quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O que não mata alivia

Veneno da mamba-negra, um dos mais tóxicos do mundo, contém molécula com potencial analgésico similar ao da morfina, sem seus efeitos colaterais. Estudo da substância também identifica novos alvos potenciais no sistema nervoso para o combate à dor.
Por: Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line
Publicado em 03/10/2012 | Atualizado em 03/10/2012
 
Sem medo: pesquisa mostra que importantes descobertas podem ter as mais perigosas e insuspeitas origens. (foto: viperskin/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)
 
            Ser mordido por uma mamba-negra não deve ser uma experiência agradável – e muito provavelmente seria sua última. Isso porque a cobra, natural da África, possui um dos venenos mais tóxicos conhecidos. Porém, um novo peptídeo encontrado em meio a toda essa letalidade pode dar origem a novas substâncias analgésicas. Em ratos, os mambalgins mostraram uma eficiência similar à da morfina, mas sem seus efeitos colaterais. Além disso, por agirem sobre estruturas moleculares que nunca haviam sido associadas à sensação de dor, podem servir para a identificação de novos alvos para futuros tratamentos.
            “É muito instigante que um veneno tão mortal também contenha uma porção pequena de um poderoso analgésico não tóxico”
            O estudo, desenvolvido na França, foi publicado na edição desta semana da revista Nature. A nova classe de peptídeos corresponde a apenas 0,5% do conjunto de substâncias que formam o veneno da mamba-negra. Os mambalgins (mambalgin-1 e mambalgin-2) inibem a atividade de estruturas do sistema nervoso denominadas canais iônicos sensíveis a ácidos (ASICs, na sigla em inglês). Esses canais são responsáveis pelo transporte seletivo de íons, especialmente de sódio, através da membrana celular de neurônios – processo fundamental para a transmissão dos sinais elétricos.
            “Não sabemos se os mambalgins desempenham algum papel no veneno da cobra ou qual efeito produzem no corpo das presas, mas é muito instigante que um veneno tão mortal também contenha uma porção pequena de um poderoso analgésico não tóxico”, afirma uma das autoras do estudo, a fisiologista Anne Baron, da Universidade de Nice Sophia Antipolis. “Seu potencial contra dor se mostrou comparável ao dos derivados da morfina, sem, no entanto, envolver receptores opioides, relacionados aos muitos efeitos colaterais da substância."
            A aplicação clínica da morfina pode levar a problemas como diminuição da capacidade respiratória, constrição das pupilas, rigidez muscular, sedação, euforia e até dependência química.
 
 
 
Derivada do ópio, a morfina é um dos fármacos mais utilizados no combate à dor. Os mambalgins apresentaram um potencial analgésico comparável ao do composto, mas sem provocar seus muitos efeitos colaterais. (foto: -sel/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)
 
 
            Além de identificar os peptídeos, o estudo também traz novos conhecimentos sobre a fisiologia molecular da dor e abre novas perspectivas para seu combate. Muitos ASICs são reconhecidamente associados à transmissão da sensação de dor, tanto nos nociceptores (células nervosas especializadas nesse tipo de sinal), quanto em neurônios do sistema nervoso central, que conduzem a informação dos nociceptores até o cérebro.
            No entanto, os mambalgins atuam sobre canais de íons que nunca haviam sido relacionados a essa sensação, denominados ASIC1a, ASIC2a e ASIC1b. “A ciência já havia relacionado outros canais de íons à sensação de dor, mas essas associações são inéditas”, comemora Baron. “Por isso, o estudo desses canais e de substâncias que atuem sobre eles pode dar origem a novas classes de analgésicos”, acredita.
 
Sobre ratos e cobras
            Os pesquisadores avaliaram a ação da substância no alívio da dor a partir de testes com ratos. Soluções com os mambalgins eram injetadas nos animais por diversas vias (como subcutânea e intracerebral) e a sensibilidade dos roedores era medida a partir de suas reações a estímulos de dor aguda e dor inflamatória.
            “As vias associadas à dor são parecidas no homem e no rato, o que nos dá confiança no seu potencial para combater a dor”
            “Não sabemos ainda se poderemos repetir, em humanos, os bons resultados obtidos com os ratos”, pondera Baron. “Mas as vias neurológicas associadas à dor são parecidas no homem e nesses animais, o que nos dá confiança no seu potencial para combater a dor.”
            Ela pondera, no entanto, que ainda há muitas etapas a serem vencidas para uma aplicação comercial da molécula. O próximo passo será a realização de mais testes pré-clínicos que avaliem seu potencial para o alívio de outros tipos de dor, como dores crônicas, e com outras vias de administração.
            “Há muitos desafios nesse caminho”, avalia. “Por exemplo, sua própria natureza de peptídeo pode dificultar a manipulação dos mambalgins pela indústria farmacêutica, por serem pouco estáveis e difíceis de administrar oralmente. No entanto, a química de hoje é boa o suficiente para superar esse tipo de barreira.”
            Baron lembra que, apesar de se tratar de um fato raro, essa não é a primeira vez que substâncias analgésicas são identificadas no veneno de animais. Até agora, a mais notável delas não vem de cobras, mas de caracóis marinhos, e é utilizada no combate à dor crônica.
Rápida, mortal e famosa
 
A mamba-negra ou mamba-preta (Dendroaspis polylepis) é uma das cobras mais venenosas do mundo: sua taxa de mortalidade, sem tratamento, é de quase 100%, levando a presa à morte de minutos a poucas horas depois da mordida. Ela pode ser encontrada em boa parte da África e é uma das mais velozes serpentes do planeta, podendo se deslocar sobre o solo em velocidades de até 20 km/h. Seu nome está relacionado à coloração da parte interna da sua boca – uma ameaçadora bocarra negra. A espécie ficou famosa em 2003 e 2004, por aparecer (como na imagem acima) nos filmes da série Kill Bill, do cineasta Quentin Tarantino, e servir de codinome para a personagem principal da produção, Beatrix Kiddo, interpretada pela atriz Uma Thurman.

Bactéria pode atuar como “vacina” para dengue


  Organismo pode bloquear a multiplicação do vírus da dengue dentro do Aedes aegypti ao ser inoculado no inseto, indicam cientistas. Há também possibilidade de estender a estratégia para o vetor da malária (UCSC).

Agência FAPESP – Primeiramente encontrada em 1924 no mosquito Culex pipiens, a Wolbachia pipientis é uma bactéria presente nas células de cerca de 70% dos insetos, desde borboletas ao pernilongo.

          O Aedes aegypti, vetor da dengue – considerada a mais importante doença viral transmitida por mosquitos no mundo –, pertence aos 30% de invertebrados que não têm a bactéria. Ou não tinham.

          Pesquisadores descreveram, durante o 28º Congresso Internacional de Medicina Tropical, evento realizado no Rio de Janeiro entre os dias 24 e 27 de setembro pela Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, como a Wolbachia pode atuar como uma “vacina” para o Aedes, bloqueando a multiplicação do vírus dentro do inseto ao ser inoculada no mosquito.

