberta como tal, mas sobre a avaliação desse organismo que reivindica o agrupamento dos elementos e que julga as perguntas feitas anteriormente. No mundo todo, a rede de laboratórios bem equipada e que tem a árdua tarefa de “fabricar” novos elementos só exigia o selo de aprovação da IUPAC quando tinha certeza das propriedades do novo elemento.
            Cada novo elemento superpesado descoberto suscita questões interessantes, por exemplo: se existe uma região, na qual a estabilidade nuclear é aumentada ao invés de diminuir com o aumento da massa e se os efeitos relativísticos do movimento ultra-rápido dos elétrons distorce os padrões repetidos das propriedades na tabela. Há muito, o que se comemorar e estudar.
            Ernest Rutherford considerou uma grande piada ter ganho o prêmio Nobel de 1908, por explorar o decaimento radioativo, na área de Química - uma tentativa, dizem alguns, de trazer a ciência nuclear de volta para a Química após os trabalhos de Marie e Pierre Curie sobre radioatividade ter sido premiado com o Nobel de Física de 1903.
            A questão mais profunda é: por que as pessoas estão interessadas nas implicações que os novos elementos químicos podem provocar no estado da própria tabela periódica. A sistematização dos elementos tornou-se um ícone para a Química como um todo. No entanto, os químicos raramente precisam se referir à ela, e a maioria deles trabalha com alguns dos elementos químicos mais comuns.
            Vale dizer que a tabela periódica tem mais interesse e glamour para o público do que para o profissional da Química. Isso é estranho: parece abrir uma brecha entre o que muitas pessoas pensam sobre a Química (estudo dos elementos) e o que a maioria dos químicos fazem (moléculas e materiais e investigam suas propriedades e interações).
            No entanto, nada sobre isto é original. A tabulação ou enumeração de fundamentos também são feitas na física (partículas do modelo padrão) e na biologia (código genético, listas de genes e taxonomia). Estes esquemas de classificação despertam a consciência popular, de modo que à física atribui-se a descoberta de novas partículas (bóson de Higgs, partículas de matéria escura e assim por diante) e à biologia a identificação de 'genes' para certas características biológicas.
            O desafio para os químicos, então, é encontrar uma maneira de capitalizar sobre o fascínio e a coerência da tabela periódica, evitando a impressão de que de alguma forma possa contar a história de suas pesquisas.
            Este enfoque acrescenta peso à questão de como os novos elementos serão nomeados. Parece uma pena que o provincianismo e nacionalismo, muitas vezes próximos do chauvinismo, do passado (ver germânio, frâncio, escândio, amerício e várias permutações na cidade sueca de Ytterby) provavelmente irão persistir. (já foi amplamente divulgado que 'Japônio' será o nome do elemento 113, porque a prioridade de sua descoberta foi atribuída a uma equipe do instituto de pesquisas japonês RIKEN). Por que então não aproveitar a oportunidade para despertar a imaginação, em vez de plantar uma bandeira?
            Seria interessante ter um elemento chamado levium, após o escritor e químico Primo Levi. Seu livro Tabela Periódica (Einaudi, 1975) continua a ser o melhor livro já escrito sobre a Química, e agradaria ao meu senso de ironia ver um elemento superpesado com um nome que poderia ser interpretado como uma referência à leveza.
            No entanto, isto não trata-se apenas sobre leviandade. As estórias contadas por Levi sobre o seu tempo no campo de concentração de Auschwitz. Se este é um homem, de 1947, é uma das obras mais profundas e humanas do século XX, testemunhando o fato de que a Ciência pode ser uma força libertadora, universal para a salvação, embora deve-se reconhecer que o seu potencial pode ser para ser abusado de maneiras terríveis. O Levium significaria que a tabela periódica é para toda a humanidade.
Richard Haughton
Nature, Vol. 529, p. 129 (14 January 2016) doi:10.1038/529129a


domingo, 10 de janeiro de 2016

A LUZ ATRAVÉS DA HISTÓRIA


Se fosse para contar uma história
Diria que tudo começou com uma chama simplória
Onde tudo era vazio e silencioso
E o fogo se espalhou glorioso
A chama da descoberta, a da sabedoria, e a da criatividade
Que no homem despertou muito além da curiosidade