Cada cepa da bactéria é responsável por uma reação em seu hospedeiro. Há alguns anos, ao observarem que ela diminuía pela metade o tempo de vida da Drosophila (a mosca-das-frutas), cientistas do programa internacional “Eliminar a Dengue: Nosso Desafio”, liderados por Scott O’Neill, da Universidade de Monash (Melbourne, Austrália), demonstraram que a Wolbachia, se inoculada no Aedes aegypti, poderia também reduzir a longevidade do mosquito, diminuindo a sua capacidade de transmitir o vírus.

          “Se o mosquito vivesse pela metade, ele teria menor chance de transmitir o vírus, já que esse precisa ficar incubado de oito a dez dias dentro do corpo do vetor. Então, pensamos que, se vivesse 15 em vez de 30 dias, o inseto morreria antes de se alimentar e de haver a incubação do vírus”, disse o entomologista molecular Luciano Moreira, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição brasileira parceira do projeto mundial.

          “Mas, quando inoculamos a bactéria, ficamos surpresos ao ver que ela, além de diminuir o tempo de vida do mosquito, também fazia com que o vírus não se desenvolvesse”, disse.

          “Agora, há uma nova cepa da bactéria que está sendo usada na Austrália e que não encurta a vida do inseto, mas apenas bloqueia o vírus. Então, a ideia de encurtamento da vida do mosquito já não é tão importante. O importante é o bloqueio do vírus”, disse Moreira à Agência FAPESP.

          A Wolbachia foi transferida da mosca-das-frutas para o Aedes aegypti por meio da técnica de microinjeção, que consiste em uma agulha fina que insere a bactéria nos ovos do mosquito.

          Em 2008, Moreira se mudou para a Austrália e passou a trabalhar com a equipe de pesquisadores que desenvolviam o projeto no país. “A partir do momento que tivemos a linhagem de mosquitos com a bactéria, trouxemos os ovos para o Brasil e fizemos o cruzamento com as populações brasileiras de mosquitos, ainda mantidos em laboratório”, contou.

          No Brasil, o projeto em sua primeira fase foi focado na manutenção de colônias dos mosquitos com a bactéria e no cruzamento com Aedes aegypti de populações brasileiras.

          A soltura da nova linhagem de mosquitos na natureza deve ocorrer no começo de 2014, no Rio de Janeiro, escolhido por este ser o estado campeão de casos da doença e pela quantidade de mosquitos encontrada ao longo do ano inteiro. Na Austrália, os mosquitos com as bactérias já foram soltos. No Vietnã e na Indonésia, a soltura ocorrerá no ano que vem.

          “Há um processo de preparação. Temos que trabalhar primeiro com as comunidades e informá-las sobre o projeto. Além disso, precisamos conhecer dados entomológicos sobre as populações de mosquitos locais”, explicou Moreira.
 

Projeto seguro e sustentável

          A Wolbachia só pode ser transmitida verticalmente (de mãe para filho) por meio do ovo da fêmea do mosquito. Fêmeas com Wolbachia sempre geram filhotes com a bactéria no processo de reprodução.

          “Por isso, uma vez estabelecido o método em campo, os mosquitos continuam a transmitir a bactéria naturalmente para seus descendentes”, disse Moreira.

          Após soltos em campo, o número de mosquitos machos e fêmeas com Wolbachia tende a aumentar, até que a população inteira de mosquitos tenha a bactéria e o vírus não se estabeleça mais.

          “Nossa estratégia é completamente compatível com outras. Não será a única forma de controle da dengue. As pessoas terão que continuar a tirar os criadouros e os cientistas a continuar as pesquisas em vacinas”, disse Moreira.

          O entomologista ressalta as principais características do projeto, como a segurança e a autossustentabilidade. “É um projeto seguro, pois a bactéria já está presente na natureza. É autossustentável porque, a partir do momento em que é colocada no campo, a bactéria é passada para a natureza. Além de tudo isso, não tem fins lucrativos. Os mosquitos não serão vendidos. Serão espalhados e assim utilizados”, afirmou.

          Assim como o A. aegypti, o Anopheles, principal vetor da malária no Brasil, não tem a bactéria. “Mas já foi demonstrado que se a Wolbachia for injetada no corpo do mosquito ela bloqueará o parasita causador da malária”, destacou Moreira.
 
03/10/2012, Por Washington Castilhos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Computadores vão se Comparar a Mente Humana no Ano de 2029


Em coisa de 50 anos, a humanidade será completamente diferente do que sempre foi. Máquinas menores que a espessura de um fio de cabelo ajudarão a manter a saúde no interior do corpo e participarão da atividade cerebral, tornando mundos virtuais tão realistas para os sentidos quanto o mundo verdadeiro. E a imortalidade estará ao nosso alcance. 

Maluquice? Pode ser. Mas o maior proponente dessas ideias certamente não é maluco. Um dos inventores mais brilhantes das últimas décadas, o americano Ray Kurzweil é um importante impulsor da inteligência artificial há mais de 30 anos. Entre suas criações estão sistemas de reconhecimento de caracteres e de voz. 

Aos que torcem o nariz para a sua futurologia, Kurzweil lembra que, usando o mesmo raciocínio, ele foi capaz de prever a explosão mundial da internet quando ela se resumia a 2.000 cientistas usuários, na década de 1980. Ele prevê alguns avanços notáveis que podem servir de balizas para o seu poder de previsão. O inventor sugere, por exemplo, que um computador poderá exibir comportamento que imite de forma indistinguível um ser humano em 2029. 

Confira a seguir trechos da entrevista que ele concedeu à Folha durante sua última passagem por São Paulo, durante o evento de gestão Fórum HSM. 

O inventor norte-americano Ray Kurzweil se apresenta emevento em Nova Déli, Índia.

Folha - O sr. fala do aumento exponencial da tecnologia, mas há quem já fique irritado de ter de comprar um iPhone novo todo ano. O próprio perfil de consumo não vai frear o ritmo de avanço tecnológico?
Ray Kurzweil - Isso não vai acontecer, porque a tecnologia está evoluindo para se adaptar ao ser humano. Quando eu era jovem, computadores eram só para engenheiros e técnicos. Hoje, a interface está cada vez mais simples e intuitiva. Hoje, as pessoas conhecem faixas muito estreitas do conhecimento, mas temos nossas ferramentas computadorizadas para encontrar as informações de que precisamos. Então, já estamos expandindo nossas mentes por essas ferramentas. No fim das contas, elas vão parar dentro do nosso corpo e do nosso cérebro. 

Como o sr. vê o percurso futuro da tecnologia, uma vez que mesmo eventos como guerras mundiais ou recessões econômicas fortes parecem ser incapazes de frear seu avanço? Há um limite?
Os limites definitivos, que vêm das leis da física, na verdade não são muito limitadores. Podemos expandir nossa inteligência trilhões de vezes antes de alcançar esse limiar. Agora, o que pode parar tudo é um derretimento existencial da civilização. Isso não é impossível. Nós temos armas atômicas em número suficiente para fazer isso.