E quando civilizações foram erguidas, tomando conta de tudo
Quando virou moda um tal de estudo
A luz passou a ser sinônimo de ideias, conhecimento
A filosofia era a arte do momento
E aos gregos, romanos, árabes, obrigada meus caros
Vocês acenderam nossas mentes, sem isso, não passaríamos de um monte de bárbaros

Lá pela Idade Média, em uma chamada época da escuridão
Tudo o que imploravam era por um simples clarão
Uma luz no coração, na alma, na mente
Uma descoberta que viesse de repende
Mas, infelizmente, nem mil candelabros conseguiram iluminar
O que na mente dos homens já estava a se apagar

Então o mundo renasceu, homens ergueram suas cabeças e seguiram em frente
Procuravam por algo que os dessem criatividade, por uma chama ardente
A física ressurgiu, a química e biologia vieram também
De repente, motores funcionavam, máquinas trabalhavam, foi nossa verdadeira evolução, vocês sabem bem

Era tudo muito rápido, os olhos mal conseguiam acompanhar
E o sol queimava acima de nossas cabeças, nos motivando cada vez mais a trabalhar
Finalmente, a tecnologia nos abraçava, o homem já não mais reinava
Máquinas faziam tudo, mil e uma funções ligadas em uma tomada
Porém, ainda não existe nada que não seja movido por aquela chama interior principal
O que nos fez produzir, criar, imaginar, o que nos motiva, afinal
Esse é o nosso agora, como nosso mundo está girando

E como a nossa luz, de todas as formas, está irradiando.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Tabela periódica ganha mais quatro elementos e completa a sétima linha


          A tabela periódica, que agrupa os elementos químicos em função de sua composição química e propriedades, terá mais quatro novos elementos e, assim, completará a sua sétima linha.
          Os novos elementos – 113, 115, 117 e 118 – foram descobertos por cientistas do Japão, da Rússia e dos Estados Unidos e confirmados pela Iupac (União Internacional de Química Pura e Aplicada, na sigla em inglês). Esses são os primeiros elementos a serem adicionados à tabela desde 2011, quando foram incluídos os 114 e 116. A tabela foi criada pela primeira vez em 1869 pelo cientista russo Dmitri Mendeleyev.
          De acordo com o jornal britânico "The Guardian", a Iupac anunciou que uma equipe de cientistas – composta por russos e americanos do Instituto de Pesquisa Nuclear em Dubna, na Rússia, e o Laboratório Nacional Lawrence Livermore, na Califórnia, produziram provas suficientes para afirmar a descoberta dos elementos 115, 117 e 118. A descoberta do elemento 113, que também havia sido reivindicado pelos cientistas russo-americanos, foi concedida a uma equipe de cientistas do Japão, do Instituto Riken.
          Kosuke Morita, que liderava a pesquisa em Riken, disse ao jornal britânico que sua equipe agora pretende "olhar para o território inexplorado do elemento 119 e além." Ryoji Noyori, ex-presidente do Instituo Riken e Prêmio Nobel de química, disse que "para os cientistas, esta é de maior valor do que uma medalha de ouro olímpica ".
          "A comunidade química está ansiosa para ver sua tabela mais querida finalmente ser concluída até a sétima linha", disse o professor Jan Reedijk, presidente da Divisão de Química Inorgânica da Iupac.
          Os novos elementos, que atualmente têm nomes de espaço reservado, serão oficialmente nomeados pelas equipes que os descobriram nos próximos meses – o 113 será o primeiro a ser nomeado na Ásia. Morita ainda não decidiu o nome do elemento, mas "Japonium" é um candidato.
          Eles podem ser nomeados após um conceito mitológico, um mineral, um lugar ou país, uma propriedade ou um cientista. Por enquanto, os elementos foram nomeados como unúntrio (Uut ou elemento 113), ununpentium (Uup, 115), ununseptium (Uus, 117) e ununoctium (Uuo, 118).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Por que o uso de antibióticos na criação de animais ameaça a saúde humana