E quanto ao risco representado por novas tecnologias?
Eu escrevi muito sobre o risco existencial vindo da genética, da nanotecnologia e da robótica. Eu não acho que a solução certa seria banir essas tecnologias. Primeiro, estaríamos nos privando dos benefícios. Ainda há muito sofrimento no mundo. Não acho que queremos dizer aos pacientes de câncer, "bem, estamos muito próximos de reprogramar a biologia e eliminar o câncer, mas vamos cancelar tudo isso por causa do risco de bioterrorismo". 

Em segundo lugar, seria preciso um sistema totalitário para impor um banimento em biotecnologia. 
Mais importante, contudo, isso não funcionaria. Só empurraríamos essas tecnologias para o submundo, onde as únicas pessoas que teriam acesso a elas seriam os criminosos.

Cientistas responsáveis, com quem contaríamos para nos proteger, não teriam acesso às ferramentas para fazer isso.

Embora sua visão seja extremamente otimista quanto ao avanço da medicina, temos um sistema de desenvolvimento e aprovação de novos medicamentos que consome muitos anos. Isso não impedirá a evolução acelerada?
Eu acho que há problemas com a regulação. Mas não acho que seja um problema com a FDA [agência que regula remédios nos EUA] e com as agências reguladoras de outros países, e sim com as expectativas públicas e a ideia do juramento de Hipócrates, que eu acho errada. Ele diz: "em primeiro lugar, não faça mal". Se você quer não fazer mal, demita todos os médicos e feche todos os hospitais, porque então você nunca faria mal nenhum. Sempre que você tenta ajudar as pessoas, há uma possibilidade de fazer mal a elas. 

Sim, mas a ideia é ser cauteloso...

Não é um jogo de risco zero, você tem de considerar o risco da doença. E isso não recebe igual atenção na regulamentação. Se houver uma pequena chance de prejudicar o paciente, isso vai segurar o processo, mesmo que haja uma chance enorme de ajudar o paciente. 

O sr. tem defendido que o desenvolvimento de máquinas capazes de pensar passa por usar o cérebro humano como modelo, e o sr. também fala de superinteligência, muito superior à do cérebro humano. Entretanto, temos exemplos de supercapacidades em humanos, como os savants, que têm memória e habilidades prodigiosas, mas, em compensação, apresentam um sério deficit em outras áreas da cognição. Será que não há aí uma barreira intransponível para a superinteligência?
O cérebro humano tem limitações. Faz certas coisas muito bem, e só podemos nos beneficiar aprendendo como funciona e então evitando algumas de suas limitações. Uma delas diz respeito à capacidade. Estimo que haja cerca de 300 milhões de reconhecedores de padrões no neocórtex. É isso que pode caber lá, biologicamente, por causa da arquitetura do crânio. 

Uma vez que possamos criar um córtex artificial que funcione do mesmo modo, não existe razão pela qual o limitemos em 300 milhões, porque não teremos essa limitação física. Você pode ir para 1 bilhão, 1 trilhão... 

Mas como saber que vai funcionar? Talvez haja uma limitação inerente à arquitetura do sistema. Não há como saber se ele continuará operando se você aumentar a escala ou se simplesmente haverá uma sobrecarga.

Você obviamente terá de tentar construir [esse supercérebro] para saber se ele funciona. Até agora funciona bem. Ainda não estamos no nível humano de inteligência. Mas, quando os computadores aprendem a fazer alguma coisa, conseguem fazê-la muito bem, na verdade melhor que os humanos. 
Temos muito caminho a percorrer, mas não acho que estejamos muito longe. A data que eu sugiro é 2029, quando os computadores estarão no nível dos humanos. 

E quanto à diferença entre inteligência e consciência? O sr. acha que máquinas serão capazes de fazer esse salto de autopercepção?
Bem, é uma questão filosófica. Algumas pessoas acham que a consciência é pensar sobre pensar; se você pode descrever seu processo de pensamento, isso é consciência. Minha posição é de que algumas teorias a esse respeito soam científicas, mas não são. Não são diferentes da crença religiosa de que há um ser supremo que atribui consciência a certas coisas, como humanos. Minha conclusão: você não pode evitar saltos de fé. 

A aceleração da tecnologia leva, numa expressão que o sr. tomou emprestado da física, a uma singularidade -uma realidade imprevisível que não podemos ver agora porque está escondida de nós da mesma forma que um buraco negro. Queria levar essa metáfora um pouco mais adiante. Se eu fosse um viajante espacial e passasse perto de uma singularidade, faria tudo para evitá-la. Nós devemos evitar a singularidade tecnológica?
É uma ótima pergunta. Eu acho que estamos sendo puxados para ela e não podemos evitá-la. Nós temos inteligência suficiente para falar de como seria cair numa singularidade. Nós não necessariamente perceberíamos que cruzamos o horizonte dos eventos. Acho que é a mesma coisa aqui. 

O mais difícil de encarar é a noção de uma IA (inteligência artificial) não amigável, que seria mais inteligente que nós e defenderia valores que não reconhecemos em nosso sistema moral.

Acho que o melhor jeito de nos defendermos disso é enfatizar os valores que respeitamos em nossa sociedade hoje, valores como democracia, tolerância, apreciação pelo próximo, liberdade de expressão e por aí vai. 

O mundo do futuro não virá de um único laboratório. Ele emergirá do mundo de hoje. Se praticarmos esses valores agora, temos a melhor chance de refleti-lo no mundo do futuro. Não é uma estratégia infalível. Mas acho que é o melhor que podemos fazer.

Mas como os nossos valores vão ser transferidos às máquinas?
Bem, acho que nossas máquinas estão tremendamente integradas à nossa sociedade. Elas não estão isoladas em algum laboratório. Há 6 bilhões de celulares, 1 bilhão de smartphones, uma criança na África tem mais poder na sua mão que o presidente dos Estados Unidos tinha 15 anos atrás, em termos de acesso ao conhecimento e à informação. Indivíduos, jovens, têm o poder de mudar o mundo. Não é uma abstração. E as máquinas não estão lá fora com sua própria cultura. Nós já somos uma civilização homem-máquina.




Fonte: Salvador Nogueira, Folha de São Paulo de 03.10.1951

Chaves da Fotossíntese são Desvendadas



Os químicos do Centro Baruch '60 para Pesquisas Bioquímicas de Energia Solar no Instituto Politécnico em Rensselaer sob a liderança da KV Lakshmi forneceram informações importantes sobre uma porção específica do processo fotossintético designado de fotossistema II. Essa descoberta oferece dados para uma nova pesquisa básica entender como as plantas convertem eficientemente a energia do sol e poderá ajudar a desenvolver a criação de tecnologias de energia solar novas, de peso e mais eficientes.
 

A nova pesquisa está se concentrando nas duas reações fotoquímicas que as plantas usam para converter a energia solar em energia química que ocorre dentro do fotossistema II. Particularmente, os pesquisadores estudaram uma ligação e ativação das moléculas de água do substrato em um sítio catalítico do fotossistema II. O fotossistema II é um complexo de proteínas nas plantas e as cianobactérias que usam os fótons da luz para dividir as moléculas de água, também conhecido como oxidação solar da água. Os prótons e elétrons resultantes desta divisão são então usados pela planta para abastecer os sistemas restantes no processo fotossintético que transforma a luz em energia química.

Maiores detalhes estão disponíveis na nota à imprensa no site do Instituto Politécnico de Rensselaer: http://news.rpi.edu/update.do?artcenterkey=3063.

domingo, 30 de setembro de 2012

Bicho-da-seda Transgênico Produz "Teia do Homem-Aranha".


Genética da seda

Uma equipe internacional de pesquisadores criou bichos-da-seda geneticamente modificados para produzir fios com uma resistência similar aos fios das teias de aranha. Segundo os cientistas da Universidade de Wyoming, os resultados do experimento podem levar ao desenvolvimento de materiais revolucionários para a medicina e engenharia, já que a seda produzida pelas aranhas é mais resistente que o aço. Tentativas anteriores de criar aranhas para a produção comercial de sua seda fracassaram porque os aracnídeos não produzem quantidades suficientes e têm tendência a comer uns aos outros. Bichos-da-seda, por seu lado, podem ser criados em cativeiro facilmente e produzem grandes quantidades de seda, mas o material é mais frágil. A solução foi unir o melhor de cada um dos animais por meio da engenharia genética.

 Teia em volume industrial

Pesquisadores vêm tentando há anos chegar à produção de seda super-resistente em quantidades industriais, através da inserção de genes das aranhas nos bichos-da-seda, mas os animais geneticamente modificados não haviam produzido seda suficiente até agora. O estudo da equipe liderada por Don Jarvis gera um composto de seda de aranha e de bicho-da-seda - tão forte como as teias dos aracnídeos - em vastas quantidades. Os primeiros resultados da pesquisa surgiram em 2010, quando a equipe conseguiu criar os primeiros bichos-da-seda transgênicos capazes de produzir teia de aranha artificial.
Agora eles conseguiram ampliar essa produção a um nível passível de exploração comercial. 

Medicina e plásticos

Para o professor Christopher Holland, da Universidade de Oxford, a pesquisa pode tornar mais viável a produção de seda fortalecida em escala comercial. "Essencialmente, o que este estudo mostra é que os cientistas foram capazes de usar um componente da seda de aranha e fazer com que bichos-da-seda o transformassem em uma fibra juntamente com sua própria seda. Eles também provaram que este composto, que contém partes da seda de aranha e da seda do próprio bicho-da-seda, tem propriedades mecânicas melhoradas", explicou ele. Na área médica, o novo material poderia ser usado para criar suturas, implantes e ligamentos mais fortes. A seda de aranha geneticamente modificada também poderia ser usada como um substituto mais sustentável para os plásticos duros, que usam muita energia em sua produção. 

Agradecimento: Bióloga Carliane Ribeiro

Bibliografia:
 Silkworms transformed with chimeric silkworm/spider silk genes spin composite silk fibers with improved mechanical properties Florence Teulé, Yun-Gen Miao, Bong-Hee Sohn, Young-Soo Kim, J. Joe Hull, Malcolm J. Fraser, Jr, Randolph V. Lewis, Donald L. Jarvis Proceedings of the National Academy of Sciences January 3, 2012 Vol.: Published ahead of print DOI: 10.1073/pnas.1109420109

Ligação Avançada: Cabo de Fibra Ótica Ligará Fortaleza a Luanda.


Técnicos da Telebrás e da Angola Cable concluem em duas semanas os estudos do cabo submarino de fibra óptica de seis mil quilômetros que ligará Fortaleza e Luanda.

Em muitos países, a disseminação da fibra óptica nas redes de telecomunicações é fator estratégico para o desenvolvimento econômico e social. O Brasil já conta com mais de 350 mil km de fibra, principalmente nos backbones, a espinha dorsal das redes das operadoras. Mas, sem uma política pública definida e longe de dispor de uma meta para opticalização de sua infraestrutura de telecomunicações, o país precisa correr para alcançar os resultados de nações como Japão e Coreia, que em 2010 atingiram a meta de cobertura de fibra óptica em 95% dos domicílios.

A Comissão Europeia estabeleceu a "Agenda Digital para a Europa" com as metas de que, até 2020, todos os europeus tenham acesso à internet com velocidades acima de 30 Mbps e que pelo menos 50% dos lares sejam atendidos com velocidades acima de 100 Mbps.

Segundo dados do FTTX Council, havia 74,7 milhões de acessos residenciais (FTTH/B) no mundo em 2011, sendo 54,3 milhões na Ásia, 9,7 milhões nos Estados Unidos/Canadá, 5,7 milhões na Rússia e países vizinhos, 4,5 milhões na Europa e 0,52 milhões no Oriente Médio.

"Ainda temos o desafio da opticalização. Nosso objetivo é expandir os grandes backbones nacionais, que hoje atingem apenas duas mil cidades, para 95% dos municípios até 2022, dentro do que o ministro Paulo Bernardo vem chamando de PNBL 2.0. Mas, no caso do acesso, ainda não chegamos a um desenho nem a uma meta", explica Artur Coimbra Oliveira, diretor do departamento de banda larga do Ministério das Comunicações.

Criado em 2010, o Plano Nacional da Banda Larga (PNBL) tem por objetivo ampliar a infraestrutura e os serviços de telecomunicações, promovendo o acesso com melhores condições de preço, cobertura e qualidade. Mas a meta sempre foi acanhada: permitir o acesso à banda larga a 40 milhões de domicílios brasileiros até 2014 à velocidade de, no mínimo, 1 Mbps.

"O objetivo do PNBL 1 foi massificar o acesso, e isso está sendo feito por meio da redução de custo e do aumento da competição. No PNBL 2.0, vamos focar o aumento da velocidade com a meta de acesso mínimo de 5 Mbps, podendo chegar a 100 Mbps até 2022", assegura Oliveira. Para Foad Shaikhzadeh, presidente da Furukawa, a fibra óptica vai avançar no País quando houver um benefício econômico para as operadoras. "Sem isso, vamos levar 30 anos para ter o País coberto por fibra", afirma.

O mercado aguardava com expectativa a Lei 12.715 que cria o Regime Especial de Tributação do Programa Nacional de Banda Larga para Implantação de Redes de Telecomunicações. Mas o artigo 34, que previa a possibilidade de projetos estratégicos gerarem créditos no Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel), foi vetado pela presidente Dilma Rousseff. "Mas o regime especial prevê incentivos fiscais de PIS e Cofins para expansão e modernização de redes, desde que os projetos sejam executados com tecnologia nacional", diz Oliveira.

Para Eduardo Levy, diretor-executivo da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), qualquer desoneração é bem-vinda, mas ele adverte que as operadoras terão de submeter projetos e é possível que a contrapartida de investimentos obrigatórios seja maior do que os benefícios tributários que vão receber.