James GallagherEditor de Saúde da BBC News

Fazendeiros e criadores precisam cortar drasticamente o uso de antibióticos em seus cultivos e criações de animais, porque essa atividade está se tornando uma ameaça à saúde humana, segundo um relatório publicado no periódico Review on Antimicrobial Resistance.
            O uso abusivo destas substâncias tem feito com que algumas doenças sejam atualmente quase impossíveis de serem combatidas.
            Mais da metade dos antibióticos no mundo são usados em animais, muitas vezes para fazer com que cresçam mais rápido.
O relatório científico ainda indica novos parâmetros para o uso de antibióticos em animais.
            A administração excessiva destes medicamentos na criação de animais ganharam novo destaque no mês passado, quando, na China, pesquisadores advertiram que estamos à beira de uma "era pós-antibióticos".
            Os cientistas descobriram uma bactéria resistente à colistina, antibiótico usado quando outros meios usualmente empregados para combatê-la haviam falhado. Aparentemente, ela surgiu em animais criados por agricultores e também foi detectada em pacientes em hospitais.

Excesso

            Em alguns casos, antibióticos são usados para tratar infecções em animais doentes, mas a maioria é usada de forma profilática em animais saudáveis para prevenir infecções ou aumentar seu ganho de peso - uma prática controversa e mais comum em criações intensivas.
            A expectativa é de que o consumo de antibióticos no mundo aumente 67% até 2030. Só nos Estados Unidos, são usadas anualmente 3,4 mil toneladas destas substâncias em pacientes e 8,9 mil toneladas em animais.

            O economista Jim O'Neill, que liderou o estudo, disse que estes índices são "estarrecedores" e que 10 milhões de pessoas morrerão por causa de infecções resistentes a antibióticos em 2050 se esta tendência não for revertida.
                      
            O'Neill destaca em seu trabalho que a maioria das evidências científicas apontam para uma necessidade de redução do uso de antibióticos.   
         Ele indica que uma meta razoável para o uso de antibióticos pela agricultura seria de 50 mg para cada 1000 g (kg) de animais - um nível já colocado em prática por um dos principais países exportadores de carne de porco do mundo, a Dinamarca.
            A título de comparação, os Estados Unidos usam quase 200 mg/kg e Chipre emprega mais de 400 mg/kg.

Custo

            "Tenho certeza que muitos criadores pensarão 'Bem, se temos que fazer isso, significa que o preço cobrado pelo que produzimos aumentará e não conseguiremos mais concorrer no mercado", disse O'Neill à BBC.
            "O exemplo dinamarquês mostra que, após um custo de transição inicial, ao longo prazo, os preços não foram afetados, e a Dinamarca manteve sua participação de mercado."
            Antibióticos são mais úteis em criações com instalações com muitos animais e sujas, onde as infecções se espalham mais facilmente, então, locais mais espaçosos e higiênicos são uma forma de reduzir a necessidade de aplicar estas substâncias.
            O relatório também recomenda um maior investimento na pesquisa de vacinas e testes para diagnosticar infecções específicas e afirma que países deveriam adotar uma lista de antibióticos que nunca deveriam ser usados em animais por causa de sua importância no tratamento de humanos.
            Jianzhong Shen, da Universidade Agrícola da China e um dos descobridores da resistência à colistina, diz que "todos os países do mundo deveriam usar antibióticos na criação de animais de forma mais prudente e racional".
            "Agora é a hora de haver uma reação global para restringir ou proibir o uso de antibióticos para acelerar o crescimento ou prevenir doenças."

sábado, 14 de novembro de 2015

Pesquisador e Anvisa apresentam suas versões sobre a fosfoetanolamina em audiência pública



Por Viviane Monteiro, Jornal da Ciência.

Gilberto Orivaldo Chierice, professor da USP que liderou os estudos sobre a eficácia da substância em pacientes com câncer, relatou encontro com presidente da Anvisa ainda na década de 1980. A representante da Agência Nacional de Vigilância Sanitária disse, porém, que informações necessárias para as avaliações dos protocolos dos ensaios clínicos foram solicitadas, mas não chegaram à instituição.