Os projetos não se restringem ao território nacional. Empresas brasileiras e estrangeiras já firmaram contratos para investir na instalação de cabos submarinos que vão ampliar a conexão do Brasil com outros países.

A fibra óptica é um filamento de vidro ou materiais poliméricos. A partir de equipamentos emissores a LED ou a laser, os sinais elétricos de dados e imagens são convertidos em pulsos de luz, que são transmitidos pela fibra. Na ponta, ficam os equipamentos eletrônicos de tecnologia WDM/DWDM (Wavelength-Division Multiplexing / Dense Wavelength Division Multiplexing), que transformam as informações de vários comprimentos de onda em um único pulso de luz, chegando a taxas de transmissão de 1,6 Terabits/s em um único par de fibras.

Desde a privatização, as operadoras brasileiras avançaram na opticalização de suas redes de transporte e praticamente todos os grandes backbones já são de fibra. O passo seguinte é a implementação de fibra no backhaul, redes metropolitanas que vão do backbone até os pontos de distribuição do tráfego. Praticamente todas as grandes cidades já têm redes metropolitanas em fibra. A última fronteira é levar o meio óptico ao acesso, correspondente à última milha da rede, que vai da central até os domicílios.

Cabos submarinos - Técnicos da Telebrás e da Angola Cable concluem em duas semanas os estudos do cabo submarino de fibra óptica de seis mil quilômetros que ligará Fortaleza e Luanda. A previsão é que as obras comecem em dois meses e estejam prontas até 2014. A capacidade e custo do projeto serão definidos no edital de licitação internacional para a realização do empreendimento.

A parceria é parte da estratégia da Telebrás de ter uma rede de cabos submarinos ligando o Brasil à África, Europa e Estados Unidos. A empresa trabalha para lançar cinco cabos submarinos - quatro internacionais e um em território brasileiro. Serão 24 mil quilômetros de rede a um custo estimado de R$ 1,8 bilhão.

"Muitos desses projetos visam a Copa do Mundo. Se não forem viabilizados, será preciso sobrecarregar a rede que já existe. Se acontecerem, folga para todo mundo", diz Sebastião Nascimento, gerente de projetos especiais da Telebrás.

A Claro, subsidiária do grupo mexicano América Móvil, constrói com a Embratel um cabo submarino com 17.500 quilômetros que vai ligar o Brasil e os Estados Unidos. A Oi também tem plano de lançar novas redes internacionais de fibra óptica além da extensão até a Colômbia do GlobeNet que liga Tuckerton, em Nova Jersey, e Boca Raton, na Flórida, a Fortaleza e Rio de Janeiro, no Brasil, St. David, nas Bermudas, e Maiquetía, na Venezuela. Outros grupos, como Seaborn Networks, EFive e Wasace Cable Company também têm projetos de novos cabos submarinos com passagem pelo Brasil. "A necessidade de banda para conexão à internet praticamente dobra a cada ano", diz Eduardo Tude, presidente da Teleco, empresa de consultoria em telecomunicações.

O projeto da Telebrás é estratégico para garantir ao país autonomia na comunicação internacional por meio de uma conexão de alta velocidade e qualidade. Hoje, 46% do tráfego de internet do Brasil vem de fora do País e 90% faz escala nos Estados Unidos. As novas rotas diretas também permitirão o barateamento dos custos de internet.

Hoje, o tráfego entre a Europa e a América Latina é 600 vezes menor do que com a América do Norte por falta de infraestrutura. A rede de novos cabos submarinos aumentará a capacidade do tráfego de informações do País, que hoje é de 1,8 Terabytes por segundo, para 32 Tbps. Apenas 500 Gigabytes por segundo são acessados via redes internacionais pelos cabos submarinos existentes.

A Telebrás também já firmou acordo com espanhola IslaLink para a execução de ações conjuntas que viabilizem a construção do cabo submarino entre América do Sul e Europa com passagem por Cabo Verde, na África. O cabo com saída para os Estados Unidos e chegada em Miami, Jacksonville ou Virgínia, passará pelo Caribe e conectará o Brasil à Colômbia e Venezuela. O projeto para o Cone Sul fará a ligação do Brasil com Argentina e Uruguai.

O investimento da Claro no cabo submarino AMX, com capacidade de 500 Gbps, será de US$ 1 bilhão. O traçado sai de Salvador, passa pelo Rio de Janeiro e Fortaleza até chegar a Miami. A previsão da operadora é concluir o projeto no primeiro trimestre do ano que vem. O grupo América Móvil integra um consórcio com operadores internacionais que já controla dois cabos submarinos: o Atlantis-II e o Americas-II, que ligam o Brasil aos Estados Unidos. "Este cabo submarino permitirá suportar o crescimento de tráfego previsto para os próximos anos", diz a operadora no Plano de Melhoria dos Serviços entregue à Anatel em agosto.

A Seaborn Networks planeja o Seabras-I, entre Nova York e São Paulo. O grupo sulafricano EFive já anunciou a construção do South Atlantic Express (SAEx), para ligar a África do Sul ao Brasil e aos Estados Unidos. A Wasace Cable Company está desenvolvendo uma série de três sistemas, dois dos quais se conectam à América Latina: o Wasace Américas e o Wasace África, integrando África do Sul, Angola, Brasil e Estados Unidos. Grupos de investimento sulafricanos também já propuseram um cabo chamado BRICs desde Vladivostok, na Rússia, a Fortaleza, no Brasil, com passagem por China, Índia, Ilhas Maurício, África do Sul e Cingapura.

O primeiro cabo submarino do Brasil, parte da primeira linha telegráfica do país, foi inaugurado em 1857, tinha 50 quilômetros, 15 debaixo d'água, e ia da Praia da Saúde, no Rio de Janeiro, a Petrópolis. Hoje, sete sistemas fazem a conexão internacional do país. Eles somam quase 100 mil quilômetros. O Americas-II, que entrou em operação em 2000, liga o Brasil de Fortaleza à Guiana Francesa, Trinidad e Tobago, Venezuela, Curaçao, Martinica, Porto Rico e Estados Unidos. Tem 9 mil quilômetros de extensão, quatro pares de fibras óticas e capacidade de transmissão de 80 Gbps. O Americas-I, que segue o mesmo traçado, foi inaugurado em 1994.

O Atlantis-II tem 12 mil quilômetros. Liga o Brasil à América do Sul, EUA, Europa e África. Pertence a um consórcio internacional formado por 25 empresas, entre elas a Embratel, custou US$ 370 milhões e tem capacidade de 20 Gbps com previsão para atingir 40 Gbps. Pelo Atlantis-II o Brasil integra uma rede digital que conecta os cinco continentes e é composta por 73 sistemas de cabos de fibras ópticas com 385 mil Km de extensão.
(Valor Econômico)

sábado, 29 de setembro de 2012

Ciência e desenvolvimento: Passo para o Futuro, Artigo de Eloi Garcia


Eloi S. Garcia é pesquisador é pesquisador e ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro da Academia Brasileira de Ciência. Artigo enviado ao JC Email pelo autor.