          Sob críticas e pressão de parlamentares, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) admitiu que a instituição foi procurada pelos pesquisadores em 2010 a fim de dar início aos protocolos de pesquisas com humanos para comprovar a eficácia da fosfoetanolamina, substância que se mostra promissora no combate ao câncer. A superintendente de Medicamentos e Produtos Biológicos do órgão regulador, Meiruze Souza Freitas, disse, porém, que informações necessárias para poder fazer as avaliações dos protocolos dos ensaios clínicos foram solicitadas, mas não chegaram à instituição.
          O esclarecimento de Freitas foi concedido após o relato do cientista Gilberto Orivaldo Chierice, professor e pesquisador aposentado da Universidade de São Paulo (USP), de que os pesquisadores procuraram o órgão regulador e laboratórios farmacêuticos em busca de apoio para os ensaios clínicos e a produção profissional da substância.
          Esses depoimentos foram um dos pontos mais aguardados da audiência pública, realizada nesta quinta-feira, 12, na Comissão de Seguridade Social e Família, na Câmara dos Deputados, em Brasília, que reuniu dezenas de parlamentares, pacientes com câncer em defesa da liberação da substância, pesquisadores e outros interessados no tema. Um dos argumentos difundidos é de que os pesquisadores foram desacreditados por não seguirem os procedimentos normais para realização dos testes clínicos de apoio de laboratórios.
          Na audiência, realizada em duas etapas (manhã e tarde), a dirigente da Anvisa tentou rebater as críticas de parlamentares sobre burocracia, morosidade da instituição no âmbito da análise dos protocolos de pesquisas clínicas, além e submissão ao lobby da indústria farmacêutica internacional em detrimento do avanço científico nacional.
          A representante da Agência disse que a reunião em 2010 no órgão, registrada em ata, foi realizada, sobretudo, com a área técnica da pesquisa clínica e da área de eficácia e de segurança da Anvisa. Segundo seu depoimento, o encontro foi fruto de uma solicitação de audiência com a presidência, mas participaram da reunião técnicos e especialistas da Anvisa, que deram orientação sobre os passos relacionados aos registros das pesquisas e solicitaram informações sobre os dados necessários para que uma prévia-avaliação pudesse ser feita. Ela ressaltou, porém, que esses dados não chegaram à instituição.

Versão do cientista
          Na versão de Chierice, que iniciou as pesquisas no fim da década de 1980, a reunião dos pesquisadores foi com a presidência. “Quando estivemos no órgão, o presidente da Anvisa da época (Dirceu Raposo de Mello) nos convidou para começar os trabalhos juntamente com a Fiocruz. Não fomos registrar o produto. Fomos buscar uma orientação para que a Anvisa conduzisse os papéis. Tanto é que para fazer os dados clínicos nos foi sugerido hospitais militares, porque eram os hospitais de confiança do governo”, recordou o cientista, assegurando ter tudo documentado.
          “É uma papagaiada o que está na imprensa. Vira e mexe surge a pergunta se fomos ou não fomos a Anvisa. Eu não minto. O deputado que estava presente conosco tirou uma foto há quatro anos. Não fui eu que tirei, foi ele”, complementou o cientista, referindo-se a uma foto do encontro apresentada pelo deputado Reginaldo de Oliveira Lopes (PT/MG) na audiência pública e que mediou o encontro da época.
          O cientista acrescentou que a Fundação Oswaldo Cruz foi procurada em seguida. “Temos também documentos de que procuramos a Fiocruz, que disse que poderíamos iniciar os trabalhos. Isso foi conversado com a instituição, onde estavam todas as autoridades competentes da área de saúde. Foi-nos dito, porém, que só poderíamos iniciar os trabalhos se a patente fosse transferida”.
          Chierice afirmou que a conversa não avançou porque a patente da fosfoetanolamina sintética não tem finalidade comercial. Segundo disse, está em nome de cinco cientistas envolvidos na pesquisa e o registro da patente é para proteção da substância. “Essa patente existe única e exclusivamente para proteger a substância. Dentro da universidade fizemos muitos trabalhos que foram para gaveta e para evitar que a fosfoetanolamina ficasse na gaveta, a patente teria de pertencer a alguém. E esse alguém era eu e meus alunos”, destacou, sob aplausos da plateia.
          O cientista foi questionado sobre o fato de não ter fechado acordo com a Fiocruz e respondeu que não aceitou o acordo “porque não garantiria que a substância chegaria ao povo e que poderia ficar engavetada.”