A crise econômica mundial emite sinais negativos a população levando-a a desesperança, descrédito e ao receio do futuro. Mas temos que ser otimistas e acreditar nos dias que virão. Devemos pensar que graças ao vigor científico e tecnológico de nosso país, podemos pensar e resolver as dificuldades juntos e acreditar que o processo de desenvolvimento está de acordo com a política nacional e se relacionando com a mundial.


O Brasil está se tornando uma referência de política, cultura e criatividade com o estabelecimento de uma democracia moderna e desenvolvimento de um modelo social que coloca a dignidade humana como ponto de referência. Além disto, temos um processo ativo de integração com a América Latina que é inquestionável e garante paz e prosperidade para a região.

Não podemos confundir que o crescimento econômico que estamos vivendo seja negativo para o bem estar da população mundial e elemento positivo para o crescimento. O nosso país está avançando, às vezes até pressionado pela crise, com realismo e decisões, e buscando com tranquilidade as soluções dos problemas. As mudanças têm que vir com o enfrentamento das necessidades para enfrentar as crises e nosso país tem importância crucial para o mundo.

Temos que aumentar, cada vez mais, nossa capacidade de educar, fazer ciência e inovar nas empresas e institutos. Devemos permanentemente estar apoiando a ciência, tecnologia e desenvolvimento, pois são de importância estratégica para o desenvolvimento do País.

A qualidade da educação, pesquisa e inovação constitui o principal fator para o crescimento a curto e médio prazo. O conhecimento e as novas ideias e hipóteses são importantes para o nosso futuro. Manter estas vantagens é dever dos pesquisadores, professores e instituições, pois elas concretizam a economia real de nosso crescimento econômico e industrial.

Não podemos diminuir os orçamentos e gastos nestas áreas, pois são investimentos básicos para continuar o desenvolvimento científico e tecnológico. Devemos aumentar a cooperação entre Universidades, Institutos de Pesquisas e Indústrias, garantir uma comunicação mais eficiente entre os cientistas e favorecer de forma mais efetiva o acesso a dados e outras estruturas de pesquisa existentes.

Atingir o inalcançável é o que queremos. O futuro é o nosso objetivo e prioridade.

Bactérias Limpam Obras de Arte

Bactérias nos quadros

Pegue uma obra de arte famosa, daquelas guardadas em museus ou igrejas há séculos, e infeste-a de bactérias.O que à primeira vez mais se parece com uma receita de vandalismo, está-se mostrando altamente eficaz para limpar pinturas famosas. Os testes estão sendo conduzidos em pinturas da Igreja de São João, em Valência, na Espanha, e nos murais do Campo Santo, de Pisa, na Itália, por um grupo de cientistas de três instituições espanholas.A aplicação das bactérias começou em meados do ano passado, em afrescos do pintor Antonio Palomino, do século 17. As primeiras avaliações mostram que o tipo adequado de microrganismo é capaz de limpar as obras de arte muito rapidamente e sem causar qualquer dano à pintura - e nem ao meio ambiente ou às pessoas.

Eflorescências salinas

 O projeto surgiu quando os pesquisadores foram encarregados de restaurar os murais da Igreja de São João, que foram praticamente destruídos em um incêndio em 1936, e indevidamente restaurados na década de 1960. Pesquisadores italianos já haviam testado o uso de bactérias para remover cola endurecida nas obras de arte. A equipe espanhola aperfeiçoou a técnica e identificou a cepa da bactéria Pseudomonas mais adequada para literalmente comer as eflorescências salinas que se desenvolveram sobre os afrescos. "Pela ação da gravidade e da evaporação, os sais de matéria orgânica em decomposição migram para as pinturas e geram uma crosta branca, escondendo a arte," explica Pilar Bosch, coordenadora da equipe.

Bactérias faxineiras

 Como os produtos químicos tradicionalmente utilizados na restauração de obras de arte têm seus próprios efeitos colaterais, o jeito é chamar as bactérias. As bactérias são incorporadas em um gel, que é aplicado sobre a pintura. Isso evita que a umidade penetre na pintura, causando novos problemas. "Depois de uma hora e meia, nós removemos o gel com as bactérias. A superfície é então limpa e seca," diz a pesquisadora. Sem o ambiente adequado do gel, as bactérias restantes morrem. E o quadro fica limpo. "Com os bons resultados dos testes, nós vamos continuar com os estudos e melhorar a técnica, com o objetivo de passá-la para outras superfícies. Como na natureza nós encontramos bactérias que comem praticamente tudo, estamos certos que poderemos eliminar outras substâncias, de diferentes tipos de materiais," conclui a pesquisadora.

Agradecimento: Bióloga Carliane Ribeiro  

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Estudo levará a nova terapia do câncer de mama


 
Pesquisa, que integra amplo projeto do governo americano, identificou pelo menos 40 alterações genéticas que podem ser atacadas por medicamentos.
Um estudo publicado no site da revista Nature reclassifica o câncer de mama em quatro classes principais. Na nova classificação, os pesquisadores encontraram mutações genéticas que podem aproximar a doença de outros tipos de câncer, como o de ovário. A descoberta deverá levar a novos tratamentos com drogas já aprovadas para tumores em outras partes do corpo.
 
Um estudo publicado ontem no site da revista Nature reclassifica o câncer de mama em quatro classes principais. Dentro da nova classificação, os pesquisadores encontraram mutações genéticas que podem aproximar o câncer de mama com outros tipos de câncer, como o de ovário. O achado revela uma nova maneira de ver o câncer, que pode passar a ser definido não apenas pelo órgão que ele afeta.
 
Essas descobertas deverão levar a novos tratamentos com drogas já aprovadas para os casos de câncer em outras partes do corpo, além de novos tratamentos mais precisos no combate a anomalias genéticas que hoje não têm tratamento.
 
O estudo é a primeira análise genética ampla do câncer de mama, que mata 35 mil mulheres ao ano nos Estados Unidos e cerca de 12 mil no Brasil. "É a indicação do caminho para uma cura do câncer no futuro", disse Matthew Ellis, da Universidade de Washington, um dos envolvidos na pesquisa.
 
A pesquisa é parte de um amplo projeto federal americano, o Atlas do Genoma do Câncer, destinado a criar mapas de mudanças genéticas em cânceres comuns. O levantamento sobre o câncer de mama foi baseado numa análise de tumores em 825 pacientes.
 
A investigação identificou pelo menos 40 alterações genéticas que podem ser atacadas por medicamentos. Muitos já foram desenvolvidos para outros tipos de câncer que têm as mesmas mutações. "Nós agora temos uma boa perspectiva do que está errado no câncer de mama", disse Joe Gray, especialista em genética na Universidade de Ciência e Saúde do Oregon, que não participou do estudo.
 