Bola para frente
          A representante da Anvisa entende, porém, que o momento atual é outro e que não é o caso de olhar pelo retrovisor. “O que precisamos fazer agora é avaliar os dados atuais”, pontuou. Freitas disse que a intenção é avaliar o quão promissores são dados apresentados pelos pesquisadores e se também é possível encurtar alguma etapa para os estudos clínicos -, mas de forma responsável, para não atropelar a velocidade necessária da realização dos testes com seres humanos para comprovar a eficácia da substância e sobre a toxicidade da droga.
          “Não podemos fazer isso sem pular as etapas. Há muitos relatos interessantes que mostram que há perspectiva de resposta positiva, mas os estudos clínicos devem ser controlados e padronizados para chegarmos a uma conclusão sobre o medicamento”. Ela destacou que em outros países a fosfoetanolamina é utilizada como suplemento de cálcio, mas não sem indicação terapêutica. “São utilizados como suplementos e não como medicamentos”, esclarece.
          Freitas frisou que a Anvisa segue os padrões internacionais e defendeu o procedimento técnico do quadro de funcionários da Agência para avaliar o risco da exposição dos pacientes a uma nova droga. Segundo disse, a avaliação de uma molécula nova demora em torno de 360 dias no mundo e a de novas drogas, em torno de 270 dias, procedimentos semelhantes aos adotados no Brasil.
          Ainda em resposta aos parlamentares, a especialista da Anvisa acrescentou que a submissão “de um dossiê” na agência reguladora precisa ter a participação de uma empresa ou indústria para desenvolver o produto em estudo e assumir a responsabilidade do medicamento no mercado. Acrescentou, ainda, que o órgão controlador “não tem a menor intenção” de proibir ou de limitar o acesso a uma droga que tenha eficácia terapêutica comprovada.

História da fosfoetanolamina
          Chierice fez um relato sobre a trajetória de estudos sobre a fosfoetanolamina sintética, princípio ativo compatível ao pH (potencial hidrogeniônico) do organismo humano e que, segundo ele, combate células cancerígenas. A pesquisa foi iniciada entre o fim de 1989 e início da década de 1990. De acordo com os pesquisadores, a fosfoetanolamina tem mais de 50 anos de história e foi isolada e identificada na década de 1930. Os pesquisadores garantem que não há efeito colateral do uso do produto.
          O pesquisador disse que a substância brasileira é sintetizada de forma inédita no mundo. Enquanto o grama de fosfoetanolamina é comprado por US$ 2,5 mil no mundo, “a nossa” tem rendimento de 98%. “Essa é a patente que temos. O resto, vocês me perdoem, mas é muita falação para uma coisa que é exata”, disse o cientista, econômico nas palavras quando fala com a imprensa.
Quando foi questionado pela imprensa se lamentava a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo de cancelar a distribuição da fosfoetanolamina, ele respondeu que “não”. “Acho que você tem que perguntar ao juiz, por que ele fez isso. Talvez ele não precise das cápsulas, agora. Talvez mais tarde, sim. Aí, vamos ver”, provocou.
          Na audiência pública, Chierice recordou que os testes com humanos começaram em 1995, na comissão de ética (CEP) do Hospital Amaral Carvalho, dois anos antes da criação da Anvisa, em 1997. Conforme relatou, esse foi um acordo fechado com a USP. O procedimento, de acordo com ele, foi “igualzinho” ao que acontece hoje nas CEPs distribuídas em hospitais universitários e em instituições de pesquisas, dentre outros.
          “A comissão de ética se reuniu, escolheu a área, escolheu o produto e pediu a permissão ao famoso Ministério da Saúde, que foi concedida. O hospital, então, começou a trabalhar”, declarou ele, que diz não ter informações sobre o fato de o hospital hoje não ter o histórico desses dados clínicos.
          O cientista acrescentou, porém, que a substância é doada há 20 anos no Brasil “e existe muita gente viva em razão dela”. Calculou, grosseiramente, que mais de 50 mil pessoas usaram a substância. “Têm muito médico, pai de médico, filha de médico, mãe de médico e filho de médicos curados. O médico pede a fosfoetanolamina para sua família. Mas para o paciente não.”
Ele disse não temer que a substância possa ser patenteada no mundo, diante do impasse brasileiro. Nesse caso, sugeriu apenas que a substância chegue ao paciente com câncer. Ele desconhece estudos semelhantes ao do Brasil no mundo e destacou que a ciência internacional está interessada no tema. “Tenho convite da Nature e tenho publicações internacionais de revistas de câncer”.
          O deputado Celso Russomano (PRB/SP) foi um dos parlamentares que defenderam a liberação da substância. Citou o caso de seu pai, com 86 anos, que está com câncer e sem condições de fazer a quimioterapia porque a saúde está debilitada. Disse ter entrado com ação judicial, sem sucesso, para que o pai pudesse receber as cápsulas e ser voluntário no uso da substância.