A nova classificação divide o câncer de mama nas seguintes classes: HER2 amplificado, Luminal A, Luminal B e basal. Essa divisão foi feita com base em dados antes não disponíveis, que identificaram novos caminhos de atuação do tumor, possibilitando aos pesquisadores novos alvos para combater a doença.
 
A maior surpresa do estudo envolveu um tipo de câncer atualmente conhecido como triplo negativo, mais frequente em mulheres mais jovens, em negras e em mulheres com genes cancerígenos BRCA1 e BRCA2. Segundo os pesquisadores, os distúrbios genéticos tornam esse tipo de câncer mais similar ao do ovário do que outros cânceres de mama. Suas células também se assemelham às células escamosas do câncer de pulmão.
 
O estudo dá uma razão biológica para se tentar os tratamentos de rotina para câncer de ovário neste tipo de câncer de mama. E uma classe comum de drogas usadas no câncer de mama, das antraciclinas, podem ser descartadas, já que não ajudaram muito no câncer ovariano.
 
Tratamentos - A classificação do câncer de mama utilizada até hoje agrupa a doença em três tipos: HER2 positivo, receptor de hormônio positivo e triplo negativo. O problema dessa classificação, de acordo com Christopher Benz, oncologista da Universidade da Califórnia, é que alguns pacientes com o tumor HER2 positivo tendem a não responder a drogas direcionadas para esse tipo de câncer. "Estávamos juntando coisas que não poderiam ser colocadas no mesmo grupo", diz.
 
Os novos resultados podem levar, por exemplo, a uma mudança na indicação do medicamento Herceptin. Embora, atualmente, ele seja aprovado para toda paciente cujo tumor está relacionado com o HER2 positivo, nem todas respondem bem. A única maneira de saber é por meio de um teste clínico que já está sendo planejado. O Herceptin é caro e pode ocasionalmente afetar o coração. "Nós desejamos dar às pacientes aquilo que pode beneficiá-las", disse Charles Perou, da Universidade da Carolina do Norte, que liderou o estudo.
 
Mutação - Como existem muitas diferentes maneiras de uma célula cancerígena da mama se comportar impropriamente, é necessário realizar dezenas de estudos de medicamentos, cada um se concentrando numa diferente mutação genética.
 
Os pesquisadores e advogados de pacientes advertem que ainda levará anos para que as novas descobertas se traduzam em novos tratamentos. Mesmo no caso de quatro tipos importantes de câncer de mama, os tumores individuais parecem ser acionados pelo seu próprio conjunto de mutações genéticas. Uma ampla variedade de drogas provavelmente será desenvolvida para ajustar os medicamentos aos tumores individuais.
 
"Existem muitos passos a serem dados para transformar a ciência básica em resultados clinicamente significativos", afirmou Karuna Jaggar, diretora executiva do Breast Cancer Action, um grupo de apoio. "Nunca houve um projeto genômico para o câncer de mama nesta escala", disse o diretor do programa, Brad Ozenberger, do Instituto Nacional de Saúde dos EUA.
(O Estado de São Paulo)
 

Bancos vão financiar mais de seis mil bolsas do Ciência sem Fronteiras

 
 
Bancos vão financiar 6.500 bolsas de estudo do Programa Ciência sem Fronteiras nos próximos quatro anos. O investimento totalizará US$ 180, 8 milhões, sendo que a primeira parcela, de 10%, será desembolsada já na semana que vem pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Acordo para a doação foi assinado na última sexta-feira (21) pelos ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com a Febraban. Participarão do aporte financeiro 21 bancos.
 
O presidente da Febraban, Murilo Portugal, negou que a entidade tenha interesse em obter vantagem direta para o setor bancário e disse que a participação no projeto tem o objetivo de ajudar o Brasil na qualificação profissional. "Por isso, nossas prioridades serão as que o governo definir, assim como as modalidades. É muito importante para o Brasil aumentar a qualificação profissional e a inovação nas áreas do Programa Ciência sem Fronteiras", observou Portugal admitindo, no entanto, que o programa pode ter impacto indireto para os bancos.
 
Já o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, ressaltou a obrigatoriedade do retorno ao País para os estudantes que participam do programa. Ele explicou que quem obtiver notas superiores a 600 no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) solicitar a bolsa do Ciência sem Fronteiras já na hora em que ingressar na universidade. "Esses alunos não serão obrigados a atuar nas áreas de qualificação, mas têm o compromisso de voltar ao Brasil. O que tem acontecido é que alguns desses alunos vão para as universidades, ficam nove meses fazendo estágio ali e depois mais três meses nas empresas, que tem tido muita satisfação porque esses são os melhores alunos do Brasil".
 
O repasse dos recursos que serão doados pelos bancos será feito gradualmente, sendo 22% em 2013, 30% em 2014 e 38% em 2015. A Febraban participará ainda do projeto ficando como membro permanente do Comitê de Acompanhamento e Assessoramento, responsável pela coordenação do programa. Participam do comitê representantes do governo federal e outras entidades do setor privado que contribuem para o projeto.
 
O programa oferece bolsas de estudo para cursos nas áreas de engenharia, tecnologia da informação, ciências exatas, ciências biomédicas, energias renováveis, tecnologia mineral e nuclear, biodiversidade, bioprospecção, ciências do mar, transição para a economia verde, nanotecnologia, biotecnologia, fármacos, tecnologia de prevenção de desastres naturais, tecnologia aeroespacial e produção agrícola sustentável.
 
O Ciência sem Fronteiras é desenvolvido em conjunto pelos ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes). O programa prevê o financiamento de um total de 101 mil bolsas para promover intercâmbio, em quatro anos, de alunos de graduação e pós-graduação. Dessas, 75 mil serão financiadas pelo governo federal e 26 mil com recursos privados.
(Agência Brasil)

Brasil terá via rápida para briga de patente


 
Em vez de levar os casos para a Justiça, as empresas brasileiras poderão optar por um sistema alternativo para solucionar conflitos sobre propriedade intelectual a partir de dezembro.
Responsável pelo registro de marcas e patentes, além de conduzir processos administrativos na área, o Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI) assinou neste mês um acordo com a Ompi (organização mundial da área) para implantar um setor de mediação de conflitos no País.
 
A entidade auxiliará na formação dos profissionais que atuarão como mediadores entre as empresas e na instalação de infraestrutura para a realização das audiências. O sistema já opera no Reino Unido, México, Cingapura e Canadá, segundo o INPI.
 
Os conflitos na Justiça impediam 2.049 marcas e 350 patentes de serem utilizadas em 2010, segundo dados mais recentes do INPI. Em 2011, o órgão recebeu 152 mil pedidos de marcas e 31 mil de patentes - aprovou 61,5 mil e 3,8 mil, respectivamente.
 
A tramitação dos processos amplifica o problema. Casos como os de pirataria ou quebras de contrato de licenciamento de marcas podem demorar até três anos na segunda instância da Justiça do Rio de Janeiro e cinco na de São Paulo (as únicas especializadas no Brasil), segundo André Mendes, advogado do escritório LO Baptista SVMFA, especializado na área.
 
"Se for para o STJ, pode demorar até oito anos", diz. Nos últimos cinco anos, o Superior Tribunal de Justiça julgou 226 casos. A decisão demorada atrasa o lançamento de produtos e a aplicação de novas tecnologias. "Quem precisa do remédio não pode esperar dez anos para o laboratório conseguir na Justiça o direito de produzi-lo."
 
Celeridade - A meta do INPI é resolver os casos em até 60 dias, prorrogáveis por igual período, diz Cristóvam Kubrusly, chefe da área de resolução de conflitos do INPI. "Quando escolhem a mediação, as partes se predispõem a definir, num tempo mais curto e com um mediador sempre próximo, algo que possa ser realmente efetivado", diz. Além da celeridade e de contar com profissionais especializados, os processos têm custos menores, segundo Mendes.
 
"Ter uma decisão mais rápida, de melhor qualidade e mais completa, faz com que o custo final seja menor." Em experiências internacionais, os mediadores cobram até US$ 300 por hora.
 
O INPI concluirá o treinamento de 80 mediadores em novembro, quando um técnico da Ompi virá ao País para passar as últimas instruções. São todos advogados com mestrado e experiência em propriedade industrial. Como os conflitos tratam de segredo industrial, a mediação precisa ser sigilosa. Por isso, o INPI instalará três salas com isolamento acústico em sua sede, no Rio. Mendes ressalva que esses procedimentos alternativos são mais pertinentes em casos que envolvam grandes valores, acima de R$ 1 milhão.
 
Em 2013, a Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (Abpi) deve atuar em mediação e arbitragem. No ano passado, a organização mudou seu estatuto para intermediar conflitos. Neste mês, já formalizou um convênio com o NIC.br, que regula domínios de internet, para registrar casos de endereços da web.
 
Agilidade - Com novas regras, o INPI quer agilizar o registro de patentes de tecnologias verdes e de fármacos criadas por inventores brasileiros. O esforço faz parte das medidas que entrarão em vigor em novembro e que, somadas ao aumento de funcionários, elevarão a capacidade de processamento de pedidos em 30% até 2015, segundo Júlio César Moreira, diretor de patentes do INPI.
 
A meta é reduzir a fila de espera - hoje em 160 mil pedidos de patentes.
 
Os pedidos serão divididos em seis filas, conforme a prioridade na análise. As tecnologias de fármacos e produtos verdes serão sempre prioritárias e poderão "furar a fila" quando entrarem no INPI. Na sequência, virão os registros de modelo de utilidade (aprimoramento de um produto) e os de patente de invenção.
 
Em seguida, vêm as patentes de empresas estrangeiras que fazem no Brasil o primeiro registro de um produto criado no exterior. Além da organização das filas, o órgão promete, ainda neste ano, lançar um edital para repor 250 vagas - 70 para a área de patentes.
(Folha de São Paulo)

domingo, 16 de setembro de 2012

Rãs Contadoras de Fótons


            Uma única haste de célula fotorreceptora retirada do olho de uma rã foi transformada num detector extremamente sensível que pode contar fótons individuais e determinar a coerência de pulsos extremamente fracos de luz. Criado por pesquisadores de Cingapura, o trabalho poderá ser utilizado para desenvolver uma foram híbrida de detectores de luz incorporando células vivas.

            Os olhos de seres humanos e de outros organismos vivos são detectores de luz extremamente sensíveis e versáteis, que podem muitas vezes superar dispositivos artificiais. Além disso, uma haste de célula fotorreceptora de retina humana responderá a um único fóton - algo que apenas detectores mais sensíveis fabricados pelo homem são capazes de fazer. A aprendizagem de como se construir melhores detectores de luz a partir do estudo do olho humano, conduziria a uma melhor compressão das funções desse olho e isto poderia levar ao desenvolvimento de dispositivos do tipo "bioquânticos" que combinam componentes biológicos e artificiais com a finalidade de se estudar aspectos da óptica quântica, tais como o "aprisionamento" da luz.

            O estudo realizado na Agência para Ciências, Tecnologia e Pesquisa, em Cingapura, pelo grupo do Dr. Leonid Krivitsky, foi focado nas hastes de olhos da rã africana Xenopus laevis, uma espécie muito estudada por biólogos.
 

A rã africana Xenopus laevis (Cortesia: Shutterstock)

Contendo o fluxo

Cada haste de célula possui um segmento exterior que contém o fotopigmento rodopsina, uma substância que sofre uma alteração química quando exposta à luz. Quando colocada no escuro, uma corrente constante de íons sódio, potássio e cálcio fluem de dentro para fora da célula. No entanto, quando um fóton atinge a rodopsina, uma série de reações químicas são desencadeadas que desligam alguns dos canais de transporte íons. Isto causa a polarização elétrica da célula, resultando num sinal elétrico que é captado pelo sistema nervoso e retransmitido para o cérebro.

            Essas hastes individuais possuem cerca de 50 µm de comprimento e cerca de 5 µm de diâmetro. O experimento é iniciado com uma haste sendo sugada para uma micropipeta e mantida viva por imersão numa solução especial, semelhante à do olho. A micropipeta também atua como um eletrodo, permitindo assim que a corrente de íons possa ser detectada utilizando-se um amplificador de baixo ruído.

            O grupo de pesquisa usou o laser de luz verde (comprimento de onda = 532 nm) para estudar a resposta óptica das hastes individuais. O time de pesquisadores disparou diferentes tipos de pulsos de laser nas hastes e mediu a resposta. Antes de um pulso atingir a haste, a luz é dividida em dois caminhos. Um caminho continua em direção à haste e o outro vai para um fotodiodo de “avalanche”, um detector de luz extremamente sensível, capaz de sentir fótons individuais. Esta configuração óptica é usada como um interferómetro de Hanbury-Brown-Twiss, permitindo que os pesquisadores determinem a coerência da luz que chega até à haste.

Contando fótons

            O grupo de pesquisa mediu a fotocorrente produzida pela haste durante a mudança do número médio de fótons por pulso de 30 a 16.000. Como esperado, a fotocorrente aumentou como uma função do número até saturar em cerca de 1000 fótons. Também analisaram como as hastes respondiam a dois tipos de pulsos de luz: um proveniente de luz laser coerente e outro de pulso "pseudotermal".

            Os pulsos coerentes e pseudotermais apresentam diferentes distribuições estatísticas no número de fótons, os pesquisadores foram capazes de usar as hastes para detectar essa diferença. Isto significa que as hastes podem ser utilizadas como detectores altamente sensíveis da estatística dos fótons. O grupo também foi capaz de concluir que cada fóton no pulso interage com apenas uma molécula de rodopsina.

            Embora as fontes de luz utilizadas pelo time de pesquisadores serem clássicas, o fato das hastes poderem distinguir entre pulsos coerentes e pseudotermais sugerem que podem ser usadas em óptica e comunicação quântica.

A pesquisa foi publicada na revista Physical Review Letters .