Eficácia
          Para o chefe do Laboratório de Imunologia do Instituto Butantan, Durvanei Augusto Maria, um dos responsáveis pela fosfoetanolamina, a substância tem efeitos comprovados cientificamente no tratamento de vários tipos de câncer, como o de mama, rins, leucemia e na boca. “A fosfoetanolamina tem potencial para ser uma nova droga para o tratamento de tumor na cavidade oral. É a primeira vez que isso acontece”, assegurou.
          Augusto Maria apresentou resultados de pesquisas via imagens que mostravam bolhas na superfície das células e disse que os estudos comprovam a redução dos tumores e a morte das células cancerígenas.
          Ele garantiu que o Brasil tem tecnologia para produzir o fármaco para atender a população e cobrou um posicionamento efetivo de como ficará a liberação da substância e o atendimento aos pacientes.  “Temos que ter ações que possam ser conclusivas. Não queremos burlar as fases (das pesquisas), mas pelos estudos, pelos anos de pesquisa e pelo material disponível que podem ser compilados em um dossiê, etapas em menor período de tempo podem ser efetivas”, sugeriu.

Posicionamento da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica
          O representante da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o médico Sandro Martins, reconheceu que a fosfoetanolamina é uma substância promissora para o tratamento do câncer, mas não recomendou o uso das cápsulas “azuis e brancas” pelas vítimas de câncer, antes da realização, controlada pela Anvisa, dos ensaios clínicos para determinar os níveis de segurança ao uso humano.
          Embora seja uma substância conhecida, o médico disse que o papel desse tratamento no ser humano ainda não foi observado de maneira sistematizada, o que interfere no conhecimento sobre efeitos colaterais do uso do produto. “Efeitos colaterais não estudados não quer dizer que não existam. Até a água é tóxica, dependendo da dose que se ingerir. E não é possível que a fosfoetanolamina seja mais segura do que a água”, alertou.
          Martins avaliou os ensaios pré-clínicos apresentados pelos pesquisadores na audiência pública e disse que na medida em que se aumenta a dose do medicamento para melhorar o efeito antitumoral, pelos modelos in vitro, é de se esperar que o aumento da dose da substância em seres humanos possa levar ao aparecimento de toxidade: “Em algum momento, essa toxidade pode se tornar proibitiva, porque se torna maior do que a proporção dos benefícios proporcionados”.
          “Esse intervalo de dose entre o mínimo que produz uma eficácia interessante e o máximo de toxidade aceitável torna-se o que se chama de janela terapêutica que todo medicamento tem. Pode ser que a fosfoetanolamina tenha uma janela terapêutica infinita. Ou seja, pode-se ingerir 7 kg da substância e não se verificar toxidade. Mas isso há de ser demonstrado”, complementou.
          Em outra etapa da audiência pública, o cientista Renato Meneguel, médico do grupo responsável pela descoberta da substância, respondeu que foram realizados testes de toxidade com humanos, embora não tenham sido controlados pela Anvisa. Ele apresentou laudos médicos produzidos por toxicologistas da UNESP de Botucatu, interior de São Paulo, e acrescentou que os testes pré-clínicos foram realizados baseados nos protocolos americanos. “Falaram aqui ser necessário fazer testes de letalidade (DL 10). Isso quer dizer 10% de mortalidade dos animais. Mas já avaliamos que a dose letal média é de 50%”, acrescentou.
          “A fosfoetanolamina não é manipulada. Ela é sintetizada”, disse o médico, sobre críticas de que a substância poderia ser comprada industrialmente. “O que é comprada industrializada é a substância para fazer shampoo, que não está dentro dos padrões do pH do corpo humano e nem dentro do organismo humano. A nossa está, comprovadamente”, assegurou.

          Como provocação, apresentou maços de cigarros, que detêm 4 mil substâncias cancerígenas e que são regulamentados pela Anvisa.